Ilustração: Uma Ecologia Decolonial/divulgação

Livro Uma Ecologia Decolonial mostra que a abordagem interseccional é essencial para repensar o antropoceno

“Os seres humanos cercam-se da Terra sempre à bordo da mesma arca”. É o que fala o livroUma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho”, do pesquisador caribenho Malcolm Ferdinand. Em três atos, com capítulos nomeados a partir de navios negreiros, o autor conta como o planeta foi apropriado, explorado e massacrado pelo colonialismo branco europeu. 

Para conseguirmos navegar por entre este navio-mundo e nos livrarmos da exploração, devemos curar a dupla fratura colonial deixada tanto pelo tráfico de pessoas escravizadas, quanto pela destruição dos recursos naturais. Assim, para pensar em ecologia, uma abordagem interseccional é necessária. O livro foi lançado em 2022 pela editora Ubu e é o primeiro livro do engenheiro ambiental. Durante a leitura, brotam sentimentos de revolta e indignação. O texto é um convite a mudar a forma como se concebe o planeta – e agir em prol disso. 

“A ecologia decolonial é um grito multissecular de justiça e de apelo por um mundo.”

O plantation, sistema de monocultura com mão de obra escravizada voltada para a exportação simboliza uma das formas de exploração que deixou o Planeta desta forma: praticamente destruído para todos que o habitam. Essa forma de extrativismo só consegue produzir um monofuturo insosso. Ele nega que existem formas diferentes de viver. Há quem não enxergue isso porque está alguns centímetros acima da miséria absoluta. Mesmo assim, estamos todos cercados dos mesmos limites do mundo e a recusa em ver acarreta mais chama para a destruição em curso. Na tempestade ecológica em curso, tapar os olhos não muda a disposição dos acontecimentos. 

Para Ferdinand, o pensamento ecológico a partir do Caribe subverte a lógica colonial de que esta região serve somente para o turismo exótico de colonizadores. O autor evoca Calibã, da peça “A tempestade”, de Shakespeare. Assim como Silvia Federici em “Calibã e a Bruxa”, a personagem desprovida de razão, orientada somente pelo corpo, é colocada em evidência contra as morais europeias. No teatro, uma tempestade leva personagens da corte real a uma ilha distante da Inglaterra, o Caribe. A escolha por essa região se dá porque lá foi o primeiro encontro entre os europeus e o Novo Mundo e este local é tido como um paraíso místico turístico inabitado, disponível sempre para colonizadores irem e voltarem conforme suas vontades. 

O autor, ao colocar em evidência o Caribe, possibilita vermos do porão da modernidade uma outra forma de compreender o mundo. Ou melhor, uma forma de compreender o mundo que é negada sistematicamente para as pessoas negras desde que estas sofreram a diáspora e foram renegadas à condição de não-pessoa. A solução é descer as escadas, escutar e decidir para onde vamos atracar a arca – ou remediar a dupla fratura. 

“Essa perspectiva colonial persiste ainda hoje na representação turística do Caribe como um intervalo de areia inabitado fora do mundo. Pensar a ecologia a partir do mundo caribenho é a derrubada dessa perspectiva, sustentada pela convicção de que os caribenhos, homens e mulheres, falam, agem, pensam o mundo e habitam a Terra.”

Com o planeta em colapso, existem aqueles que tentam escapar. Os eventos climáticos extremos causados pela intensificação da ação humana no meio ambiente fazem a Terra chacoalhar. Tentam fugir os humanos que querem ir para Marte construir uma nova Terra ou quem se refugia em condomínios de luxo com paisagem estática e artificial. Quem faz isso, contribui com a destruição do mundo, deixando quem não têm essa escolha sofrer com as maiores consequências ambientais. 

Esta é a prática colonial desde que os europeus cruzaram os oceanos em busca do Novo Mundo com pessoas africanas em porões nos navios negreiros. O início da queda do mundo ocorre nesta tempestade, gerando a dupla fratura pela destruição dos ecossistemas naturais das Américas e pela extrema violência imposta às pessoas negras que atravessaram o Oceano Atlântico forçadas. 

O ingresso permitido nessas espaçonaves bilionárias e outras formas de sair do caos estão na imagem da Arca de Noé. Lá, o dilúvio foi utilizado como pretexto para autorização de quem poderia se salvar. Mais uma vez, acontece a segregação de quem merece estar vivo e quem vai sofrer com as consequências nefastas desta tempestade incessante ecológica. Conceitos como “racismo ambiental” nos explicam que os grupos historicamente mais vulneráveis são também os que mais sofrem com as consequências ambientais. 

O movimento ecológico desvencilhado de classe e raça também sofre críticas. Ferdinand aponta que existem ecologistas que dizem lutar pelo mundo, mas que não se engajam na luta pela libertação das outras formas de opressão. Para lutar em prol do planeta, é necessário escutar os povos originários, camponeses, populações remanescentes de quilombos, ribeirinhos.

Foram várias as formas de resistência ao sistema colonial que as populações negras empregaram ao longo do século. Ferdinand explica que as populações remanescentes de quilombos, inclusive, continuam exercendo sua luta por meio da negação da imposição do sistema colonial, vivendo entre eles uma forma de respeito e comunhão com a natureza diante do habitar colonial do mundo. 

“A Terra é a matriz do mundo. Nessa perspectiva, a ecologia é uma confrontação com a pluralidade, com os outros além de mim, visando à instauração de um mundo comum. É a partir da instauração cosmopolítica de um mundo entre os humanos, juntamente com os não humanos, que a Terra pode se tornar não apenas aquilo que se partilha mas também aquilo que se tem ‘em comum, sem possuir de fato’.”

Que possamos, na iminência da tempestade dizimadora, pensar em formas de habitar o mundo focadas no bem viver coletivo. O sistema de plantation já nasce falido, porque explora e pressupõe que a saída está na produção em escala infinita. Com recursos escassos, a vida a bordo da Terra pode focar no decrescimento e na saída do consumo. Assim, o barco pode parar, trazer todos para o convés e dar partida para um horizonte em comum. 

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Repórter e fotógrafa. Escreve prioritariamente sobre cultura e meio ambiente, culturas populares e educação
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