Há 36 anos, a ‘Voz de Deus’ estava na aldeia Apiwtxa, do povo Ashaninka, no rio Amônia, no Alto Juruá acreano. No alto de um barranco, um menino de 10 anos observava a chegada de visitantes. Depois, desceu até a água e atravessou o rio. A expedição, iniciada no rio Juruá, já durava dias mata adentro sob o comando do indigenista Antônio Macedo, o seringueiro que, à noite, erguia com paus, madeira e redes o improvisado “hotel do Macedo”.
Foi em um desses pousos, já no escuro, que a ‘Voz’ sentiu uma mão pesada tocar seu ombro. Era o mesmo garoto que, horas antes, havia atravessado as águas. Trazia um coco nas mãos. A oferta marcou o começo de uma amizade. Dias depois, na véspera da despedida, a ‘Voz’ puxou “Casamiento de Negros”, música da chilena Violeta Parra, e foi acompanhado pelo menino, algo que a surpreendeu.
A cena, vivida no Acre em setembro de 1989, uniu o então garoto indígena Benki Piyãko ao cantor e compositor Milton Nascimento – a expressão ‘Voz de Deus’ nasceu da admiração de Elis Regina em torno de seu canto e costuma ser atribuída à intérprete, que certa vez disse que, se Deus cantasse, teria a voz de Milton. A expedição durou 18 dias de barco, percorreu o rio Juruá a partir da cidade de Cruzeiro do Sul, na Amazônia brasileira, até a fronteira com o Peru. Teve como principais guias o antropólogo Beto Ricardo e o sertanista Antônio Macedo. Os líderes indígenas Ailton Krenak e Marcos Terena também integraram a comitiva.

Nos dias em que esteve lá, Milton foi acompanhado e guiado pelo menino Benki. Décadas depois, os dois seguem amigos, algo valorizado por Nascimento, hoje com 83 anos e aposentado. Benki, por sua vez, aos 52 anos é visto como um dos principais porta-vozes dos povos tradicionais do Brasil. “Fui designado como um dos pajés do meu povo e, desde muito jovem, passei a lutar pela proteção de nossas terras, da floresta amazônica, da nossa cultura e dos direitos dos povos indígenas”, define.
Com casa estabelecida no município de Marechal Thaumaturgo, no Acre, mas com relações e projetos mundo afora construiu uma trajetória de respeito e admiração. “A minha missão na Terra é de levar a mensagem sobre a floresta, sobre a Terra, a integração do homem com a vida da natureza”, cita. “Nós temos de fazer a humanidade da Terra conhecer a grande riqueza e beleza que nós temos sobre a nossa subsistência no planeta”.
Milton volta para casa
Em 1990, ano seguinte ao encontro no Acre, nasceu Txai, álbum em que Milton Nascimento transformou a experiência na floresta em projeto musical e político. Lançado pela CBS, o disco foi concebido como parte de uma campanha de apoio à Aliança dos Povos da Floresta, articulada pela União das Nações Indígenas. O trabalho reuniu composições autorais, como a faixa-título e “Coisas da Vida”, ao lado de cantos e referências de povos indígenas. O título veio de uma expressão da língua kaxinawá, ouvida por Milton durante a viagem ao Acre, e significa algo como “mais que amigo, mais que irmão: a metade de mim que habita em você e a metade de você que habita em mim”.
Entre as faixas do disco, Milton homenageou o menino em “Benke”. A canção o associa à água, ao beija-flor, à luz e à floresta, compondo a imagem de uma criança ligada à mata, à força e à beleza. O próprio encarte amplia esse sentido ao apresentar a música como uma dedicatória aos curumins de todas as etnias.

Hoje, o que pede atualização é a nomenclatura: embora o disco se refira a Benke como “curumim do povo Kampa”, Benki Piyãko é atualmente identificado como liderança Ashaninka, e “Kampa” aparece em fontes recentes como uma designação antiga, de origem não indígena, que permaneceu em nomes oficiais, como o da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, reconhecida como território do povo Ashaninka.
Segundo Danilo Nuha, jornalista, diretor musical e autor de Milton Nascimento. Letras, Histórias e Canções (Ed. Master Books), o encontro entre Benki e Milton deixou uma marca duradoura no cantor. Nuha afirma que, ainda menino, Benki “impressionou muito o Milton pelo conhecimento que tinha da floresta” e já revelava “uma postura de líder”, mesmo com pouca idade. Na leitura dele, essa impressão foi decisiva porque Milton reconheceu, desde a expedição ao Acre, que havia ali “uma aura muito especial” em alguém que, ainda criança, já apontava para a liderança que viria a se consolidar anos depois.
A relação não acabou na viagem de 1989. Segundo Nuha, os dois voltaram a se encontrar em outros momentos ao longo dos anos, entre eles um show de Milton em Belém, entre 2017 e 2018, além de uma nova viagem do cantor à Amazônia, entre 2018 e 2019. Para o autor, é “uma amizade muito especial”, que Milton levou para a vida inteira, mesmo sem convivência frequente. “Tanto que, ainda nos últimos anos, sempre que falava do disco Txai, em entrevistas ou nos shows, Milton fazia questão de citar Benki”, exemplifica.
Território em disputa
A vocação vista na infância se expressou de modo sólido na vida adulta. Hoje, Piyãko é liderança política e espiritual do povo Ashaninka. Sua atuação articula defesa territorial, preservação ambiental, formação política e valorização dos saberes tradicionais.
O trabalho é mobilizado em uma região historicamente atravessada por conflitos e disputas por território. No Alto Juruá, na fronteira do Acre com o Peru, os Ashaninka do rio Amônia enfrentam, há décadas, pressões de madeireiros, tráfico de drogas e de animais silvestres. Nos anos 1980, a Terra Indígena Kampa do Rio Amônia foi invadida para a retirada de mogno e cedro, episódio que deixou danos ambientais e socioculturais e impulsionou ações de recuperação de rios, lagos e matas com espécies nativas. Mais recentemente, lideranças e organizações socioambientais também passaram a alertar para ameaças ligadas à reabertura da estrada UC-105, no Peru, próxima a territórios indígenas na fronteira.
O contexto local se conecta a um quadro nacional de violência contra quem defende territórios e florestas, como o próprio Benk. O Brasil está entre os países mais letais para defensores da terra e do meio ambiente. Segundo a Global Witness, organização internacional de direitos humanos que monitora violações socioambientais e ataques a defensores da terra e do meio ambiente, ao menos 413 pessoas foram mortas ou desapareceram no país desde 2012 por atuarem nessa frente. Em 2024, foram 12 mortes registradas, atrás de Colômbia, Guatemala e México.

O trabalho de Benki ganhou projeção cedo. Aos 18 anos, participou da Eco-92, conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro que marcou o debate ambiental no início dos anos 1990. Depois disso, passou a circular também em fóruns institucionais e redes internacionais ligadas à pauta climática e aos direitos indígenas.
Ao longo das décadas, sua atuação se desdobrou em iniciativas de reflorestamento, educação e fortalecimento comunitário, na aldeia Apiwtxa e arredores. Depois de anos de atuação dentro do território Ashaninka, deixou a terra indígena para iniciar projetos em comunidades vizinhas. “A ideia era ampliar esse conhecimento para além da aldeia, fortalecendo povos indígenas e não indígenas em práticas de reflorestamento, recuperação ambiental, segurança alimentar, cura tradicional e proteção dos conhecimentos ancestrais”, explica. “Há 20 anos, com o apoio de amigos e parceiros, adquiri uma área desmatada em Marechal Thaumaturgo e comecei a regenerar esse território. Foi desse movimento que nasceram projetos de formação, reflorestamento, educação e fortalecimento comunitário”, emenda.
Foi nesse percurso que, em 2018, nasceu o Instituto Yorenka Tasorentsi, voltado à preservação da natureza, defesa dos direitos indígenas e fortalecimento dos territórios e das áreas de plantio. No instituto, o trabalho se organiza em ações como sistemas agroflorestais, agricultura sustentável, apicultura, piscicultura e recuperação de áreas degradadas.
Benki conta que, ao lado da equipe e da comunidade, já treinou 40 comunidades em sistemas agroflorestais, impactando mais de 4 mil pessoas na região, além de formar dezenas de jovens lideranças e plantar cerca de 3 milhões de árvores. “Para mim, tudo isso mostra que desenvolvimento não precisa caminhar junto com destruição. A riqueza está aqui, na floresta viva, e o nosso esforço é construir um modelo capaz de gerar sustento, conhecimento e proteção sem destruir aquilo que nos mantém”.
Entre essas iniciativas, ele cita a criação de dezenas de açudes e viveiros para fortalecer a piscicultura com alimentação natural, além do desenvolvimento da apicultura, da agricultura sustentável e da recuperação de áreas com madeiras nobres, frutíferas e palmeiras. “Esse trabalho já permitiu gerar alimentos, recuperar áreas degradadas e construir caminhos de sustento que não dependem da destruição das árvores”. Outro projeto cuida da preservação animal na lógica da sustentabilidade das comunidades. Segundo ele, a atuação já contribuiu para a conservação de cerca de 15 mil tartarugas, além de jabutis, macacos, porcos selvagens e antas.
Na organização Yorenka, Benki promove conferências, oficinas, retiros e trocas de saberes, além de ações voltadas à preservação de espécies, instrumentos, músicas, histórias e línguas indígenas. Uma parte importante desse trabalho é o projeto Irapuru Pawa, voltado à proteção, organização e transmissão dos conhecimentos indígenas.
Benki também é um dos criadores e articuladores da Conferência Indígena da Ayahuasca, espaço criado para afirmar o protagonismo dos povos indígenas nas discussões sobre a bebida e outras medicinas tradicionais. De uso ritual e ancestral, a ayahuasca ocupa lugar central nos trabalhos espirituais e medicinais de diversos povos originários das Américas.
Para ele, a mobilização indígena nasceu justamente da necessidade de corrigir uma distorção histórica, já que, por muito tempo, esses debates foram conduzidos principalmente por não indígenas, “sem a escuta adequada dos povos que guardam esses conhecimentos há gerações”. Mais do que tratar de uma substância, diz Benki, a conferência afirma “a importância dos saberes, dos usos, dos nomes, das espiritualidades e das responsabilidades que cada povo carrega em relação a essas medicinas”.
Reconhecimento

Outras lideranças indígenas o veem como exemplo de atuação e reconhecimento pela sociedade. É o caso de Suelen Kariri, comunicadora indígena e integrante da Coordenação de Jovens Indígenas do Ceará, para quem trajetórias como a de Benki ajudam a ampliar a visibilidade das pautas indígenas sem romper o vínculo com o território. “Uma liderança não representa apenas a si mesma, mas carrega a voz de um coletivo, de um território e de uma história de resistência”, afirma. Na avaliação dela, quando esse reconhecimento ultrapassa as comunidades e alcança a sociedade em geral, fortalece a defesa dos direitos indígenas e amplia o alcance das demandas.
Benki recebeu, em 2004, o Prêmio Nacional de Direitos Humanos e, mais recentemente, integrou o grupo técnico dos Povos Originários na transição para o governo Lula. Neste ano, é o homenageado do 43º Prêmio Niwano da Paz, concedido pela Niwano Peace Foundation, organização com sede em Tóquio, no Japão. A justificativa da entidade destaca sua liderança na defesa das terras e da cultura indígena, além do pioneirismo no reflorestamento e na proteção ambiental ao longo dos últimos 15 anos.
Com eco em outros territórios, o trabalho de Benki amplia discussões sobre a defesa da floresta e dos povos indígenas. Liderança do povo Nukini, na aldeia Kampũ, também no Acre, Ilson Nukini afirma que os guardiões da natureza, da mata e das vidas humanas e animais são os indígenas, razão pela qual cada reconhecimento importa. “Somos líderes políticos, líderes guardiões de tudo que existe. E assim nós vivemos dentro da mata arriscando nossas vidas”, cita. “Temos que ter garantia de nossa sobrevivência”.
No lastro da COP30, em Belém do Pará, em novembro passado, Benki observa que o trabalho está longe de acabar. “A nossa maior preocupação hoje são os desastres ambientais e projetos que estão atingindo as nascentes dos rios e causando a destruição das águas”, comenta. “Quando a água adoece, toda a vida vai junto, como a floresta, os animais, os povos e o futuro das próximas gerações. Nós somos o mundo”.