Neste artigo, o diretor e dramaturgo Jaques Machado escreve sobre a importância da conscientização sobre o HIV e sobre o espetáculo Sobrevida, selecionado para uma residência no Centro Cultural da Diversidade em São Paulo.

Por Jaques Machado*

Fotos: divulgação

Quando precisamos encarar algo que nos é desconhecido e que pode nos causar algum prejuízo ou até a perda da vida, as primeiras reações humanas normalmente são de medo e negação. O exemplo da atualidade é a pandemia do coronavírus. Quase dois anos e ainda assim há quem não acredite no vírus, na doença, no risco, nas máscaras e muito menos nas vacinas. A solução para essas situações é falar. O ato de falar sobre nos faz refletir e assimilar o acontecido e encontrar soluções. 

Há 10 anos, sou portador do vírus HIV. Falar sobre isso para qualquer pessoa, é sempre um processo dramático. A sensação é que ao falar, eu morro um pouco, porém, ao mesmo tempo, volto à vida para um momento novo. Alguns anos depois do meu diagnóstico, surgiu a vontade de ajudar outras pessoas a passarem de uma forma menos traumática pela descoberta de serem soropositivas. Minha participação desde criança na igreja Católica me fez chegar à Pastoral da AIDS, um trabalho lindo realizado sem paradigmas atendendo todas as pessoas que ali apareciam com distribuição de preservativos, tratamentos paliativos e até monitoramento do tratamento de algumas pessoas. Isso me tocou profundamente. Anos atrás, um amigo também passou por esse processo, mas o medo, a negação e o estigma social para com as pessoas que vivem com HIV imperou e só fomos descobrir sobre ele quando ele morreu por uma pneumonia.

O desejo de tentar salvar vidas me levou a transformar a minha história em dramaturgia e criar o espetáculo SobrevidaA peça retrata a vida de um ator, que ao revelar seu diagnóstico positivo para HIV, conduz a plateia por um passeio através de suas memórias e medos. Nesse trajeto, revive o conflito de compartilhar sua situação de risco com amigos, família e paixões. Em cena, os atores Lincoln Camargo e Xandre Martinelli vivem a mesma personagem em diferentes momentos de vida. No coletivo de artistas, estão ainda a atriz e bailarina Angela Spiazzi que fica com a direção de movimento e corpo do espetáculo, Ricardo Vivian e Fernando Pecoits na iluminação cênica e Rodrigo Shalako na cenografia. O projeto foi selecionado entre outros 61 espetáculos para fazer uma residência artística no Centro Cultural da Diversidade e estrear no 29º Festival Mix Brasil em São Paulo. 

O fato de poder levar a peça para um dos maiores centros culturais do país foi o início para alcançar o objetivo de falar sobre esse assunto para um maior número possível de pessoas. É através da arte que quero compartilhar a minha história, falar sobre HIV, medos, memórias e preconceitos. Sempre ressalto que essa não é uma visão romântica sobre o viver uma vida positiva, não tenha dúvida que se pudesse voltar no tempo e mudar ações que me colocaram em situações de risco, faria isso sem a menor dúvida. Contudo, não podemos contribuir ainda mais para que o medo seja o sentimento preponderante quando se recebe um diagnóstico. É preciso ter informações e cuidar de si e do próximo e levar uma vida com naturalidade, como há alguns anos é possível com a evolução dos medicamentos.

Um estudo realizado pela UNAIDS, programa das Nações Unidas criado em 1996 para ajudar no combate à AIDS, com 1.784 pessoas em seis capitais brasileiras aponta que 81% das pessoas vivendo com HIV acham muito difícil revelar a sorologia. Estas, apesar da dificuldade de falar sobre, felizmente seguem seus cuidados e tratamentos, mas e aquelas pessoas, que como o meu amigo, ignoram seu diagnóstico e por medo e preconceito ignoram a sua condição, não se tratam e morrem? Falar salva! Levar a minha história para os palcos vai além de superar o meu medo de falar. A peça, agora, é um grito ao mundo. Não só meu, mas coletivo e necessário para que possamos salvar vidas. 

No mesmo estudo citado anteriormente, foi apontado que 64% das pessoas vivendo com HIV ou AIDS já sofreram discriminação ou estigma por sua situação. Essa estatística fica ainda mais absurda se pensarmos que em 2021, completa-se 40 anos dos primeiros casos do vírus nos Estados Unidos, ou seja, nem todo o trabalho realizado nessas quatro décadas foi capaz de combater algo que nem os anti-retrovirais é capaz de eliminar, o preconceito. É preciso reconhecer e saudar aqui o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) que acolhe, atende e fornece as medicações de forma gratuita e que constantemente é ameaçado. 

Precisamos lembrar ainda as milhares de pessoas que desde o surgimento da AIDS, lutaram bravamente pela vida através de coquetéis imensos e contra a ignorância já posta na sociedade desde os primórdios. Quem sabe nos próximos anos não estaremos falando sobre a tão esperada cura, já existem casos registrados e até vacinas sendo testadas em humanos, mas enquanto isso, precisamos falar sempre e cada vez mais sobre estigma social e prevenção.    

Nesta data, veremos várias matérias e  laços vermelhos por todo canto lembrando o dia 1 de dezembro, Dia Mundial de Combate a AIDS. Ao ver esses movimentos, compartilhe, engaje-se, cuide-se, previna-se, teste-se e fale sobre isso com seus parceiros ou parceiras. Falar é fundamental para combatermos a sorofobia, o estigma social e salvarmos vidas. Em tempo, se você quiser assistir ao espetáculo on-line ele está disponível na plataforma Cultura Em Casa, gravado durante a estreia no 29º Festival Mix Brasil. Se quiser ir mais além você também pode nos seguir no Instagram no @espetaculosobrevida. A vida precisa nascer!

*jornalista formado pela Unisinos, graduando em Artes Cênicas pela UFRGS, ator, produtor cultural, diretor e dramaturgo do espetáculo Sobrevida.

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