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Os desafios de fazer dança-teatro em uma cidade interiorana

Kévin Sganzerla*

Fotos: Enos Lanfredi

É possível viver das artes cênicas no interior do Rio Grande do Sul? São raros os casos, mas Cristian Bernich, fundador do grupo “A Trupe Dosquatro”, de Bento Gonçalves, prova que sim, apesar da falta de incentivo e das barreiras enfrentadas em difundir as artes contemporâneas em um ambiente em que o tradicionalismo tem grande força.

Com o trabalho voltado, sobretudo, ao corpo como objeto de arte, Cristian foi pioneiro em promover a dança-teatro contemporânea na Serra Gaúcha, a qual se trata da união e o “diálogo” entre a dança e o teatro, artes anteriormente entendidas como independentes. A dança-teatro, conforme Cristian, busca a valorização da presença do corpo no espaço, retratando a realidade humana e ligando-a à concepção de vida. 

O grupo, que tem como sócio-proprietário Edson Possamai, já se apresentou em diversas partes do Brasil e no exterior, como na Argentina e na França, onde encenou um espetáculo em parceria com uma companhia local. Além disso, as videodanças realizadas pela companhia gaúcha rodaram o mundo, com direito a espaço especial em festivais de dança, como o Bento em Dança, e de cinema, como o Festival Internacional O Cubo, no Rio de Janeiro.

Cristian promove espetáculos, oferece aulas de dança-teatro para pessoas de todas as idades, além de desenvolver projetos sociais. No mais recente dos projetos do coreógrafo, ele oportuniza às pessoas com deficiência, através da arte da dança, inclusão e pertencimento à sociedade. Junto às associações locais dos Deficientes Físicos (Adef) e de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), o bailarino organiza o projeto “Sem Limites”, com a constituição de um novo espetáculo integrando pessoas com deficiência.

Em entrevista ao Nonada, Cristian Bernich comentou sobre a carreira, a trajetória do grupo “A Trupe Dosquatro”, as dificuldades em promover arte contemporânea e de manter uma companhia no interior do Estado, novos projetos e deu dicas para quem sonha em viver da dança ou do teatro.

Nonada – Como começou a sua paixão pelo teatro e pela dança?

Cristian Bernich – Quem é do meio das artes, sempre tem um pezinho lá [no teatro e na dança]. Eu era aquela criança que sempre estava metida nas apresentações de teatro da escola, recitais, enfim, qualquer produção que houvesse. Desde os cinco anos de idade, eu estava participando. Sempre tive esse interesse, muito por conta da influência da televisão nos anos 80. Eu assistia novelas e filmes e brotava o desejo de fazer parte daquilo.

Lembro que fui assistir a uma peça de teatro quando tinha uns 16 anos e me recordo que me encantou muito, pois conseguia ver aquele outro mundo que era o palco. Toda aquela encenação me chamou muita atenção. Não tinha essa cultura de arte na minha família, eu sou o único artista. Entrei realmente um pouco mais para o mundo da arte quando estava no ensino médio e tive uma professora de literatura que sugeriu montarmos peças de teatro para que não precisássemos fazer provas e trabalhos no semestre. Óbvio que a turma aceitou. Montamos uma peça de teatro a partir do livro “O Auto da Barca do Inferno”. Acabei organizando e dirigindo, mas intuitivamente. Lembro que peguei a peça e a reformulei, adaptamos falas e tudo mais. Em 1999, começamos a montar um outro trabalho com a mesma professora e aí surgiu o interesse em estudar mais sobre as artes cênicas. Na época tinha um curso de extensão da faculdade de teatro e fui fazer o curso nos finais de semana.

Nonada – Como surgiu o grupo “A Trupe Dosquatro”?

Cristian Bernich – Fiquei cinco anos em um grupo de teatro da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves e, concomitantemente a isso, surgiu o trabalho do corpo, como levar isso para o teatro, trabalhar mais a expressão. Então, comecei a estudar dança moderna, a técnica de Martha Graham em especial, e fiquei nesse paralelo entre a dança e o teatro. Tinha um grupo de vanguarda na cidade do qual comecei a fazer parte, trabalhando com essa ideia de dança moderna contemporânea. Em 2005 aquele grupo da faculdade já não dava conta, pois queria estudar mais e mais, e resolvi criar “A Trupe Dosquatro”, convidando duas pessoas para montarmos um grupo de teatro.

Nonada – Quais são os temas abordados pelo grupo nos espetáculos?

Cristian Bernich – A linha de trabalho da companhia é voltada às questões contemporâneas, principalmente humanas, pois falamos do ser humano, da pessoa, do cotidiano, assuntos contemporâneos. Por exemplo, durante a pandemia, criamos um trabalho que falava sobre o bem querer. É uma coisa super mega ultra subjetiva, mas que todos têm, então pensamos em trazer isso para uma produção cênica. E trabalhamos também a partir do que as pessoas nos trazem. Não é especificamente eu que vou lá e coreografo, nós lançamos a ideia, as pessoas fazem e nós vamos dirigindo juntos, por isso ele é muito “pessoalizado”. Levamos ao palco as histórias das nossas vidas e criamos essa relação direta com o público, que se conecta rapidamente, se percebe, se questiona.

Nonada – Qual foi o divisor de águas para que o grupo trabalhasse com a dança-teatro contemporânea?

Cristian Bernich – Trabalhamos só com teatro até 2011, mas a dança foi nos envolvendo cada vez mais. Fui para São Paulo estudar, fiquei um período na Bahia, tive contato com grandes professores e, quando retornei, entrei na Companhia de Dança de Caxias do Sul, onde fiquei por um ano e meio e conheci a coreógrafa e professora Daggi Dornelles, que viveu por 15 anos na Alemanha. Através dela a minha concepção de arte e a minha vida mudaram. A partir dessa experiência, trouxe esse trabalho para a Trupe, com uma proposta voltada à dança-teatro contemporânea.

Em 2012, montamos um primeiro trabalho misturando dança e teatro, o que foi uma experiência diferente para nós. Queríamos nos arriscar nisso. Entendemos que precisávamos mudar e o teatro não estava mais dando conta do que queríamos fazer. Em 2013, montamos um trabalho só de dança e teatro, que foi o espetáculo “Cru”. Tínhamos certa preocupação, porque nunca tinha sido montado nada parecido em Bento Gonçalves. Aliás, a cidade nunca tinha recebido um espetáculo de dança-teatro. Foi uma grande novidade. Nossa preocupação era de como o público iria reagir a isso. As danças que até então eram conhecidas como convencionais, como balé, danças folclóricas tradicionalistas, dança de salão, que são mais difundidas, sempre foram muito bem aceitas. A dança-teatro era uma coisa nova, mas, no fim, foi muito legal, o público gostou muito e acabamos dançando em diversos lugares, na Argentina, na Serra Gaúcha, circulamos por toda a região e foi o espetáculo que acabou nos projetando na época. A minha vida artística, portanto, acabou se ligando muito com a companhia.

Cristian já se apresentou na Argentina e na França (foto: Enos Lanfredi)

Nonada – Onde a tecnologia entra na vida de um artista de dança-teatro?

Cristian Bernich – Fiz aulas de direção, e isso me motivou a estudar as artes visuais, como procedem, e caí no campo da performance. Com a tecnologia, quando vi, estava produzindo “videodancing”, e não tinha como não fazê-lo. A faculdade foi muito legal por termos trabalhado inúmeras linguagens, como fotografia, cenário das artes visuais, artes plásticas e vídeo. A videodança acabou sendo uma ferramenta bem interessante, pois ela te leva para outro lugar em que o corpo está presente, mas não está. Não tem a presença física, e, muitas vezes, o próprio vídeo não precisa ter a presença de corpo, uma vez que a videodança pode não ser especificamente pessoas dançando. Ela abre possibilidades para outras coisas que não seja estar em cena ao vivo.

Comecei a produzir alguns vídeos e, quando vi, estávamos sendo premiados e os nossos vídeos já estavam circulando a nível nacional, na Argentina, em Portugal. Um dos prêmios foi conquistado no Festival de Cinema do Rio do Janeiro, que é o Cubo Festival de Cinema, que trabalha muito nessa linha mais artística. O festival era todo de cinema tradicional, aquela configuração mais convencional, e aí, no fim, o vídeo entrou e foi muito interessante, porque foi um diferencial do festival, se tratava de uma outra linguagem. Apesar de toda dramaturgia e um roteiro por trás, ele não tinha os atores como vemos no cinema.

O vídeo acabou indo para a galeria de arte como exposição e aí eu fui entender que também estou produzindo artes visuais, porque a performance também está dentro das artes visuais, então as linguagens vão se cruzando dentro das artes cênicas. Os trabalhos, porém, sempre foram voltados para o estudo do corpo, o corpo como um objeto de arte e, no caso, um pouco mais voltado para a dança.  

Nonada – Quais projeto marcaram a tua trajetória?

Cristian Bernich – O principal trabalho, que acabou sendo o diferencial, inclusive para a cidade, foi o espetáculo “Cru”. Quando trouxemos a linguagem da dança-teatro foi como uma chave que abriu novas portas, pois, a partir de então, começamos a fazer algo distinto do que promovíamos anteriormente. Fomos convidados para ir ao exterior, foi uma surpresa muito grande para nós.

Em 2011, trouxe a dança inclusiva para a cidade. Fiz um curso de formação na área de professores, que é o com a metodologia do UBS Ability, e trouxe essa nova proposta de dança para a cidade. Produzimos algumas performances e montei um espetáculo, em 2014, que era o “Caminhos em Comum”, o qual contou com duas pessoas com deficiência e mais uma senhora de 50 anos de idade que nunca tinha dançado, além de três bailarinos. Esse espetáculo foi uma quebra de paradigma e foi quando fomos projetados ainda mais a nível estadual, no sentido de principalmente a capital conhecer o nosso trabalho. Em 2015, nos convidaram para uma apresentação no Encontro Estadual de Dança. A partir daí, começamos a realmente ser reconhecidos e as pessoas começaram a nos olhar. As pessoas não tinham conhecimento da companhia e do que fazíamos ou como uma companhia produz esse tipo de trabalho no interior.

Nosso trabalho hoje é um expoente no Estado. Atualmente somos reconhecidos, mesmo sendo um grupo de interior. Temos 16 anos, e essa é outra coisa que sempre impressiona as pessoas, que dizem: “Nossa! É uma companhia, que vive no interior sem subsídio municipal, estadual, federal, seja lá o que for, uma companhia independente que consegue sobreviver há quinze anos produzindo trabalhos de qualidade, e a nível internacional”. É muito satisfatório ouvir esse tipo de coisa.

Montamos, nos últimos anos, um trabalho em parceria com a companhia francesa Cie à Fleur de Peau, que foi o espetáculo “Nuances”, que acabou nos projetando um pouco mais. Chegamos a dançar em Paris, para a nossa surpresa, pois nunca imaginávamos isso, até porque Paris tem um sistema de arte bem complexo, então para você se apresentar lá é muito difícil e muito regrado. Sobre esse trabalho não tem muito o que dizer, simplesmente dançamos em Paris. Foi uma certa mudança na nossa linguagem, porque tínhamos essa companhia como referência desde 2011. Quando ficamos um ano trabalhando com eles, absorvemos algumas coisas para novas propostas.

Nonada – Quais são as dificuldades para promover arte envolvendo a dança-teatro no interior do Estado e quais são os desafios de manter ativa a companhia?

Cristian Bernich – Acho que as dificuldades são as mesmas em relação às capitais e aos grandes centros. Quanto aos subsídios e à questão financeira, eu percebo que também há essa dificuldade nas capitais. Nós, claro, enfrentamos muito mais, principalmente porque trabalhamos com uma linguagem contemporânea e o interior, em geral, é muito voltado ao folclore e ao tradicionalismo. Então, quando a gente vem com uma linguagem de arte contemporânea isso assusta um pouco as pessoas. Mas é interessante que o público gosta muito do nosso trabalho, e eu digo o público em geral, desde o pedreiro, faxineiro, até psicólogos, professores universitários. Criamos uma dança humana, na qual abordamos o cotidiano. Então, quanto ao público, não temos problema. Nós, inclusive, temos um público fiel que acompanha a companhia desde 2015.

Financeiramente, claro, é sempre complexo, porque bancamos tudo. Os bailarinos não tem cachê, a não ser quando fazemos uma apresentação que recebemos para dividir e cobrir os custos. Mas, em geral, bancamos toda a função da produção e acabamos juntando o dinheiro de outros trabalhos para manter a companhia. Outra dificuldade é a aceitação da cidade no sentido de entender que [o grupo] é parte do município. Creio que isso poderia projetar, inclusive, o nome da cidade. Por exemplo, fomos dançar em Paris, mas se você olhar nas redes sociais da prefeitura, não tem nada, não existe esse apreço.

A maior dificuldade atual, entretanto, é ter uma continuidade com pessoas da área, ou seja, os artistas. As pessoas começam a fazer aulas de dança e teatro, mas, quando chegam aos 17 ou 18 anos, vão embora. Desta forma ficamos sem esses artistas, pois não tem continuidade. As pessoas, se querem manter o contato com a arte, optam por dar aulas e parar de produzir. Então, a dificuldade de encontrar pessoas para trabalhar, acho que esse é o maior desafio em relação à capital, que tem muito mais pessoas, outro interesse, pois já existe o entendimento de que dá para se viver de arte, que é possível produzir. No interior ainda não. E claro, o ideal seria conseguir pagar os artistas, bailarinos, intérpretes, para que eles pudessem se manter no trabalho.

Nonada – Quais são os sonhos para a companhia?

Cristian Bernich – Nosso grande objetivo é realmente torná-la uma companhia subsidiada, contando com um espaço que seja realmente dela, onde ela possa promover atividades voltadas à área. E realmente conseguir subsidiar as pessoas que participam, como bailarinos, direção, coreógrafos, enfim, artistas que venham trabalhar conosco. Queremos manter os trabalhos, sempre tentando inovar, sempre se arriscando, buscando outras possibilidades.

Nonada – Que conselho que você pode oferecer às pessoas que gostariam de seguir carreira profissional nas artes cênicas?

Cristian Bernich – Estudar. Tem que estudar. Esse realmente é o caminho. Existem escolas de dança e de teatro, tanto aqui como na capital, ou em qualquer outro lugar. Quando eu digo estudar, é estudar o contexto todo, o conteúdo, o corpo, a parte prática e a teoria, unir as duas. O campo é gigantesco e quanto mais a gente estuda, menos a gente sabe. Como existe um pré-conceito na arte, que é não ser considerada profissão, temos que estudar ainda mais para mostrar que é, sim, um trabalho, que é possível viver disso.

* Estudante de Jornalismo da Unisinos. Essa entrevista é fruto de um projeto especial de parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos.

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