Foto: Fundação Bienal do Mercosul

Mediadores da Bienal do Mercosul divulgam carta após fala do curador Marcello Dantas

A equipe de mediadores e supervisores do departamento Educativo da Bienal do Mercosul 13 divulgou carta aberta nesta terça-feira (23). O texto é uma resposta a uma fala do curador da edição, Marcello Dantas, na qual ele chama os mediadores de xenófobos porque se recusaram a participar de uma obra do artista alemão Tino Sehgal.

A ideia do artista era que os mediadores parassem o trabalho de hora em hora em um dos espaços da Bienal para cantarem em coro uma música, mas a equipe rejeitou a proposta, já que se tratava de um trabalho extra, não-remunerado, e que poderia atrapalhar o andamento das atividades da mediação. Esta semana, o curador pediu desculpas por ter sido “mal entendido”.

Os mediadores também colaram cartazes criticando o curador e se manifestarem a partir de uma obra do artista Felippe Moraes. Nas redes, o artista disse que teve a honra de ter sua instalação “Movimento Pendular” (2014) como “palco simbólico destas tensões”.

Mediadores se manifestam a partir da obra do artista Felippe Moraes, que afirmou se sentir honrado com a manifestação simbólica

Leia a carta dos mediadores:

“CARTA ABERTA AO PÚBLICO DA BIENAL

1. Nós, mediadoras, mediadores, supervisoras e supervisores integrantes do projeto educativo da 13ª Bienal do Mercosul, evento que ocorreu entre os dias 15 de setembro e 20 de novembro de 2022, viemos, por meio desta carta, expor nosso descontentamento, nossa angústia e nossa posição frente a uma fala do curador-geral desta edição, Marcello Dantas.

A Bienal do Mercosul, evento histórico na cidade de Porto Alegre, completa 25 anos em sua 13ª edição, a primeira edição presencial após uma edição restrita ao digital e mais de dois anos de vivências coletivas de isolamento social. Esta edição teve como tema a tríade Trauma, Sonho e Fuga, fenômenos que se originam do que o curador denomina como indizível.

2. O processo de construção de uma bienal envolve múltiplas equipes: trabalhadores e trabalhadoras de diversos setores são envolvidos desde o princípio e essa cadeia produtiva se restabelece periodicamente. No setor educativo, contamos com o maior número de colaboradoras e colaboradores, sendo 90 mediadoras e mediadores, 14 supervisoras e supervisores, 9 assistentes de produção e 1 curadora, totalizando 114 pessoas envolvidas na construção de um projeto coletivo de arte-educação. Nesse sentido, ao refletirmos sobre o tema da 13ª Bienal do Mercosul, é importante destacarmos a ironia que é, neste momento, imediatamente após o encerramento da mostra, estarmos somando esforços para, coletivamente, elaborar e colocar em palavras o nosso desacordo com o que disse o curador.

No dia 19 de novembro, um dia antes do fim da 13ª Bienal do Mercosul, Marcello Dantas participou de um evento da programação da Bienal com transmissão ao vivo, Zonas de Contato, realizado no Instituto Ling. Em dado momento, após comentários sobre as outras obras, o curador começa a falar sobre a obra This Element, do artista Tino Sehgal. Então, é colocado que seria importante registrar um momento crítico. Essa é a única parte que concordamos, pois, de fato, é importante registrar as ações coletivas, desde que se mantenha o compromisso com a verdade.

3. Por isso, vamos explicitar alguns dos pontos equivocados proferidos pelo curador durante o seminário:

Não houve revolta do educativo contra um artista ou uma obra. Na verdade, houve um debate interno, com pensamento crítico – um movimento que não havia sido exposto até agora – sobre condições de execução de uma obra que exigiria bastante dos nossos corpos, que são nosso instrumento de trabalho.

Durante o período pré-abertura da mostra, ocorreram algumas tentativas de negociação de diminuição das execuções do canto – inicialmente, previsto para acontecer a cada uma hora, depois, a cada duas –, pois isso exigiria a interrupção das atividades correntes por cinco minutos. Por diversos motivos, aceitamos participar de ensaios e colocar nosso esforço em aprender o que era necessário para executar/ser a obra, assim como dedicar mais do nosso tempo para que ela se realizasse. Contudo, as inquietações e os questionamentos aumentavam a cada encontro, pois víamos o esforço que seria necessário.

Muitos de nós ficavam sem voz – o que, durante o evento, inviabilizaria compromissos básicos do trabalho diário de mediação, como a recepção de escolas e do público espontâneo. Além disso, veio ao nosso conhecimento, em partes, sobre como essa obra era executada em outros países. Em outros lugares, havia remuneração, que era recebida pelas pessoas que ativaram a obra nos espaços de arte, o que demonstrou a precarização do trabalho que seria realizado aqui.

Por fim, avaliamos que tanto a obra de Tino Sehgal como o restante do trabalho de mediação seriam prejudicados e, em votação geral da equipe, decidimos que não nos disponibilizaríamos para a proposta.

Não havia previsão de pagamento aos mediadores para participar da realização da obra, como erroneamente fora divulgado por Dantas. Essa foi mais um fala inverídica proferida pelo curador.

Não houve greve até o momento da fala proferida pelo curador no dia 19 de novembro. Toda a discussão em torno da execução, ou não, da obra, pela equipe de mediadores, foi realizada no período anterior à abertura da 13ª Bienal do
Mercosul e teve seu desfecho no dia 14 de setembro. Não inviabilizamos nenhuma atividade do curso de formação, assim como não faltamos com nossos compromissos. Desde o dia 15 de setembro de 2022, data da abertura da 13ª Bienal do Mercosul, estivemos presentes nos espaços e nas instituições em nossos exatos horários de trabalho.

Não cogitamos mudar o teor do canto da obra em nenhum momento. Marcello Dantas se refere às atitudes da equipe de mediadores como uma tentativa de “pintar o quadro”, isto é, que nós cantaríamos se houvesse uma troca no canto criado pelo artista, algo jamais solicitado ou imaginado por nós. Salientamos que essa fala ainda explicita o desconhecimento, por parte do curador, tanto dos processos que cercaram a exposição curada pelo próprio, quanto do ofício da educadora e do educador em arte.

Não houve xenofobia. Em nenhum momento a origem étnica do artista orientou qualquer decisão ou pensamento das mediadoras e dos mediadores. É importante frisar que a negativa se deu, principalmente, em função da falta de
interlocução com o artista e pela pouca flexibilidade para contemplar a realização da obra e demais atividades da equipe de mediação. O curador se refere como “[…] das coisas mais ridículas que já ouvi”, ao ser questionado pelo público presente no evento sobre o porquê dos educadores terem “rebelado-se”. Dantas relata a negação desta equipe, em cantar, pelo suposto motivo de receber ordens de um alemão. Ao que complementa, ele qualifica o ato como “uma espécie de xenofobia” e “ideologia especificamente xenófoba”. Tais trechos nos aterrorizam e nos revoltam especialmente, uma vez que nos é imputada uma prática discriminatória e criminosa jamais ocorrida.

Destacamos que uma representante da equipe educativa da Bienal estava presente no momento e tentou iniciar um diálogo com o curador e com o público presente, mas foi interrompida por Dantas durante todo o tempo de fala, de modo que se tornou insustentável manter qualquer tipo de troca ou conversa. A narrativa dos fatos, assim, foi controlada por Dantas.

4. Ao final do mesmo dia, 19 de novembro de 2022, após conversas e reuniões das quais não participamos, Marcello Dantas se coloca, em vídeo, fazendo uma retratação em sua rede social pessoal, posteriormente repostada na conta oficial da Bienal do Mercosul. Dessa “retratação”, observamos como o curador não se responsabiliza por sua fala, pois ele diz que foi um erro o uso de uma palavra específica, um mal-entendido, e, também, diz pedir desculpas, de alguma forma, por não ser compreendido. Ele não reconhece suas mentiras. Ele não pede desculpas pela acusação de um crime de xenofobia. Ele não pede desculpas pelo tom de deboche. Ele não explica fatos.

5. Nosso trabalho existe no coletivo e estamos cientes de que assim o fizemos juntamente às milhares de pessoas que visitaram os espaços expositivos da 13ª Bienal. Existe, entre nós, um grande número de educadores-artistas que desenvolvem seu próprio trabalho poético e que acreditam nesse local de imbricação entre a arte e a educação, sem fazer qualquer juízo de valor entre essas atividades. Dessa maneira, queremos declarar que, apesar de em momento algum termos aventado qualquer mudança de conteúdo em This Element, acreditamos em uma educação criativa e criadora, que não seja apenas um reservatório reprodutivo de informações, mas agente e propositora, como também é a prática artística.

Atenciosamente, equipe de mediadoras, mediadores, supervisoras e supervisores da 13ª edição da Bienal do Mercosul.

Porto Alegre, 22 de novembro de 2022.”

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