A história do griô que fundou um quilombo em região conhecida pela colonização europeia no RS

Benzedeiro, Vô Teobaldo ensinou a sabedoria das plantas e da oralidade para gerações do quilombo que carrega seu nome no RS


Vale do Taquari (RS) –
No Quilombo São Roque, no município de Arroio do Meio (RS), a palavra avô ganha muitos significados. Quando Ágata Silva, de 8 anos, pergunta se vai poder ler sobre o avô na biblioteca da escola, ela fala de Vô Teobaldo. Na verdade, ele é tataravô da menina, mas Teobaldo merece esse título por ser, ainda hoje, figura presente para todos que vivem naquele chão. 

A equipe do Nonada foi recebida no quilombo com festa: é o batizado da menina Emily. Entre as comemorações, já surgem comentários sobre o Vô. Como se ele fosse mantido sempre vivo pelo resgate da fala. As histórias sobre o mestre não ficaram registradas em livros ou papéis. 

A vida do ancestral da comunidade é contada de boca em boca por seus netos, bisnetos e tataranetos – de preferência, com todos sentados em roda. “Não adianta só eu falar, porque cada um sabe um pouco, cada um conta um pouco, cada um entendeu seu pouco”, explica Eliana Voigtlander, uma das netas do Vô Teobaldo. 

Nascido com o nome Alcides Geraldo da Silva, ele veio ao mundo em 5 de abril de 1872. Faleceu mais de um século depois, em 1984, aos 112 anos. Não há documentos para atestar sua idade, mas quando se trata do Vô, a palavra vale bem mais que um papel. Em 1983, pouco tempo antes de falecer, ele deu entrevista ao principal jornal local de Arroio do Meio, O Alto do Taquari. Teobaldo disse aos repórteres na ocasião: “Todos os anos no dia 5 de abril faço aniversário. Agora completo 111 anos”. 

O mestre chegou a ser o homem mais velho do município, cravado no Vale do Taquari, área de colonização alemã do Rio Grande do Sul. Por ali, era conhecido como “Velho Teobaldo” ou “Nego Teobaldo” mesmo pelos que não faziam parte de sua família. Com sua maleta recheada de ervas, percorria toda a região em cima de uma mula, indo de casa em casa para atender os doentes. Entrava em todas as casas, falava alemão e não costumava botar valor nas suas curas – aceitava o que o doente pudesse devolver, fosse o pagamento uma galinha, um porco ou até uma carroça. 

“Aquele tempo era assim, não existia médico. Eram os curandeiros”, conta Ângela da Silva, mais uma neta do Vô. Na hora de lembrar o avô, os netos e bisnetos se colocam em roda. Cada um arrasta sua cadeira para o chão de terra vermelha do quilombo. As frases começam na boca de uma pessoa e terminam na de outra, lembrando da forma coletiva de escutar as histórias que o Vô contava, sentado à beira de um fogão à lenha.

Das ervas, Teobaldo fez o sustento de sua extensa família. Como pé de planta rasteira, se espalhou pela região e deixou muitos frutos, carregados hoje pelos netos, bisnetos e tataranetos. “O vô foi se esparramando. Não tem nem como contar quantos tataranetos são”, diz Eliana. 

Única foto de Vô Teobaldo é um recorte de uma edição de 1983 do Jornal O Alto Taquari. Crédito: Dissertação de Daiane dos Santos Moraes – digitalização fornecida por Isoldi Bruxel, diretora do jornal, em 2021

Quem conta um conto lembra um ponto

A trajetória que transformou Alcides em Vô Teobaldo percorre vários caminhos a partir das vozes que a contam. Cada neto e bisneto lembra da história de uma maneira diferente, com detalhes distintos e sentimentos próprios. 

A origem do dom de Vô Teobaldo difere a depender do neto que lembra a história. No recorte do jornal O Alto do Taquari, na entrevista da década de 1980, o próprio Vô conta que aprendeu a benzer com sua mãe, dona Laurinda. Para Erenilda da Silva, mais uma neta do Vô, a história é outra. “Na verdade, ele aprendeu com uma cobra verde. Na sexta-feira santa, apareceu uma cobra verde, que vomitou um papel. Ele leu e foi ali que ele aprendeu a benzer”, diz Nida, como é mais conhecida entre os parentes e amigos. 

Eliana lembra do avô contar que veio ao Brasil em um navio negreiro, junto de sua mãe e seus irmãos. Escravizado, foi forçado a trabalhar na região que hoje corresponde ao Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Mais tarde, conseguiu escapar e se instalou em Estrela. 

“Trabalhou alguns anos a troco de comida e depois veio até Roca Sales”, diz Eliana. Nas terras que agora compõem a cidade de Arroio do Meio, o avô conheceu uma família, para quem passou a trabalhar. “De novo, ele não tinha salário. Trabalhava a troco de comida e estadia”, destaca.

As habilidades dele com as ervas de chá e a benzedura renderam a simpatia dessa família – e, depois, o tornaram conhecido em toda a comunidade local. “Nesse casal, a mulher era muito doente. Não conseguia ter filhos e vivia em médicos. Depois que o vô veio parar aqui, começou a dar erva de chá e benzer. Ela ainda não conseguiu ter filhos, mas cessou a doença”.

Com a autorização do dono das terras, Alcides trouxe Maria da Glória para o local onde construiriam sua família. Ali casaram, tiveram dez filhos e ficaram juntos até o fim da vida. Além das ervas e das benzeduras, a fonte do sustento era a criação de animais, a plantação de culturas, a venda de lenha e de carvão, assim como o corte de pedras de basalto para comercializar. 

Com o tempo, Alcides conseguiu comprar o terreno no morro onde a família vive até hoje. “Essas terras foram pagas com benzedura”, afirma Gilberto da Silva, mais conhecido como Beto. “Essa terra aqui é de um dono só, do falecido Teobaldo. Ele comprou vendendo lenha, fazendo carvão”, completa Ângela.

Mesmo em meio ao racismo naturalizado na região de colonização alemã, Vô Teobaldo fazia o possível para criar filhos e netos que andassem de cabeça erguida, com orgulho do lugar de onde vieram. Em 1983, quando os jornalistas pediram ao Vô Teobaldo um conselho, ele disse: “Meus filhos estão felizes. Eu criei eles, aconselhando, ensinei pra respeitar os mais velhos e trabalhar na honra de gente”.

Beto guarda com carinho os ensinamentos do Vô, que repousam nas plantas medicinais, na devoção aos santos e entidades e na prática da benzedura. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

Nos fandangos do morro São Roque, grandes festas com gaiteiros que embalavam as danças com músicas gauchescas, o salão do Vô Teobaldo era o único que recebia a todos – fossem negros ou brancos. As festanças duravam dias a fio, e são um momento lembrado pela diversão em meio à rotina dura de trabalho. O outro salão da região era reservado aos descendentes de alemães. Em meio à discriminação, Teobaldo mantinha o orgulho de ser quem era – e de ser o único a saber fazer o que fazia. “Na época, mesmo com o preconceito que se tinha, recorriam a ele para procurar esse tipo de ajuda. Que só ele tinha a dar”, recorda Fábio da Silva, bisneto de Teobaldo.

Carregando as memórias nas mãos

Cada um preserva as memórias onde elas mais lhe tocam. Gilberto ainda guarda as ferramentas do tempo que ajudava o pai e o avô a cortar pedra para vender. O forno para fazer carvão permanece no terreno do Quilombo. Mas para Beto, a memória do avô é vivida diariamente através de suas próprias mãos. Hoje, o neto é o principal benzedor da comunidade. “Comecei benzendo coisas como dores de cabeça. Também tiro cartas e búzios. Sou bastante procurado”, conta. Do avô, tem guardado no corpo os modos de fazer, de escolher as melhores ervas, de curar. Mais que por meio de palavras, Vô Teobaldo ensinava pelos gestos. 

“Ele chamava os netos, para quem vinha ele dizia: ‘o vô tá ficando velho, tenho uma boa idade, vou ensinar vocês a benzer para salvar o povo’. A primeira vez que ele disse que eu ia assumir essa tradição, eu tava sentado perto de um fogão a lenha. Ele disse: ‘Gilberto, tu vai atender bastante gente no lugar do vô.’

“Como assim, atender?, eu perguntei. ‘Tu vai curar bastante gente’, ele falou”, narra Beto. “Não deu outra”. Ainda hoje, ele guarda em um quarto de madeira anexo à sua casa as figuras de santos cultuados pelo Vô, junto dos búzios, das guias de contas coloridas e de outros objetos de fé. Já as ervas não tem lugar demarcado: ficam espalhadas pelo terreno do quilombo, se espraiado assim como os descendentes desse ancestral.

Além das benzeduras, a fé de Vô Teobaldo é preservada por meio de outras tradições. Nas sextas-feiras da quaresma, ele não comia carne. Rezava três vezes ao dia – era devoto de Nossa Senhora da Conceição. “Tínhamos uma tradição de, na sexta-feira santa, ir pedindo perdão para os tios, de casa em casa”, diz Gisele Silva, uma das bisnetas do Vô.

Mesmo que trabalhem longe ou se mudem para locais fora do quilombo, a comunidade criada em torno de Vô Teobaldo mantém suas tradições, como maneira de manter vivo o orgulho de ser quilombola e de ter essa descendência. “Na sexta-feira santa, fazemos canjica socada, colhemos marcela. Temos nossas culturas, nossas ervas medicinais, tudo que a gente trouxe de cultura lá de trás, do meu bisavô, meu vô, meu pai”, lembra a bisneta.

As formas de curar e honrar essas ancestralidade sobreviveram de geração em geração. “Minha vó Araci nunca pegou para ensinar. Ela dizia: ‘tô com dor de barriga, tu vai ajudar a vó’. Ela fazia a benzedura e, em seguida, falava ‘agora faz tu’. Ela nos dizia onde estava a planta para pegar se tínhamos dor”, explica Gisele. “Hoje, se minha filha tá com dor de barriga, não pede remédio, mas pergunta se tem marcela, tem boldo. A gente não quer sair dessa cultura. É uma forma de demonstrar o quanto a gente sente orgulho de estar aqui e ter esses saberes, essas recordações”, completa.

Agora, o sonho dos netos e bisnetos é que a cultura do Vô siga se perpetuando no futuro. Em dezembro, o filho de Eliana, Anthony, sofreu uma queimadura grave quando tentou brincar com um fósforo. Ela recorreu às memórias do avô para cuidar do menino, usando clara de ovo para sarar as queimaduras. “Acho que meus filhos já não vão fazer isso. Depende da forma como tu foi criado”.

Chá de coração de bananeira para a asma, pariparoba para infecção, benzedura para estômago virado, clara de ovo para queimaduras: essas e outras sabedorias ancestrais podem ser perdidas conforme o tempo passa. Mas ao lembrar do avô em coletivo, sentados em roda, os descendentes apostam que a cultura do mestre será preservada na vida de cada um que nasceu naquele chão. “Eu já sou a terceira geração. Meu filho é a quarta. Continuamos seguindo os passos porque a gente admira”, afirma Gisele. “Transmitimos isso de maneira inquestionável”. 

Mais que um familiar, a figura de Vô Teobaldo é a de um mestre. “Na escola, a criança corre para o colo do professor para ele ensinar uma coisa. A gente corria para o vô”, lembra Eliana. Gilberto completa: “Ele ensinou a gente a trabalhar, a respeitar, a lutar para aquilo que a gente tanto quer. Não tenho muito estudo, mas essas palavras ficaram dentro de mim e me serviram muito. Ele é um mestre porque ensinou a gente a sobreviver”.

O orgulho de ser quilombola 

Para Nida, as raízes dos descendentes do Vô são tão fortes pela tradição que ele mantinha: enterrar o umbigo dos filhos e netos na goteira da casa. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

 Hoje, cerca de 18 famílias vivem nas terras que vieram a constituir o Quilombo São Roque. “O quilombo surgiu porque o vovô tinha dez filhos e era um escravo fujão. Se tornou um quilombo porque ele permaneceu aqui”, afirma Eliana. O título, em papel, demorou a ser fornecido pelo governo. O orgulho de pertencer àquela terra já existia entre os netos e bisnetos de Vô Teobaldo, mas o orgulho de se dizer quilombola, este demorou mais a florescer.

A partir da criação do Programa RS-Rural, a Prefeitura de Arroio do Meio comunicou à Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural a existência do Quilombo São Roque. A visita de uma antropóloga à comunidade em 2003 garantiu o documento que abriu a possibilidade de reconhecimento do território. A Fundação Palmares reconheceu o quilombo no mesmo ano. 

Um dos pontos que chamou atenção da especialista da Emater que visitou o quilombo foram as expressões que os filhos e netos do Vô usavam. “Ela ouvia eles dizendo ‘pé de chão’, ‘ó, criança, tira esse pé de chão”. Segundo Eliana, o termo era muito usado por descendentes de escravizados. 

Em 2005, foi fundada a Associação Comunitária Vovô Teobaldo. Na cidade vizinha de Lajeado, o quilombo urbano Unidos do Lajeado, fundado na cidade vizinha por Renê, um dos filhos do mestre, também preserva as tradições. “Hoje em dia, a gente bate no peito e fala: ‘sou quilombola. É a primeira coisa escrita nos documentos, bem grande”, celebra Eliana. “É uma pena que antes não era visto com os olhos de hoje”, lamenta Fábio.

A valorização da história de Vô Teobaldo também tardou a chegar. Na escola que fica logo ao pé do morro São Roque, há pouco tempo as crianças começaram a ter contato com a vida de figuras negras importantes para a história do país e da região. “Muitas vezes, o pessoal de Porto Alegre vem aqui, enquanto os de Arroio do Meio nem sabem que o Quilombo existe”, diz Eliana.

Em 2014, o Quilombo foi reconhecido como Ponto de Cultura do estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura. Na época, o quilombo realizou um projeto de valorização da cultura afro-brasileira com oficinas na comunidade. “Estamos buscando recursos para terminar a construção do salão que começou a ser feito na época”, explica Eliana.

Santinhos, objetos de devoção, São jorge, do Gilberto. Foto: Desirée Ferreira/Nonada

De umbigo na terra para sempre voltar

Muitos dos descendentes de Vô Teobaldo hoje moram fora do quilombo rural São Roque. A maioria não trabalha mais com agricultura. Mas os bisnetos são unânimes ao resguardar a importância daquelas terras, ligadas diretamente à memória do mestre.

Para Nida, a resposta para o afeto com essa terra está em uma simpatia de Vô Teobaldo. “A terra invoca os netos e bisnetos pela simpatia que o Vô tinha de enterrar umbigo na goteira da casa”, conta. Quando um bebê nascia, o umbigo que caía era enterrado no chão do quilombo. Ainda hoje, essa tradição se mantém. A pequena Emily, batizada no dia em que visitamos São Roque, já tem seu umbigo plantado no quilombo. “Quem sai, volta, porque o vô tinha essa devoção. O chão deles é aqui”, conclui.

O chão dos descendentes de Teobaldo enfrentou mais uma dificuldade em 2024 – as enchentes que afetaram quase a totalidade dos municípios do Rio Grande do Sul. O Vale do Taquari foi criticamente atingido. No Quilombo São Roque, foram dias de aflição. As roças foram levadas e construções no entorno, no distrito de Palmas, ficaram destruídas. Felizmente, nenhum morador do quilombo se machucou. “Deve de ter uma força espiritual aqui nessa chão”, conclui Eliana.

A cada chuva mais forte, os netos sentem medo de ter que deixar as terras que guardam as memórias do Vô Teobaldo. “Quando aconteceu essa enxurrada, sofremos muito porque teria a possibilidade de ter que sair da nossa área. Não é questão de ganhar outro lugar para morar. Quem tá aqui, é porque criou raízes”, diz Gisele.

E se as raízes seguem firmes, no futuro a  menina Ágata pode ter a certeza de que a história do Vô Teobaldo seguirá sendo contada, de página em página, e boca em boca, até que sejam muitos mais os netos do ancestral.

*A reportagem integra o livro “Patrimônio Vivo: as histórias e memórias de mestres de cultura do Rio Grande do Sul”, publicado pelo Nonada Jornalismo em 2025. Baixe gratuitamente.

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