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Arquivo pessoal/Lótus Estúdio

Negra Jaque: “O rap gaúcho tem muito potencial, mas não tem mídia”

Mayana Serafini*

Negra Jaque é compositora, cantora e rapper gaúcha, que usa sua voz para denunciar problemas e amplificar as vozes de muitos. Jaqueline Trindade Pereira é mãe, estudante, professora e pedagoga. Juntas, Negra Jaque e Jaqueline transformam as vidas de muitos, seja através da música ou da educação. Neste ano, as duas forças se juntaram para lançar o projeto “Galpão Cultural Casa de Hip Hop”, no Morro da Cruz, em Porto Alegre, local em que Jaque cresceu. O centro cultural mistura música e educação, as duas paixões de uma mesma mulher.

Apesar de ter começado sua trajetória no hip hop em 2007, sua carreira musical ganhou difusão em 2013, quando foi vencedora da Batalha do Mercado, festival de rap de Porto Alegre. Em 2015, utilizou o prêmio para gravar seu primeiro CD, chamado Sou. Nesses sete anos que se passaram, a artista gaúcha lançou outros dois álbuns: Deus que dança, em 2017, e Diário de Obá, em 2019. 

No dia 9 de julho, Negra Jaque lançará seu quarto projeto musical, denominado Linhas de Cura, Rap, Negritude e Outras Formas de Existir. “Será um disco com várias músicas e poesias para falar desse novo momento de curar. A gente passou por um período mundialmente muito triste, mas eu acho que toda tristeza nos dá uma oportunidade de reflexão. Linhas de Cura fala disso, que é um tempo de esperança, tempo de viver coisas novas, por isso linhas de cura”, explica em entrevista ao Nonada. 

Ao longo da entrevista, Negra Jaque — com nuances de Jaqueline — conta um pouco sobre seu processo de criação, sua visão sobre o papel do rap nos dias atuais e como leva o seu lado educadora para a versão artista. A seguir, confira a conversa na íntegra.

Gostaria que você definisse: quem é a Negra Jaque?  

Negra Jaque Artista, produtora cultural, que acredita no rap como uma forma não só de arte por si só — através das poesias, através das palavras —, mas como uma forma de denúncia mesmo, de mensagem, de levar a reflexão a várias coisas que são invisibilizadas. Então, a Negra Jaque é essa artista, é o microfone que amplifica esses pensamentos de um mundo mais diverso, mais igualitário. 

Há diferenças entre a artista Negra Jaque e a pessoa física Jaqueline Trindade Pereira?

Negra Jaque – Tem muita diferença entre a Negra Jaque e a Jaqueline. A Negra Jaque  é a pessoa que está nos palcos, que não tem medo, que enfrenta, que canta, que mobiliza. A Jaqueline é mãe e professora, que cuida, tem esse olhar muito mais caseiro, cuidadoso com quem está à sua volta. Então a gente tem muita diferença sim, tanto que, até nos meus próprios planejamentos pessoais, eu tenho atividades só da Jaqueline, atividades que são só da Negra Jaque, e assim elas vão se encontrando. 

Como começou o seu interesse pelo rap? E como é o seu processo de criação e composição das músicas?

Negra Jaque – Meu interesse pelo rap começou na infância, ouvindo os meus tios escutarem rap, e na adolescência, lá com 17 anos, eu criei coragem de escrever. Desde lá, não parei de escrever, de colocar as minhas memórias no papel. Foi a partir disso que eu consegui usar o rap como ferramenta. 

Meu processo de criação é muito pelo cotidiano. As letras que eu escrevo têm muito a ver com as histórias que eu já vivi, do contexto de onde eu moro, dos lugares em que eu circulo. São muitas muitas memórias de tudo o que eu vivi. Meu processo de criação tem a ver muito com isso, de como organizar essas memórias e pensamentos.

Para você, qual a maior diferença entre a Negra Jaque que iniciou para a Negra Jaque de hoje? No início, você sonhava ou imaginava que chegaria aonde chegou?  

Negra Jaque – Quando a Negra Jaque iniciou, ela estava procurando um lugar. Um lugar para falar suas mensagens, um espaço para circular e trocar ideias com outras pessoas. Hoje eu já atingi isso, sabe? Já consigo chegar nos lugares. Vai fazer 16 anos, no final do ano, de eu estar na cultura hip hop, de estar sendo uma artista da cultura hip hop. Então já tive grandes oportunidades, de estar circulando e compartilhando mensagem, conhecendo projetos e criando projetos para que possam contribuir no cotidiano das pessoas. Acho que é isso, eu consegui muita coisa e cheguei a experimentar e vivenciar coisas que eu queria no começo da história de ser artista solo. 

No dia 8 de julho, a rapper lançará o álbum Linhas de Cura, Rap, Negritude e Outras Formas de Existir, em que expressa suas reflexões durante o período pandêmico. (Foto: Arquivo pessoal/Lótus Estúdio)

Nos dias atuais, você vê o rap como uma forma de denunciar comportamentos errados na sociedade? E ainda nesse contexto, você acredita que há diferenças entre o rap de anos atrás para o rap de agora? 

Negra Jaque – O rap sempre foi uma ferramenta de denúncia dos comportamentos, uma narrativa sobre uma certa parte da sociedade que é invisibilizada. Todos esses termos, que agora se tornaram bem clichês, sobre a nossa realidade que não mudou muito. Claro, o rap iniciou no Brasil, principalmente, como uma vitrine das grandes favelas, dos grandes problemas sociais. Hoje, dentro do rap, ele tem várias vertentes, tem uma galera que ainda continua fazendo o rap que a gente chama de rap de mensagem, trazendo para essas reflexões sobre a sociedade. Tem alguns que falam de amor, outros que pegaram o caminho da ostentação… Então, ele [o rap] se fragmentou em vários outros segmentos, o que faz parte da indústria da música, não só do rap. Ele reflete – sempre refletiu – o que está acontecendo no nosso tempo. 

São 50 anos de uma cultura hip hop que a gente continua com esse perfil. O hip hop como um instrumento é o que mais atinge o mundo todo, está em todos os países. Então o rap, que é um elemento só nesse grande universo chamado hip hop, ele continua ganhando o papel de consciência, de promover consciência e construção de identidade. 

Como você avalia o cenário do rap gaúcho de hoje em comparação ao rap nacional? 

Negra Jaque – Em comparação ao cenário nacional, o rap gaúcho tem muito potencial, tem grandes artistas, mas peca na hora da produção e na divulgação de seus trabalhos. A gente não tem uma mídia, somos muito fracos nessas questões. Por isso, a gente se sente isolado, sabe? Acho que tem tanto potencial e poucas pessoas conseguem circular pelo Brasil a partir do Rio Grande do Sul. Muitas vezes os artistas precisam sair daqui para poder divulgar suas músicas, isso é bem triste.

Você sofreu preconceito, principalmente machismo, ao ingressar no rap?  

Negra Jaque – O machismo é algo que, infelizmente, está muito impregnado para muitas coisas, até nas relações de trabalho hoje. Tive vários episódios sim, mas é isso, hoje, com mais maturidade, já sei me posicionar um pouco melhor, já sei compreender os sinais que vem antes dessas atitudes. Minha mãe dizia: “Dar a cara a tapa para que essas coisas aconteçam”, então eu já me previno, já sou bem autônoma, construo minhas próprias coisas. As situações de machismo sempre vieram muito da dependência do outro, de pedir favores, enfim, essas questões apareceram. Hoje, como eu sou extremamente autônoma, já tem coisas que não passo mais. O início foi bem difícil, mas, agora, com a questão da autonomia, do empoderamento, as coisas para mim estão um pouco melhores. Saliento que no início da carreira foram os homens que me incentivaram, até porque tínhamos algumas mulheres [no rap], mas eram muito poucas. Então existe um exercício muito forte daquela discussão que a gente tem entre a gente, e essa discussão a gente precisa ter com todo mundo.

Além de artista, Jaque é educadora. Atualmente, realiza um mestrado focado em educação (Foto: arquivo pessoal/Lótus Estúdio)

Neste ano, você inaugurou o Galpão Cultural. Como surgiu esse sonho? Poderia contar um pouco mais sobre este projeto? 

Negra Jaque – O Galpão Cultural foi um desses sonhos de ter um espaço de referência. Acho que desde quando eu tinha meus 17 anos, quando eu comecei a fazer rap, a gente sempre buscou as instituições, espaços cedidos, garagem, sala dos amigos, um espaço que a gente tivesse acolhimento. O Galpão Cultural representa isso, esse espaço de acolhimento da cultura hip hop, de quem quiser fazer arte. Então ele é um centro cultural, uma casa de hip hop, é o primeiro da comunidade do Morro da Cruz, em Porto Alegre. Ele tem uma biblioteca, tem um espaço de ensaio, espaço para dança, é uma casa mesmo, com banheiro, cozinha, tudo normal como é a casa da gente, só que uma casa específica de promoção de arte. A gente tá concluindo o espaço ainda, estávamos com a reforma da cozinha. Estamos muito felizes. Agora em julho, o primeiro show vai ser o lançamento do meu próximo projeto musical. Vai ser no Galpão Cultural, como forma de fortalecimento da terra, do espaço, então a gente tá passando por um período muito bom de alcançar aquilo que a gente desejava enquanto estrutura. 

O projeto Galpão Cultural é uma iniciativa sua ou conta com a participação de mais pessoas? Como o projeto é financiado e como ele se mantém?

Negra Jaque – Esse projeto é uma iniciativa de um coletivo de artistas e produtores aqui da região. Ele nasceu desse desejo de ter um espaço para a construção de arte, um espaço onde a gente conseguisse promover acesso à arte. Ele ainda tá atuando de forma independente, através de arrecadações e campanhas que a gente faz. É um espaço independente de arte e cultura, um centro cultural que ainda não tem vínculo com o poder público.

Você é pedagoga e professora, certo? Você leva esse lado educadora ao lado artístico?

Negra Jaque – Minha formação como educadora e professora começou juntinho com a cultura hip hop. As duas coisas são bem próximas, até quando eu vou compor uma música, até um projeto novo, como o que eu tô criando agora, eu sempre penso nos espaços que eu vou estar. Eu vou muito fazer ações em escolas, em grandes instituições, sempre tenho repertório de músicas livres para todas as idades. Algumas músicas são mais pesadas, então, por esse lado, a Negra Jaque sempre pensa nesse olhar de educadora. Às vezes são crianças muito pequenas, e esse olhar mais pesado da denúncia, são músicas para “gente grande”. Então, sim, até nos palcos, nos shows, eu tenho esse lado professora que sempre se organiza, está sempre presente no diálogo com o público que está assistindo. O que é muito importante, eu tenho muita responsabilidade por aquilo que eu falo, pelas coisas que eu escrevo, pela mensagem que eu passo. Sou muito preocupada com essa parte, como professora e como artista.

O que você diria para um jovem ou uma jovem que deseja ingressar no cenário do rap gaúcho e nacional?

Negra Jaque – Para o jovem, para a jovem que está começando agora, que queira iniciar na cena do rap gaúcho e do rap nacional, desejo sorte, que se aproxime de pessoas que possam ser uma rede de apoio. Produtores, donos de estúdios, uma galera que trabalha com eventos, que é a nossa rede de apoio que vai fazer com que o teu trabalho se impulsione nas ruas, nas redes sociais e nas plataformas de música. Eu desejo muita prosperidade, que comece, que encare o mundo mesmo, que o primeiro passo só pode ser dado por nós e não adianta, que coloquem a cara no mundo e enfrentem, porque é possível, é bem possível. 

Quais são os seus próximos sonhos?  

Negra Jaque – Meus próximos sonhos eu acho que são metas. Acho que ter uma vivência fora do país, esse é um sonho que está cada vez mais presente, porque, além da função da arte, da pedagogia em si, eu continuo sendo estudante de mestrado em Educação. Então, quem sabe fazer um doutorado e fazer um circuito de rap fora do país, para trazer uma bagagem maior, para experienciar outras coisas, com outros hip hoppers do mundo. Esse é um sonho.

*Estudante de Jornalismo da Unisinos. Essa entrevista é uma parceria do Nonada com a Beta Redação, portal experimental do curso de Jornalismo da Unisinos, e foi realizada sob supervisão dos professores Débora Lapa Gadret e Felipe Boff.

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