Fred Zeroquatro (e) e o Mundo Livre S/A voltaram a gravar um disco de inéditas após seis anos (Crédito: Duda Lopes/Divulgação)

Sobreviver no atual cenário musical é tarefa das mais ingratas. Há muita oferta para uma procura que, se não é pouca, é cada vez mais efêmera e dispersa. Por essas e outras, não deixa de ser surpreendente que uma banda como o Mundo Livre S/A permaneça na ativa e ainda se mantenha relevante.

O mangue beat, movimento cultural de Recife do qual o grupo foi um dos pilares, ao lado de Chico Science & Nação Zumbi, já tem quase duas décadas – é de 1992 o famoso manifesto escrito por Fred Zeroquatro intitulado “Caranguejos com Cérebro”. De lá pra cá, a música brasileira teve alguns lampejos de criatividade, mas é fato que nem todos, crustáceos ou não, têm algo verdadeiramente interessante a dizer.

Depois de seis anos sem lançar um álbum de inéditas (sete, se formos considerar um disco completo, O Outro Mundo de Manuela Rosário, de 2004; Bebadogroove, de 2005, é um EP), o Mundo Livre volta mais dançante e psicodélico do que nunca. Com Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa (capa ao lado), Zeroquatro e seus companheiros voltam a falar de sexo, tecnologia, religião e meio ambiente, entre outros temas. Sempre com bom humor, suingue e uma linguagem peculiar, características da banda pernambucana.

Para saber o que esperar do Mundo Livre após esse longo hiato, resolvemos bater um papo por telefone com Zeroquatro (ou Zero Quatro ou 04, a mudança de grafia é uma constante). Falante, o vocalista/multi-instrumentista/compositor deu sua opinião sobre vários assuntos, especialmente os prós e contras do mundo virtual.

Nonada – Vocês levaram pelo menos seis anos para lançar o disco novo. Por que demoraram tanto?

Fred Zeroquatro – Depois do Bebadogroove, a gente lançou o Combat Samba (coletânea de 2008), que tinha uma música inédita e que viria a entrar no Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa, “(Estela) A Fumaça do Pagé Miti Subitxxiii”. Com isso, anunciamos a concepção do disco novo, todo o conceito, que era o mesmo da “Estela”, de falar da desconstrução da lógica do modelo de compartilhamento pela internet. Uma coisa que a princípio foi comemorada pelos artistas, pois iria acabar com o famigerado intermediário, que era a grande gravadora. Na prática, porém, isso meio que desmantelou a estrutura básica mínima de uma banda do porte do Mundo Livre, de avaliar propostas de selos menores, ao menos para bancar a produção, a gravação… Hoje você precisa ir atrás de uma lei de incentivo, algum edital, o que não é o caso do Mundo Livre – o último que tentamos não foi aprovado. Essas leis beneficiam especialmente artistas iniciantes, o que não acho errado, pois é impossível abarcar todo mundo, novatos e medalhões.

Nonada – Então vocês tiveram dificuldades para gravar?

Zeroquatro – A gente gravou sessões com as primeiras bases e levou para o Dudu Marote (consagrado produtor, conhecido por seu trabalho com o Skank e o Pato Fu, entre outros). Com o cara é muito procurado, fomos fazendo quando surgia uma brecha na agenda dele. Depois, continuamos a gravação em estúdios de Recife.

Nonada – Financeiramente, hoje ainda vale a pena gravar um disco?

Zeroquatro – Saiu uma matéria interessante recentemente sobre as lojas de vinil e CD que conseguiram resistir às mudanças de mercado, que sobreviveram ao MP3. Acho que a coisa estava pior há uns cinco anos. De um ano pra cá melhorou. Fizemos acordos para, em alguns festivais bacanas em que tocamos, a gente pudesse vender uma tiragem com preço promocional, teve que ter prensagem extra. Fora isso, a procura está sendo boa e surpreendendo positivamente a nossa gravadora (Coqueiro Verde) – para os padrões de venda atual, claro. Mas, voltando à pergunta… Financeiramente, nunca valeu a pena gravar! (risos) Nenhum disco nosso deu dinheiro.

Nonada – Muito download do novo disco?

Zeroquatro – No segundo dia após o lançamento do Novas Lendas já tinha link para baixar o disco. Isso é inevitável, alguém vai colocar ali e o pessoal vai copiar. Agora, aproveitando a oportunidade: parte da imprensa não espera o disco ser lançado para fazer a crítica. Vai lá, pega o link, ouve e escreve. Isso acaba queimando todo um trabalho de divulgação, tem um departamento sendo pago pra isso… Acaba desmantelando um pouco a coisa. Mas não vamos nos incomodar mais com isso, o fato mais importante é que o disco tá aí e fazendo o nome do Mundo Livre circular de novo.

Nonada – Essa quantidade enorme de informações, os avanços da tecnologia… A banda sempre questionou isso nas letras.

Zeroquatro – Acho que a relação consumidor x internet vai passar por um estágio bem interessante daqui a alguns anos. Teve aquela primeira geração que conviveu com Napster, depois o MySpace… Essa geração tá saindo da adolescência e vai começar a pensar diferente sobre como utilizar essas ferramentas. É como a gente lá em Recife, quando era mais novo e queria ler um livro… Era uma coisa meio furtiva! (risos) Depois você cresce e vê que roubar um livro não é uma coisa muito legal. A relação com a internet acho que vai ser meio assim, não vai ser mais essa ciberselva, de neguinho pensar “vou lá baixar isso e acabou”. Esse negócio de perfil fake, de pornografia… Acredito que vá acontecer um amadurecimento da blogosfera, do ciberespaço. Uma coisa interessante é o WikiLeaks (site que publicou documentos confidenciais da Casa Branca, além de divulgar outras informações polêmicas), os caras não gostaram das denúncias e fizeram uma armação para acusar o Assange (Julian, empresário australiano dono do site) de estupro. Não acredito nisso, não, mas quem vai mexer com o governo dos Estados Unidos? As empresas que financiavam o site sentiram a pressão, daí o jeito foi dizer: “ok, vamos mudar de assunto”.

Nonada – Tu falaste recentemente em uma entrevista que parte das pessoas que vão ao show do Mundo Livre não são exatamente ouvintes dos discos, são pessoas que conhecem “Meu Esquema” (música que virou trilha sonora de Tudo de Bom, extinto programa da MTV apresentado por Luana Piovani, e de um comercial de calçados femininos). Isso te incomoda?

Zeroquatro – Cara, “Meu Esquema” foi gravada num disco superimportante pra nós, o Por Pouco (de 2000), que também tem “Super-Homem Plus”, “Concorra a um Carro”, um cover maluco de “Minha Galera”, do Manu Chao… Tem muitas formas de abordar isso. “Meu Esquema” é uma música “isca”, tem essa função de divulgar mais a banda, assim como no novo “Constelação Carinhoca” abre o disco estrategicamente! (risos)

Nonada – “Ela é Indie” meio que tem esse apelo.

Zeroquatro – Também, também. Enfim, “Meu Esquema” é uma música que eu tenho orgulho de ter composto, que eu amo, não é uma concessão comercial. Embora a gente tenha ganhado uma boa grana com o comercial da Azaléia! (risos) Não vejo problema nenhum nisso – aliás, às vezes tem que ter alguma vantagem. Em nenhum momento vou glorificar a antiga indústria, pois se tem uma banda que foi incensada e ao mesmo tempo desprezada por essa indústria foi o Mundo Livre. Era frustrante. Pelo Samba Esquema Noise (álbum de estreia da banda, de 1994), ganhamos prêmio Bizz, prêmio  disso, prêmio daquilo, mas você ia a Fortaleza, por exemplo, e não achava o disco em nenhuma loja. Aliás, queria aproveitar e rebater uma acusação que li em alguns blogs e sites, de que o nosso disco novo tá mais pop. Na verdade, nem é rebater, é dizer o seguinte: tá na alma do Mundo Livre ser uma banda pop. A gente cresceu ouvindo Prince, Gang of Four, The Clash, Talking Heads… Não vejo nada de vergonhoso em soar pop.

Nonada – “Caranguejos com Cérebro” está quase fazendo 20 anos. A certa altura do manifesto tu escreveste: Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Qual é tua avaliação da cidade hoje?

Zeroquatro – No sentido econômico, a cidade tá crescendo com índice chinês. Tá todo mundo comprando, saindo da favela, isso se reflete no rosto dos cidadãos. A questão ecológica ainda segue mal resolvida, os manguezais continuam sendo destruídos. A preocupação com a preservação existe, mas ainda tá longe de ser suficiente para evitar que a natureza seja devastada. Agora, a questão cultural tem gargalos que simplesmente não mudaram em nada nesses anos todos. A programação das rádios continua desastrosa, o espaço para a cultura independente é restrito, e esse foi um dos motivos do surgimento do mangue beat. Por outro lado, temos festivais o ano inteiro, algumas iniciativas bacanas e uma melhora no nível de qualidade da estrutura dos shows. Para quem tá começando agora, já melhorou bastante.

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2 comentários em “Mundo Livre S/A e o guia de sobrevivência na selva cibernética”

  1. Salve 04!! Bom ver que ainda existe gente inteligente no universo da música brasileira.
    Vida longa ao Mundo Livre!!

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