Por Ronald Augusto

Foto: Leonardo Brasiliense

Artistas extraem mais prazer em aparecer do que em ganhar dinheiro com seu trabalho. Acho surpreendente como oferecem de forma gratuita (principalmente a quem poderia pagar) o suor do seu rosto. “Ah, mas a arte salva!”, bradam alguns defendendo inadvertidamente o argumento contra a remuneração do artista, porque se trataria de um tipo de missão. Muito bem, suponhamos que a arte seja, mesmo, capaz de nos salvar. Isso me parece uma forte razão para os artistas serem pagos por seu trabalho, afinal de contas médicos salvam vidas e ninguém considera inapropriado que sejam pagos pelo trabalho prestado.

Acho a maior graça de pessoas que, de repente, sentem que precisam botar para fora certas emoções e angústias e então resolvem escrever poesias e acabam publicando um livro repleto dessas coisas. A graça que eu vejo na situação é que nunca ocorre a esse tipo de gente a ideia de fazer um filme, uma pintura ou uma sinfonia. Poesia está associada à facilidade e à preguiça. 

Décio Pignatari nos informa em O que é comunicação poética, de 2004, que é muito raro encontrar um poeta que viva apenas de sua arte. Como encontrar um modo de remunerar o ofício de um poeta? Pignatari responde a essa questão apresentando alguns exemplos: Rilke passou treze anos sem escrever um único poema; Paul Valéry, vinte e cinco anos. Por outro lado, poetas que nunca interromperam sua atividade, consumiram boa parte da vida dedicados à realização de uma obra apenas: Dante passou vinte anos para escrever a Commedia; Goethe, cinquenta e cinco, para o Fausto; Joyce, dezessete, para o Finnegans Wake

Tanto no caso da preguiça e da facilidade associadas à atividade da criação poética, quanto na argumentação do poeta concreto a propósito do esforço sobre-humano envolvido na confecção de vários textos clássicos, o que se extrai de tudo isso é que parece justo não remunerar esse trabalho. Por um lado, não seria correto premiar a preguiça; e, por outro, não haveria preço para a grandeza de obras tão magistralmente realizadas.

Ao longo de quase quarenta anos tenho me dedicado principalmente à poesia e aos escritos de caráter ensaístico, gêneros de pouco prestígio aos olhos das grandes editoras. É verdade que pequenas editoras apostam em poesia, mas, grosso modo, todo o processo ainda é muito precário e amador. É óbvio que a dedicação à escrita de poemas limita bastante as chances do sujeito de viver da sua arte. Já no que diz respeito à prosa de ficção, a situação é mais promissora. Resta dizer que não sou prosador, nem frequento a sala de estar da brancocracia literária brasileira. Um problema adicional à batalha a ser travada por criadores não-brancos na perspectiva de ocupar uma posição nesse mercado onde deverão se perfilar entre os vendedores.

Essa situação me obriga a pensar criticamente as condições de possibilidade para um escritor negro obter reconhecimento no campo literário. O que está em causa aqui tem a ver com o falso teor meritocrático do sistema, isto é, nessa rede de relações não será propriamente o melhor a alcançar tal reconhecimento. Em literatura, um campo historicamente ocupado por brancos, quem normalmente é objeto de estima e prestigiamento é o igual, isto é, o escritor branco. A sala de estar da literatura não é infensa ao racismo estrutural. A carência de “qualidade estética” muitas vezes é jogada na cara daqueles não-brancos que, segundo tal lógica, ainda precisariam trabalhar mais para serem considerados como iguais. O escritor negro é mais um estranho do que “um igual”. O argumento meio clichê da qualidade literária, por exemplo, tem servido muito mais para manter uma espécie de reserva de mercado para beneficiar os escritores da branquitude, do que para estabelecer algum modelo de julgamento para a diversidade das poéticas que experimentamos em nossos dias.  

Infelizmente, a arte é uma das atividades humanas onde mais se tolera toda sorte de mistificações. Ainda que a pandemia da Covid-19 tenha trazido à tona, de forma dramática, a precária situação dos artistas, isto é, sua marginalização no que diz respeito à distribuição de recursos e de investimentos, o tópico sobre a remuneração a essa forma de trabalho ou sobre a chance de sobrevivência dos envolvidos, segue marcado por um véu romântico. Muitos artistas ingênua ou maliciosamente ajudam a promover esse tipo de coisa. Portanto, diante de várias controvérsias surgidas no interior do debate cultural, prefiro me manter cético ou colocar sob suspeição a noção segundo a qual a arte serve como instrumento de transformação do homem e da sociedade. Como depositar na conta do artista um valor que faça justiça à tarefa civilizatória que lhe atribuímos? Enquanto isso ele passa o chapéu sem perder de vista a excelência de sua performance.

*Ronald Augusto é poeta e ensaísta. Formado em Filosofia pela UFRGS e mestrando em Letras na mesma instituição. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Oliveira Silveira: poesia reunida (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), À Ipásia que o espera (2016), Tornaviagem (2020) e O leitor desobediente (2020).

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