A arte insistente de Atafona: onde o território vive o apagamento pela força do mar 

“Estética da Erosão” foi encampada pelos moradores e artistas locais como forma de resistência
Performance "Museu Ambulante" do Grupo Erosão durante o evento internacional "Residências Partilhadas: Ecologias e arquivos performática" . (Foto: Mateus Gomes)

São João da Barra (RJ) — Um novo mapa vai sendo desenhado pela memória nas ruínas de Atafona, distrito de São João da Barra, no litoral norte fluminense.  Lá, o mar come casas, sonhos e ruas. A expressão “comer”, repetida por moradores e pescadores, traduz a erosão que impacta o litoral de São João da Barra desde a década de 1950. A imagem remete ao filme Na Boca do Mundo, de Antônio Pitanga, gravado ali em 1979. Hoje, o avanço das águas deixa um rastro de ruínas marcadas pelo aviso: “Interditado pela Defesa Civil S.J.B.”

“Atafona é terra do mar”, diz o pescador Gegê, que perdeu a casa onde viveu por 38 anos. Há quatro anos, ele não mora mais ali e, toda vez que toca no assunto, chora. Com 47 anos de experiência no mar, o pescador mostra à reportagem do Nonada cada um dos cômodos da casa tomada pela erosão. Na parte externa, indica um banco e uma mesa de concreto abandonados e desabafa: “Isso aqui parece um túmulo!”. Gegê permanece em Atafona e segue pescando no rio e no mar.

A vida cultural de Atafona antecede as ruínas que hoje marcam a paisagem. A religiosidade e os festejos atravessam gerações e revelam a identidade da comunidade pesqueira. Com o avanço da erosão e as transformações provocadas pelo desaparecimento do território, novas produções artísticas e documentais buscam manter essa memória viva. É nesse contexto que, entre escombros, iniciativas como o Grupo Erosão de Performance e a CasaDuna articulam linguagens como teatro, cinema, exposições, instalações e museologia social. 

A degradação causada pelo mar tornou-se protagonista e matéria-prima para a composição das cenas, exposições e instalações do coletivo. As obras se apresentam como arte ambiental ao intervir na paisagem e utilizar restos de construções, objetos e outros materiais do próprio território como elementos de criação. Ao refletir sobre o papel da arte, Fernando Codeço, diretor do Grupo Erosão, destaca que ela é um legado e uma contribuição para a história de Atafona, ao buscar “mobilizar forças e potencializar a sensibilidade”.

Casas destruídas pelo avanço do mar e interditadas em Atafona (Foto: Leticia Goçalves/Nonada)

A erosão é um fenômeno geológico marcante em Atafona, distrito conhecido como a “Terra dos Ventos”, situado no encontro do Rio Paraíba do Sul com o mar. Esse processo forçou o deslocamento da população local: primeiro na Ilha da Convivência, de onde restaram uma capela e quiosques à beira do rio, e depois no Pontal, empurrando os moradores para o interior. Se antes o acesso à ilha era feito apenas de barco, hoje é possível fazer a travessia a pé. 

O balneário de Atafona, que já foi um destino de prestígio, com casas de veraneio e intenso fluxo de turistas, se desfez diante da intensificação da erosão. Hoje, o turismo se reúne em torno das ruínas, enquanto a população que sempre viveu na região permanece no território. 

Com mais de 2 Km perdidos para a erosão e mais de 500 casas destruídas, o distrito se insere no cenário global de comunidades costeiras ameaçadas pela elevação do nível do mar, fenômeno destacado pelo relatório da ONU de 2024, “Surging Seas in a Warming World”. Segundo o estudo, o nível do mar já subiu 13 cm no distrito e pode chegar à média de 16 cm até 2050. O processo de erosão é um fenômeno natural, mas que tem sido intensificado pelas mudanças climáticas.

Segundo os relatos do pescador Genilton Santos, o Gegê, e da moradora Maria de Fátima Conceição, famílias inteiras foram realocadas para moradias populares em Vila Esperança, enquanto outras passaram a viver em localidades como Chatuba e Coreia. Os moradores afetados pela erosão recebem auxílio-moradia de R$ 400 ou assistência emergencial equivalente a um salário mínimo, conforme a gravidade do impacto sofrido. Atualmente, o bloqueio total da Rua Alvinópolis, que levou à saída de cerca de 50 famílias, simboliza o contínuo apagamento dessa comunidade.

O Pescador Gegê e sua casa (Foto: Leticia Gonçalves/Nonada)

“O homem mais rico de Atafona tinha uma casa protegida por um muro de pedras, concreto e placas de ferro. Ele dizia que o mar nunca ia derrubar, mas a casa foi para o fundo”, relata Maria de Fátima.

Além dos vestígios das casas, a extinção do manguezal acabou com a pesca de caranguejos na região. Outra espécie símbolo do local, o peixe-peroá, acende um alerta vermelho devido às urgências climáticas. Com todo o ecossistema afetado pela salinização do solo e pela redução drástica do fluxo de água doce do rio, pescadores e agricultores enfrentam um cenário de profunda incerteza.

Entre as causas apontadas por moradores e pesquisadores estão o assoreamento e desvio de fluxos do Rio Paraíba do Sul, os impactos da implantação do Porto do Açu e a presença do Parque Eólico de Gargaú.

Estética da Erosão

O avanço das dunas que invadem e soterram casas é mais uma faceta do processo erosivo em Atafona. Foi nesse cenário que, em 2017, a filósofa Julia Naidin e o pesquisador e artista Fernando Codeço, que passou a juventude na região, se instalaram no território em um gesto simbólico de pesquisa. 

A escolha do nome CasaDuna – Centro de Arte, Pesquisa e Memória de Atafona, partiu de uma circunstância: o imóvel alugado teve um dos muros destruído pela areia. Para Fernando, a imagem sintetiza o projeto: “A casa representa o que nos protege, enquanto a duna é a natureza que escapa a essa proteção.”

A partir dessa fricção, o espaço propõe o resgate de memórias e acervos, reunindo desde livros raros de escritores locais até registros fotográficos em uma construção junto aos moradores e artistas da região. Entre os destaques da CasaDuna está a hemeroteca herdada da antiga banca de jornal de D. Marilda, a única da localidade, que colecionou todas as reportagens impressas sobre o avanço da erosão a partir dos anos 2000.

“A gente resolveu voltar esse projeto para a memória porque tínhamos a consciência de que não seria simples resolver a situação da erosão em Atafona. A memória tem essa capacidade de preservar o valor das histórias, que não dependem de um território seguro”, destaca Fernando sobre os projetos desenvolvidos pela CasaDuna. 

A própria população passou a incorporar o termo ao cotidiano, batizando espaços como o “Casa-Bar Erosão”. Bebendo dessa poética, nasceu, em 2017, o Grupo Erosão de Performance, idealizado por Fernando Codeço, Julia Naidin, Lucia Talabi e Jailza Mota. A iniciativa deu origem a uma investigação artística e educativa voltada aos impactos materiais, subjetivos e socioambientais do território. 

Ao promover residências artísticas e a provocação crítica de debates políticos e ecológicos, o projeto combate a ideia reducionista de que Atafona seja apenas ruína. Reunindo artistas com atuação entre o Rio de Janeiro, Campos dos Goytacazes e da própria localidade, o coletivo se consolida como o braço criativo da CasaDuna.

O marco que consolida essa trajetória é a performance O Muro (2017), que aborda a discussão sobre a criação de um quebra-mar em Atafona. Além desse trabalho, o espetáculo Tempontal (2018–2019) abriu as portas para a população. Desenvolvida a partir da pesquisa de Codeço sobre as “teatralidades da erosão”, a obra explora a ocupação do espaço por meio do teatro de rua, somada aos estudos sobre o “corpo e a ruína”. Segundo Fernando, trata-se de uma pesquisa corporal com forte interseção com a arte mambembe e com as procissões religiosas de São João da Barra e Atafona.

Em suas investigações pela orla, eles se depararam com uma montanha de caixas de feira, achado que impulsionou o trabalho com o teatro de formas. Fernando relembra a criação do espetáculo: 

“Fizemos um teatro contemporâneo baseado em uma pesquisa corporal com materiais reciclados, estruturado sobre uma bicicleta. Ela fazia referência tanto ao meio de transporte popular da região quanto a um barco que a gente construía com os caixotes. Criamos uma série de imagens simbólicas nesse espetáculo. Não conseguimos reapresentá-lo desde 2019 por conta da pandemia, mas aproveitamos a estrutura da bicicleta e das caixas ainda naquele período para criar o Museu Ambulante.”

O Museu Ambulante é um projeto itinerante que busca se aproximar da população local, funcionando como uma estratégia de comunicação. Pensado a partir da museologia social, na qual as próprias pessoas ajudam a construir o acervo. Ao sair das galerias tradicionais e ocupar as ruas, a população consegue se ver perto de suas próprias histórias.

O conceito da estética da erosão, pesquisado e defendido pelo coletivo, conecta a arte ambiental à experimentação teatral que se desdobrou em diversas vertentes artísticas. Fernando ao esclarecer a relação do território com a arte, mostra uma outra forma de se expressar: 

“A erosão possui um impacto sensorial e estético que nos retira da normalidade do cotidiano. Quando passei a observar isso de perto em Atafona, entendi que o fenômeno não é o mar avançando sobre as casas, mas a própria terra sendo escavada pelo mar e pelo vento”, afirma Fernando Codeço. Para ele, em síntese “a erosão revela estruturas, revira fundamentos”. 

O diretor explica que o grupo também questiona as bases do teatro tradicional, experimentando novas formas de criação. Por isso, define o trabalho como um “campo erodido”, conceito criado por ele em diálogo com a ideia de “campo expandido”, formulada pela crítica de arte Rosalind Krauss. 

O pesquisador chama atenção para a forma como o fenômeno costuma ser retratado pela mídia: “Ao mesmo tempo em que revela o fenômeno em si, a maneira como a erosão é retratada na mídia esconde o que está se passando. Essa espetacularização invisibiliza as questões por trás do processo. A construção de uma imagem catastrófica e apocalíptica de Atafona apaga as pautas socioambientais e, sobretudo, as pessoas que vivem nesse território.” 

Performance do Grupo Erosão “Do Rio ao Mar: Rio Paraíba vivo!” (Foto Movizz)

Em 2023, a perfomance Rio Paraíba ao Mar utilizou vestígios das ruínas para criar instalações que exploram as relações entre os diferentes elementos do ecossistema. Com curadoria de Julia Naidin e realização do artista Fernando Codeço em parceria com o Grupo Erosão, o projeto colocou a força do território no centro da proposta artística, construindo uma narrativa de mundos e representações. “Quem fez tudo foi o próprio processo erosivo. Ele derrubou a casa, lapidou o tijolo, retorceu o vergalhão. Eu fui lá e montei”, conta Fernando, destacando que o trabalho resulta em “uma obra viva e inacabada, em que o próprio objeto remete a um ser vivo.”

A investigação poética e territorial desdobrou-se no ano seguinte na ação de ativismo e arte ambiental Do rio ao mar – Rio Paraíba vivo! (2024), concebida como parte do processo criativo do espetáculo “A Convivência é uma ilha”. A performance respondeu a um impacto direto: em 2019, o principal encontro do Paraíba do Sul com o mar, mostrava sinais de fechamento e hoje está bloqueado.

Para a ação, dirigida por Fernando Codeço, concebida pelo Grupo Erosão e realizada pela CasaDuna, o coletivo coletou cerca de 250 metros de redes fantasmas de pesca, rasgadas e descartadas, pelos pescadores locais. Em um ato que reuniu cerca de 50 pessoas, esses materiais foram estendidos sobre a areia, recriando simbolicamente o antigo caminho que o rio fazia para encontrar o oceano.

Festejos tradicionais

Maria de Fátima, moradora e poeta apresentando o Pontal de Atafona. (Foto: Leticia Gonçalves/Nonada)

O povo respeita sua alegria, com festas tradicionais para os santos católicos: Nossa Senhora da Penha e dos Navegantes, que movimentam Atafona com procissões terrestres e nas águas, Já Santo Antônio ganha diferentes versões populares: o Casamenteiro, o dos Pobres e o dos Brochas, celebrado todos os anos, em julho, na Beira-Rio, em São João da Barra. 

“Rapaz, tem Santo Antônio Casamenteiro, Santo Antônio dos Pobres. Por que não ter Santo Antônio dos Brochas?”, relembra, entre risos, Maria de Fátima, moradora de Atafona desde 2009. Para ela, o lado profano das celebrações também permite que as pessoas sorriam, apesar de tudo o que acontece.

Gegê explica que a Festa dos Brochas é uma tradição dos pescadores e reconhece que é uma boa festa. Em seguida, estende o convite para a Festa de Nossa Senhora da Penha, realizada em abril, que reúne cerca de 30 mil pessoas todos os anos.

Os desfiles fluviais para os santos são premiados pela prefeitura e possuem todo um regulamento para transportar as imagens sacras. Gegê conta a sua experiência: “Tinha um carnaval em São João da Barra, então tinha uma pomba branquinha. Eu fui, peguei aquele destroço e botei na proa do barco, para a Nossa Senhora dos Navegantes, quando era a igrejinha lá”, referindo-se ao templo que o mar comeu.

Os milagres atribuídos a Nossa Senhora da Penha fazem parte da memória dos moradores e ajudam a explicar até mesmo a origem da igreja dedicada à santa. A história é contada de geração em geração por pescadores e devotos. Na tradição oral da comunidade, a igreja foi construída sobre um navio naufragado.

“Essa imagem foi encontrada no mar pelos pescadores. Como ainda não tinha igreja, levavam a santa para outras igrejas. Mas, no dia seguinte, ela desaparecia. Quando os pescadores iam pescar, encontravam a imagem de novo perto da água. Foi aí que eles se reuniram e construíram a igreja”, relata a moradora Maria Fátima.

Atafona é um dos reflexos das urgências climáticas globais e, ao mesmo tempo, um território onde a relação com a natureza atravessa a memória de seu povo. Impedida de morar na Ilha da Convivência, a moradora encontrou em Atafona um lugar para viver e recriar, em suas escritas, denúncias e alegrias. “Como eu não pude ir para a ilha, vim morar em Atafona, porque também é o meu lugar. Eu gosto de Atafona, eu amo”, afirma Maria de Fátima.

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