Na mata escura, o caçador anda pé por pé, equilibrando-se entre a firmeza e a delicadeza. Na caça, são necessárias doses de estratégia, silêncio, sabedoria e movimento. Não cabe a precipitação, sob o risco de se virar o alvo. Tem de ser exato, ainda mais quando há uma única flecha em mãos. Assim é Odé, o Orixá caçador. Assim era Mãe Stella de Oxóssi, uma das ialorixás mais importantes da história do Brasil. Em 2025, ela completaria 100 anos.
Como é do feitio de Oxóssi, a vida de Mãe Stella foi marcada por conquistas que reverberam para o coletivo. Maria Stella de Azevedo Santos, seu nome de registro, nasceu “sobre os braços do senhor do Bom Fim”, em Salvador, no ano de 1925. Viveu 93 anos, dos quais quatro décadas foram dedicadas à vida de ialorixá no centenário terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.
Toda sua vida religiosa aconteceu no Ilê, desde a iniciação aos 14 anos, por Mãe Senhora, quando recebeu o nome Ode Kayodê, que significa ‘caçador traz alegria’. O Afonjá é um tradicional e importante terreiro de Candomblé Ketu, fundado por Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, em 1910, e reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Iphan.
De fala baixa, olhar cismado e palavra certeira, Mãe Stella deu continuidade a um matriarcado de quatro gerações de ialorixás que lhe antecederam. Mãe Stella levou o Candomblé para espaços importantes de reconhecimento, sendo enorme defensora das matrizes africanas de conhecimento no Brasil. “Eu digo que a minha mãe era vanguardista. Era uma pessoa capaz de transformar o impossível em possível”, define Sany de Iemanjá, sua filha de santo.
Quando Sany nasceu, a família dela já era amiga da família de Stella há muitos anos. Ela, então, não lembra de uma vida em que Mãe Stella não estivesse presente. Foi a ialorixá que pela primeira vez abençoou a sua cabeça, seu Orí. “Ela tinha uma mente futurista e isso era diário. Seu legado não é só na espiritualidade. Ela tem um legado cultural”, avalia Sany. Mãe Stella lutou por reconhecimentos formais ao Candomblé. Em 1999, depois de muito batalhar, conseguiu o tombamento do Ilê pelo Iphan, tornando-o o segundo terreiro do Brasil a receber esse reconhecimento como patrimônio histórico nacional.
Ela criou um museu, uma biblioteca, uma escola de currículo afrocentrado. Dedicou-se à escrita e produção intelectual através das crônicas no jornal soteropolitano A Tarde e dos diversos livros publicados, entre eles o celebrado Meu Tempo é Agora, publicado pela primeira vez em 1993. Sua preocupação constante era comunicar o terreiro para fora dos limites da roça. “Ela foi para mídia, registrou no papel, viajou para o exterior, sempre mostrando o papel da mulher, da ialorixá”, destaca Sany.
Intelectual, escritora e pensadora, ela era uma mulher versátil, segundo sua comunidade. Mulher sábia nas estratégias, alçou oportunidades, parcerias e articulações políticas, entendendo que o terreiro era um lugar de destaque e de conhecimento e que, assim sendo, precisava de investimento, comunicação e preservação.

Cláudio Fonseca, advogado, professor de francês, mestre em estudos afro-brasileiros pela UFBA, foi filho de santo da Mãe Stella. Iniciado por ela nos anos 90, ele conheceu a sacerdotisa aos 20 anos de idade, quando ainda era estudante secundarista. Depois de um período difícil na vida pessoal, Cláudio retornou ao terreiro e mãe Stella lavou a sua cabeça. Com o tempo, passou a morar dentro do terreiro e ela se tornou, de fato, sua mãe. “Mãe Stella era uma pessoa de grande inteligência e uma sagaz conhecedora dos ritos e da cultura negra, afro-brasileira e do Candomblé.”
Conhecida por ser transgressora, a palavra sempre foi um bem maior para a ialorixá. “Ela era uma pessoa muito reservada. De poucas palavras, mas de palavras certeiras”, conta. Em 1982, já estava fazendo um manifesto contra o racismo religioso. Viveu uma vida inteira dedicada a discussões sobre igualdade étnico-racial e sobre a preservação das tradições afro religiosas. No ano de seu centenário, a trajetória de Mãe Stella foi homenageada pelo Congresso Nacional em uma sessão solene que, entre outros fatos, destacou sua vocação para a educação.
“Mãe Stella foi flecha certeira contra a intolerância, a ignorância e o preconceito. Fundou a comunidade Oba Biyi, criou escolas, museus, hortas, oficinas; publicou livros, pronunciou conferências, formou líderes, acolheu crianças. Como enfermeira, cuidou dos corpos, e, como sacerdotisa, curou as almas. Era firme, sem ser intolerante. Como Oxóssi, amava ensinar e aprender”, disse o deputado Bacelar (PV-BA) durante a sessão solene em junho de 2025.
O ano de seu centenário também foi marcado por outras homenagens ao seu legado, como a construção do Memorial das Matriarcas, na casa onde nasceu, no Pelourinho. O projeto expográfico foi concebido para receber adaptações a cada nova homenagem e a primeira sacerdotisa homenageada é a antiga moradora do imóvel, celebrando o seu centenário. A curadoria do espaço para a abertura é da atual ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Ana de Xangô, e de Ebgome Deusimar.
“O que não se registra, o vento leva”
Mãe Stella mantinha um compromisso longevo com a preservação da memória, pois ela entendia a escrita como uma tecnologia aliada à tradição. Em seu livro, escreve: “não é mais possível a prática da crença nos Orixás sem reflexão. A tradição somente oral é difícil nos tempos atuais. Até mesmo, porque a aquisição da escrita pela humanidade é um ganho, e não uma perda.”
Canhota, ela fazia muitas anotações. O seu livro Meu tempo é agora foi escrito, inicialmente, para orientar a comunidade do Ilê, pois ela entendia que não seria possível transmitir tudo pela oralidade a todos. Só que a obra, grande como ela, assumiu um tamanho outro e se tornou um dos principais livros sobre Candomblé no Brasil. Segundo seus filhos, “ela gostava de desmistificar as coisas” e escrever também era uma forma de fazer isso.
O registro para a Ialorixá não era um ataque à tradição, muito pelo contrário, era um apreço pela continuidade do sagrado, das práticas e dos fundamentos. “Ela levou o terreiro para fora de seus muros, sem descortinar o segredo”, reflete Cláudio. O segredo a que se refere é tudo aquilo que não pode ser tornado público no Candomblé. “Mãe Stella era uma estrategista. Ela expôs o que poderia ser exposto”, sintetiza Cláudio.

O tempo era uma palavra central para Mãe Stella. O título de seu livro era também uma afirmação política. Ela dizia “Quero manter a minha tradição, mas pensar dentro do meu tempo.” Ao falar isso, a Ialorixá também reivindicava o lugar das tradições afro religiosas no futuro, em constante revisão e atualização com a contemporaneidade. Assim, ficou conhecida uma das suas mais famosas frases: “o que não se registra, o vento leva”
A icônica frase de Mãe Stella ecoa fortemente para Tacun Lecy, fotógrafo e pesquisador. De alguma forma, ele coloca em prática, ao pé da letra, o ensinamento da Ialorixá, mas não pela via da palavra como ela, mas pela via da imagem fotográfica. Ele tem como missão fotografar os ritos do Candomblé, em especial dos Candomblés do Recôncavo Baiano.
“Um dia todos nós vamos embora, mas as imagens ficam”, reflete. No final dos anos 90, Tacun Lecy conheceu a Mãe Stella. Ele foi ao Ilê Axé Opó Afonjá a convite de seu amigo Cláudio Fonseca. “Todo mundo achava ela séria, uma pessoa sisuda. Claro, uma ialorixá, com muitas coisas na cabeça, muitas ocupações pessoais e intelecutais”. Mas a fotografia que Lecy captou de Mãe Stella mostrava uma brecha, que só a proximidade poderia revelar: o sorriso. Mãe Stella olhou para o fotógrafo e logo enxergou que eram filhos do mesmo pai: Odé, o caçador.
As palavras naquele dia foram inesquecíveis, certeiras e flechadas como era a marca da Ialorixá. “Oxóssi é um Orixá de muita ousadia, mas ele traz de volta a caça. Nem toda caça pode ser apresentada”, ouviu de Mãe Stella. E ela disse mais: “você é o caçador, mas ao invés de arco e flecha, você tem uma câmera.” Foram mais de duas décadas atrás, mas o fotógrafo lembra até hoje. Mãe Stella era uma mulher de palavras inesquecíveis.

Educação como fundamento
“Meu filho, estude”, costumava dizer. A educação era um fundamento e uma lição que deixava a toda comunidade. Jorge Vasquez, suspenso Ogã de Iansã, nasceu dentro do Ilê Axé Opó Afonjá. Enquanto falava por vídeo ao Nonada Jornalismo, um quadro imenso de Mãe Stella, pintado em preto e branco, figurava em seu fundo. É como se, ao falar, a mãe estivesse sempre sobre sua guarda. Primeiro filho de santo de Stella, ele nunca conseguiu chamá-la assim, porque a conheceu muito antes que se tornasse ialorixá. Assim, para ele, ela era “tia Stella”.
“Ela criou uma escola dentro do terreiro. Ela fez até congresso no terreiro”. Em um tempo em que a religião de matriz africana ainda não era nem mesmo protegida pela lei, como hoje é —- o que não impede, mas criminaliza o racismo religioso, Mãe Stella defendeu a religião a partir de todas as frentes possíveis: espiritual, política, cultural e educacional.
Dentro do Ilê, Mãe Stella construiu a Casa do Alaká, em 2002, um museu destinado à preservação e feitura do Pano da Costa, tecido de formato retangular, composto de faixas, costuradas manualmente, que formam padrões geométricos. A ideia surgiu depois que a Iyá fez uma visita a um país do continente africano. Voltou certa da importância de preservar essa tradição, realizando cursos de tecelagem dentro da casa. Hoje no espaço 4 tecelãs trabalham diariamente no local. “Ela não queria que essa arte se perdesse”, conta Emanuel Nascimento. O nome do pano faz referência à costa ocidental do continente africano.
Quando assumiu o cargo de ialorixá, a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, dentro do Ilê, ainda era uma creche. Mãe Stella conseguiu transformá-la em escola municipal, referência no currículo afrocentrado. Em 1983, fundou uma Biblioteca dentro do terreiro, que hoje leva seu nome. Pensadora de um Brasil a partir das matrizes africanas, Mãe Stella dizia “se você não tem noção de quem você é, você vai ser esmagado”. E Sany hoje diz: “Minha mãe tinha razão”.

Além da educação como projeto, ela incentivava individualmente os filhos e a comunidade a apostarem na educação como caminho. Ela colocava fé nas ideias dos mais jovens, que depois, tornaram-se, de fato, pessoas contribuindo de forma grandiosa ao mundo. “Ela entendia a escola como uma enorme possibilidade para as crianças negras”, explica Vanda Machado, escritora e professora colaboradora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Precursora e incentivadora da língua Iorubá em Salvador, a Ialorixá insistia que a única coisa que ninguém poderia roubar era a educação. “Quero ver os meus filhos com o anel no dedo, aos pés de Xangô”, dizia.
Defendeu a educação, dentro e fora do terreiro. Queria que seus filhos passassem pela universidade, como ela mesma, graduada em enfermagem pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A defesa da educação é um dos legados mais comentados pelos filhos. “Ela queria doutores dentro do terreiro”, conta Jorge. A vocação para educação no centenário Afonjá tem raízes na sua fundadora, Mãe Aninha, que sempre enfatizou o alicerce educativo no terreiro.
O incentivo ao voo dos filhos rompia também com uma visão mais antiga, de alguma forma, de uma dedicação exclusiva à religião. “O Orixá está aqui para vocês irem para o mundo”, dizia. “Orixá quer que a gente cresça.”
Essa era a visão dela para dentro, para sua comunidade, mas Mãe Stella estava sempre pensando no entorno, na sociedade. “A preocupação dela nunca foi só alimentar o axé, mas a questão social predominava”, afirma Sany. “Ela era uma verdadeira feminista. Gostava de empoderar as pessoas”, conta Sany. A Educação que Mãe Stella acreditava era, naturalmente, multidisciplinar – com artes, música, capoeira. “Ela trabalhava para todos, não só para os nossos, independentemente se era ou não do Candomblé.”
“Eu digo que a minha mãe era vanguardista, tinha uma mente futurista. Era uma pessoa capaz de transformar o impossível em possível”, define Sany de Iemanjá, sua filha de santo.
Pensadora do futuro
Em 2013, Mãe Stella passou a ocupar a cadeira de número 33 na Academia Baiana de Letras. Sendo a primeira ialorixá do Brasil a se tornar imortal da instituição, cujo patrono era Castro Alves, o momento foi um marco para a cultura afro-brasileira e para a literatura, que reconhecia ali o valor dos conhecimentos de terreiro dentro do ambiente institucional.
Foi a partir da relação com o conhecimento que muitas pessoas chegaram a Mãe Stella. Em seu livro O meu tempo é agora, ela reforça que a aproximação com o Ilê, muitas vezes, acontece, não pela via religiosa, mas pelo caminho do saber. Foi assim que a professora e escritora Vanda Machado chegou há mais de 30 anos.
“Eu não entrei no terreiro buscando a iniciação. Fui porque eu desenvolvia um trabalho sobre cultura negra”, conta. Embora Salvador seja a cidade com maior população negra do Brasil, Vanda conta que no período em que entrou no Mestrado, em 1985, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), ainda havia poucos espaços para se falar em África dentro dos muros da universidade.
“Fui para o Ilê aprender a ensinar sujeitos solidários, autônomos e coletivos. Era o lugar que sabia que encontraria um entendimento de mundo afro-brasileiro. Eu precisava de uma nação que me abraçasse”
E foi Mãe Stella quem abraçou Vanda, ainda estudante, no que depois viria a se tornar uma missão de vida. Vanda Machado é conhecida por criar o projeto pedagógico “Irê Ayó” (Caminho da Alegria/Boa Sorte), dentro do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, uma epistemologia afro-brasileira e pedagógica que valoriza as cosmovisões africanas na educação brasileira. Ela e Mãe Stella tinham um sonho em comum, bem antes da Lei 10.639: conectar a escola e o terreiro, enfatizando as matrizes africanas em sala de aula.
O grande encontro entre as duas aconteceu em Nova Iorque, durante uma conferência, quando Vanda pôde apresentar o seu projeto de ensino de relações étnico-raciais na escola. Os olhos de Mãe Stella brilharam e ela prometeu à escritora que, no retorno à Salvador, a levaria à casa de Xangô. “Ela me ajudou a me entender na academia como uma mulher negra”, conta.

Mãe Stella foi, em toda vida, promotora da igualdade racial. Em 2025, ano do centenário, foi agraciada postumamente com o título de Promotora da Igualdade Racial pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR). O reconhecimento ressalta seu papel e sua coragem como matriarca da igualdade e defensora da ancestralidade negra no Brasil.
Emanuel Nascimento, Ogã de Oxóssi, é presidente da Sociedade Cruz Santo, o braço civil do terreiro. Conviveu com Mãe Stella durante todas as etapas de sua vida: infância, adolescência e adultez. Ela era, segundo Emanuel, uma pessoa com um pé em todos os tempos. “Ela sempre foi uma grande educadora. Sempre pensou no futuro.” Hoje, ao lado de Mãe Ana de Xangô, ele é responsável por dar continuidade a uma série de construções que Stella iniciou, como a escola.
Foi Mãe Aninha, a fundadora do Afonjá, que criou a Sociedade Cruz Santa em 1936. Mas foi Mãe Stella que formalizou e estruturou a entidade, criando o CNPJ, o estatuto e o código de conduta. Como braço da mãe de santo, a Sociedade é responsável pela manutenção do terreiro e a relação com parceiros.
“As grandes líderes do Afonjá sempre foram vanguardistas”, comenta Emanuel. “Mãe Stella consolida a Sociedade com ações governamentais. É o lugar que vai ter o cunho político social, onde é possível levar a voz do terreiro para fora.”
Mãe Stella tinha preocupações com questões bastante contemporâneas, que hoje seguem sendo tema de discussão nos diversos campos, inclusive na academia, como os limites éticos da fotografia dentro do terreiro. Sua mentalidade era de constante reflexão e abertura de caminhos para que, após o seu falecimento, outras pessoas pudessem dar seguimento ao que fazia. “Ela deixou a casa pronta para tudo, para todos os processos.”
Um dos ensinamentos que tinha era o compartilhamento de responsabilidades. Ela sempre acionava um grupo ao redor dela. “Ela tinha uma ideia e a gente se organizou para realizar. Ela tinha um grande poder administrativo, tanto um poder civil, quanto um poder religioso”, lembra Emanuel.

Ousadia para questionar
Embora seu Orixá de cabeça fosse Oxóssi, Mãe Sany lembra o quanto Mãe Stella consultava Xangô, patrono da casa, para tudo. Seguia firmemente as orientações de Xangô, fossem dúvidas sobre questões do Ilê ou de passos futuros que daria em seu projeto artístico, cultural, educacional. Mesmo que discordasse, pessoalmente, do Senhor da Justiça, era fiel ao obedecê-lo.
A trajetória luminosa de Mãe Stella não foi, porém, sem percalços e resistências. A Ialorixá enfrentou muitas críticas e resistências devido a sua visão considerada transgressora. Dentro e fora do terreiro, nem todas as vozes estavam de acordo com as transformações propostas por ela.
Muitos acreditavam que ela estaria violando a tradição ao propor, por exemplo, o registro escrito dos ritos. Ela também encampou uma certa luta para desamarrar o Candomblé do Sincretismo, defendendo que a religiosidade de matriz africana não precisava de validação católica para ficar de pé. Nas críticas que ouvia, uma frase era comum: “Não, mas no meu tempo não era assim. Agora Stella faz assim.”
Mãe Stella dizia: o Axé não precisa de validação. Então, ela iniciou um movimento que depois se espalhou por outros terreiros. Dizia que Iansã era uma, Santa Bárbara era outra. Não era castradora, no sentido de proibir o culto a Santa, mas defendia, como uma epistemologia, que a separação era importante. Uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa. “Rompeu para que o Candomblé pudesse ser entendido como uma religião própria, porque nós cultuamos as energias da natureza. Os Orixás são encantados.”
Só que o tempo de Stella era o agora, como é o título de seu livro, então ela não arredou o pé naquilo que entendia ser de suma importância. “Quero manter a minha tradição, mas pensar dentro do meu tempo”, dizia. Mãe Stella era uma mulher de verdades profundas. A flecha que caçava, era disparada com foco e equilíbrio.

Como o caçador, propunha rupturas no modo como as coisas vinham sendo feitas — visando o futuro coletivo. “Ela era transgressora. Vai romper com muitos dogmas existentes na Bahia, ao mesmo tempo que minha mãe era austera com a proteção dos ritos”, reflete Cláudio.
Um dos desafios enfrentados por Mãe Stella foi dar continuidade a um legado centenário que já existia. Conta-se que ela sofreu muito logo que foi anunciada a nova ialorixá do Afonjá, em 1976, sucedendo Mãe Ondina (Iwin Tonan). Diferentemente de fundar uma casa, dar continuidade a um legado centenário e matriarcal traz dificuldades específicas a uma mãe de santo, que precisa zelar por muitos além dela mesma.
Para enfrentar os desafios, a Ialorixá mantinha-se serena. “Era franca, mas dura. Não como um sinal de grossura, mas às vezes era entendida assim. Todas as pessoas que são muito verdadeiras correm o risco de serem lidas como ríspidas”, aponta Sany.
“Ela era transgressora. Vai romper com muitos dogmas existentes na Bahia, ao mesmo tempo que minha mãe era austera com a proteção dos ritos”, reflete Cláudio
Além das transformações, consideradas como inovações, muitas vezes, que já eram consideradas polêmicas por parte das comunidades de axé, a própria vida pessoal de Mãe Stella foi alvo de preconceito e de questionamentos. Discreta sobre tudo que envolvia sua vida pessoal, demorou um tempo para vir a público de que ela era uma mulher lésbica.
Conforme foi envelhecendo, conta-se que foi se sentindo um pouco mais confortável para viver essa dimensão de sua identidade, ainda que com muita descrição, dado a homofobia que preconceito que sempre existiu. “Se hoje já é difícil, imagina naquela época ser uma mulher, negra, de candomblé e homossexual”, comenta Sany.
Sua personalidade forte, questionadora e transgressora foi vital para o sucesso de todos os feitos que teve em vida. Uma mulher de certezas, se tomava uma decisão, seguia firme nela até o fim. “Se ela decidisse se calar sobre algum assunto, não falava mais nada”, conta Jorge. Nada disso sem grande amorosidade, lembra Sany. Se dava um murro na testa ou “uma bronca” era seu grande sinal de importância, de amor.

Uma sábia ouvinte
Para descrever a Ialorixá, existem duas palavras que sempre aparecem pela fala de quem a conheceu. A primeira: inteligência. A segunda: escuta. A sabedoria adquirida nas mais de 9 décadas de vida, em seu caminho de destaque, estava também em ser uma pessoa que escutava a todos.
Com a mão sobre o queixo, olhava para cima, sentada na cadeira de madeira que costumava sentar, em uma postura de sábia ouvinte. Escutava e também buscava dentro de si a resposta. “Ela sempre dizia que aprendia com os mais velhos, com os que estão ao lado e com os que estão nascendo”, conta Vanda.
Atenta desde a melodia da cantiga até a dúvida de uma criança, ela era uma observadora das ações e das palavras, e estava sempre aberta a outros tipos de sabedoria. Vanda conta que ela era receptiva ao diferente e que “tinha prazer em escutar.” Quando falava, era com o coração. Deixava seu conhecimento sair do corpo todo. “Mesmo com toda sabedoria nata que estava dentro dela, ela ainda assim escutava muito.”

Ao falar, não se precipitava. Era cirúrgica, pensava muito antes de dizer. Assim, ensinou aos filhos outra lição: o bom uso das palavras. Seu modo de educar a comunidade era pelo exemplo, pela conduta. “Mãe Stella era um espelho. Se você conversasse minimamente com ela, você se espelhava”, lembra Vanda.
A simplicidade também foi uma de suas características principais. “O poder nunca subiu à cabeça. Ela não gostava da pompa em torno dela”. Era possível perceber isso até mesmo nas formas de se vestir. Preferia calça às tradicionais saias brancas. A roupa que mais utilizava era o Abadá Africano, um conjunto de calça utilizado na religião. Seu cordão de contas era de espessura fina, sem grandes pesos.
Não era uma mulher dos excessos ou das demonstrações de poder, até mesmo na forma de se alimentar. Apreciava um bom vinho,uma boa comida, mas a alimentação que mais lhe agradava era aquela do seu território: um bom cuscuz e um bolo de milho saído do forno.
Muitas vezes, a figura da ialorixá ou do babalorixá se torna próxima do divino, mística, mas Mãe Stella era contrária a isso. Fez questão de reinvindicar a própria humanidade. Divinos são os Orixás, ela era uma pessoa, com suas complexidades. “Eu trabalho com seres humanos cheios de defeito, inclusive eu”, costumava dizer.
Transformar o impossível em possível
“As pessoas ainda não se deram conta do tamanho do legado de Mãe Stella”, acredita Vanda Machado. O título de Ialorixá das Letras espalhou-se pelo Brasil, atrelado como sua principal característica. Mas quem conhece a trajetória percebe que a versatilidade de suas contribuições em diferentes aspectos da cultura. Não beneficiou só o Ilê Axé Opó Afonjá, mas as casas de religião de matriz africana de modo geral. Não falou só com Salvador, comunicou com o mundo.
“Dizem que ela foi uma grande escritora, e foi, mas eu vejo que ela foi além. Ela foi uma grande pensadora do Brasil, uma pessoa de grandes articulações”, analisa Vanda Machado. “Ela era capaz de dar novas direções a antigos caminhos, fossem eles religiosos, sociais ou políticos. Ela poderia decidir o que fazer e o que não fazer.”
Quem conheceu Mãe Stella não sente que ela morreu, pois sua presença é contínua. Tudo que começou por suas mãos dentro do terreiro — a biblioteca, o Alaká, a escola, segue funcionando. Suas palavras sagradas ecoam nas páginas dos livros que escreveu e na mente de quem a escutou.
Como faz uma pensadora, Mãe Stella tinha metodologia: era multiplicadora. Não lhe interessava ensinar receitas prontas ou milagrosas, no sentido da reprodução. Para fortalecer a tradição do Candomblé, entendia que todos precisavam estar capacitados para assumir diferentes funções.
“Dizem que ela foi uma grande escritora, e foi, mas eu vejo que ela foi além. Ela foi uma grande pensadora do Brasil, uma pessoa de grandes articulações”, analisa Vanda Machado.
Mãe Stella não concordava em “dar o bolo pronto”, mas, preferia apresentar os ingredientes para que cada pessoa pudesse fazer o próprio bolo, com as próprias mãos. Ou seja, caminhar com os próprios pés.
A alusão trata dos assuntos religiosos, dentro dos ritos do terreiro, mas também é um ensinamento sobre a organização em comunidade, a vida a partir do pensamento afrocentrado. Não lhe interessava ser a matriarca que concentra o poder do conhecimento. Tinha a vocação de compartilhar. “Ela ensinava sobre o terreiro e sobre as culturas negras não porque ela achava que as pessoas precisavam aprender sobre os Orixás. Ela queria trazer a referência do continente africano”, ressalta Vanda.
Um dos ensinamentos que Vanda lembra sempre que tem uma dificuldade na vida era o que Mãe Stella falava sobre autorresponsabilidade. “Na vida, às vezes a gente tem dificuldade de olhar nossas questões e mergulhar nelas”, lembra. “Quando você se sentir assim, pergunte à sua Mãe Oxum”, dizia.
“Virou uma norma para mim. Eu aprendi a mergulhar nas minhas decisões. Ela tinha uma riqueza interior. Ela era como a riqueza do Odé, que distribuía com os filhos, o seu saber e o seu penar.”
Mãe Stella incorporava um valor que rege as cosmovisões afro-diaspóricas: a coletividade. “No Candomblé, quanto mais a gente divide, mais axé existe. Candomblé não é unidade, é comunidade”, diz Mãe Sany.
Há 7 anos, Mãe Stella de Oxóssi deixou o Aiê, a terra. Nas tradições de Candomblé a morte é entendida pela ótica da transformação. No seu nome de nascimento, “Stella”, continha um destino: ser uma estrela. Como tal, nunca esqueceu que ela era também parte de uma constelação. Brilhou com firmeza, e ainda brilha no presente, pois seu tempo segue sendo o agora.