Belém (PA) — É noite quente no Jurunas, um dos bairros periféricos de Belém, e um grupo de pessoas assistem vidradas à apresentação da rapper Bruna BG, que traz o racismo ambiental como tema de uma de suas letras. “Amazônia Vive, mas é sobrevivente assim como eu. Amazônia vive aos olhos de quem? Amazônia livre aos olhos de quem?”, declara. O show é no quintal do Espaço EcoAmazônias, um centro cultural comunitário que realiza atividades ligadas às culturas populares e educação ambiental para a comunidade.
“Este projeto surge como uma resposta criativa e proativa aos desafios socioambientais enfrentados pelas comunidades amazônicas. Com foco em permacultura, arte e educação ambiental, estamos criando um campo de ideias e construções coletivas que visam promover um futuro mais sustentável e inclusivo para a nossa região e o mundo”, diz a organização.

O EcoAmazônias é um dos espaços que integram a Yellow Zone, circuito de atividades realizadas durante o mês de novembro em bairros periféricos de Belém como forma de descentralizar o debate sobre o clima e fazer um contraponto às zonas oficiais da COP30 (Blue Zone e Green Zone). O programa foi criado pelo Observatório das Baixadas, união entre o Observatório das Quebradas (RJ) e a COP das Baixadas (PA).
A 22 quilômetros do Jurunas, no distrito de Icoaraci, o Espaço Cultural Chibé também traz atividades culturais como parte da Yellow Zone. “A gente trabalha muito com cultura, educação e comunicação como ferramentas de pertencimento, de garantia de memória, de proteção das nossas comunidades e territórios, porque quando a gente fala de floresta a gente também está falando de pessoas que vivem nela, de pessoas que defendem ela no dia a dia”, explica Tay Silva, diretora executiva do Chibé, que também abriga uma biblioteca comunitária.
No dia em que o Nonada visitou o local, uma oficina de educação musical sobre carimbó animava as crianças da comunidade. No encontro, realizado como parte do circuito Clima e Cuidado, do Instituto Procomum, Mestra Neya das Maracas e Samara Cheetara ensinaram às crianças sobre como várias composições tradicionais e também contemporâneas do carimbó refletem sobre a relação das pessoas com o clima e o meio ambiente.
“Eu gosto muito de falar uma frase do Jean Ferreira quando ele diz que a Yellow Zone é ‘uma zona de esperança’. A Yellow Zone acontece com a presença e participação das comunidades, então a gente não é só um espaço de cultura, mas também de intelectualidade, também de saberes. Eu garanto que se a Zona Azul soubesse um pouquinho do que a gente tem feito na Zona Amarela, os acordos, as decisões seriam muito mais eficazes para o mundo inteiro”, avalia Tay.


Por toda a cidade de Belém, equipamentos culturais e casas provisórias coordenadas pela sociedade civil organizada têm programações artísticas que trazem o debate climático no centro da mensagem. O próprio carimbó, patrimônio cultural brasileiro registrado pelo Iphan, é uma das principais linguagens que dialogam diretamente com a população belenense sobre o clima, com shows de artistas como as Suraras do Tapajós e o Mestre Silvan Galvão.
“Eu acho que cultura e clima tem tudo a ver, principalmente cultura popular. O carimbó geralmente é feito por pescadores, agricultores, quilombolas, ribeirinhos. A gente tem [a música] Queimadas, do Lourival Igarapé, entre outras canções do mesmo mestre, que falam sobre a questão da preservação e como isso está afetando a gente”, avalia a carimbozeira e jornalista Roberta Brandão.
Sessões de cinema, shows, exposições de arte contemporânea e apresentações teatrais também fazem de Belém um polo de trabalhos que refletem sobre o futuro por meio da arte. Enquanto quem é da cidade aproveita a programação gratuita na cidade, quem veio para a COP tem a chance de mergulhar na cultura paraense e amazônida.
“Estamos há muito tempo cozinhando essa maniçoba e acho que agora a gente conquista esse espaço de protagonismo que deveríamos ter ocupado há muito tempo. Tem uma frase que gosto muito e aprendi com o Comitê Chico Mendes que é reflorestar mentes. E eu acho que reflorestar mentes é o papel da arte nesse debate climático”, diz Roberta Carvalho, diretora do filme Mestras e criadora do Amazônia Mapping, em um dos painéis com foco em cultura que pipocam na programação paralela à COP.

Para Jean Ferreira, co-criador da COP das Baixadas, “cultura não é só os festivais e galerias, cultura é o modo de viver, é a nossa forma de existir no mundo. Quando a gente protege a floresta, não é exatamente porque queremos usar o recurso da floresta, mas porque temos a cultura de cuidar da floresta”.
Já a carimbozeira Roberta Brandão alerta para a precariedade de condições dos fazedores e mestres de cultura popular da cidade. “É toda uma precariedade pra quem faz cultura popular. O som é pior, o lugar não é tão legal, o destaque não é tão bacana, o cachê não é tão bom”, destaca.
Novos equipamentos culturais agitam a cidade
No Museu Paraense Emílio Goeldi, que tem mais de 150 anos de existência, instalações de artistas como Gustavo Caboco e Déba Tacana refletem sobre natureza, povos indígena se o direito à memória. Os trabalhos artísticos foram idealizados de forma a se adaptarem à fauna e flora do parque zoobotânico. Na Bienal das Amazônias, que vive até o fim de novembro a sua segunda edição, o foco é em artistas da Amazônia peruana, colombiana e brasileira.
Nos últimos meses, a cidade também ganhou grandes equipamentos culturais que estrearam com o debate climático como centro, além de galerias e espaços culturais permanentes. O Centro Cultural Banco das Amazônias, por exemplo, está com algumas exposições centradas no assunto, como a Habitar a floresta, que reúne 13 projetos arquitetônicos desenvolvidos em colaboração com comunidades tradicionais.


No recém-inaugurado espaço da Caixa Cultural, há a mostra Espíritos da Floresta – MAHKU, a exposição propõe um diálogo crítico sobre a relação entre humanidade e natureza a partir da cosmovisão indígena. Com curadoria da pesquisadora e crítica de arte afro-indígena tupi-guarani Aline Ambrósio, o projeto parte das ideias de Ailton Krenak e do coletivo MAHKU para estimular reflexões sobre arte e sustentabilidade. O Movimento dos Artistas Huni Kuin é formado por artistas e pesquisadores Huni Kuin, povo indígena que vive na região amazônica, entre o Acre e o Peru.
O Museu das Amazônias abriu com duas mostras que ocupam o térreo e o mezanino do novo espaço cultural. No térreo, o público pode visitar a exposição internacional Amazônia, do fotógrafo Sebastião Salgado, apresentada pela primeira vez no Norte do Brasil. A mostra reúne cerca de 200 imagens em preto e branco, produzidas ao longo de sete anos de expedições pela região. No mezanino, tem a mostra “Ajurí” concebida especialmente para o novo museu. O título, de origem indígena, remete ao mutirão e à colaboração, conceitos que orientaram o processo coletivo de criação do espaço. A exposição destaca o uso de materiais orgânicos característicos das Amazônias, como fibras de coco, taboa e miriti.
Mas é em espaços periféricos e organizados por OSCs que os artistas amazônidas encontram maior protagonismo. A Freezone ocupa uma praça da cidade durante a COP30 com programação voltada para a cultura popular paraense, enquanto o Comitê Chico Mendes promove sessões de cinema e painéis protagonizados por lideranças de comunidades tradicionais. Na programação, todas as atividades artísticas tem o meio ambiente e a relação com os territórios como foco.
Na Central da COP, organizada pelo Observatório de Clima na praça da República, uma das principais da cidade, debates interseccionais sobre clima são intercalados com apresentações artísticas. Entre os espetáculos apresentados no Teatro Waldemar Henrique que o Nonada viu, estavam as performances Raízes que regeneram, a dança Amazônia em chamas, Amazônia viva e Sapukãya, o Muçum, solo performático da artista Arth Souza Silva Lopes.
Na apresentação, a encantaria Sapukãya, voz dos “rios mortos” de Belém, denuncia a crise climática e reafirma a Amazônia como território de vida e memória. A artista conta que a performance nasceu em 2023, no processo de criação do espetáculo Encantarias. “A proposta era falar sobre os rios mortos ou assassinados, que é a minha forma poética de falar sobre os canais”, conta. Para isso, Arth resgata memórias da infância, no bairro Jurunas. “Quando eu olhava para o canal e ele estava cheio, a minha avó do meu lado dizia: ‘olha, quando secar o canal, vai chover’. E toda vez que secava, chovia”, diz.

Arth conta um pouco sobre a casa e a paisagem da infância que influenciou no processo de confecção do espetáculo. Segundo a artista, as casas do bairro onde cresceu eram, em geral, construídas inteiramente de madeira, estruturadas como palafitas que ele chama de ‘palafita rasa’. As moradias eram suspensas, permitindo ver sob o assoalho a presença de vida e pequenos ecossistemas aquáticos. “A gente via caracol, via girinos”, recorda. Entre esses seres, um sempre se destacava: o peixe muçum, cuja observação constante deu origem à ideia de incorporá-lo à performance como metáfora de resistência diante da poluição, do processo de urbanização e do esquecimento das ancestralidades.
A artista explica que o muçum era comum naquela localidade porque, antes da ocupação urbana, toda a região do bairro dos Jurunas era uma baixada. Com o tempo, a urbanização se intensificou: as casas passaram a ser erguidas em alvenaria e, gradualmente, todo o terreno alagado foi sendo aterrado. Arth lembra que, antes das obras de macrodrenagem, a área alagava com frequência — momento em que o muçum aparecia e circulava pelo local.
“Eu não sei como, mas ele surgia de algum buraco, de algum lugar, mesmo o terreno tendo sido aterrado. E pensar nesse ser, nessa criatura que ali habitava, ressurgindo, mesmo com o chão acimentado. É muito incrível pensar como esse ser resiste a esses processos”, aponta.
Arth explica que sua relação com o meio ambiente também passa por refletir sobre a poluição em diferentes dimensões. “Pensar a poluição não só como o lixo ou o esgoto que é despejado de forma irregular, de forma que prejudica o rio, assassina o rio, assassina um igarapé que estamos ali vivendo cotidianamente na cidade, mas também pensar nessas poluições que assassinam de forma metafórica, para além da poluição dos resíduos sólidos, do esgoto, do minério, de tudo que polui de alguma forma impacta de forma negativa o meio ambiente. Pensar, por exemplo, que tudo isso faz com que a gente descaracterize a nossa existência, as nossas identidades. Pensar que o meu território era um rio…Por exemplo, eu poderia muito bem compreender a minha identidade como uma pessoa ribeirinha”, afirma.

Toda essa efervescência criativa do estado passa também pelas inovadoras aparelhagens, movimento cultural que une soundsystems, alegorias e efeitos especiais em grandes festas. Uma das mais conhecidas é a Tudão Crocodilo, que encerrou o Mutirão COP30, uma iniciativa da presidência da COP30 para aproximar o território dos debates. A multidão de moradores e ativistas que esteve no complexo Ver-o-Rio para acompanhar o “rock doido” também aproveitou para ouvir lideranças socioambientais como a Campeã da Juventude da COP30, Marcele Oliveira:
“Eu sou de um lugar chamado Realengo, que fica na zona oeste do Rio de Janeiro, e tem algo lá que parece muito com algumas coisas que acontecem ao redor do mundo todo. É uma parada que a gente chama de racismo ambiental. É quando decidem coisas sobre os nossos territórios sem nos consultar, sem considerar o impacto que tem nas nossas vidas e sem considerar o impacto que tem na natureza. Todo mundo que está enchendo essa praça tem o dever e a responsabilidade de ser ativista climático também, porque essa semana e a próxima é a maior mobilização por justiça climática da nossa geração. Eu aprendi com os meus amigos da Aliança dos Povos da Floresta que uma juventude que dança é uma juventude que cobra, é uma juventude que respeita”.