Música na escola ajuda no aprendizado da matemática e da leitura,  aponta pesquisa

Coletânea de estudos destaca que políticas intersetoriais de cultura e educação são essenciais para promoção de direitos de crianças e adolescentes
Celebração dos 60 anos da Escola de Música de Brasília. Foto Valter Campanato/Agência Brasil

O contato com atividades relacionadas às artes pode melhorar o desempenho de estudantes entre 10 e 15 anos em provas escritas e ajudar aqueles com baixo desempenho. Essa afirmação é feita pela coletânea “Intersetorialidades: evidências em arte, cultura e educação”, uma reunião de estudos inédita realizada pela Fundação Itaú em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com o Ministério da Educação (MEC) e com o Ministério da Cultura (MinC). O relatório foi lançado em junho deste ano.

A coletânea é composta por estudos que combinam análises estatísticas de bases de dados sobre arte, cultura e educação de países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de contar com o mapeamento de experiências brasileiras no campo e estudos de caso realizados em diferentes territórios brasileiros. O compilado de estudos visa contribuir com a formulação de políticas intersetoriais para o cenário educacional. 

Dentre os destaques da coletânea, ressalta-se a contribuição da arte e da cultura para o desenvolvimento cognitivo e subjetivo dos estudantes. De acordo com o estudo de 2023 presente no documento, intitulado Arts education: an investment in quality learning, estar em contato com artes e cultura no ambiente escolar impacta diretamente em diferentes dimensões do desenvolvimento do estudante, como o cultivo do pensamento criativo e a melhoria de desempenho em leitura. O estudo é realizado a partir de análises de indicadores de países membros da OCDE, como o Canadá, a Noruega e o Reino Unido. 

De acordo com o “Estudo para a construção de políticas públicas de arte, cultura e educação”, que integra a coletânea, “39% dos estudantes brasileiros de 15 anos participam semanalmente de aulas ou atividades artísticas na escola, em comparação à média de 27% [dos países membros] da OCDE”. Atividades relacionadas à música são as únicas em que o Brasil (19%) ficou abaixo da média dos países da Organização. Ainda, 91% dos gestores brasileiros relataram que suas escolas possuem um currículo formal que promove respeito à diversidade cultural e 83% afirmaram incentivar o conhecimento de diferentes culturas.  

A maior aderência a essas atividades se relaciona com o maior senso de pertencimento e segurança no ambiente escolar, maior eficiência de aprendizagem autodirigida, perseverança e capacidade de assertividade, características mais fortes nos estudantes do Brasil quando comparadas aos estudantes dos demais países analisados. Apesar disso, o estudo reforça que essas índices por si só não diminuem as desigualdades sociais.

Para apontar evidências sobre a maneira como ocorre o contato entre estudantes e atividades artísticas e culturais no ambiente escolar brasileiro, a coletânea traz um estudo de caso realizado com iniciativas de diferentes cidades do país que partem das escolas para integrar estudantes com artes e cultura. Ao olhar para o que está além dos muros da escola, tendo o território como ponto de partida, os projetos contemplam artistas locais, pontos de cultura, mestres e mestras que já realizam trabalhos nesse campo, valorizando o que se produz no território e integrando crianças e adolescentes ao contexto artístico e cultural da própria comunidade. O perfil das iniciativas são escolas, Organizações da Sociedade Civil (OSCs), pontos de cultura e projetos. 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A partir dessas iniciativas (a saber, a Escola Viva Olho do Tempo, de João Pessoa (PB); o ponto de cultura Grãos de Luz e Griô, de Chapada Diamantina, em Lencois (BA); o Programa de Iniciação Artística (PIÁ), de São Paulo (SP); o projeto escolar Maculelê na Educação em Tempo Integral: Uma imersão nessa manifestação cultural Afro-Brasileira, de Concórdia do Pará (PA); e a iniciativa entre escolas Do Mundo da Imaginação à Prática Experimental de Atividades Culturais, Literárias e Artísticas), o estudo evidencia que metodologias pedagógicas que unem saberes do território com propostas lúdicas contribuem para a valorização da diversidade cultural e da cena artística local, bem como incentivam a criatividade e a autonomia artística das crianças e adolescentes que integram essas iniciativas.

Ao valorizar as infâncias e seus territórios, o PIÁ, por exemplo, “não apenas promove acesso à arte e à cultura, mas também contribui para o fortalecimento das redes comunitárias e para a formação das crianças em diferentes aspectos, sobretudo em relação à ocupação dos equipamentos públicos de arte e cultura”. Colocar as escolas no centro do ecossistema local de educação em artes e cultura, segundo a pesquisa, incentiva a equidade e a inclusão.

Já o projeto Maculelê na Educação em Tempo Integral reforça como a execução de projetos e políticas culturais pode ter um maior desempenho ao ser realizada de maneira intersetorial. Para que as atividades do projeto sejam executadas, são mobilizados diferentes profissionais da escola de tempo integral onde o projeto acontece, a Escola Anexa Severiano Antônio Nunes. A equipe é formada por  professores docentes de arteseducadores físicos, pedagogos, bolsistas e apoiadores comunitários, além de contar com redes coordenadas pela Secretaria Municipal de Educação (Semed) e pela Secretaria Municipal de Cultura, numa combinação “trabalho institucional, saberes tradicionais e significativa participação voluntária”.

Melhora no desempenho acadêmico

O desempenho acadêmico, os aspectos socioemocionais e o tipo de relação que se tem com o ambiente escolar podem ser melhorados dependendo do tipo de atividade artística presente no currículo escolar. Intervenções musicais são o principal destaque em termos de descobertas empíricas mais sólidas a respeito da contribuição das artes e da cultura na educação em todas as faixas etárias escolares. 

Os resultados qualitativos do estudo indicam, por exemplo, que em termos de desempenho acadêmico, estudantes que possuem acesso à educação musical melhoram pontuações de QI, habilidades linguísticas, aprendizagem de matemática, habilidades de leitura e habilidades de espaço-tempo. Quanto aos aspectos socioemocionais, o acesso à educação musical promove um maior autoconhecimento por parte dos estudantes, aumentando a confiança, a expressão e a motivação, bem como contribui com a sensação de pertencimento dentro do ambiente escolar. 

Foto: Desirée Ferreira/Nonada

O mesmo estudo também aponta que enquanto o teatro melhora habilidades verbais  e de interpretação de texto e a dança contribui com o desempenho em leitura, o ensino de artes visuais promove a aprendizagem em história, matemática e incentiva o pensamento criativo. Redução do estresse, empatia, mudança de perspectiva e regulação dos sentimentos são competências socioemocionais impulsionadas pelas linguagens artísticas em questão. A pesquisa sugere, contudo, que os resultados destacados refletem, em parte, a persistência dos estudantes, não necessariamente os efeitos da formação.

A proposta do lançamento da coletânea, que propõe recomendações para o desenvolvimento de políticas públicas que articulem educação, arte e cultura, é investigar como o Brasil pode entrelaçar essas áreas como um meio de “aprimorar os resultados da aprendizagem, promover o desenvolvimento socioemocional e melhorar a visão sobre a escola”, conforme detalha o documento oficial. 

Dentre as recomendações do estudo para construção de políticas públicas, destaca-se a intersetorialidade como fundamento para políticas públicas; Promover a educação de tempo integral; Remuneração adequada para trabalhadores da cultura e educação; Garantir participação social de diferentes atores na formulação e implementação das políticas públicas; Construir políticas intersetoriais que apostem na educação e na cultura enquanto espaços de combate às desigualdades e violências como o racismo, a LGBTfobia, o sexismo e o capacitismo, e de valorização das culturas afro-brasileiras, indígenas, populares e de outros grupos socialmente discriminados; Promover o reconhecimento do saber de mestres e artistas, além de ampliar oportunidades de trabalho e renda.

Desafios da intersetorialidade

Uma das principais recomendações para políticas públicas feitas pelo documento é a intersetorialidade nas políticas e projetos culturais. Segundo a gerente do Observatório da Fundação Itaú, Carla Chiamareli, “quando as políticas acontecem de forma intersetorial, a riqueza é incrível, de qualidade, de resultado. Mas não é tão simples de implementar no cotidiano”. 

Essas políticas, na prática, demandam o envolvimento de mais de uma área da administração pública para sua implementação e execução, o que de início pode ser complexo de se fazer acontecer, visto que cada uma dessas áreas (a Educação e a Cultura, através do MEC e do MinC, por exemplo) possuem formas distintas de execução de políticas e projetos. “As pastas têm seus planos, seus projetos, e aí para você fazer isso com outra pasta requer garantir um espaço de gestão conjunta que muitas vezes, na rotina do dia a dia, é difícil de conseguir”, detalha.

Apesar da dificuldade, Carla ressalta que, havendo intencionalidade em construir uma ação intersetorial em se tratando de políticas, já é uma parte do caminho traçada. Para ela, a intersetorialidade é cada vez mais urgente porque, ao unir duas secretarias (educação e cultura), em um pensamento coletivo de garantir arte e cultura que valoriza o território dentro das escolas, terão mais recursos e equipamentos culturais e educacionais para atender a essas demandas. 

“Se essas experiências forem experimentadas por todos, com certeza as crianças e os adolescentes terão oportunidade de vivenciar o direito à arte, à cultura, às linguagens das artes, ao patrimônio cultural, às histórias tradicionais e à valorização do patrimônio imaterial”, pontua.

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