Para crianças das periferias do Cariri, brincar é importante “para a cultura não acabar”

O Nonada perguntou a crianças e adolescentes da região do Cariri, no Ceará, sobre o significado do brincar em suas vidas
As crianças destacam brincadeiras realizadas ao ar livre, como a carimba e a amarelinha. Foto: Bruna Santos/Nonada

Juazeiro do Norte (CE) — Na frente de uma casa de parede amarela, na Serra do Catolé, território do povo Kariri, em Juazeiro do Norte (CE), uma mão pequena segura um pedaço de carvão e traça algumas linhas no chão. Ao redor, outras mãos auxiliam a construir o desenho. Em poucos minutos, de traço em traço, forma-se uma amarelinha, que logo começa a ser saltada por pés inquietos. 

Allycia Maria Ferreira, de 9 anos,  foi a responsável por fazer as maiores linhas, e conta que a brincadeira é uma de suas favoritas. Na lista, que é extensa, cita ainda o pega-pega, o esconde-esconde, a bila — conhecida em outras regiões como bolinha de gude — e pega-bandeira. Sobre todas, um detalhe em comum: só acontecem em companhia. E é nessa partilha do brincar, que ela encontra o que chama de “viver”. Foi isso que o Nonada  ouviu ao perguntar crianças e  adolescentes da região do Cariri como o brincar está presente em suas vidas. 

No bairro Pio XII, um dos mais estigmatizados por discriminações de raça e classe em Juazeiro do Norte, outras crianças também celebram o coletivismo do brincar, mas dessa vez no Reisado. Embora a palavra brincar muitas vezes seja associada a um passatempo, os meninos e meninas que compõem o Reisado Mirim Padre Cícero, fundado em 2024, sabem que, na brincadeira, carregam tradição, cultura e senso de pertencimento.

Francisco Miguel e Carlos Robério entendem a cultura popular cearense como lugar de brincadeira e aprendizado. Foto: Bruna Santos/Nonada

Rodeado dos retratos de apresentações e quadros com elementos da cultura popular da região do Cariri, Francisco Miguel Freire, de 11 anos, fala com orgulho que há cinco anos brinca de Reisado. Assim como Ester, Allycia e Ketley, o menino aprendeu a brincar na convivência.  Foi acompanhando a mãe durante os desfiles que Miguel, ainda aos 6 anos, se encantou pela tradição. Hoje, é um dos principais personagens do cortejo: o rei e tem como uma das partes favoritas da manifestação cultural o jogo de espadas. “É muita aventura”, explica. 

Aprender e ensinar a brincar também é um lema entre os integrantes. João Gabriel Carlos Monteiro, de 15 anos, conta que, por mais que tenha entrado há pouco tempo no Reisado, já aprendeu muito com os amigos. “Os mestres [da cultura] que vêm antes de nós e que vão passando de geração em geração. Eu aconselho a entrar, por causa que a gente faz muitas amizades, aprende o que a gente quer aprender e se diverte”, reflete. 

Longe de atribuir o brincar a algo passageiro, Carlos Robério Gonçalves, 14 anos, vai na contramão, e defende que a brincadeira, seja ela qual for, “é uma coisa muito importante”. Para ele, dividir o espaço dos ensaios, ir às apresentações e compartilhar momentos ao lado do grupo é uma forma de manter a cultura viva. 

“Por causa que estamos esquecendo da cultura que existe no Ceará. Enquanto pessoas, assim como nós, temos que lembrar, para poder ficar passando de geração em geração. Enquanto os outros vêm, outros se vão, e assim a cultura não se acaba. É uma coisa boa”, analisa. 

Seja no quintal da avó, na calçada de casa ou nas ruas que recebem as crianças que brincam de Reisado, o que as crianças ouvidas pela reportagem têm em comum é o desejo de seguir brincando. Em locais diferentes, e sem se conhecer, elas falam da infância como algo que não se quer perder. 

Apesar de afirmar que a calçada de sua casa é um dos melhores locais para brincar com as amigas, Ketley Isabelle Pereira, de 10 anos, tem no quintal da sua avó um dos principais destinos de diversão após a escola. Ela conta que ama conversar com as galinhas que moram na casa, e, até o momento, já nomeou todas. “Eu gosto também de ficar lá com as minhas galinhas, ficar brincando com elas e também ficar aguando as plantas”, detalha a menina. 

Após escutar com atenção as duas amigas falarem, Maria Ester dos Santos, de 12 anos, também compartilha como as brincadeiras atravessam sua rotina. Após os estudos, toma banho, almoça e parte para brincar. Com as colegas, gosta de jogar volêi e carimba — também conhecido como queimada. Mas, entre todos os dias, ela guarda um em específico com carinho, aquele em que passou horas se divertindo com inúmeras brincadeiras. 

O jogo de bila, também conhecido como bolinha de gude, reúne as crianças em Juazeiro do Norte. Foto: Bruna Santos/Nonada

“A gente foi brincar, depois a gente foi lá pra uma casa, aí depois a gente foi brincar na casa, depois a gente foi brincar lá de fora, de pega-pega, aí quando foi umas 6 horas a gente foi brincar de pula-corda e trancelim [pular elástico]”, relembra.  Juntas, as três repetem aquilo que aprenderam com os pais, avós e primos, e fazem questão de incluir crianças mais novas na coletividade das brincadeiras, ensinando a elas o que lhes foi ensinado. 

Brincar como herança 

Para as crianças da Serra do Catolé, um punhado de terra dentro de uma tampinha plástica é uma sopa de comer; um pedaço de cerâmica é o fogão onde se cozinha; os riscos da amarelinha são a cama para as bonecas; são exercícios que nascem na imaginação e também aprendizados de quem convive com parentes e familiares que cultivam o poder do brincar.  

Ao serem questionadas sobre como aprenderam as brincadeiras que gostam, Ketley não hesitou em dizer “foi a convivência”. Em seguida, e recordando-se aos poucos, detalhou os momentos em que ouviu falar pela primeira vez dos jogos que tanto gosta. Um deles foi em um trabalho escolar, onde a professora estimulou que os alunos perguntassem aos avós do que costumavam brincar. “Ela [avó] disse que também brincava de pião, brincava de trancelim, brincava de boneca. Essas são as brincadeiras que a gente brinca”, conta. 

Allycia, Ketley e Ester, da esquerda para a direita, dizem que as crianças poderiam aproveitar mais as suas infância ao brincarem nos espaços públicos. Foto: Bruna Santos / Nonada Jornalismo

A experiência de Ester foi parecida. Ao ouvir a avó para um trabalho de escola, soube que elas compartilhavam dos mesmos gostos na infância. “Minha vó também brincava de pular corda, brincava de se melar, de cozinhar, brincava de fazer bolo de areia. Eu acho que toda criança aprende quando é na infância. Então eu aprendi muita coisa com minha mãe e com minha avó”, afirma.  Já Allycia conta que parte do seu brincar veio através das primas mais velhas, das amigas e de algumas tias. Orgulhosa, ela diz que aprendeu uma brincadeira que não sabia: pular corda. “Eu tinha medo, não sabia. Mas aprendi”, celebra sorrindo. 

‘Brincar é viver’ 

Talvez seja difícil para um adulto explicar o que é viver. Alguns podem dizer que é existir, outros podem afirmar que é somente se permitir sentir. Mas, para Ester, que diz de forma firme, mas com uma expressão terna, viver é brincar.  “Eu quero dar esse recado para todas as crianças que quiserem mexer no celular: deixem o celular para trás e vão brincar com as brincadeiras, porque brincar é uma forma de viver, de lazer, de distrair a vida”, fala. 

Allycia compartilha o mesmo pensamento. Ela diz que conversar com as amigas pelo celular é legal quando há distância, mas que é preciso aproveitar o que só a infância pode proporcionar. “Viver um pouco da sua infância, porque depois você não vai ter tempo mais de brincar quando você tiver maior”, diz. 

Atentas ao tempo, as crianças do Cariri compartilham o que Drummond de Andrade escreveu no poema Brincar na rua: o corpo ainda não parou de brincar. Para elas, ainda não é tarde para transformar os quintais, calçadas e ruas em todos os mundos que a imaginação permitir. Quando chamarem na janela, a memória tratará de seguir brincando.

Ao pensar no futuro, Allycia diz que não quer tirar da memória a brincadeira que teve com sua primeira amiga: esconde-esconde. Mesmo longe de deixar de ser criança, a menina, nos momentos de saudade, já rememora os dias de alegria. “Quando eu tiver adulta, é como uma forma de lembrar minha infância com minha primeira amiga, porque hoje eu não tenho mais muita comunicação com ela, porque ela mora longe.” 

Embora também goste, Allycia recomenda a meninos e meninas que brinquem mais longe das telas. Foto: Bruna Santos/Nonada

Ketley Isabelle Pereira acredita que guardará com carinho duas brincadeiras. Uma delas é a boneca, pois, segundo ela, é bonito ver as crianças carregando o brinquedo nos parques, shoppings e praças. A segunda é o trancelim. “Porque você distrai muito e você brinca com as suas amigas e não esquece mais”, afirma. 

Com consciência de que dentro de poucos anos se tornará adolescente e logo em seguida adulta, Ester dos Santos pediu para o Nonada deixar um aviso às crianças: “não se esqueçam de brincar”. Para ela, a infância é o melhor momento de construir histórias e guardar boas recordações. Até lá, ela pretende aproveitar cada minuto da melhor forma possível, ao lado de suas amigas e primas. 

Já Miguel, Carlos e João esperam olhar para trás e ver como o brincar contribuiu para o fortalecimento de suas amizades, para a perda da timidez e para descobrir algo novo. “Eu acho que se você quiser entrar para brincadeira, você tem que entrar. Você conhece coisas novas”, convida João Gabriel. 

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