Serigrafia de Hélio Oiticica
Serigrafia de Hélio Oiticica

por Leo Felipe

Há algo no ar. Talvez o cheiro de gás lacrimogêneo, o mesmo gás que contaminou o pátio da Sorbonne, afugentando os estudantes para as ruas no início de maio; o gás espalhado pelo vento em Chicago, após ser jogado nos manifestantes que protestavam na convenção do Partido Democrata, em agosto. Motivadas por uma crise de representatividade, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado – e que, tal qual subproduto do capitalismo globalizado, têm suas versões ao redor do mundo – trouxeram a pauta política para o centro das discussões e forçaram uma tomada de posição que deixou mais uma vez evidente a brutal cisão de classes na sociedade brasileira.

A violência da repressão contra os manifestantes e a resposta conservadora dos cidadãos de bem (reafirmada pela votação expressiva de políticos fascistas nas eleições do último outubro) são em alguma medida como o Brasil de 68: ecos do poder militar intocado que assassina diariamente os pobres, o discurso de medo difundido pela mídia e a reação patética da classe média assustada que ainda lambe as botas do poder, marchando por família, tradição, propriedade e pelo direito de estacionar em ciclovias.

Cartaz alusivo aos protestos de maio de 68 na França
Cartaz alusivo aos protestos de maio de 68 na França

O know how para combater aqueles que combatem o capitalismo, seja nas florestas onde foi cassado e morto Che Guevara ou nas barricadas de Paris, é herança de 68. Os tanques sobre Praga também nos lembram que as lutas de 68 tratam do questionamento do modelo totalitário e da ideologia. “A ideologia é uma doença no cérebro”, afirmou o ativista Abbie Hoffman (adivinha quando?). A esquerda nunca mais foi a mesma desde então.

A revolução proposta pela contracultura é de uma abrangência que vai do molecular ao social, do psicológico ao ambiental. Não é a revolução vinda da classe proletária, são os filhos burgueses da tecnocracia que se rebelam questionando um modelo desenvolvimentista de progresso que nos desconecta da natureza e do ser. Num contraditório jogo de forças, a transgressão da contracultura não está imune a cooptação, assimilação ou diluição, já que sempre fará parte da cultura contra a qual tentar insurgir-se. O termo foi cunhado, em 1969, pelo sociólogo Theodore Roszak para tratar daquela grande convulsão social que varreu o Ocidente na década de 1960, pondo em xeque todo tipo de autoridade.

Do gás lacrimogêneo às utopias libertárias, muitas delas incorporadas por nossas instituições em menor ou maior grau (ainda que com a reação raivosa dos conservadores), pautas progressistas como os direitos LGBT, as questões ambientais, o combate ao racismo, a legalização da maconha, as práticas alimentares vegetarianas, o uso da bicicleta como meio de transporte urbano, além de seu produto mais popular, os hippies: a contracultura nos deixou um enorme legado. Deixou também uma estética e uma retórica notadas nas roupas e no linguajar dos hippies; nas faixas e cartazes dos protestos contra a Guerra do Vietnã; nos grafitti nos muros de Paris; na música tocada nos festivais de Woodstock e Altamont; no design gráfico de publicações underground como International Times, Oz e San Francisco Oracle.

A contracultura nos ensinou como criar sistemas alternativos de circulação e difusão da informação: imprensa alternativa, arte postal, os fanzines, modelos que sugerem que para combater o inimigo é preciso aprender a usar suas armas. “A informação quer ser livre”, o aforismo hacker do escritor Stewart Brand (postulado lá por 68, claro), se torna um axioma para o século digital, a despeito de todas as tentativas de controle. Não por acaso, um dos grandes heróis da contracultura é o escritor associado à Geração Beat (precursora das inquietações de 68) William Burroughs, o transgressor definitivo, que com a técnica literária do cut-up buscava revelar as estruturas de controle contidas na linguagem.

Huey Newton, fundador e líder dos Panteras Negras
Huey Newton, fundador e líder dos Panteras Negras

Outras figuras heróicas: John Lennon, os Beatles e tantos outros ídolos do rock (“desinibidor das energias eróticas”, o rock é a principal expressão artística do movimento); Huey Newton, Bobby Seale, Eldridge Cleaver e os demais Black Panthers; ativistas radicais como John Sinclair, Abbie Hoffman e Jerry Rubin (que, provando a fragilidade com que a contracultura pode ser cooptada, virou yuppie na década de 80); o apóstolo do LSD Timothy Leary; o poeta Allen Ginsberg; a feminista Angela Davis; o escritor Ken Kesey; o jornalista gonzo Hunter Thompson; os filósofos Herbet Marcuse, Alan Watts, Norman O. Brown e Marshall McLuhan; o “motorista” Neal Cassady; os coletivos Diggers (São Francisco), Provos (Amsterdã); Exploding Galaxy (Londres), Motherfuckers (Nova York). E não podemos deixar de citar o assassino Charles Manson, personificação das possibilidades sinistras que repousam nas alucinações do sonho hippie.

A contracultura também rendeu frutos tropicais. No Brasil, ela ganhou nomes particulares. A superação do bode pós-AI-5, quando jovens engajados na luta armada começaram a ser mortos e torturados pelos militares, ficou conhecida como desbunde, um tipo de escapismo que celebrava o sexo livre, o ócio e o uso de drogas, política dimensionada no tamanho do corpo e das relações pessoais. Ignorados à direita e rechaçados à esquerda, os desbundados tinham como guru Luiz Carlos Maciel. Sua coluna Underground, no Pasquim, explicou a subcultura hippie para os brasileiros. Segundo Maciel, o objetivo da contracultura seria a própria expansão da consciência, inglória tarefa para os que a realizavam em um regime tão fechado quanto uma ditadura militar. Outro termo associado é marginália, a cultura marginal ramificada na música, na poesia e no cinema, um movimento que zombava da caretice oficial, celebrando a malandragem e a transgressão.

A banalizada frase “Seja marginal, seja herói”, de Hélio Oiticica, resume aquele momento de violência e repressão, comentando da urgência de desafiar a lei e cair fora do sistema. Além dele, Caetano, Gil, Mautner, Neville D’Almeida, Sganzerla, Júlio Bressane, Torquato, Wally, Rogério Duarte, os Novos Baianos, Secos & Molhados e a musa baiana das dunas cariocas Gal Gosta são outros ícones deste momento pós-tropicalista (a predominância de figuras masculinas na mitologia da contracultura sugere que as questões de gênero não estavam entre suas reivindicações principais).

Revista Navilouca estará em exposição na galeria Ecarta
Revista Navilouca estará em exposição na galeria Ecarta

O campo das artes visuais não ficou imune a estas vibrações. Um firme e vibrante NÃO, exposição coletiva que a Galeria Ecarta receberá entre 02 de dezembro de 2014 e 31 de janeiro de 2015, vai apresentar o recorte de uma produção animada pelos incêndios de 68. Obras de artistas de distintas gerações e procedências, realizadas a partir da década de 1970, muitas delas de natureza gráfica, como publicações, pôsteres e arte postal. Trabalhos que discutem o problema da circulação, da censura e da inserção nos circuitos; que questionam e zombam do poder; denunciam o racismo, o machismo e a violência de Estado; celebram o corpo e o sexo, mas eventualmente também comentam dos processos de assimilação e cooptação dos ideais revolucionários.

“Vem pra rua”. O bordão de junho de 2013 já se tornou slogan publicitário. E as manifestações acabaram fornecendo a oportunidade para a Casa Grande, através de sua arma mais poderosa: a mídia, desestabilizar um projeto de inclusão social que ameaça privilégios de uma elite escravagista e predatória. Contudo, as intenções golpistas não devem ofuscar o questionamento principal que havia entre a mixórdia de chorume classista, narcisismo adolescente e necessidades sociais legítimas: o da representatividade. O “não me representa” detém uma perspectiva contracultural: é uma crítica que parte do indivíduo para a sociedade. Um NÃO dirigido à autoridade incapaz de saciar demandas que não haviam sido antes cogitadas (os direitos dos gays e das mulheres, o repúdio ao racismo, as preocupações com o meio ambiente e a alimentação).

Tal qual no momento quando os conservadores Reagan e Nixon foram eleitos respectivamente governador da Califórnia e presidente dos Estados Unidos, depois de toda a efervescência do Verão do Amor, este desafio à ordem e ao controle faz despertar a reação das forças de uma cultura pautada pela máxima nazista que a associa ao revólver. É preciso estar atento e forte.

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