Neltair Rebes Abreu é um cartunista premiado internacionalmente, embora ele seja conhecido mesmo como Santiago. Também é conhecido por desenhos de humor muito crítico e bastante político, Santiago não gosta de falar dos seus prêmios. Gosta de falar de política, de humor, de comunicação e de desenho, claro. Conversamos sobre isso, suas influências, sua carreira, seu livro Retroscópio, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre em 2010.

A entrevista aconteceu em seu estúdio, a peça da frente em sua casa, em que este repórter perdeu um considerável tempo vasculhando as estantes recheadas de livros, quadrinhos e revistas de desenho. Os quadros de prêmios na parede testaram a minha curiosidade até que não resisti e perguntei de que eram. Discreto, o cartunista é vago: “Ah, ali é meu cantinho do exibicionismo. São prêmios que eu ganhei. Aquele ali em Sofia, na Bulgária… Ali um que eu ganhei no Japão…”.

Entre uma pergunta e outra, percebo que não levei a máquina fotográfica. Pergunto se posso voltar outro dia, para que a entrevista não fique sem imagens no site. “Voltar, pode, mas até prefiro sem foto. Põe alguns desenhos meus, falam muito mais sobre mim do que qualquer foto.” OK, combinado.

Santiago por Santiago

Nonada  – Quando você começou a desenhar?

Santiago – Desde muito pequeno. Isso sempre foi uma coisa muito forte em mim. E é igual para todos os desenhistas que eu conheço, na verdade. Para mim era quase como uma imposição da natureza, desenhar. Sempre ficava copiando os personagens que eu lia. Via como o desenhista articulava o braço, como fazia um sorriso, um olho. Sempre desenhei muito. Copiando descaradamente, mas aprendi um monte assim. Só faltava, quando cresci, transformar em alguma coisa que fosse rentável, profissionalmente.

Nonada – E como você começou a trabalhar com desenho?

Santiago – Olha, sempre foi muito claro para mim que era com isso que eu queria trabalhar. Na minha juventude, eu comecei a fazer desenhos humorísticos, caricatos. E óbvio que esse tipo de desenho se presta para o uso em jornais. Então eu descobri que isso poderia ter um sentido profissional.

Nonada – Que quadrinhos você lia quando criança?

Santiago – Bah, eu lia tudo. Avidamente. Claro que não dá para comparar com hoje em dia. Na minha infância e juventude, eu morava no interior, não tinha televisão, nada que competisse com o quadrinho. Talvez o cinema de fim de semana. Os quadrinhos que circulavam naquele tempo eram vários também, e eu lia tudo. Todas as revistas da família Disney. Os super-heróis, Batman, Super-Homem, Fantasma, o Mandrake. Tinha diversos de faroeste, de aventura. Gostava do traço do Flash Gordon, do Tarzan. Eram muito realistas. E na minha adolescência eu conheci o Tintin, do Hergé. Ele me influenciou muito, foi quando eu descobri que era aquele tipo de desenho que eu queria fazer. E é o meu traço até hoje. Tive também muita influência da revista O Cruzeiro, que dava muita valorização para o desenho humorístico. Tinha o Amigo da Onça, do Péricles, o Carlos Estêvão, o Millôr Fernandes. E lá pelos meus vinte anos apareceu o Pasquim, que também foi muito importante, não só pela questão do desenho, mas também pelo tipo de humor, que me influenciou muito, com uma crítica política forte.

Nonada – Como você começou a trabalhar em jornais?

Santiago – Bom, na faculdade de arquitetura eu conheci o Edgar Vasques. Ele era meu colega e já trabalhava em jornal, nos da Caldas Jr. E ele me chamou para fazer algumas coisas para a Folha da Tarde. Comecei lá com ilustrações ligadas a matérias. Então não tinha muita autonomia. Mas logo eu conquistei espaço para fazer uma charge minha, autoral, com a minha assinatura, minha opinião. Aí que começa toda minha trajetória, eu fui ficando e acabei me profissionalizando.

Charge de 78, sobre denúncias de grampos das agências repressoras da ditatura

Nonada – E você fazia, então, uma charge por dia?

Santiago – É, sete por semana, não necessariamente uma a cada dia.

Nonada – E você tem todas essas charges guardadas ainda?

Ah, não. Não teria nem condições de guardar tudo isso. Algumas eu guardo o jornal, outras estão nesses discos zip, tenho uma pilha, mas eu nem conheço computador que leia hoje em dia. Outras tantas escaneio e estão no meu computador. Mas os originais do tempo do jornal, muita coisa foi fora. Nem tinha porque guardar, porque a natureza da charge é efêmera, que nem o jornal. Fica datado.

Nonada – De um universo tão grande, como você fez para escolher quais iriam para o livro Retroscópio?

Santiago – Bom, o critério que eu usei para o livro foi o de importância histórica. Eu peguei esses quarenta anos, desde o tempo em que eu ainda não era profissional, e fui escolhendo fatos importantes. Não importava tanto pra mim a qualidade do desenho, e sim o fato, como eu  o retratei na época. Então eu começo com a chegada do homem à lua e termino com a eleição do primeiro presidente negro nos Estados Unidos. E entre os dois, têm mais acontecimentos. Queria que fosse bem um acompanhamento da história através das charges. Tem desenhos meus que eu gosto muito, mas que não pus, porque o fato não era tão importante. Até pela característica da charge, de ser bem datada, tem alguns fatos que a pessoa vai ter que procurar mais sobre, talvez, para entender. Principalmente os mais jovens.

Charge de 2007 brincando com os perigos dos produtos transgênicos

Nonada – Mas você dá uma explicação junto de cada desenho.

Santiago – É. Mas bem curto, só falando por cima do que se trata. Bem pontual. “Houve isso, meu desenho foi esse”. Se a pessoa não sabe o que foi o acontecimento, sempre tem a internet para pesquisar.

Nonada Algumas charges são bem críticas durante a época da ditadura, e foram publicadas igual. Como isso acontecia?

Santiago – É que na época que eu comecei a trabalhar em jornais, já não tinha a censura da ditadura. O censor do governo, censor de fora, não ia mais pro jornal. Tinha a censura só dentro do próprio jornal, isso sim. Mas se passava por essa censura, era publicada sem problemas, muita coisa passava. Mais que hoje em dia, por sinal. O grau de crítica de algumas charges dessa época nunca passaria nos jornais de hoje. As charges que ainda existem nos jornais hoje em dia não são críticas. Ou melhor, são críticas fracas, manjadas, repetitivas. O humor é a surpresa. Não tem nada melhor do que uma piada nova, nada mais maçante que uma piada velha. Tem que ser original, tem que achar temas e abordagens diferentes, novos. Não dá mais para fazer charge sobre política terminando em pizza.

Nonada – E o espaço das charges no jornal não é mais o mesmo.

Santiago – Não, claro que não. Muitos jornais nem tem mais charges. Quem faz charge interessante, crítica, com conteúdo, esses os jornais não contratam. Naquela época, o alvo das críticas era o poder político, o governo militar. Hoje em dia, é o poder econômico. E nenhum jornal vai publicar uma charge que critique o poder econômico. O jornal faz parte do poder econômico, ele depende dos anunciantes. E é o poder econômico que toma conta de tudo, hoje em dia. A restrição política é muito mais fraca do que a econômica. Por sinal, a censura do jornal, e não só para as charges, para todo o conteúdo, é completamente econômica. Tu nunca vai ver uma matéria criticando, por exemplo, o mercado imobiliário. Aqui no sul, por exemplo, a gente não sabe se a RBS é uma empresa construtora de comunicação ou uma empresa de comunicação construtora. Outro exemplo é durante a década de 90, a era de privatizações. Fernando Henrique vendia tudo que não era dele, e nenhum desenhista fez referência a isso. Claro, porque as empresas de comunicação queriam comprar as estatais de telefonia também. Ninguém vai contra o interesse econômico do jornal. Foi um caso bem típico de censura econômica. Mais tarde, quando começaram a ver as mazelas da privatização, daí começaram a fazer charges, mas era uma crítica atrasada.

Nonada – E a que você atribui isso?

Santiago – Bom, à censura econômica, a dependência, o medo dos anunciantes. Aqui no sul, uma coisa muito ruim que aconteceu foi quando faliu o grupo Caldas Junior e subiu o grupo RBS. Com um monopólio na prática dos meios de comunicação, a RBS diminui em muito o espaço do desenho, o humor gráfico foi abafado. Acho que exatamente pelo conteúdo crítico. Censura econômica. E isso ficou marcado na história gaúcha. Ainda assim, nosso humor gráfico é muito bom. Pode até por essa frase em destaque, o humor gráfico gaúcho é muito bom apesar da RBS. Apesar deles. Eles poderiam ter dado espaço a diversos ótimos cartunistas e não deram. Eles acabaram conseguindo espaço igual, mas sempre apesar da RBS. A própria cultura do Rio Grande do Sul foi empobrecida nesses segundos cadernos da Zero Hora, sempre a mesma meia dúzia de pessoas aparecendo sem nada para dizer. Deixou Porto Alegre muito provinciana. Os jornais da Caldas Junior, com todos os problemas que tinham, pelo menos tinham uma visão mais ampla da cultura, valorizavam mais.

Nonada – Como você vê a internet nesse contexto?

Santiago – Eu leio muita charge online. Acho uma grande conquista. Tu tem tua liberdade, faz o que tu quiser. A internet reúne muita coisa boa, eu não leio nada em especial. Mentira, antes eu lia muito o Angeli, mas acho que ele não sai mais. Não sei o que ele tem feito agora, mas ele sempre fugia do senso comum, do previsível. Da pizza no senado. Eu agora estou com um blog (www.caminhosdosantiago.blogpost.com), estou tentando ter alguma freqüência. Mas ainda não estou muito acostumado com essa história. Tu desenha, desenha, e ninguém te paga.

Nonada – Como é o seu processo para fazer uma charge?

Santiago – Bom, normalmente é na pressão. Normalmente um dia antes do prazo de eu ter que entregar alguma coisa. Costume da época que eu trabalhava em jornal, eu chegava depois do almoço e até as seis tinha uma charge pronta. Eu sento, vejo o tema que eu quero abordar, começo a esboçar, daí passo a limpo. Eu esboço muito quando estou desenhando. É meu exercício de brainstorming. Sempre tenho papel de rascunho à mão para ver nos esboços que as idéias vão se formando. Pronto, eu vou pra um papel melhor, e é só executar mesmo. Às vezes o tema se impõe, é algo bem claro. Agora no início do ano, o tema que se impôs foi a Dilma, a primeira presidente mulher do país. Outras vezes, tem que procurar, ler o jornal, achar algo que possa render. Nesse verão não teve grandes temas, na verdade. E quando está em cima da hora, daí tem a pressão.

Nonada – A pressão sempre ajuda.

Santiago – Sim, muito. Agora, por exemplo, eu não tenho tido muita encomenda, daí acabo não desenhando. Mas sinto que eu estaria fazendo coisas muito legais se tivesse a pressão do prazo, alguém me cobrando.

Nonada – Há uns anos você saiu do Jornal do Comércio.

Santiago – Sim, em 2007.

Nonada Foi por causa de uma charge?

Santiago – É. Na verdade foi todo um histórico de charges e de discordâncias. É difícil trabalhar em jornal que tem compromisso com anunciantes. Principalmente um que se chama “do comércio”, mais para público empresarial, muito conservador. Não que eu faça charge panfletária, mas tem assuntos que eu não posso deixar de tocar, criticamente. E daí acabou que era muita pressão para eu mudar minhas charges. O último desenho que eu fiz lá foi uma charge criticando o lucro dos bancos. E eles não aceitaram. Daí, pô, eu não posso falar do lucro abusivo dos bancos? Típica censura econômica,  medo que o jornal tem de se indispor com os bancos. [Na mesma semana, o Jornal do Comércio despedia também Moa e Kayser, tamanho era o medo das perigosas charges dos três cartunistas.]

A última charge de Santiago para o Jornal do Comércio, não publicada.

Nonada  – E onde estão seus trabalhos hoje em dia?

Santiago – Hoje eu tenho charges no jornal ExtraClasse, do sindicato dos professores, e no João de Barro, dos funcionários da Caixa Federal. E algumas ilustrações pra revista Le Monde Diplomatique. Ilustrações para as matérias. Não tem muita autonomia, tenho que me ater ao tema das matérias. Por isso que hoje em dia eu comecei a me dedicar mais a livros. História em quadrinhos. Agora estou juntando material, fazendo material exclusivo para o que seria um livro de memórias, relatadas em forma de quadrinho. Acho que até o final do ano consigo fazer isso. É bom fazer livros, projetos de livros são publicação tua. Tu decide conteúdo, capa, diagramação.

 Nonada – E como você usa o computador?

Santiago – Eu desenho tudo à mão, faço tudo aqui na mesa. Eu escaneio e jogo no Photoshop para fazer retoques. Hoje em dia não me preocupo tanto com borrões ou traços errados. No Photoshop, tu aumenta e pode corrigir muito mais fácil. Quando eu pinto, e vejo que não gostei da cor, faço algumas intervenções também. É muito prático. Mas não salva o mal desenho. Dá pra esconder alguma coisa, tirar uma sujeirinha. Se o desenho no total não é bom, não faz diferença nenhuma. Tem que saber desenhar. Conhecer a forma, a perspectiva, a sombra, a luz, a anatomia. Isso não foi revogado. Todo mundo que desenha no computador é sempre a partir de um bom desenho físico. Tem que sujar os dedos de nanquim, sujar papel. Eu tenho respeito pelo papel, não gasto à toa, mas sempre uso papel.

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