Thaís Seganfredo
Fotos: Pedro Marques/divulgação

Logo no início de A Última Floresta, o xamã Davi Kopenawa diz aos jovens da aldeia Watorikɨ, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol: “se os garimpeiros lhe ofereceram armas, não aceite, armas não matam a fome”. Liderança Yanomami, roteirista do filme ao lado de Luiz Bolognesi (que dirigiu o longa), Davi, de certa forma, previu o que o presidente Bolsonaro falaria  poucos dias antes da estreia oficial do filme no Brasil ao comparar a demanda por feijão com a demanda por armas.

“Muito cuidado, vamos aprender agora, porque a floresta amazônica é a última floresta. As autoridades não proíbem armas porque querem acabar com a floresta e o povo Yanomami”, comentou Davi, respondendo a uma pergunta do Nonada em entrevista coletiva na semana passada.

Embora o uso de armas de fogo para caçar seja cada vez mais frequente na Terra Indígena Raposa Serra do Sul, em Roraima, Davi decidiu por não permitir que se use armas na sua aldeia. Lá, a caça é com arco e flecha, um dos muitos elementos culturais Yanomami que fazem o espectador imergir na narrativa de A Última Floresta: “o xamã Davi Kopenawa Yanomami tenta manter vivos os espíritos da floresta e as tradições, enquanto a chegada de garimpeiros traz morte e doenças para a comunidade”, descreve a sinopse.

Embora a descrição lembre filmes indigenistas de denúncia como os de Vincent Carelli, no entanto, A Última Floresta propõe, a exemplo de títulos como A Febre, uma nova metodologia do fazer audiovisual ao inserir a cosmologia da etnia indígena em questão na própria linguagem. Desta forma, Luiz e Davi tecem fios  narrativos que se entrelaçam através do documental, do universo onírico e ritualístico Yanomami e da cosmologia encenada por atores locais.

Cena de A Última Floresta (Foto: Pedro Marques/divulgação)

Foram Davi – e a comunidade – quem escolheu o que deveria entrar no roteiro. “Eu havia feio Ex-Pajé, que retrata um xamã que está sob processo violento de etnocídio e achei que eu deveria filmar o contrário, a resistência ao ‘feitiço da mercadoria’, como diz o Davi”, explicou Luiz, afirmando que, para ele, A Queda do Céu (Companhia das Letras), livro de Davi Kopenawa lançado em 2015, é “o Grande Sertão: veredas do século 21”, pela poesia e sabedoria contida na oralidade de Davi. 

Ao procurar o xamã, conta, o cineasta propôs que ambos fossem co-autores do filme. “Davi viu Ex-pajé e não gostou. Queria mostrar a força do xamã. Ele me disse: esse filme primeiro é para o meu povo, mas não basta isso, preciso que ele viaje pelo mundo, levando a nossa história”. O diretor conta que o sonho foi fundamental neste processo prévio de criação. “Para os Yanomami, o sonho tem uma relação mágica com a realidade. Davi me disse que para fazer o roteiro, teríamos que sonhar juntos”.

Desta forma, além de trazer como eixo narrativo o conhecimento de Davi (repassado aos jovens da aldeia na forma da oralidade), o filme também apresenta, na forma de encenação, a história dos irmãos Omama (Yanomami) e Yoasi (branco), em uma tessitura orgânica e complexa. “Omama criou os xapiri (espíritos) e a primeira mulher, nossa mãe terra. Omama foi quem decidiu que nossa casa é a floresta, que deveríamos estar separados de Yoasi, pois ele escolheu a cidade. Escolhemos fazer esse filme para mostrar para o povo da cidade que não estamos inventando nada. Queremos viver na floresta e ao contrário do que pensam, conhecemos muito, conhecemos a beleza do universo”, destaca Davi.

“Meu trabalho como roteirista foi fazer a trama do cesto em que sonhos e o cotidiano se misturam, porque a gente precisava falar com os brancos também e para a audiência branca, uma experiência sinestésica não basta. Poderia ser hermético, mas não foi isso que aconteceu. Eu não estava sabendo o tempo todo o que estava fazendo, mas o Davi sabia”, diz Luiz Bolognesi. 

Cena de A Última Floresta (Foto: Pedro Marques/divulgação)

A história de Omama e Yoasi ajuda a elucidar a violência e o etnocídio, segundo o viés indígena. “Desde pequeno, eu ouvia sobre Omama e Yoasi, que é branco, tem pele de “macaxeira descascada”. Omama tem pensamento bom, quis deixar tudo que é bom para o povo da floresta. Yoasi escolheu o mau caminho, o caminho do povo destruidor. Eu escolhi essa história, porque Omama é um homem fiel, certo, homem que ama a terra e ama o povo”, explica Davi, contando que o povo de Yoasi vai remexer a terra Yanomami através de minério, o que traz doenças aos indígenas. “O povo da cidade é religioso, com padres e pastores. Não sei quantos pastores existem, quantas igrejas existem. Quem criou eles foi Yoasi, porque a igreja pensa muito no outro, quer colocar pensamento ruim na nossa cabeça , quer estragar a nossa sabedoria que foi criada com a natureza”, acredita. 

Depois de um circuito em festivais do mundo todo que angariou vários prêmios, como o prêmio de público da mostra Panorama do festival de cinema de Berlim, os autores esperam que a obra traga impacto também ao público brasileiro. “Desejo que neste momento de luta, o filme revele a força da humanidade dos povos originários. A humanidade indígena está num lugar muito mais potente que a sociedade que nós (brancos) criamos e que está agonizando. A humanidade dos povos originários é uma humanidade que está aqui há 4 mil anos produzindo saúde e fartura semântica e poética.  Quero lembrar a audiência que estamos diante de uma humanidade que pode nos salvar. Precisamos dos guardiões da floresta, da tecnologia e da sabedoria que eles têm sobre produzir sem destruir”, pede o diretor.

Uma vez que a estreia ocorre em meio à discussão do marco temporal, baseado no negacionismo antropológico e cultural do agronegócio, Davi Kopenawa só quer que sejam respeitadas as escolhas dos indígenas. “O povo da cidade escuta mas não acredita, pois nunca chegou à nossa casa. O povo da cidade nunca nos considerou como amigos. Hoje é 2021, milhares de pessoas da cidade estão vendo, achando bonito o povo da floresta, que quer continuar vivendo, usando sua própria língua, sua própria cultura. Nosso povo quer continuar onde nasceu, junto com a alma da floresta”, diz.