Texto e foto: Fernando Halal (halalson@yahoo.com.br)

À primeira audição, a inusitada salada sonora pode parecer um tanto quanto indigesta. Psicodelia, punk, regionalismo nordestino, brega anos 70, todos buscam uma brecha na inquieta obra do Cidadão Instigado. E se as melodias não seguem exatamente um padrão pop, o lirismo surrealista-amalucado de Fernando Catatau ultrapassa todas as fronteiras, com letras que ficam ainda mais longe do palatável ou do óbvio.

cidadaoinstigadoTalvez por isso, e não esqueçamos que se tratava de uma segunda-feira, o Bar Opinião tenha recebido tão poucos interessados na estreia da banda cearense nos palcos de Porto Alegre, no dia 22 de novembro. Quem esteve lá saiu em êxtase com uma aula magna de rock independente.

São 14 anos de estrada e, a julgar pela devoção da pequena plateia, vários hits underground – isso que o setlist se deu ao luxo de descartar clássicos como “Pinto de Peitos” e “Te Encontra Logo”.

A performance dos caras é, com o perdão de uma palavra tão gasta, visceral. Catatau começa o show um tanto quanto comportado, emanando as primeiras notas de “Doido” (do último álbum, U-huuu!, lançado em 2009). Lá pelas tantas, lá está ele prestes a arrebentar as cordas da guitarra com seus riffs e timbres infernais. Não é um virtuoso, prefere tocar com o instinto à frente de tudo, quase como um Jimi Hendrix do agreste. É contagiante, e de uma autoconfiança assustadora.

Juntos há tanto tempo, os demais integrantes do grupo respondem à altura do vocalista. Os teclados espaciais do álbum estão todos lá, samplers, dedilhados no baixo e as belas viradas de bateria também. O novo disco norteou o repertório, sendo executado quase na íntegra. Mas houve espaço para relíquias como “El Cabrone” (do EP homônimo, de 1999) e “Os Urubus Só Pensam em Te Comer”, do álbum E O Método Tufo de Experiências (2005). A noite é encerrada com dois bis, e a última canção escolhida foi um cover de “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, de Sérgio Sampaio. Festa riponga na pista.

Talvez as frenéticas viúvas do Los Hermanos, que um ano atrás se acotovelavam no mesmo Opinião durante os dois shows do Little Joy, sequer façam ideia que a guitarra de Fernando Catatau foi uma das boas referências no derradeiro 4 dos cariocas. Pode ser que estejam muito ocupadas em encontrar seus novos ídolos em artistas de musicalidade fácil e pouco desafiadora (ok, não vamos citar nomes). Nunca é tarde, porém, para conhecer uma das mais verdadeiras bandas do rock nacional.

“Faço o que gosto, gravo os discos da minha maneira e esses caras com quem eu toco são meus amigos de anos. Não dá pra pedir muito mais que isso”, confessou Catatau à reportagem do Nonada após o show. E assim o Cidadão Instigado vai levando a vida, provando que é possível fazer música “estranha” e de forma atraente a um só tempo. Sem se preocupar com cifras. Palmas a eles.

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