Afro-brasileira e popular, cultura de Cosme e Damião educa e confere protagonismo às crianças

Culto aos santos meninos revela como a ancestralidade e a infância são fundamentais para a cultura popular brasileira

Todo dia 27 de setembro, em Vitória da Conquista, na Bahia, a cozinheira e antropóloga Gal Novato tem um ritual: corta o quiabo em várias rodinhas miúdas. O alimento dá vida ao caruru, que ao lado de outros pratos, como xinxim de galinha, pipoca, rapadura e doces, são servidos em uma grande mesa que recebe a comunidade na festa de São Cosme e Damião. 

Gal é matriarca no restaurante Panela de Oyá, no bairro Alto Maron, e chega a começar os festejos algumas semanas antes, em agradecimento às divindades crianças e ao início de sua trajetória no Candomblé, na década de oitenta. Para ela, a tradição é um modo de educação popular e de manutenção da ancestralidade no Recôncavo Baiano. 

Assim como ela, diversos brasileiros carregam memórias dos famosos saquinhos de doce distribuídos nesse dia. O historiador e escritor Luiz Antonio Simas lembra da sua infância, na Baixada Fluminense, marcada pelos festejos, no terreiro de sua avó Dona Deda, com a tradicional entrega dos doces. Já a professora da estadual do Rio de Janeiro, Amanda Barroso, leva para a sala de aula, na capital carioca, a missão de desconstruir o preconceito em torno da tradição, muito presente, e ao mesmo tempo muito negada, em sua infância. 

Setembro é um mês em que, de Norte a Sul do Brasil, se celebra São Cosme e São Damião. Embora atualmente fragilizada em alguns territórios, a tradição popular e seus devotos tomam as ruas com diversos festejos para celebrar os santos meninos, cozinhar pratos tradicionais e distribuir os saquinhos listrados de rosa, cheios de doces.

Historicamente, a cultura popular celebrou a data no dia 27 de setembro, mas, em 1969, a Igreja Católica alterou o calendário oficial e definiu que a festa seria celebrada em 26 de setembro, para evitar a coincidência com o dia de São Vicente de Paulo. Na devoção popular, porém, o  dia 27 seguiu soberano. Não por acaso: decretos jamais conseguem driblar a força da devoção popular. 

É através dessa cultura viva no país que os festejos atravessam séculos e seguem como parte do calendário, sendo considerados patrimônio imaterial na Bahia desde 2024. Da fundação da primeira igreja dedicada a eles, erguida em Igarassu, Pernambuco, em 1535, até o encontro com as tradições afro-brasileiras, os gêmeos seguiram sendo celebrados como protetores das crianças na cultura popular. Nas religiões de matrizes africanas, os santos médicos foram associados aos Ibejis, divindades gêmeas africanas, mostrando também que as culturas negras e afro-brasileiras também são capazes de “empretecer” e “africanizar” a cultura europeia e cristã.

A história dos meninos

Devoção à Cosme e Damião envolve preparo de comidas tradicionais, fundamentadas nas culturas afro-brasileiras. Foto: Táta Ricardo/Arquivo Pessoal

Mais fascinante  do que entender por que a Igreja santificou Cosme e Damião, talvez seja perceber por que a população brasileira, e a cultura popular, os humanizaram e ressignificaram. Historicamente, a popularidade dos santos meninos ganhou força junto ao catolicismo popular, aquele que se desenvolveu às margens das próprias igrejas e dos grandes centros, abrindo frestas para incontáveis caminhos de fé nas periferias e subúrbios, por exemplo, espalhados pelo Brasil. 

Nesses espaços de trânsito e confluência, Cosme e Damião, ora apresentados como adultos, ora como crianças, foram se transformando em figuras e símbolos fundamentais de diversidade, respeito e tradição. Em um só tempo espiralar, como nos ensina a poeta e professora Leda Martins, eles habitam as macumbas brasileiras, o catolicismo institucional e o cristianismo popular.

Na tradição cristã, os santos gêmeos que viviam na Síria, tratavam dos enfermos e curavam as doenças, sendo associados à medicina e à caridade. Ao chegarem no Atlântico, suas histórias e práticas se cruzaram com outras cosmologias e populações, principalmente das comunidades negras de fé, que já cultuavam a infância e a saúde a partir de outros valores. 

Do lado de cá, a tradição se transformou em uma mistura verdadeiramente brasileira, sendo adotada também pelos terreiros de Umbanda e Candomblé, por exemplo, a partir do sincretismo, movimento que pode ser pensado tanto como política de violência, quanto como também tecnologia de poder desenvolvida por populações negras e indígenas diante da proibição das práticas e ritos tradicionais e originários. 

Observando criticamente a história de Cosme e Damião, há quem diga que os santos católicos foram atrelados ao culto de Ibeji. E não o contrário. Fato é que, longe de ser uma assimilação passiva ou mero processo de embranquecimento, o sincretismo brasileiro que envolve essa cultura popular também se construiu como uma força crítica e criativa da tradição. 

“O Brasil ressignifica pela resistência”

Quem defende essa leitura a partir do chão de terreiro é  Gal Novato, também historiadora e candomblecista há mais de quatro décadas. A professora de História da África refuta qualquer mito de “pureza religiosa” e enxerga no encontro das tradições uma estratégia política de continuidade:

“Eu não condeno de maneira nenhuma: o sincretismo foi uma forma que a gente achou de sobrevivência. Talvez se a gente ficasse preso nas tradições puramente africanas, elas tivessem desaparecido. O Brasil reinventa e ressignifica pela sobrevivência e pela resistência. Nós, negros, inteligentemente, utilizamos todas as estratégias para driblar a escravização”, pontua ela.

A engenhosidade e a sagacidade negras foram, então, capazes de influenciar e orientar o próprio catolicismo, cruzando os santos com Ibeji, o Orixá jeje-nagô guardião dos gêmeos e protetor de todas as crianças.A palavra Ibeji carrega em sua raiz iorubá a própria ideia de duplicidade: “ibi” refere-se a nascimento e “ji” a dois. Nas sociedades iorubanas, historicamente marcadas por altas taxas de natalidade de gêmeos, essas crianças são associadas ao poder da vida, da fertilidade e da prosperidade, além de serem evocadas para proteção e bênçãos.

Além disso, na tradição iorubá, quando uma mãe tem gêmeos, o próximo filho é chamado “Idowu”,  aquele que é guardião das energias da família. No Brasil, Idowu virou o popular “Doúm”, símbolo da alegria e da proteção das crianças.

A história de Doúm, o “terceiro irmão” que aparece entre São Cosme e São Damião, além de revelar então como a cultura popular e afro-brasileira interferiu diretamente na iconografia cristã, reafirma a cultura como prática viva, composta por infinitos elementos que são apropriados, negociados, reelaborados e vividos de maneiras diversas.

Se nas ruas a festa se popularizou pela distribuição dos saquinhos de doces, no coração dos terreiros, sobretudo na Bahia, ela se consolida no tradicional caruru de Cosme, ou Amalá, prato à base de quiabo, azeite de dendê, camarão seco e temperos. A comida ancestral remonta a um itan (narrativa) iorubá: conta-se que o orixá Xangô tinha no amalá sua comida favorita, mas era frequentemente privado dela por Exu, que devorava o prato antes de todos.

Para ajudar o pai, os gêmeos Ibeji desafiaram Exu para um duelo de dança ao som do tambor batá. Revezando-se no toque sem que Exu percebesse, os irmãos levaram a divindade ao cansaço e à derrota. Como oferenda, Xangô determinou que, a partir daquele dia, uma porção de todo Amalá servido seria entregue aos Ibejis.

Do Recôncavo ao sertão: o Caruru de Mãe Gal

Essa culinária ancestral, materializada no caruru, ganha corpo e memória na vivência da trajetória de Gal. Filha de Oyá, ela recorda que suas memórias com a cultura de Cosme e sua relação com as comidas afro-brasileiras vieram da relação com seu Pai, homem de Candomblé no Recôncavo Baiano:

“O meu pai me ensina a cozinhar. Desde os 14 anos que eu já cozinho. Ele ia para a Feira de São Joaquim comigo, em Salvador, me ensinar a comprar, a diferenciar o que é camarão seco, mostrar como o dendê é o nosso ouro, o sangue sagrado dentro do dendê para nós. Essa história de comida na minha vida veio com meu pai.” 

Ela conta que desde a adolescência enxerga que a tradição sempre tem um viés comunitário. “Eu fui ao Caruru com meu ex-namorado num terreiro em Lauro de Freitas. Chegando lá, teve toque para Oyá, minha mãe. Quando recebi meu primeiro salário, eu falei: ‘Vou dar caruru para sete crianças’. Começou assim, numa mesinha no chão da minha cozinha”.

Mais do que a oferenda, é a vivência comunitária que transforma o ritual em uma verdadeira celebração: “A gente faz a mesa no chão com as crianças. A gente canta para comer, canta para lavar as mãos com uma bacia de esmalte e alfazema, canta para secar, canta para levantar as crianças e canta para levantar a toalha. Essa toalha fica dobrada no pé do sagrado e depois é sacudida ao vento”, descreve, reafirmando que o rito é, antes de tudo, um ato de educação e partilha que mantém a tradição viva.

A força comunitária da festa

Essa potência de recriar o mundo e costurar laços comunitários através do rito é o que o historiador e escritor Luiz Antonio Simas, autor do livro infanto-juvenil As três estrelas do céu: Cordel para Cosme e Damião, define como a grande força da celebração de Cosme e Damião. Para ele, as festas populares funcionam como resposta à experiência histórica marcada pela violência e pela fragmentação no Brasil: “A festa tem a capacidade de reconstruir aquilo que foi dilacerado”, afirma. 

Com mais de trinta livros publicados sobre culturas populares, o pesquisador é também professor, mestre em História pela UFRJ,  educador popular, escritor, poeta e compositor. Para ilustrar essa lógica, Simas lembra que os eventos culturais são sempre um reflexo de uma engrenagem comunitária profunda: “Você vai pegar, por exemplo, uma escola de samba, um cortejo de Maracaú, um reinado. Uma escola de samba, não pode existir porque desfila. Esse processo é o inverso, ela só desfila porque ela antes existe.”

O escritor e historiador Luiz Antonio Simas dedica sua produção ao estudo das culturas populares no Brasil. Foto: Lucas Haubrick / Revista Opera/ Divulgação

No caso dos gêmeos, essa reconstrução acontece no encontro entre o sagrado e o profano, dimensões  que caminham juntas nos festejos populares: “Operou-se um encontro aqui com espiritualidades vinculadas à questão dos gêmeos e à proteção da criança, como Ibeji entre os iorubás e Vunji nos Candomblés de Angola. Nós temos uma cultura que profana o sagrado e sacraliza o profano o tempo inteiro”, explica o pesquisador.

Assim como diversos brasileiros carregam memórias dos famosos saquinhos de doces, Simas teve sua infância, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro (RJ), marcada pelo culto a Cosme e Damião: “A minha avó tinha um terreiro em Nova Iguaçu, e ela distribuía [doces]. Era um hábito impactante, porque era tanta coisa que ela distribuía na semana anterior os cartões. Então, as crianças iam pegar o cartão que te davam direito de voltar no dia de Cosme e Damião, no terreiro, para pegar doce e comer um caruru”. Para o dia 27 deste ano, ele diz não ter nenhum compromisso na agenda, o plano é: “ir para a rua e ver Cosme e Damião acontecer’’, diz sorrindo. 

“Brincadeira é coisa séria”, diz a Ibejada

Entre as calçadas, a distribuição e a alegria das crianças, Simas também defende que a tradição popular também construiu uma lição importante: infância é poder e agência.

Na data, saudações e oferendas, principalmente com balas, cocada, paçoca, pé de moleque, bala de mel e outros quitutes, são feitas às crianças para pedir bênçãos e proteção. Ao contrário da perspectiva ocidental que compreende a infância como um lugar menor, incompleto e somente de passagem ou transição para a vida adulta, a tradição de Cosme e Damião reposiciona as crianças como sujeitos de inteligência e voz.

Em aula pública, Simas conta como Cosme e Damião é uma das culturas que contrapõem a lógica do desencanto. Foto: Sérgio Bonelli/ Al Farabi/ Divulgação

Segundo Simas, enquanto a sociedade vivencia um tempo em que as “cidades aceleram o passo e esvaziam o convívio”, a celebração dos santos meninos afirma-se como um ato de insurgência poética: “Cosme e Damião é um contraponto a tudo isso. É a possibilidade de inventar um mundo que questione esse utilitarismo bizarro que a gente vive. Fala da infância como uma instância de cura, de saúde, de ludicidade pelo ato de brincar, é o brinquedo como terapêutica” defende.

Além disso, ele alerta que a tradição subverte não só o sentido, mas também a própria ocupação do espaço público: “A rua como um espaço para encontros vem perdendo o fôlego diante de uma cidade pensada a partir da circulação de mercadorias, de carros e de corpos disciplinados dentro da lógica do trabalho”, aponta Simas.

Essa disputa pela rua também reflete diretamente no modo como pessoas e comunidades com diferentes repertórios e posicionamentos culturais, políticos e religiosos, por exemplo, aprendem a conviver, cooperar e construir estratégias coletivas de partilha a partir da cultura popular de Cosme e Damião.

Nas palavras de Simas: “O fenômeno educativo se constrói na alteridade, a partir do convívio com o que é diferente. Você está se educando quando doa e recebe o doce. É a liberdade, a criatividade e a mandinga pelo ato de brincar”, reflete o escritor. Ao transformar a rua em espaço de relacionamento, mesmo em meio a tensões e diferenças, a festa dos gêmeos ensina o país a se abrir para o coletivo: “A festa de Cosme e Damião é uma festa de disponibilidade para a vida, de estar disponível para a alteridade e para o fenômeno do encanto” afirma o educador.

Educação popular

Cosme, Damião, Doum e Ibeji são também legados de uma reeducação popular. No cotidiano de muitas famílias brasileiras, o culto aos santos meninos também é atravessado por preconceitos, hostilidades e discriminações pela raiz negra que carrega.

A pedagoga e pesquisadora aponta como a tradição de Cosme e Damião pode atuar como ferramenta de educação desde a infância. Fonte: Arquivo pessoal / Nonada.

É o que revela Amanda Barroso, mulher negra evangélica, pedagoga e pesquisadora. Criada em uma família que proibia o culto à tradição e a partilha dos doces em virtude do racismo religioso, Amanda experimentou na própria infância a dor dessa violência. Diretamente do Rio de Janeiro (RJ), aos onze anos, ela permaneceu sozinha na sala de aula da escola, assistindo pela janela seus colegas e professora de turma pegarem doces no terreiro vizinho à instituição, como relata no capítulo “Medo de quê?” de sua autoria, que compõe  o livro “Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil’’ do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Mãe de uma jovem de vinte e dois anos iniciada no candomblé e de um menino de seis que “aprendeu a amar o Jesus Preto de Nazaré” como ela afirma, Amanda defende que as celebrações aos gêmeos também representam a diversidade religiosa que a fez repensar sua trajetória e compreender como a tradição, a ancestralidade e o afeto podem abrir caminhos para a educação.

“Hoje a sensação que eu tenho é libertadora”, celebra ela. “Quanto mais eu estudo sobre religiosidade, vejo que a mesa tem que ser um espaço plural, de comunhão”, afirma a pesquisadora.

Esse processo de aprendizado e abertura cultural se materializa, atualmente, na criação de seu filho mais novo, Samuel, de oito anos. Para a pedagoga, sua trajetória ilustra como a cultura popular transforma problemas sociais, da educação à cultura, de forma ativa, brincante e sagaz, mesmo em meio a conflitos. Enquanto professora, Amanda afirma que leva todo repertório de Cosme e Damião e de outras tradições populares para a sala de aula para construir diálogos críticos, plurais, laicos e antirracistas. 

Cooperação e respeito marcam os festejos 

Para Gal Novato, a devoção a Cosme, Damião e Ibeji também se transforma em uma prática educativa que atravessa barreiras religiosas, reunindo vizinhos evangélicos, católicos, batistas e ateus. Ela acredita que a festa atua como um instrumento de enfrentamento ao preconceito:

“Aqui no Alto Maron, é impossível você conversar com alguém hoje, seja evangélico ou católico, que um dia não sentou na mesa do chão para comer o caruru de Cosme e Damião. O caruru passa para a ritualística do cotidiano das famílias, independente da pertença religiosa”, reflete. “É uma festa educativa: ela entra no calendário para desmistificar, para quebrar o impacto do racismo religioso e esse olhar negativo, demoníaco sobre a diáspora. A comida também é um convite, é atrativa, chama as crianças e os pais vêm junto”.

A força dessa rede de cooperação e diálogo percorre todo o bairro, considerando um dos mais negros de Vitória da Conquista (BA), desde a preparação, para a grande festa popular: “Esse ano tinha uma senhorinha de 86 anos, Dona Azul, que veio sentar para cortar a comida e contou a história do bairro inteiro. A menina que me ajudou a arrumar a casa é da Igreja Batista. Há uma grande confluência de respeito”, afirma Gal. 

Seja nos quintais do sertão baiano ou nas calçadas de todo o país, os santos gêmeos seguem nos ensinando o que a Ibejada e as culturas populares sabem desde sempre: para não sucumbirmos diante da aceleração do tempo, do produtivismo e da dispersão dos saberes populares, a infância e a festa continuam sendo caminhos vitais.

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