Foto: Ale Kalko/divulgação - com edição de Nonada Jornalismo

Com Mata Doce, Luciany Aparecida cria narrativa contracolonial protagonizada por mulheres negras do campo

Terminar um livro como Mata Doce (Alfaguara, selo da Companhia das Letras), de Luciany Aparecida, é sentir um misto de sentimentos florescer. Na história, Maria Teresa vive com suas mães em um casarão de frente para um grande lajedo de pedra, com um belo roseiral, em Mata Doce, um pequeno vilarejo no interior da Bahia. Mas chega a ser injusto dizer que o livro conta apenas a trajetória de Maria Teresa, quando temos uma protagonista que narra a vida e os costumes de diversos personagens do povoado. 

Aparecida consegue articular a narrativa do livro de uma forma muito harmônica, costurando as idas e vindas da história, de modo que vamos descobrindo aos poucos e por diferentes caminhos como se deu sua vida, e, por extensão, a de Mata Doce durante quase um século. Um olhar melancólico, e muito singelo, paira por esses personagens atravessados por grandes e pequenas tragédias, muitas delas com origem no colonialismo e na violência, marcas que continuam ecoando na sociedade brasileira, sobretudo na população negra e indígena. 

É preciso falar também no uso do duplo, principalmente na figura da protagonista Maria Teresa que acaba se “transformando” em Filinha Mata Boi devido a uma dessas tragédias citadas que a assombra por toda a vida. E como esse conflito acaba criando essas duas “personas” da mesma personagem que em certo momento do romance se chocam e precisam conviver, ou se entender melhor. 

Com isso, não me aparece à toa o nome “Mata Doce”, como metáfora do espaço, dois nomes que parecem contraditórios: “Mata”, além do sentido óbvio, podendo ser lido também como uma ação do verbo matar e “doce”, por si só um sentido mais suave. Também sugerindo que nesse espaço beleza e violência andam juntos. E há ainda os dois sentidos da personagem principal, a doce Maria Teresa, que se torna a matadora de boi, Filinha. 

Na contracapa do livro, há uma citação muito feliz da escritora Micheliny Verunschk em que ela diz que Mata Doce “é uma história de fantasmas, ou, antes, daquilo e daqueles que persistem em nós”. E isso acontece porque a própria narrativa da memória evoca essa sensação, esse tipo de sentimento de andar com “fantasmas”, ou de ver outras pessoas e lembrar/confundir com alguém do passado, e isso vale para objetos/animais/lugares também. A cachorra Chula exemplifica isso de forma brilhante, sendo lembrada/vista por diversas gerações. 

Sabiamente, Aparecida também utiliza o recurso da escrita de carta durante o romance, trazendo esse outro formato de texto de registro para a obra causa alguns dos momentos mais emocionantes do livro, porque esse ato para a maioria das personagens que compõem aquele povo é guardar seus fantasmas, seus medos, suas inseguranças, suas bonitezas e também suas histórias abafadas, nunca contadas. 

Pode-se traçar aí também um paralelo com a história da população negra ou indígena que têm sua memória pouco registrada no sentido de arquivos, mas que possui também outras formas de realizar essa ação, principalmente a partir da oralidade. Talvez por isso também durante o livro às vezes a narração mude de terceira pessoas para primeira pessoa, mas sem nunca confundir o leitor, pois a linguagem é uma força motriz do enredo. 

Há muito do que ser dito sobre os diversos personagens marcantes, como as mães de Maria Teresa/Filinha: a professora Mariinha e a travesti Tuninha, um bonito amor que Aparecida trata com muito carinho; há Lai, a madrinha que também guarda um segredo para a protagonista; Mané da Gaita, um músico que alegra boa parte da história sempre que está presente; o coronel Amâncio, branco, antagonista da história e um personagem quase caricato em sua maldade, mas que aqui é necessário, porque ele acaba representando toda a opressão que aquele povoado vive. Antônio, Zezito, Thadeu, vários outros…E todos eles não são esquecidos, suas histórias são abordadas pela autora e se não tem um “sentido” de conclusão, pelo menos sabemos que podem estar por aí em qualquer lugar, continuando suas trajetórias. 

Aparecida é muito feliz por escrever uma personagem tão fascinante quanto Maria Teresa/Filinha é. Muito complexa, ela carrega essa tradição importante que é contar. Há ainda uma bela homenagem ao livro Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, na última parte da história, que reforça a valorização do ato de ler e de se ver na leitura. E o que é contar se não tentar iluminar lembranças embaralhadas pelo tempo? Ler Mata Doce é se perder nesse fio bonito, corajoso e violento que forma a história dos povos que compõem o Brasil.

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Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
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