Na Flup, Nêgo Bispo e Conceição Evaristo mostram por que os saberes ancestrais pautam a intelectualidade hoje  

“Fogo! 
Queimaram Palmares,
Nasceu Canudos.
Fogo! 
Queimaram Canudos,
Nasceu Caldeirões.
Fogo!
Queimaram Caldeirões, 
Nasceu Pau de Colher.
Fogo! 
Queimaram Pau de Colher…
E nasceram, e nasceram tantas outras

comunidades que os vão cansar se continuarem queimando. 
Porque mesmo que queimam a escrita, 
Não queimarão a oralidade.
Mesmo que queimem os símbolos, 
Não queimarão os significados.
Mesmo queimando o nosso povo
Não queimarão a ancestralidade”

Foi com essa declamação que o pensador Nêgo Bispo encerrou a mesa “Confluência e Escrevivência, muito mais que rimas” no domingo, 15, na Feira Literária das Periferias do Rio de Janeiro (FLUP). O impacto literário se estendeu quando o escritor expressou que usa da generosidade para ensinar aqueles que um dia feriram sua existência. 

 “A grande pauta das vidas das existências África está dizendo agora: tudo bem, vocês disseram que nós não sabemos ler, e nós não sabemos mesmo. No entanto, vocês nos obrigaram e nós aprendemos a ler. Agora, nós estamos dizendo para esse povo: e vocês nunca souberam e nem sabem falar”. E complementa: “ Escrevivência é muito mais que isso, escrevivência é a oralização da escritura. Então eu, Conceição, Ailton Krenak e outros estamos por generosidade ensinando esse povo das escrituras a falar”. 

A mesa ficou completa com a escritora Conceição Evaristo. A mediação ficou a cargo da jornalista Flávia Oliveira. Em uma tarde calorosa, o encontro permitiu que o público passeasse na memória dos saberes e invocou intelectuais que foram entrelaçados em rimas de afetos. 

O primeiro bloco elevou uma reflexão para os autores. A pergunta questionava se eles enxergavam que existia escrevivência na confluência e vice-versa. Se fosse para explicar o termo confluência em poucas palavras, a frase “nem tudo que se mistura se ajunta” bastaria.

Mas com a bagagem do relator de pensamentos e saberes, como prefere ser chamado, Nêgo Bispo agiganta e evidencia a necessidade de olhar as construções das relações em contrapartida. Como é o caso da sua relação com a escritora que estava ao seu lado: “Confluência e escrevivência entre eu e Conceição não é uma confluência, é uma consolidação de trajetórias. Porque nós somos da mesma trajetória. Eu e Conceição nós tanto nos ajuntamos como nos misturamos. Confluência e Escrevivência é uma mistura e uma consolidação de trajetórias”.

Já Conceição Evaristo resgata outros autores para exemplificar o que entende dos termos. Sobre a relação entre confluência e escrevivência, cita o tempo espiralar da autora Leda Martins, que estava na plateia. A escritora alerta sobre a criação das suas teorias que partem das experiências particulares, sendo que a vivência tem a capacidade de se transformar em escrita: “A gente despreza esse exercício da escrita, e vamos trabalhando e vamos pensando e vamos elaborando e vamos experimentando, e só mais tarde é que a gente percebe que esse exercício pode ser traduzido também em teoria”.

E complementa: “nosso grande trunfo nasce da vida, nasce do nosso exercício vital, nasce da nossa experiência enquanto sujeitos negros, sujeitos diaspóricos”.

O pulo do gato

Foto: Flup/divulgação

À medida que o debate ia se aflorando na Arena Machado é Cria, os conceitos dos escritores começaram a ser expostos com mais detalhes. As falas quase sempre eram acompanhadas por muitos aplausos e exaltação da plateia. Um desses momentos foi quando Conceição dividiu que foi abordada por uma pessoa branca com a pergunta se ela podia usar os seus conceitos. 

“Esses conceitos nascem a partir de uma experiência africana, a partir de uma experiência diaspórica”, disse. Além do mais, a escritora não deixa de expressar que os termos estão ali para serem usados de uma forma particular da interpretação e necessidade acadêmica de cada um, mas que eles são endossados como medida de enfrentamento.   

Para Nêgo Bispo, as pessoas precisam conhecer seus antepassados para compreender o presente e seus possíveis privilégios. Em uma pergunta que vibra com uma resposta, ele indaga: “Se você souber o que os seus ancestrais estavam fazendo antes da lei áurea, porque a minha eu sei. Se você souber e quiser conversar comigo sobre isso, quem sabe você pode ser uma contracolonialista.”

Os debates estavam ali como uma justificativa para as tradições atuais e se mesclavam nos conceitos que vieram como uma possibilidade de fazer entender os conceitos. “Então são conceitos também que nascem não em diálogo com o que está aí, nascem em diálogo com as nossas experiências.” Eles falaram sobre como a academia não estava acostumada a pensar no tempo espiralar, na escrevivência e na confluência.

“Eu acho que os nossos saberes, os nossos modos de pensar e os nossos modos de interpretação da própria realidade brasileira, o nosso modo de pensar as teorias que nos foram impostas até hoje, elas estão muito mais fundamentadas nessa ideia de confluência, na ideia de tempo esperar lá e na ideia de escrever vivência”, complementa Conceição Evaristo. 

É neste momento que eles entendem que, agora, eram eles que estavam começando a ditar as regras: “Talvez nós estejamos aqui para ensinar aqueles que nos julgavam. Eu acho que a gente deu o pulo do gato.” 

Escrita é processo 

Foto: Flup/divulgação

Em uma atmosfera saturada de literatura na Flup, a escrita e seus processos ganharam destaque, especialmente quando debatidos por dois escritores que têm o dom de transbordar suas palavras com intensidade.

Foi com “Eu não escrevo, eu fotografo a fala. Tiro foto da minha palavra” que Nêgo Bispo iniciou o conto de suas abordagens literárias. Meticuloso com a estrutura de cada palavra que desenha em seus livros, explicou o desenvolvimento das obras “Composto Escola: Comunidades de Sabenças vivas” e “A terra dar, a terra quer”. Além disso, empolgou a plateia ao soltar o nome do seu novo livro em produção, “Colonização Quilombo: Milagres e Feitiços”.

“Eu gosto de escrever a lápis” é a forma como Conceição Evaristo tenta saciar sua saudade mergulhada em tempos em que a produção precisa ser cada vez mais veloz e digital. A autora em sua escrevivência, deixou claro que é fiel à oralidade. Mesmo que suas palavras escritas não carreguem o tempo oral, ela constantemente cria palavras compostas para enriquecer sua narrativa. “Uma palavra só não dá conta, então você tem que estar inventando, criando esse vocabulário”. Como exemplo, citou seu trabalho em “Histórias para Ninar Menino Grande”, onde fala da limitação da língua escrita em capturar a essência de um momento, já que ela carece do gesto e da corporeidade que a oralidade oferece.

Conceição e Nêgo Bispo compartilharam a importância de suas vivências  na escrita e não deixam de lado suas emoções porque sabem que elas são parte do todo, mesmo que doa. “Escrever é um modo de sangrar”, diz Evaristo. 

Juventude e Oralidade

Ao abordar a juventude, Conceição enfatizou o valor da oralidade e seu potencial transformador, destacando que “o novo tem o poder de potencializar o velho.” A juventude, com seu desconcerto e vitalidade, a desafia.

Um questionamento da plateia sobre se a juventude estaria se afastando da oralidade ancestral devido à exposição acadêmica gerou uma consideração. Nêgo Bispo enfatizou a importância do encontro de saberes e a confluência entre tradição e inovação, ressaltando que a geração cotista está impulsionando as universidades a reconhecerem a importância da ancestralidade.

ABL

O escritor Ailton Krenak foi mencionado, por muitas vezes, ao longo do desenvolvimento da mesa, talvez por recentemente ter sido eleito para a Academia Brasileira de Letras. Conceição, em menção ao escritor, permitiu uma provocação sobre ser “a primeira” em determinadas premiações e homenagens, mas enfatizou: “Podem continuar elegendo mais pessoas negras, porque vocês não estão cansados de eleger pessoas brancas.” 

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Jornalista engajada nas causas sociais e na política. Gosta de escrever sobre identidade cultural, representatividade e tudo aquilo que engloba diversidade.
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