A nossa conversa iniciou em meio ao funk e ao samba das aulas de dança promovidas pelo Espaço Afro-sul Odomodê. Apesar de estarmos no mês de julho, em pleno inverno, o dia estava quente e agradável, de forma que propiciava que crianças brincassem na parte externa do centro cultural, dando vida ao espaço. Como primeira impressão, percebi a importância desse lugar, que atua de forma a integrar uma comunidade por meio da cultura e da dança. O local, que fica na Avenida Ipiranga, tem uma estrutura física simples, porém, a grande riqueza está no que é produzido lá dentro e como essas iniciativas se refletem na sociedade. A anfitriã, Iara Deodoro, nos recebeu com um sorriso no rosto e com um notável orgulho de poder falar do lugar que faz parte de toda a sua trajetória.

O Odomodê é cultura, educação, entretenimento, exercício de cidadania e principalmente é política, no sentido de remar contra um sistema de exclusão do povo e da cultura negra e promover ações que teoricamente são de responsabilidade do poder público.  Odomodê é preservação de valores e com 43 anos de história, hoje este lugar é reconhecido nacionalmente e internacionalmente como ponto de cultura em Porto Alegre. Seu nome é levado por ex-alunos de dança, difundindo cada vez mais a cultura negra e gaúcha. “Antes causava muito espanto saber que no sul do país tinha um grupo basicamente negro trabalhando com as questões negras. Então eu acho que é uma forma de a gente contribuir, e outra também é através das nossas próprias ações. A gente trabalha, sim, com a comunidade, a gente tem um trabalho social forte”, afirma Iara.


Vídeo: Raphael Carrozzo

Uma história de décadas

Com o objetivo de fomentar discussões com temáticas negras e dar maior visibilidade à cultura afro-gaúcha, surge o instituto Afro-sul no ano de 1974. Iara Deodoro, que na época tinha apenas 19 anos, é uma das fundadoras desse espaço.

“O Afro-sul nasce como um grupo de música e dança, com a preocupação de divulgar e valorizar a cultura afro-brasileira e suas origens. Nós todos éramos adolescentes né, e a gente tinha muitas inquietações então através das pesquisas a gente foi conhecendo muita coisa da nossa cultura. Mas a gente também achou a necessidade de passar isso pra alguém. Então, assim como a gente se alimentava daquilo, através da música e da dança, alimentava outros também”, conta.

Escola de Samba Garotos da Orgia se funde com a história do Odomodê (Foto: reprodução)

A cultura, norteada pela música, uniu jovens com objetivos comuns. A parceria somou amizade e trabalho e essa conta não teria como dar errado. “Nós éramos um grupo com quatro bailarinos e seis músicos. Na realidade tudo inicia com a música. Na época eu fazia dança e fui chamada pra fazer uma coreografia do grupo que ia participar de um festival  e desde então a gente não parou mais”, lembra Iara.

Quatro anos após o surgimento do Afro-sul, em 9 de março 1980, é fundada a Sociedade Cultural Beneficente Escola de Samba Garotos da Orgia. A história da agremiação faz parte da história do atual Afrosul-Odomodê, tanto pela ideologia de exaltar os temas sobre negritude quanto por sua identidade.

Era uma escola de samba bem diferente, onde as pessoas começavam a entender ou ter o primeiro contato com palavras em Iorubá, com temas de livros que eram de Jorge Amado, como Tenda dos Milagres, coisas do tipo. Aí as pessoas começaram, a partir daquele momento, a entender um pouco dessa nossa cultura. E quando eu digo as pessoas eu me refiro inclusive aos negros da nossa cidade”, afirma a fundadora. Entretanto, apesar do seu engajamento e preocupação com a cultura negra, a Garotos da Orgia teve uma vida curta e em 1998 fez o seu último desfile na capital gaúcha. A agremiação foi então assumida pelo Bloco Afro-sul, que passa a se chamar Bloco Afro Odomodê.   

A cultura como ato político

Espaço tem oficinas gratuitas para a comunidade (Foto: reprodução)

Em um estado cuja colonização alemã e italiana é, muitas vezes, a única evidenciada pela sociedade e pela mídia hegemônica, o Afro-sul representa a resistência da história negra no Rio Grande do Sul, estado que, por diversas vezes, apaga a importância do negro na construção da sua história e até hoje comemora uma revolução marcada pelo sangue dos lanceiros negros. Iara Deodoro ressalta que os pré-conceitos tornam os entraves muito maiores para um grupo afro no sul do Brasil. “É uma cultura que para muitos, fora do nosso estado não existe. Nós temos uma cultura afro-gaúcha muito forte. Só que ela não consegue ultrapassar as nossas fronteiras”, destaca. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades, Iara aposta no futuro e na juventude. “O que acontece é que essa juventude já está vindo com uma outra consciência, então automaticamente  começa a colocar para fora. Através da poesia, da música e a própria inserção do negro na universidade também faz com que isso comece a propagar de uma outra forma. Então são vários setores. A gente começa a perceber que isso já não é tão tímido.”

O tempo e as exigências cotidianas que envolvem a gestão de um centro cultural e de assistência moldaram a vida de Iara, que até então sempre foi movida pela dança. Ela percebeu que trabalhar com o atendimento de uma comunidade exigia um pouco mais do que apenas boa vontade. Na mesma época, o Afro-sul tinha um trabalho social com jovens em situação de rua e foi convidado pela Secretaria Municipal da Cultura para compor um projeto com crianças em situação de vulnerabilidade. “A gente achou que era fácil, atender umas crianças e uns adolescentes. Só que vimos que não era nada disso. É uma realidade completamente diferente do que cuidar dos filhos da gente. Havia reuniões e nelas, todos eram técnicos. Eu não tinha essa formação técnica e por isso o  diálogo se tornava muito difícil. Aí eu disse, bom, eu tenho todo um lado humano que eu posso ajudar mas tem um lado técnico que eu não to conseguindo ajudar, foi quando eu resolvi entrar na faculdade, eu fiz serviço social. E dentro da faculdade eu descobri que eu já era uma assistente social, que na realidade o que me faltava não era nem o atendimento técnico e sim o diálogo técnico. Hoje eu tenho uma outra visão de vida e até mesmo em relação à população de rua. Eu aprendi foi com essa gurizada, eles foram meus professores. Eu fui pra universidade só para legitimar, porque meus professores foram eles”.

O espaço Afro-sul Odomodê é cedido pela prefeitura de Porto Alegre e ministra cursos de dança, música, cultura africana, maracatu, percussão, percussão para mulheres, e percussão tradicional da Costa do Marfim. Cada aula tem um valor de inscrição, exceto para alunos da comunidade do entorno. Além disso, o espaço também promove os Domingos Culturais, eventos que contam com a presença de bandas locais com foco em ritmos negros de todo o Brasil. Na agenda de shows, tem espaço para ritmos como o ijexá, o jongo, o maracatu e o samba.

Maracatu Truvão é um dos grupos parceiros que ensaiam ou se apresentam no Odomodê (Foto: reprodução)

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