Nas bibliotecas públicas de SP, estrangeiros circulam mais que autores periféricos

Dados mostram que franquias internacionais são muito mais lidas do que autores locais nas bibliotecas do estado
Foto: Secretária de Comunicação Prefeitura de São Paulo / Divulgação

São Paulo (SP) – Wesley Barbosa começou como leitor antes de saber que também seria escritor. Adolescente no Jardim Santa Júlia, na periferia de Itapecerica da Serra, São Paulo, ele pegava carona para chegar a uma biblioteca municipal no centro, onde lia o que estivesse disponível — romance, poesia e filosofia. Quando a leitura deixou de ser curiosidade e virou busca, o caminho ficou mais estreito.

O “corre” para acessar uma maior diversidade de leituras o levou a livrarias e sebos e, depois, à escrita. Hoje, apesar de já ter vendido milhares de livros, participado de feiras como a Feira Internacional de Paraty, a FLIP, e criado uma editora, ainda assim, diz não ter certeza se suas obras estão disponíveis nas bibliotecas municipais de São Paulo. “É difícil uma obra ser adotada aqui”, afirma.

A trajetória de Wesley, da biblioteca como ponto de partida e também como barreira, exemplifica o que mostram os dados oficiais de empréstimos: franquias e best-sellers circulam em escala massiva, enquanto autores periféricos têm circulação reduzida. O contraste abre discussão sobre diversidade, formação de leitores e política pública cultural.

O ‘vizinho tá longe’

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que, em 2024, apenas a franquia Diário de um Banana, de Jeff Kinney, registrou 16.672 empréstimos na rede municipal. Em unidades localizadas em territórios periféricos, o padrão se repete: no CEU Quinta do Sol, no Cangaíba, foram 466 retiradas; no CEU Três Lagos, no Grajaú, 367.

No mesmo período, autores identificados editorialmente com a literatura periférica paulistana tiveram circulação muito menor. Ferréz, romancista e poeta, registrou 131 empréstimos; Sérgio Vaz, conhecido como poeta da periferia, 113, uma diferença superior a cem vezes em relação à franquia internacional.

A discrepância indica desigualdade naquilo que efetivamente circula. Os dados fornecidos pela rede mostram uma linha do tempo desde 2020, em que as diferenças persistem. Em busca manual feita pela reportagem no site do Sistema Municipal de Bibliotecas, Sérgio Vaz apresentou 24 resultados; Ferréz, 2; Jeff Kinney, 164.

Para esta reportagem, foram considerados 13 autores identificados com a literatura periférica paulistana, além de Ferréz e Sérgio Vaz. São eles e elas: Alessandro Buzo, Sacolinha, Allan da Rosa, Michel Yakini, Elizandra Souza, Jenyffer Nascimento, Mel Duarte, Lilia Guerra, Wesley Barbosa e Ricardo Terto, todos com circulação inferior à das franquias internacionais, segundo as planilhas anuais da rede.

Atualmente, o Sistema Municipal de Bibliotecas reúne 122 unidades, entre bibliotecas de bairro, CEUs e equipamentos culturais. Para dar conta dos números e o que eles significam, o Nonada Jornalismo ouviu especialistas de vários cantos da cidade. Todos foram unânimes em indicar que a saída é criar mecanismos permanentes de escuta, conversa e valorização dos coletivos periféricos, além da oferta de editais regulares para aquisição das obras e a inserção de saraus e slams na programação das bibliotecas. 

O escritor Wesley Barbosa. Foto: Divulgação

Cadê a Lei?

Mestre em Estudos Culturais e coordenador do Instituto Paulista de Juventude, Raimundo Justino da Silva avalia que o padrão observado não é casual. “As grandes editoras imprimem fortemente temas e autores ao mercado e acabam influenciando também as políticas públicas de leitura”, afirma. Para ele, discursos vinculados às vivências das periferias acabam secundarizados.

“Os autores da literatura periférica trabalham com uma linguagem muito próxima da realidade desses jovens. Talvez, além de rever o acervo, seja necessário investir em ações mais consistentes de formação de público nesses territórios.” Ele também aponta desigualdade na circulação entre centro e periferia. “É a cidade mais rica do Brasil. Se faz necessário fortalecer as bibliotecas como espaços vivos, mas está longe do ideal”, resume.

Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e coordenador do curso de pós-graduação em Bibliodiversidade e Políticas Editoriais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Haroldo Ceravolo Sereza afirma que o problema vai além da diferença de acervos e envolve a ausência de política estruturada. “Cada biblioteca precisa ter uma política para atender o território em que está instalada”, diz.

Ele lembra que, em 2016, um grupo de trabalho propôs a criação de uma política de aquisição com base na Lei nº 16.333/2015, que instituiu o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas. “Tudo indica que essa proposta não foi implementada a fundo ou, pior, foi abandonada”, cita. Para Sereza, a discussão passa pela bibliodiversidade. “Sem promover diversidade editorial, não é possível pensar numa política pública que valorize essa produção”. Segundo ele, faltam diretrizes claras e funcionários. “O mercado não pode ser a única referência”. 

À nível federal, uma análise dos documentos que regulamentam o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) e sua ampliação para bibliotecas públicas e comunitárias mostra que não há menção direta a autores periféricos ou à literatura produzida nas periferias urbanas. A mudança mais recente foi formalizada pelo Decreto nº 12.021, assinado em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ampliou o alcance do programa para bibliotecas públicas e comunitárias cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, permitindo que elas também recebam anualmente livros literários para atualização de seus acervos. 

Ainda assim, os textos normativos não estabelecem critérios específicos voltados à inclusão desse tipo de produção. Entre as diretrizes do programa aparece apenas a formulação geral de respeito às diversidades sociais, culturais e regionais, sem detalhamento sobre como essa diversidade se refletiria na seleção de autores ou obras.

A periferia escreve, mas não chega na biblioteca

Mestre em Letras pela USP, Nivaldo Brito mapeou, em sua dissertação Constelações no papel: antologias de saraus paulistanos, de 2025, 66 antologias organizadas por 24 coletivos periféricos ao longo de duas décadas. As publicações reúnem, em média, 48,78 autores por livro e somam 103.950 exemplares impressos, com preço médio de R$ 26,97.

Para ele, há vitalidade editorial que contrasta com a baixa presença dessas obras nas bibliotecas. “Um livro não chega às bibliotecas por acaso. Há uma exclusão metódica aí.” Segundo Brito, processos curatoriais ignoram as produções das quebradas. “Quem perde é o frequentador”. Para ele, a concentração de empréstimos em franquias internacionais não pode ser explicada por um único fator. “Há demanda e política de aquisição, mas também o eco da nossa formação colonial e os interesses das grandes editoras multinacionais”. 

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa informou que a formação e atualização do acervo seguem diretrizes técnicas comuns a toda a rede, com aquisição uniforme por meio de pregão eletrônico. Também respondeu que monitora dados de empréstimos, renovações e desempenho por categoria e afirma valorizar autores locais tanto na composição de coleções de história local quanto na programação cultural. Questionada, a Secretaria não informou metas quantitativas específicas de equilíbrio territorial na composição do acervo.

Formada em Gestão de Políticas Públicas, articuladora cultural e integrante do projeto Para ler, ver e contar, Rhasna Neves afirma que o desafio vai além da composição do acervo. “A simples existência do espaço físico não garante pertencimento real”, resume.  Ela argumenta que a adesão reduzida não pode justificar menos investimento. “Que rotina permite tempo e silêncio para a leitura?”, questiona. Também aponta ausência de autores periféricos, negros, indígenas e LGBTI+ nas estantes como fator de afastamento.“Garantir acesso à literatura não pode depender de edital. É direito. Cultura é arroz com feijão”, resume.

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