Leandro Junior/Divulgação

Romance de Lilia Guerra remonta paisagens periféricas a partir do olhar de uma trabalhadora doméstica

Lilia Guerra faz o ato de escrever parecer fácil em O céu para os bastardos, lançado este ano pela editora Todavia. Autora do livro de contos Perifobia (Patuá, 2018) e dos romances Rua do Larguinho (Patuá, 2021) e Amor Avenida (Ársis, 2014; Patuá, 2018), trata-se de uma autora com uma trajetória e formação literária consolidada. 

Com uma prosa fluida, Guerra consegue aproximar o leitor da sua protagonista, Sá Narinha, mulher que atua como trabalhadora doméstica e que tem um caderno de memórias e um olhar muito aguçado ao seu entorno. É por seu ponto de vista e comentários que conhecemos Fim-do-Mundo, periferia onde habitam os personagens do romance. 

O fio condutor vai se revelando aos poucos. Em um primeiro momento, sabemos apenas que algo grave ocorreu na vida de Sá Narinha e que ela se sente culpada e também oprimida no lugar em que mora, mesmo conhecendo os vizinhos há tanto tempo. Não vamos revelar toda a trama aqui para não tirar a graça, mas a conexão entre essa ação envolvendo seu filho consegue segurar a tensão durante toda a obra. 

Paralelamente, no plano presente da narrativa, estamos na maior parte do tempo no velório de Genuíno Amolador, membro de uma das famílias pioneiras de Fim-do- Mundo, por isso o evento serve também para a nossa protagonista como um grande palco de rememoração, comentários, análises dos vários personagens que chegam para celebrar a vida do vizinho. 

Em algum outro autor, este apenas poderia ser o pano de fundo, mas é justamente para onde Guerra quer dar atenção, trazer os costumes, os comportamentos, histórias que simbolizam e envolvem, tratando cada personagem como uma notável reverência. Esse é um dos pontos altos do livro e que traz a característica da boa crônica brasileira. 

Esse é um romance e por definição ele também precisa variar nos espaços, dar palco para outros personagens fortes. E como passamos boa parte do tempo nas lembranças e memórias de nossa protagonista, observamos o mundo enviesado por ela. Mira, sua irmã com quem divide a casa, então, é também uma das maiores coadjuvantes do livro, tão diferente da sua irmã, o que não impede de serem próximas. Com um ar mais “puritano”, principalmente tratando-se de relacionamentos, Mira também é parte essencial, inclusive para entendermos melhor o fechamento da trama principal do livro. 

Outra personagem recorrente e que serve como antagonista é D. Laura, a patroa de Sá Narinha, figura que é também comum na obra de Guerra. A história da autora e de sua família passa pelo emprego doméstico, e as explorações causadas por essa relação. Aqui, muito dessa herança colonial é apresentada também nos detalhes, nos tratamentos e nas descrições, como, por exemplo, o fato de D. Laura controlar até o watts da lâmpada do quarto de Narinha. 

Em entrevista recente à revista Quatro Cinco Um, Lilia Guerra contou quando percebeu que deveria contar as histórias baseadas em pessoas do seu cotidiano, na Cidade de Tiradentes, onde mora, zona leste de São Paulo. Foi ao ler um livro de Pearl Buck, escritora estadunidense, e que trazia uma relação da protagonista (a patroa) com a sua “serva” – o romance se passa na China da primeira metade do século 20. 

Lá pela quinta leitura, Guerra percebeu que a verdadeira heroína era a empregada. Ela ficcionaliza essa história logo em um dos primeiros capítulos de O Céu para os Bastardos. “Dediquei minha atenção aos trechos em que se desenrolava a rotina miserável da fiel criada, que nem mesmo poderia ser coadjuvante. Acordava cedo, preparava o banho da senhora, decidia sobre a refeição matinal (…). Em nada me impressionavam as descrições sobre os embates da aristocracia. Elegi Ying como personagem central da trama”, conta Sá Narinha no livro.

E esse movimento de trazer o olhar para a periferia, de contar histórias que pareciam estar à margem, mas na verdade são centrais no Brasil, sempre aconteceu principalmente por autores na periferia e pequenas editoras. Apenas recentemente vem também ganhando cada vez mais espaço dentro das grandes editoras brasileiras e no circuito das premiações. Demorou, mas está aqui. E, com Céu para os Bastardos, Lilia Guerra contribui para colocar mais uma série de grandes personagens na história da literatura brasileira. 

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Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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