“As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum?”, questiona a peça de divulgação elaborada pelo coletivo Guerrilla Girls (GG), que desde 1985 trabalha na desconstrução dos preconceitos de gênero no mundo das artes. A perturbadora pergunta refere-se a uma estatística do fim dos anos 1980: menos de 3% dos artistas expostos no referido museu de Nova Iorque eram mulheres, enquanto 83% dos nus representados eram femininos. Este é só um dos tantos exemplos usados pelas GG de como a história da arte galgou-se na própria história do poder masculino, configurando a memória da arte hoje. Na semana da mulher, nada melhor do que conhecer a ação de um grupo de “guerrilha” que tenta justamente redefinir a inserção do feminino na arte. Antes, é claro, vale um breve passeio retrospectivo pelo assunto.

Why there been no greatest women artists?”, questionou a historiadora Linda Nochlin no título de um artigo de 1973 que se tornou célebre, abrindo caminhos para uma perspectiva feminista da trajetória deste campo. A exclusão das mulheres das academias de arte e outras instâncias de formação e consagração – crítica, museus, imprensa, mercado – foi a causa encontrada pela autora para explicar a quase ausência de nomes femininos no cânone, longe de qualquer explicação de escassez “natural” de talentos. Por mais que tenham havido movimentos de valorização do trabalho artístico feminino ao longo da história, a mulher demorou a se adentrar das margens ao centro da produção artística. Até o início do século XX a ligação da “arte feminina” com ideias determinadas pelas expectativas sociais – delicadeza, graça, doçura –, e não por valores próprios do campo artístico, impediram que os trabalhos já dificilmente considerados das mulheres fossem julgados em sua variedade e qualidade estéticas.

O tempo passou, os padrões culturais mudaram… E as mulheres deixaram os estereótipos para trás e fantasiaram-se de nada delicados… Gorilas! Foi exatamente isto que as GG fizeram, e continuam fazendo. Adotando como pseudônimos nomes de artistas mulheres que se fizeram notar no mundo das artes e das letras, tais como Frida Kahlo, Käthe Kollwitz, Georgia O’Keeffe e Tina Modotti, e usando máscaras de gorilas, elas realizam performances, exposições e workshops em diversos países sobre a discriminação. O objetivo é justamente chocar, fazer rir, para depois incitar a reflexão, desconstruir conceitos sociais. As máscaras e pseudônimos servem não apenas como recurso de humor, mas ainda para manter o anonimato das ativistas, já que elas são também artistas e, inseridas no sistema das artes ao mesmo tempo em que criticam as instituições do campo, precisam de certa forma proteger-se.

As ativistas utilizam máscaras de gorila em suas ações (Crédito: Guerrilla Girls, divulgação)

A motivação para a criação do grupo foi justamente uma exposição de arte. Em 1985 o Museum of Modern Art de Nova Iorque propôs-se a fazer uma grande mostra dos artistas mais relevantes da arte contemporânea, em que dos 169 participantes apenas 13 eram mulheres. A indignação traduziu-se de forma criativa nas ações do grupo que surgia, principalmente em cartazes. Por que os nomes femininos não entraram na história oficial da arte, ainda que a contemporânea? A repercussão foi tanta que algumas das peças do coletivo acabaram parando nas paredes dos museus que o próprio grupo critica – na 51ª Bienal de Veneza, por exemplo, que aconteceu em 2005, as artistas expuseram grandes banners sobre a exclusão de gênero praticada no evento e nos museus de Veneza.

É inegável que as reflexões inspiradas pelo feminismo nos estudos sobre arte das últimas três décadas já permitiram consideráveis avanços no que diz respeito ao reconhecimento das artistas mulheres. Exposições de grandes museus focadas no acervo pela escolha curatorial de gênero – podem-se citar as mostras elles@centrepompidou, do Centre Georges Pompidou (Paris, 2009), e a ainda em cartaz Museu Sensível do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, 2011) – vêm a comprovar esse movimento. São inúmeras as artistas visuais contemporâneas avaliadas hoje pela sua arte, e não por serem mulheres. Ainda assim, cabe ouvir considerações que as GG têm a fazer, não só sobre a exclusão de gênero, mas sobre todas as formas de discriminação. Afinal, os preconceitos costumam ser tão incrustados nos valores sociais que às vezes nem os percebemos, e é só sem eles que uma nova história da arte pode ser trilhada. E escrita, é claro.

Um dos cartazes do coletivo expõe com ironia as dificuldades que as artistas enfrentam (Crédito: Guerrilla Girls, divulgação)

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