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selo comemorativo da Assembleia Legislativa do Maranhão

Bicentenário de Maria Firmina dos Reis marca o reconhecimento de sua qualidade literária

Uma mulher que rompeu barreiras na arte, na educação e na opinião pública. Neste 11 de março, é comemorado o bicentenário da escritora Maria Firmina dos Reis, pioneira em vários campos, em especial na literatura e na educação, sendo considerada a primeira autora negra de um romance no Brasil, com Úrsula, de 1859. 

Nascida na cidade de São Luís, no Maranhão, em 1822 – até pouco tempo, pensava-se que a sua data de nascimento era 11 de outubro de 1825, mas descobertas recentes esclareceram a dúvida –, a obra e a trajetória da escritora começou a ser valorizada a partir da década de 1970, com a redescoberta do seu trabalho por pesquisadores. Texto na Enciclopédia Itaú Cultural aponta que, nessa década, foi publicada a biografia “Maria Firmina dos Reis: fragmentos de uma vida (1975)”, de José Nascimento Morais Filho, que jogou luz na relevância literária da autora.

Segundo o seu verbete no site Literafro, Maria Firmina se formou professora e exerceu por muitos anos o magistério. Em 1847, com apenas vinte e cinco anos, entrou através de concurso público para a Instrução Primária, na cidade de Guimarães, no Maranhão. Em 1880, mais uma inovação: já aposentada, funda na localidade de Maçaricó a primeira escola mista (com alunos dos gêneros masculino e feminino) e gratuita daquele Estado, e uma das primeiras do país. A ideia acabou tendo grande repercussão na época, e, infelizmente, ela teve que suspender as atividades menos de três anos após o começo. 

Maria Firmina participou ativamente da vida intelectual maranhense: colaborou na imprensa local, publicou livros, participou de antologias, e, além disso, também foi musicista e compositora, chegando a escrever um hino relativo à abolição da escravidão. Entre os destaques de sua obra, está um caderno de registros, intitulado “Álbum”, com vários pensamentos e passagens de sua vida. Composto por fragmentos de textos em estilo diarístico que perfazem 28 páginas, com primeira entrada em 1853 e última, de 1903.

Segundo a pesquisadora Maria Helena Machado, em artigo intitulado “Maria Firmina dos Reis: escrita íntima na construção do si mesmo”, no fluxo desses escritos encontram-se textos longos, com reflexões de grande profundidade sobre sua vida afetiva, diversos poemas e anotações menores que registram fatos cotidianos, como a chegadas e partidas de amigos e amigas e registros de mortes seriamente lamentadas. “E, sobretudo, o registro de uma terrível solidão”, escreve a pesquisadora. Vale lembrar que o diário funcionava como uma espécie de válvula de escape, em que ela poderia colocar seus sentimentos mais íntimos, em uma época de repressão moral e racismo ainda mais evidentes. 

A sucessão dos anos apagou-me o fogo do coração, resfriou-me

o ardor da mente, quebrou na haste a flor de minhas esperanças.

Que porvir tão belo imaginava eu no doce delirar de minhas ideias!

Nos meus sonhos mentirosos que futuro radiante se me antolhava!

(Resumo da minha vida, “Álbum”, s. d.)

A escrita literária

O romance Úrsula é a obra mais conhecida de Firmina. A trama apresenta a história de amor entre Úrsula e Tancredo, jovens apaixonados, que encontram em seus caminhos obstáculos para a concretização de seu amor, característica comum em muitos romances românticos. A principal inovação dessa obra está no protagonismo concedido a personagens escravizados, os quais têm voz e ação na narrativa, principalmente na figura de Túlio e Susana. Eles trabalham na fazenda de Úrsula e ganham evidência no decorrer da narrativa. 

Para Maria Helena Machado, “Firmina, mais do que precursora, foi a representante maior de um gênero quase desconhecido no país, o da literatura abolicionista, que expunha os horrores da escravidão sem transferir para as costas dos escravos e escravas todos os males das sociedades escravistas.”

De modo geral, é evidente o crescimento da fortuna crítica em relação a Maria Firmina, especialmente Úrsula. Um dos aspectos mais presentes nos estudos é a crítica anti escravagista, mas também vários estudos sobre as características formais da obra e a recepção crítica do romance no período de publicação. 

Segundo a pesquisadora Soraia Ribeiro Rosa, no Literafro, “é importante salientar que uma marca característica das personagens da autora quanto à originalidade são a coragem e a firmeza de propósitos. As personagens negras como Túlio e Susana têm grandes atributos e um deles é esta força interior para viver.”

Em 1861, ela também publicou o romance Gupeva, cujo enredo apresenta outro aspecto do romantismo, o indianismo. Foi publicado em vários capítulos na imprensa e ganhou edições ao longo daquela década. Já no livros de poemas Cantos à beira-mar, conforme análise do site Literafro, é dedicado à memória da mãe de Maria Firmina dos Reis e conta com cinquenta e seis poesias, das quais o próprio título da obra indica os caminhos percorridos em muitas delas, como não poderia ser diferente. Sendo Guimarães uma cidade litorânea, onde Maria Firmina dos Reis passou grande parte de sua vida, o mar e a praia são presenças marcantes nas poesias. 

Tendo assinado Úrsula com o pseudônimo “Uma Maranhense”, porque entendia que sua obra não seria valorizada por ser uma mulher brasileira de educação acanhada, como escreveu no prólogo do mesmo romance, é satisfatório finalmente ver que sua obra está ganhando o merecido reconhecimento, assim como a sua trajetória.  

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Nesta semana, o Nonada homenageou a escritora com o lançamento da Firmina, newsletter gratuita sobre liberdade artística, educacional e religiosa. A iniciativa tem como foco monitorar casos e políticas relativas à perseguição e à criminalização de artistas, professores e pessoas que sofrem racismo religioso. Saiba mais aqui.

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