Como um ponto de cultura ajudou a demarcar a história e a identidade negra no interior de Goiás

Com oficinas e ensaios abertos ao público, Casa de Chico Preto mantém vivas as tradições e engaja novas gerações
Celebração do Dia da Consciência Negra em 2025. (Foto: Allan Florentino/divulgação)

Anápolis (GO) Aos pés do Morro do Cachimbo, entre os tradicionais bairros Novo Paraíso, Vila São Joaquim e Jardim Santa Cecília, em Anápolis, Goiás, está localizado o Ponto de Cultura Onã Layó, no pequeno Residencial Florença. O nome, pouco conhecido pela vizinhança, tem um significado especial para a comunidade da Casa de Chico Preto. “Em iorubá, significa caminho de alegria”, explica pai Hugo Maurício, babalorixá do terreiro de Umbanda.

Além das atividades litúrgicas, a Casa de Chico Preto agrega uma estrutura cultural e educacional, disponibilizando o espaço do templo para atividades abertas ao público, como oficinas gratuitas de samba de roda, jongo e maculelê, capoeira, ritmos afro – percussão e arte africana para crianças desde 2009. Em 2025, recebeu o título de ponto de cultura. 

Antes de ser contemplada pela primeira vez, no edital de 2025 da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), a casa já havia construído uma trajetória de voluntariado, atuação comunitária, cultural e de resistência. Em uma cidade com quase 400 mil habitantes, de maioria cristã, os mais de 1,3 mil autodeclarados de Umbanda ou Candomblé buscam uma organização contínua para os enfrentamentos, muitas vezes, necessários.

Quando a Casa de Chico Preto foi fundada, há mais de uma década, expressar publicamente a fé e as tradições religiosas afro-brasileiras em Anápolis era um desafio ainda maior que hoje. Pai Hugo, iniciado na religião há 22 anos, testemunhou esse momento. “Quando eu comecei, você não achava terreiro [na rua]. Os terreiros eram todos escondidos.”, relembra. O babalorixá lembra que havia apenas um terreiro com placa de identificação na cidade.

O espaço, em questão, era o terreiro Pai Benedito de Aruanda, localizado no bairro São Carlos, localizado nas proximidades do centro da cidade. “Era o único que tinha nessa época, uma plaquinha discreta na porta, mas tinha”, completa. Com as graduações necessárias para o sacerdócio, ao lado de sua mãe biológica, também sacerdotisa, Mãe Cleonice de Oxum, ano após ano, conquistaram um espaço físico e simbólico na cidade. “A casa nasce no bairro Eldorado, em um lugar de aluguel. Depois de dois anos, mudamos para o centro  da cidade, de frente para o prédio da Justiça do Trabalho. Ali a gente viveu um enfrentamento, usando placa. Nós íamos para a rua, ao mercado, restaurante, vestidos com a guia, do jeito que estava [no terreiro] e isso causou um boom na cidade”, relembra pai Hugo.

2ª Mostra Cultural Onã Layó (Foto-Pedro Lucas)

Com a consciência de que um terreiro de Umbanda é uma comunidade, com pessoas diversas e atividades diversas, alguns pilares permeiam a casa desde o seu nascimento, como educação e cultura. Educador, a liderança  reforça a perspectiva freiriana de que a prática educativa não ocorre apenas na escola, mas também através das relações e da participação comunitária.

“Os grupos populares certamente têm o direito de, organizando-se, criar suas escolas comunitárias e de lutar para fazê-las cada vez melhores. Têm o direito inclusive de exigir do Estado, através de convênios de natureza nada paternalista, colaboração. Precisam, contudo, estar advertidos de que sua tarefa não é substituir o Estado no seu dever de atender às camadas populares e a todos os que e as que, das classes favorecidas, procurem suas escolas”, escreveu o patrono da educação brasileira, Paulo Freire, em 1992, registrado no livro Política e Educação, da Cortez Editora.

Após a abertura da casa, o movimento que reivindica cidadania e direitos, termos muitas vezes negados aos povos de terreiro, começou a crescer na cidade. O processo é concomitante à instauração do Sistema de Cotas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em 2004, e da Universidade Federal de Goiás, (UFG), em 2012, que ampliou o acesso de grupos historicamente sub-representados no ensino superior. Na última década, os membros dos terreiros de cidade perceberam um reflexo direto: palestras e rodas de conversa com a presença de mestres e lideranças das tradições afro-brasileiras se tornaram mais comuns e enriqueceram o debate.

“Foi muito libertador para a parte religiosa. Olhando para trás, a gente percebe que a Casa de Chico Preto fez parte desse enfrentamento, porque a gente sofreu, mas a gente sempre manteve a postura de somar com a comunidade”, destaca o babalorixá.

13ª Caminhada em Homenagem aos Mestres/as da Tradição Afro-Brasileira,(Foto: Casa de Chico Preto/divulgação)

A vizinhança do Residencial Florença, bairro periférico de Anápolis, que antes lidava com um espaço abandonado, matagal e o livre acesso de usuários de drogas, com a instalação do ponto de cultura passou a ver uma nova movimentação na rua, com sessões públicas, lotadas de carros. O comércio do bairro precisou se organizar para atender a demanda e situações de colaboração entre templo e o público externo se tornaram mais comuns.

Além das ações do projeto Onã Layó, que tem como compromisso primordial o incentivo à educação e cultura como forma de manutenção dos saberes e manifestações tradicionais afro-brasileiros, contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc, o templo sede o espaço para ensaios de grupos independentes já conhecidos na cidade com o grupo Sambadeiras do Cerrado, a banda Kalangorin e o homônimo Afoxé Onã Layó. Antes de tudo isso, da produção cultural, da participação em editais, foi a força da cultura negra que formou os filhos da casa, ensinamentos compartilhados através da oralidade, no dia a dia. Os aprendizados são fundamentos para centenas de jovens, crianças e adultos que escolheram trilhar os caminhos do axé.

Para Pai Hugo, há uma diferença entre os ritos de terreiro e as atividades culturais. “O ponto de cultura é a Casa de Chico Preto, mas pelas suas atividades culturais e não litúrgicas”, explica. Ele dá alguns exemplos, como o Samba de Roda, o afoxé que leva para a rua aquilo que é celebrativo e festivo. “Temos o batuque, a dança, tudo aquilo que já é projetado para ir para a rua. Não é o retrato fiel da liturgia que acontece dentro do terreiro. Então, existe uma separação do que é produção cultural e do que é produção litúrgica. Mas o espaço, a instituição, as pessoas, os fazedores de cultura são os mesmos. É a comunidade de povo de terreiro mesmo”, enfatiza ele. 

O tambor tem sido mais escutado 

Mãe Cleonice de Oxum ao lado do filho, Hugo Maurício. Foto: Arquivo Pessoal

Com quase 20 anos de religião, a Ialorixá Cleonice de Oxum questiona: “Você já ouviu o tambor tocar?”. E completa: “O tambor toca a alma, toca o coração. Eu amo minhas vestes, sou apaixonada pela saia, pelo pano de cabeça. Eu não quero muito chique, basta ter a saia e o pano. Eu acho muito lindo”. Ao recordar da época em que frequentava a igreja católica e ainda não compreendia a escolha do filho, reflete que o imaginário social era de muito preconceito: “Antigamente as pessoas não sabiam discernir muito o certo do errado e tudo julgavam a religião. Diziam ‘Isso é de preto, isso é de branco’, mas sem observar o que está lá atrás.”

Foi no terreiro que Mãe Cleonice se encontrou com a ancestralidade negra. A própria comida preparada por ela e repassada aos filhos é um exemplo da transmissão desse saber que faz parte de um processo histórico e também pessoal. “Em uma gira de baiano, tem o quê? Um bom acarajé! Na Preto Velho, comem o quê? Feijoada! Assim como na época da escravização, em que se comiam as sobras de porco que os senhores davam. A gente faz uma bela feijoada na gira, uma canjica, um docinho. Eles gostam de doce”, explica a liderança. 

Apesar dos avanços, com uma efervescência cultural inédita nos últimos anos em Anápolis, os líderes da Casa de Chico Preto concordam que, quando se fala em valorização da cultura negra na cidade, ainda há um longo caminho a ser percorrido. “Eu acho Anápolis ainda muito provinciana e isso trava o progresso. Falta engajar, expandir horizontes, trazer movimentos para cá, criar circuito de debates. Ainda é fraco.”, afirma Pai Hugo. 

A palavra de ordem é respeito, algo que, segundo ele, está na raiz do povo de axé. “Aprender a respeitar a diversidade, aprender a respeitar os mais velhos, os saberes daqueles que pisaram antes da gente no caminho”, conclui. Yá Cleonice complementa: “Se você não me respeita, se seu preconceito é grande, dá licença. Não baixo a cabeça jamais.”

Rompendo estigmas

Romário Akinyode, criado no bairro Santa Cecília e ogã da Casa de Chico Preto, é um dos instrutores do projeto e co-fundador do Afoxé Onã Layó. Percussionista, iniciou a  trajetória aos sete anos quando conheceu a capoeira e passou a se interessar pela cultura afro-brasileira. Na adolescência, foi auxiliar do Cidadão do Futuro, um programa municipal voltado para a aprendizagem de jovens, com foco em cidadania e desenvolvimento profissional. “Quando eu entrei para casa, expandiu o meu conhecimento, o meu entender da cultura dos povos de terreiro, do povo negro”, conta.

Como ogã, função de grande responsabilidade dentro de um terreiro, Romário conheceu mais sobre a ciência dos atabaques e o poder dos cânticos. Agora, como instrutor do ponto de cultura, com alunos a partir dos sete anos, repassar esse conhecimento de forma lúdica para crianças se tornou uma descoberta diária. “São muitas crianças ali da comunidade, faço brincadeiras com elas, mostro o samba rural ou samba de coco, os vários ritmos que têm na cultura afro-brasileira”, explica.

Mestre Luizinho, de Goiânia, filho do Mestre Bimba, referência da capoeira regional, é uma das inspirações de Akinyode. “Ele me passou muitos ensinamentos, até hoje me passa, é uma pessoa que eu admiro muito”, destaca. Segundo ele, trabalhar nesse segmento em Anápolis é um desafio, o espaço é pequeno e a movimentação é grande. “A galera, principalmente aqui em Anápolis, vê um tambor e pensa ‘é macumba”, relata. 

Segundo ele, o trabalho com as crianças é importante, porque permite a desconstrução desses estigmas desde cedo. “Tem muitas coisas que você passa para um adulto e a pessoa fica com pé atrás de aprender. Já a criança não, a criança você passa e ela se joga no negócio sem medo. Isso é o mais interessante.”, conclui.

Continuidade

Em julho, no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, dezenas de pessoas se reuniram na Estação Ferroviária de Anápolis Prefeito José Fernandes Valente, no centro da cidade. O evento reuniu diferentes linguagens artísticas, como a poesia, samba de roda, desfile de moda e diversos shows fizeram parte da programação. À frente da organização, Mãe Carmen, sacerdotisa do Terreiro Pai Mateus de Angola e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) de Anápolis, destaca a necessidade de somar forças para reivindicar espaços de direito.

Mãe Carmen na Câmara Municipal de Anápolis (Foto: Allyne Lais)

Quase 60% dos anapolinos se autodeclaram negros, 52% pardos e 7% pretos, segundo o Censo de 2022. “Não sei se acontece só aqui em Anápolis, mas eu vejo que tudo que é de preto, de indígena, que é de pessoas em vulnerabilidade, as pessoas não querem nem ouvir, entendeu? Não fazem questão nenhuma de ajudar ou estender a mão”, lamenta. A memória, porém, traz à tona momentos em que a cidade se enchia de fé e cultura afro-brasileira.

A ialorixá reforça que a cidade sempre teve presentes suas raízes negras, embora, por muito tempo, fossem refutadas. “Eu estou fazendo este ano 61 anos de idade, só de Anápolis eu tenho 60. Eu posso dizer com propriedade que Anápolis sempre foi uma cidade umbandista. Ao contrário do que os mais jovens que conheceram Anápolis, depois de um certo tempo, acham que a cidade é evangélica. Aqui nós temos de tudo, mas a cidade sempre foi umbandista”, afirma. Entre as recordações, carentes de registro físico, estão as procissões dos Pretos Velhos e de Ogum.

Segundo ela, no final da década de 1960, uma multidão vestida de branco andava pela cidade, passava pela prefeitura com bandeiras e andores que carregavam as imagens sagradas. “Depois a gente ia para o terreiro acabar de festejar”, recorda. Até mesmo a Polícia Militar, com seu traje de gala, participava da celebração. “Naquela época, ter uma câmera fotográfica era muito difícil — só quem tinha muito dinheiro —, e os pais de santo não deixavam registrar a situação pelo respeito àquele momento”, completa.

Os tempos mudaram, mas os terreiros, com mais ou menos visibilidade, continuam cheios de cultura. “A nossa comida é cultural, a nossa roupa é cultural, a nossa oralidade é cultural. Nosso povo preto, por não ter tido estudo, nem oportunidades, passava os conhecimentos com a oralidade. É uma coisa que dentro do terreiro a gente pratica até hoje. Nós respiramos cultura, nós vivemos cultura”, conclui Mãe Carmen.

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