Obra de Heitor dos Prazeres, 1961 (Foto: reprodução)

A “literatura periférica” é universal: como escritores subvertem as barreiras centro-margem na cena literária

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Em 2005, o escritor e rapper Ferréz lançou o texto Terrorismo literário, que se tornou uma referência por conceituar a literatura marginal. Tratava-se de uma tentativa de superar as dificuldades impostas que impediam os escritores periféricos de exporem seus trabalhos. Lá, ele clama que eles não precisam mais de intermediários para estar presentes em um texto de ficção. O início do século foi marcado por um levante de autores das periferias e esse protagonismo segue crescendo na literatura brasileira nos últimos anos. 

O pesquisador e doutor em teoria literária André Natã Botton fez em sua tese uma proposta de história da “literatura marginal das periferias”, como ele chama. Sobre o conceito de literatura marginal ou literatura periférica, tudo, pelo menos no campo acadêmico, depende de que autor ou conceito se está seguindo. 

Mas Botton traz uma visão interessante sobre a nomenclatura. “Pensando nessa relação margem-centro, há uma literatura canonizada e há várias literaturas que estão à margem desse centro, mas quando eu coloco o ‘periferias’ lá é pensando nesse espaço geo social, então, há essa visão teórica, mas ao mesmo tempo tem essa questão da territorialidade, pensando o próprio espaço também como ele é representado, como ele é discutido, de que forma as personagens, os narradores se situam”, explica. 

O escritor Wesley Barbosa (Foto: divulgação)

Wesley Barbosa é escritor e autor dos livros O diabo na mesa dos fundos e Viela ensanguentada. Natural da cidade de Itapecerica da Serra, que faz divisa com a cidade de São Paulo, muito da sua obra é inspirada nesse local. “Naquele mesmo ano da publicação do primeiro livro, consegui um emprego em uma faculdade na Av. Santo Amaro, onde trabalhei de chapeiro e atendente, fazendo as mais variadas funções. Todas as noites, quando se encerrava o meu experiente, eu saía da lanchonete e, ao invés de voltar para a quebrada, ia vender livros de mão em mão, subindo e descendo a Rua Augusta, pelos teatros e pelos bares e, conversando de pessoa a pessoa, aprendi a divulgar meu trabalho literário. Em 2019 fui vender meu livro em Paraty, na Flip e, desde então, tenho vivido de literatura e palestras quando me convidam”, diz. Barbosa já vendeu mais de dez mil exemplares de suas obras.

O escritor acredita que é limitador quando um crítico diz que tal escritor escreve literatura periférica, ou literatura marginal, querendo colocá-lo em um lugar apenas pelo tema que ele aborda. “Por exemplo, o livro Gente Pobre, de Dostoiévski, é um grande livro sobre a fome, as mazelas da vida e tudo aquilo que o povo da periferia conhece de perto. Aquele romance poderia muito bem ter sido escrito por um autor brasileiro. O tema da obra é sobre a periferia, em um espaço e tempo diferente, mas é sobre isso, como Quarto de despejo também é uma obra que transcende o entendimento da crítica porque ela vai continuar fazendo sentido ainda durante muito tempo. Enfim, a literatura não é algo limitado que você diz que isso é isso e isso é aquilo. Eu entendo que há gêneros literários e a importância de estudá-los, mas eu não saberia em qual me encaixaria, porque sempre irão me julgar pela cor da minha pele, também por causa do lugar de onde eu vim etc.; a partir  daí já dá pra ter uma ideia onde meu trabalho se insere”, acredita. Barbosa lança em julho o seu novo romance, intitulado Pode me chamar de Fernando.

O escritor José Falero, oriundo da lomba do Pinheiro em Porto Alegre, e autor de livros como Mas em que mundo tu vive? e Os Supridores lembra que o povo da periferia sempre teve pouco acesso aos livros. “Sabe aquela frase célebre do Darcy Ribeiro de que a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto? Pois é. Os projetos no Brasil sempre foram muitos, e ainda são muitos, cada qual mais terrível do que o outro. E um desses projetos, a meu ver, é justamente manter as periferias longe da literatura”, acredita. 

O escritor José Falero (Foto: @afrovulto/divulgação)

Para ele, há uma demanda reprimida de leitores desses territórios que por muitos anos não se viram representados na literatura. “Então, quando surgem movimentos que acolhem as periferias na produção literária, é perfeitamente natural que todos os interessados corram atrás dos livros que essa galera está escrevendo, e para fazer isso geralmente acaba sendo conveniente inventar um nome para esse tipo de produção”. 

“Nesse sentido, ‘literatura marginal’ ou ‘literatura periférica’ caem como uma luva. Funciona. As pessoas usam esses termos para pesquisar livros escritos por pessoas da periferia, livros cujas histórias se passam nas periferias e cujos personagens vivem na periferia. Até aí, tudo bem. O problema é quando o conceito passa a servir como agente redutor, desqualificador, como se a “literatura marginal” ou “literatura periférica” não fosse exatamente o que é (literatura pura, simplesmente literatura, como a de Drummond ou a de Guimarães), mas algo menor, algo menos relevante, algo menos digno de respeito”, aponta Falero.

Barbosa parece resumir bem: “A literatura produzida por pessoas da periferia não deve estar em um lugar. Ela deve estar em todos os lugares. Nesse sentido, reforço que a ‘literatura marginal periférica’, como muitos gostam de chamar, está fazendo muito bem o seu papel, mas ainda falta muito espaço para novos autores se inserirem no mercado dos livros”, comenta. 

A margem é o centro

Em sua tese, Botton trabalha com a produção literária das periferias brasileiras a partir dos anos 2000, focando na prosa, e como ela desafia a estrutura do sistema hegemônico. Antes, ele traz três autores importantes, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e João Antônio, que produziram com olhares a partir e sobre periferias, influenciando as produções posteriores. Em comparação aos escritores pós-2000, ele diz que a grande semelhança entre todos esses autores é o ponto de vista, que é o da margem para o centro. 

No pós anos-2000, há alguns marcos dentro dessa trajetória, como o lançamento da obra Cidade de Deus, de Paulo Links, a importância de autores como Ferréz e Sérgio Vaz e a publicação de três edições especiais da revista Caros Amigos com foco em literatura marginal, e que ampliaram o conceito de marginalidade, incluindo outros grupos de autores como os indígenas e o hip hop. 

Para Botton, a grande novidade dos escritores dos anos 2000 para cá é como eles colocam os personagens e os narradores a partir das periferias. “É isso de contar as histórias com a visão de dentro. O Falero tem um conto, Um Otário com Sorte, que é muito significativo disso. Na história, o personagem pega o ônibus na Lomba do Pinheiro e atravessa a Porto Alegre  até um shopping localizado na Cristóvão Colombo e aí é a visão desse personagem que vem dessa periferia da cidade falando sobre o que está acontecendo”, explica. Com isso, os espaços também quase ganham vida própria, os territórios como as favelas e as vilas influenciam as ações e sentimentos dos personagens e são presenças importantes. 

A escritora e editora Sonia Bischain, por exemplo, em seu livro Nem tudo é silêncio abordou o tema da ditadura no Brasil a partir do olhar periférico. Ela é uma das organizadoras do sarau do Brasa, que ocorre no distrito de Brasilândia, zona norte de São Paulo, desde 2008. 

“Nos meus livros, eu procuro retratar um pouco das minhas experiências e memória sobre a periferia onde moro. O diferencial é que esse foi o primeiro a abordar esse tema a partir do olhar da periferia onde a repressão política se infiltra no dia a dia dos moradores, não como um momento de exceção, mas como uma carga a mais de sofrimento. Era comum vermos corpos nas matas com sinais de tortura, mesmo que muitos moradores não entendessem muito bem o que estava acontecendo (acreditavam simplesmente ser “coisa do esquadrão da morte”)”, diz. Esse livro acabou entrando no círculo acadêmico de universidades brasileiras, sendo tema de dissertações e teses, e também encontrou alcance internacional, em universidades como a Universidade de Sorbonne.

Foto: Agência Mural/reprodução

Aliás, o sarau do Brasa também mostra a importância dessa organização coletiva que moradores e artistas das periferias precisam fazer para que tenham algum acesso à cultura e outras atividades. “Justamente pela falta de equipamentos públicos, nos anos 2000, um grupo de jovens, moradores da Brasilândia, pensou em criar um centro cultural, e começou a pesquisar uma maneira de tornar isso possível. Porém, não havia verba nem um local apropriado. Um dia esses jovens participaram de um encontro promovido pelo Ferrez, na Zona Sul, e a seguir visitaram também o Sarau da Cooperifa e o Sarau do Binho. Na Cooperifa, conheceram os organizadores do Sarau Elo da Corrente, Michel Yakini e Raquel Almeida, de Pirituba, um bairro próximo de nós. Então percebemos que era possível fazer um sarau na Brasilândia”, explica Sônia.

Os jovens que começaram o Sarau eram amigos da escritora e frequentavam a sua casa, eles sabiam que ela escrevia e a convidaram para participar da organização. Na época, ela tinha 51 anos. “Logo entendemos a importância em publicar livros e antologias com textos dos participantes do Sarau. Ganhamos um edital público, o VAI, em 2008 e outro em 2009. Com essa verba, publicamos, em 2009, o livro duplo de poemas Rua de trás (Sonia Regina Bischain) e Poemas e prosas de um eu (Bárbara Lopes); a Primeira Antologia, com 47 autores; o livro Império Lampinho (autoras: Vanessa Rodrigues, Soraia Lima, Elaine Pessotti e Luciane Matos); o livro de poemas e contos Coletivo 8542 (autores: Amauri Jr, Michell da Silva/Chellmí, Diego Arias, Felipe Matos, Samanta Biotti, Leandro de Moraes/Leko, Sidnei da Neves e Vagner Souza; e o livro Tambores da Noite, do poeta negro Carlos de Assumpção (hoje com 95 anos)”, diz. Ao longo deste foram publicados 15 livros, fora as ações culturais com escolas, a criação de uma biblioteca e os diferentes saraus realizados. 

Em relação ao trabalho em conjunto e à organização coletiva para a criação e circulação de obras, Botton conceituou, em sua tese, a ideia de paracampo, uma espécie de espaço simbólico que esses escritores e artistas criaram. “Uma vez que ao longo do tempo eles não receberam o devido espaço e são sempre colocados numa posição inferior em relação às grandes instituições reconhecidas, eles têm criado os seus próprios artifícios para interferir nessas outras regras deste tempo canonizado, então o paracampo de algum modo reproduz essas instituições, mas tem uma ideia de coletividade, essa preocupação com trabalhos coletivos, com a organização de obras, com a semana de arte das periferias, que foi organizada em São Paulo”. 

O pesquisador avalia que esse paracampo é formado por diferentes agentes e ferramentas da cadeia literária, desde saraus, selos editoriais e prêmios. “Todo autor quer ser conhecido, quer ser vendido, estar em uma grande editora. Mas, ao mesmo tempo, tem isso também de que já não temos esse espaço, não vamos esperar, nós vamos agir para que nós tenhamos o nosso reconhecimento, para que nós sejamos legitimados por nós mesmos também, a nossa literatura tem importância, tem valor”, explica. 

Um exemplo é a Periferia Brasileira de Letras, iniciativa que reúne escritores e coletivos de difusão literária de regiões periféricas de várias cidades do país. “O fazer literário não está só nas bibliotecas e nas editoras”, explicou a coordenadora Mariane Martins em matéria publicada anteriormente no Nonada. “O próprio nome da PBL já traz uma certa provocação à ideia canônica do fazer literário, muito representada por entidades como a Academia Brasileira de Letras. Não são opostos, mas nascem de maneiras muito diferentes”.

Coletivo A Pombagem, integrante da Periferia Brasileira de Letras

Associando a literatura à garantia de direitos e a leitura aos princípios básicos dos direitos humanos, a PBL entende que os fazeres coletivos são também patrimônios que precisam de salvaguarda, acesso e políticas públicas. Não há literatura, sem promoção de saúde, sem direito à cidade, sem fomento. Bottom lembra da importância das políticas públicas do início dos anos 2000. “Especialmente quando Gilberto Gil vira o ministro da cultura e sem uma nova concepção do que é cultura, a criação dos pontos de cultura e começa um incentivo muito grande para a produção cultural. Há também as políticas do PROUNI na educação, então são vários fatores sociais que contribuem para o reconhecimento e a legitimação desse tipo de produção periférica. As pessoas que vem desses espaços começam a questionar, a perguntar, por exemplo, onde está a Carolina Maria de Jesus”, diz. 

Falero diz que seu pensamento em relação ao que é a literatura brasileira tem se tornado mais radical dia a dia. “O que sempre existiu, me parece, foi um playground onde geração após geração as classes dominantes deste país brincaram de publicar livros. Alguns desses escritores conseguiram bons resultados, é verdade, mas reuni-los todos em uma praça e chamar essa praça de “literatura brasileira” já me parece um exagero. Claro, é sempre possível argumentar que o que eles produziram é literatura brasileira porque eles eram todos brasileiros, mas obviamente não estou falando nesse sentido. O conjunto da produção desses escritores não me parece literatura brasileira porque, no geral, não representa bem o Brasil, não representa bem o povo brasileiro”. 

É apenas quando a produção literária do país for verdadeiramente diversa e inclusiva, produzida e consumida pelo povo, que de fato existirá uma literatura brasileira, defende o escritor. “Mas o povo mesmo. O povão. E nós sabemos onde a maior parte dessas pessoas vive, não é? Então, para mim, não é que a “literatura marginal” ou “literatura periférica” tenha potencial inovador ou potencial para ocupar um espaço central na “literatura brasileira”. É mais do que isso. A literatura produzida nas periferias me parece a própria “literatura brasileira”, fazendo esforço para nascer. Se vingar (e me perdoe este pessimismo, mas este país é o Brasil), então teremos a oportunidade de vê-la se desenvolver, crescer, atingir a maturidade”, finaliza. 

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Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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