Natali Carvalho*

Fotos: Mario Vilela/Funai

Com a força dos cânticos e dos instrumentos e com o arrastar de pés na areia, os indígenas Tapebas, localizados no município de Caucaia, no Ceará, se vestem com a espiritualidade. O toré não pode ser traduzido para o português simplesmente como uma dança. É um ritual sagrado, muitas vezes considerado uma ciência para os indígenas de diversos povos do nordeste, incluindo o povo Tapeba.

Weibe Tapeba explica que, para o seu povo, o toré é uma relação entre os tapebas vivos com aqueles que já partiram, os ancestrais, e também com a natureza. “É uma dança circular, onde as energias estão ali na roda, as músicas contam muito da relação com a jurema, com a natureza, dos encantados”, descreve.

Um momento em que essa relação fica mais visível é na Festa da Carnaúba, comemorada no dia 23 de outubro pelos indígenas Tapebas. O momento é sagrado para eles, principalmente pela história que ela carrega. A carnaúba era a árvore-da-vida deste povo. Foi dela que, em um momento difícil, o povo Tapeba conseguiu sobreviver. 

Conforme a história oral apresenta, eles foram foram diversas vezes expulsos de seus territórios. Nesses períodos em que passavam por muitas dificuldades para sobreviver, começaram a utilizar os recursos naturais da Carnaúba. Comiam o frutinho da árvore, utilizavam as palhas para fazer suas casas e até mesmo suas vestes, que diferente de outros povos indígenas que utilizam penas, os Tapebas utilizavam as folhas dessa planta.

A força para seguir lutando

Foto: Mario Vilela/Funai

Os Tapebas são conhecidos pelo processo de retomada – que segundo Ana Lúcia Tófoli, são as ações politicamente organizadas pela população indígena, cujo objetivo é ocupar áreas tradicionais às quais não lhes é permitido o acesso e/ou o usufruto. Porém, esse procedimento tem seus riscos: a violência dos posseiros. Em alguns processos de retomada, Kennedy Tapeba conta que já foi ameaçado com uma arma apontada para seu rosto. É nesse momento que o Toré se faz essencial. 

“Nas primeiras horas da retomada, fazemos o toré. Afinal, são momentos tensos, mas é de toré. Porque eles são tensos, porque são momentos que pode ter tiroteio, entre outras formas de violência. Então, o processo é assim, duas noites antes fazemos toré diariamente. E na data da retomada, assim que entramos no terreno, derrubamos a cerca e já entramos cantando Toré, só para quando chega alguém. Mas é sempre isso, sempre toré”, relata. O povo Tapeba tem um histórico de luta pela demarcação de seu território há mais de 30 anos, mas apenas cinco anos atrás o governo Federal declarou oficialmente a Terra Indígena Tapeba, com 5,2 mil hectares, em Caucaia. (CE), na região metropolitana de Fortaleza.

“Quando a gente entra numa roda de toré, tudo muda, tudo se transforma. Na primeira música, você se sente ainda com aquele peso com que você veio, mas da terceira música para frente, tudo muda. Às vezes, você está estressado de trabalho, às vezes você está preocupado com algum parente que está com alguma doença, você está preocupado com N coisas do dia a dia, mas em todo o terreiro sagrado, em todo o ritual do Toré, da terceira música para frente, esse peso já sai costas. Você consegue ter uma sensibilidade maior, com a natureza e até com o espiritual, você consegue ver a comunicação da natureza com seu corpo”, explica Kenedy.

No toré dos Tapebas, existem dois círculos, um maior e outro menor. No menor, não se pode entrar simplesmente pedindo licença. Formado por diversas lideranças das 18 comunidades tapebas, essa permissão só vem após uma grande preparação e um dos integrantes do círculo menor convidar.

Kennedy Tapeba, que atualmente é um dos puxadores de toré (que fica no círculo menor), levou cerca de oito anos até ser chamado, situação que não é exclusiva de sua trajetória, mas de outros indígenas também. Embora ele brinque, pois segundo ele, dança o toré desde a barriga de sua mãe, somente aos 12 ele compreendeu o que significava estar no círculo principal.  

“No menor círculo, ficam as lideranças, tanto faz ser homem ou mulher, essas lideranças são as responsáveis por dar o ritmo do toré,  puxar as músicas,  cantar as músicas. O círculo de fora é mais o povo mesmo que dança, que acompanha. Mas quem faz todo o trabalho, que leva a jurema, que leva o mocororó (bebida típica do povo derivada do cajú), dependendo da ocasião são essas lideranças, a do círculo menor”, explica Kennedy.

Foto: Mario Vilela/Finai

O dia para fazer parte do principal espaço no toré é uma data aguardada por todos. Weibe Tapeba, que também faz parte do círculo menor, relata que “quando a liderança chama, não é uma vontade dela em específico, vem da encantaria, do espiritual. A partir daí a pessoa começa a ter autoridade de estar naquele espaço”, explica. 

A relevância daqueles que ocupam o círculo menor vem principalmente nos rituais que abraçam o Toré. Na festa da Carnaúba, por exemplo, existe a necessidade de ter a Jurema, mas são poucos os tapebas que conseguem produzir a bebida, um processo que envolve retirar partes específicas da planta que leva o mesmo nome.

“Tem que passar por um momento de isolamento e se resguardar. Não pode beber bebidas alcoólicas, não pode ter relações sexuais, não pode nada. A pessoa fica por um período mínimo de cinco dias num preparo espiritual, para poder tirar Jurema. Hoje talvez o povo Tapeba deve ter umas cinco pessoas no máximo que tenha essa ciência de tirar a Jurema”, explica Kennedy. 

Um dos itens indispensáveis para se fazer parte do círculo do meio é o respeito às lideranças e aos mais velhos. O segundo é compreender que nada vem por acaso, e que o tempo é a grande preparação. Os indígenas podem passar anos esperando sua vez de entrar na roda principal, sem saber quando será o grande dia. Aguardando simplesmente que a encantaria, o espiritual, faça sua parte. O outro requisito para fazer parte é ter engajamento na luta dos indígenas, se fazendo presente seja em processos de retomada, de reunião, de assembleias.

“Tem que ter paciência, porque não vai ser do dia para noite. Para ter ideia, a ciência do toré é tão grande, porque se eu quisesse entrar sem estar preparado, eu não saberia, porque os do meio são os responsáveis por puxar as músicas, por isso são chamados de puxadores. Essas músicas podem ser cantadas 10 vezes”, descreve Kennedy.

CANTIGA DE TORÉ

Já sinto o cheiro da terra,
Ja sinto a cerca tirada,
Eu quero vê o meu povo
Alegre com a terra demarcada.

Peneruê, peneruá,
Peneruê, peneruá
Peneruê, peneruá

E o Senhor nos dai força 
Para lutar e vencer
Nós não vamos desistir e a terra queremos receber

Peneruê, peneruá,
Peneruê, peneruá
Peneruê, peneruá

Eu agradeço ao meu Deus
Por ter nos dado tanta força 
Por ter a terra que hoje 

Nos da feijão e arroz.

Peneruê, peneruá,
Peneruê, peneruá
Peneruê, peneruá

*Jornalista cearense, repórter do mundo. Experiência em pautas sobre diversidade. 

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