Foto: Ricardo Stuckert

COP28: Brasil e Emirados Árabes criam coalizão para pensar ação climática com foco na cultura

Os governos do Brasil e dos Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta segunda (4) a criação de um grupo para pensar o protagonismo da cultura na ação climática. O objetivo da coalizão é que os países integrantes busquem defender soluções baseadas na cultura para a crise climática dentro da COP28, além de ser um espaço para compartilhamento de possíveis soluções e experiências relativas ao tema.

Em comunicado divulgado pelos dois países, a ministra Margareth Menezes destacou que o patrimônio cultural e histórico tem sofrido impacto com as mudanças climáticas. “Embora nosso patrimônio cultural esteja sob ameaça das mudanças  climáticas, é na cultura que também encontramos recursos fundamentais para mitigá-las  e adaptar-se a elas. O Brasil tem muito a contribuir, sendo, por um lado, uma  potência em biodiversidade, com muitos exemplos de como o conhecimento indígena e  as tecnologias sociais podem fazer parte da solução. Por outro lado, nosso país também  enfrenta enormes desafios para mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas”, disse a ministra, lembrando também da COP30, que será realizada em 2025 no Brasil.

A criação do grupo é uma das primeiras ações do governo do Brasil voltadas para a inclusão da cultura nos debates sobre a crise climática e o meio ambiente. Embora a nível global o debate sobre o envolvimento do setor cultural na questão já esteja avançado, no Brasil as ações são pautadas basicamente por organizações do Terceiro Setor e por comunidades tradicionais.

A reunião de abertura da coalizão ocorre na próxima sexta (8), em Dubai, e deve ser presidida pelos ministros da Cultura dos Emirados Árabe e do Brasil, segundo o comunicado. No encontro, também são esperados representantes de pelo menos 20 países.  O evento será transmitido online a partir das 5h da manhã (horário de Brasília), com inscrições gratuitas neste link.

Sociedade civil se mobiliza para destacar protagonismo da cultura

Uma campanha global formada por organizações da sociedade civil tem promovido ações para alavancar a cultura no debate global. Entre as entidades integrantes do grupo de trabalho, estão o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), a Fiocruz, e o Instituto Moreira Salles, além de dezenas de entidades de diversos países, em sua maioria europeus. 

Antes mesmo do início da COP28, o grupo lançou o abaixo-assinado “Apelo global para colocar o patrimônio cultural, as artes e os setores criativos no centro da ação climática”, que angariou a assinatura de 1500 organizações (entre elas a Associação Cultural Nonada Jornalismo).

Nesta segunda, a campanha global  divulgou um comunicado em apoio à coalizão criada pelos governos do Brasil e pelos Emirados Árabes”. É um quadro oportuno e urgentemente necessário para responder às deficiências na consecução dos objetivos de mitigação e de adaptação do Acordo de Paris – deficiências atribuíveis, em parte, à incapacidade de abordar adequadamente os problemas culturais, históricos,  dimensão ética das causas e respostas às alterações climáticas antropogênicas”.

Pelo mundo afora, leituras críticas são feitas a respeito da ausência da cultura no Acordo de Paris e também da forma apática com o dimensão aparece nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da ONU. Uma análise do conselheiro da Organização das Nações Unidas, Alfons Martinell, aponta dez possíveis razões para que o setor não tenha sido incluído nos ODS. O espanhol sugere, entre elas, o estranhamento do conceito de sustentabilidade, oriundo das ciências naturais, no campo da cultura. 

A noção entre diversidade cultural e biodiversidade ainda está desassociada, quando, na verdade, deveria se falar de diversidade biocultural, diz José Barros, coordenador do Observatório da Diversidade Cultural, em entrevista ao Nonada. “Eu diria que os ambientalistas possuem uma maior consciência sobre a importância da cultura do que os agentes culturais sobre a intrínseca relação com a justiça climática”, avalia.

Para o grupo de trabalho global, a criação da coalizão intergovernamental na COP28 pode significar um avanço concreto da agenda. “A crise climática exige mudanças abrangentes na forma como vivemos. A cultura e o património estão integrados em todos os aspectos da vida das pessoas e, portanto, são uma parte essencial e central desta transição”, afirma no comunicado a presidente do ICOMOS, Teresa Patricio.

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Nortista vivendo no sul. Escreve preferencialmente sobre políticas culturais, culturas populares, memória e patrimônio.
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