Cratéus (CE) – Os pés caminhavam sob as ruas iluminadas pelo sol do sertão cearense, na hoje conhecida Aldeia Maratoan, em Crateús, Ceará. Ao lado, as filhas seguiam o mesmo passo. Nas mãos de uma delas, um caderno e uma caneta para anotar os nomes, endereços e costumes de um povo que, segundo o discurso da época, havia deixado de existir no estado. Era década de 80, quando, de casa em casa, Tereza Kariri foi rompendo o silêncio imposto pela colonização.
Nas andanças, que até então tinham o objetivo de achar indígenas da sua etnia, encontrou, além dos Kariris, os Tabajaras, Potyguaras, Tupinambás e Kalabaças. Essa mesma caminhada, nos anos seguintes, a lançaria como uma das principais responsáveis pela retomada do povo Kariri no Ceará, da terra à língua Dzubukuá. Ela reivindicou uma cultura negada como parte da identidade local por um longo período.
Nascida em 23 de junho de 1940, no Crato, na região do Cariri, Tereza cresceu sabendo de sua ancestralidade, através das histórias contadas pela avó, mas com uma ressalva: não poderia falar em público sobre, devido à perseguição sofrida pela comunidade no período. Criada pela tia, após o falecimento da mãe, estudou no colégio de freiras Patronato Padre Ibiapina, onde desenvolveu habilidades de pastoril. Envolvida com as artes desde a meninice, aprendendo a tecer bordado, tricô e crochê.
Aos 16 anos, mudou-se para Crateús, onde prestou serviços como doméstica. Posteriormente, se casou com Antonio Jovelino, da etnia Tabajara, e construiu sua família. Muito religiosa durante toda a vida, ela frequentava as grandes romarias que aconteciam na cidade do Canindé, no sertão do Ceará. Foi em uma delas que falou abertamente sobre suas origens e começou um processo de ruptura com o pacto de silêncio herdado: “Eu sou filha de índio, sou neta de índio”.

A fala foi endereçada à antropóloga indigenista Maria Amélia Leite, que trabalhava na Missão Tremembé pesquisando os povos indígenas do Ceará. Na conversa, Tereza inicialmente negou sua ancestralidade, mas acabou confirmando o que carregava desde a sua chegada ao mundo. Foi então que recebeu uma espécie de “missão” ao retornar ao território: achar seus parentes, tarefa que aceitou. Ao retornar, iniciou a busca, que aos poucos tornou-se um movimento organizado.
Encabeçado por mulheres indígenas, que foram se agregando aos poucos, o movimento iniciou a luta por saúde, educação e demarcação de terras. Observadora, Tereza Kariri identificava no cotidiano das famílias que visitava os sinais daquilo que considerava precioso para sua ancestralidade: o coletivismo.
“Ela disse que uma das coisas que percebia, quando chegava na casa de um parente, era que na hora da alimentação se estendia como se fosse um tapete e colocava a comida no centro. E aí todo mundo sentava ao redor para comer. Ela disse que isso era uma das coisas que também chamava a atenção dela, quando ela chegava nessa busca”, relembra Jamilly Kariri, neta de Tereza e integrante da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (FEPONICE).
Com uma fala firme e sensível, defendia que não se pode fugir da luta. A orientação é um dos fundamentos indígenas escrito pela matriarca. Além de não dar passos atrás, falava que era necessário ter orgulho de ser quem é, respeitar as origens, ser unido, manter a cultura, valorizar todas as etnias e ser “um por todos e todos por um”.
Ao Nonada Jornalismo, Eliane Kariri, pajé e filha de Tereza Kariri, conta que o título de “guerreira” não veio à toa. Em uma das histórias que guarda na memória, descreveu a postura de Tereza no enfrentamento aos posseiros. “Os posseiros arrudearam a casa, pra tocar fogo com eles dentro. Quem saiu? Tereza Kariri, que saiu de dentro da casa para enfrentar os posseiros. Até arma na cabeça dela eles botaram”, relata..
Semear e organizar

Descrita como sagaz e inteligente, a liderança comunitária combinava os diversos tipos de luta. Sabia que para retomar e resistir era preciso organizar. Foi, assim, que trabalhou na fundação da Pastoral Raízes Indígenas e a Associação Indígena Kariri de Crateús (AIKACRA), em 2007, uma das primeiras organizações indígenas da região.
Ao lado das filhas Cristina Kariri e Tetê Kariri, fundou uma escola indígena diferenciada na Aldeia, que teve início das atividades no quintal de sua casa, em Maratoan. Segundo Tetê, as aulas eram conduzidas a partir da oralidade, Tereza contava práticas, experiências, e apresentava a cultura do seu povo como um dos temas centrais.
Hoje, graças à organização iniciada ainda no começo dos anos 80, Crateús conta com duas escolas indígenas vinculadas à rede estadual da Secretaria de Educação. Para Tetê, a mãe pode ser resumida em uma imagem: a de uma árvore com muitos frutos. “É uma árvore que nunca deixou de existir. E da árvore, ela deu muito fruto, e ainda hoje dá. É o que eu me lembro muito, que ainda me deixa com força e garra para eu nunca sair do movimento e seguir adiante”, conta.
Seguindo seu mandamento de manter viva a cultura, Tereza introduziu o Toré na Aldeia Maratoan, ritual sagrado e expressão cultural em que os ensinamentos ganham corpo, canto e movimento. O momento era incentivado pela pajé a cada fim de mês, em especial quando parentes de fora vinham visitar a aldeia.
Havia um rito para entrar na roda, onde quem chegasse com sandália ou outro calçado precisava tirar e deixar os pés no chão antes de participar. Atenta aos detalhes, a pajé gostava que o encontro fosse vivo, e utilizava parte do seu tempo para decorar o local que ia receber a manifestação. “Ela gostava muito de fotos, de pegar plantinhas, flores. Ela era criativa demais. Uma artista”, relembra Tetê.
Poesia da guerreira

Além de tramar a luta no território, ela era também uma guerreira das palavras palavras faladas e escritas.Nas folhas de caderno, escrevia poemas e músicas em celebração à sua cultura. No momento da escrita, sentia os encantados – entidades guardiãs da floresta, deuses, o sagrado – por perto.
“Ela dizia que quando ela estava nesse ato de escrita também, era como se tivesse um encantado que se aproximava dela, e aí surgia, assim, a ideia também de escrever”, acrescentou Jamilly.
Boa parte desses escritos, no entanto, se perdeu. Era costume da pajé entregar as folhas com as anotações às pessoas durante os encontros, um gesto generoso que, com o tempo, dispersou grande parte de sua obra. Sentada no chão de casa, olhando uma pasta que reunia alguns dos poucos documentos preservados, Jamilly mostrou ao Nonada um deles.
Intitulado Cânticos dos Cariris, o poema apresenta o povo Kariri, o uso do fubá e sua sabedoria ancestral. Ela escreveu:
“Os Cariris têm sua cultura e também sabedoria, e estamos preparados para qualquer tirania”
Raízes que se estenderam
Como uma espécie de árvore que era, estendeu seus ensinamentos e força para outras aldeias e etnias além de Crateús. Em 2006, ela apoiou e acolheu a luta do Cacique Chico Pai Zé na retomada dos Tapuya Kariri da Aldeia Gameleira/Carnaúba, em São Benedito, município brasileiro localizado na Serra da Ibiapaba, Ceará.
As raízes foram mais distantes, e retomaram ao seu território de origem, no Cariri, onde Tereza contribuiu para a afirmação étnica de outras comunidades Kariri na região, em especial, na Aldeia do Poço de Dantas, em Crato.
A chegada da liderança ao território é rememorada por Vitor Kariri, que se lembra de tê-la visto pela primeira vez num final de tarde, em meados de 2008, perguntando se ali morava alguém com o nome Kariri. Ao encontrar um dos moradores e ouvir a confirmação, Tereza se emocionou.
“Ela ficou super feliz. Pegou o documento, já pediu licença. Ela foi se emocionando, porque tinha chegado a missão dela, relembra Vitor.
Ali, utilizando saias floridas, sua marca registrada,compartilhou a experiência coletiva construída em décadas de luta em Crateús. Contou a história do seu povo, ensinou formas de se organizar para conquistar direitos e apresentou o Toré. Contribuiu ainda com parcerias junto às universidades da região. Anos depois, fortalecida, a comunidade fundou sua primeira associação.
“A nossa classificação de movimento ficou mais atuante. O movimento começou a reconhecer a nossa história, a nossa luta. Hoje, graças a Deus e à força da tia Tereza, que fez esse movimento aqui dentro do nosso território, a gente está nomeado como a 16ª etnia dos povos indígenas do Ceará”, disse Vitor.

“Não deixar cair por terra”
Discreta em sua espiritualidade, firme nas palavras e terna nos gestos, quem conheceu Tereza Kariri não precisa perguntar de onde vem o título de guerreira. Cuidadosa em manter a luta viva, ela deixou um pedido a todos que seguiram depois dela: “Não deixar cair por terra” a história construída.
Apoiada na coletividade, acreditava que nenhuma conquista era só sua, a força vinha de caminhar junto. Mantinha uma ligação profunda com a natureza e um ânimo permanente para as assembleias, reuniões e viagens para reivindicar as demandas da comunidade.
Segundo os familiares, o maior desejo da pajé era ver a retomada crescer ainda mais, com os direitos chegando aos territórios, e um povo orgulhoso de dizer “sou indígena, sou Kariri”.
Tereza encantou-se em 2023, aos 83 anos, mas os pés que um dia caminharam pelas ruas de Maratoan, quando diziam que ali não existiam indígenas, hoje são muitos e estão espalhados por diversos territórios do estado. Seguem, de outras formas, carregando a existência de um povo que Tereza Kariri provou que nunca deixou de existir.


