Reportagem: Thaís Seganfredo
Foto:Invasão, de Jaime Laureano

Para que(m) serve um mapa? Representação gráfica que teve seu advento pelas mãos dos colonizadores, a cartografia é cada vez mais uma ferramenta de resistência e de transformação social com grande potencial. Com essa premissa,  um grupo de geógrafos, artivistas e outros profissionais se uniram na Alemanha para compilar diferentes mapas contra-hegemônicos produzidos ao redor do mundo. Repressão policial nas favelas do RJ, movimentos contra o nazismo em Berlim e injustiças ambientais na Turquia são alguns dos temas levantados nos mapas. 

O resultado está no livro This is Not an Atlas, que foi apresentado em Porto Alegre na última terça-feira (13), uma das cidades escolhidas pelo coletivo Orangotango para a tour na América Latina. O Núcleo de Estudos de Geografia e Ambiente (NEGA), o Coletivo Ambiente Crítico e o curso de Geografia da UFRGS do Campus Litoral Norte também organizaram a atividade, que ocorreu na sede do Instituto de Arquitetos do Brasil.

Mapa das capitanias hereditárias do Brasil, produzido por Luís Teixeira, provavelmente por volta de 1586 (Reprodução). Clique na imagem para ampliar

A cartografia é um instrumento histórico de poder do colonialismo. Com a pretensão de apresentar o mundo “como ele realmente é”, os primeiros atlas, datados do fim do século XVI, já contribuíam para a apropriação de territórios indígenas e a dominação dos povos. Uma referência comum no imaginário brasileiro é o mapa das capitanias hereditárias, criado pelo cartógrafo português Luís Teixeira em 1586, documento que registrava as faixas de terras brasileiras doadas por  D. João III para a nobreza de Portugal. Nos séculos seguintes, os mapas continuaram sendo usados pelo capitalismo para instaurar ordem, consolidar blocos econômicos e justificar a exploração de recursos naturais, por exemplo.

Ao longo do tempo, a noção da cartografia como registro da realidade passou a ser contestada. Foi a partir da década de 1970 que teóricos começaram a propor uma contra-cartografia ou cartografia crítica, problematizando justamente o uso histórico dos mapas para a legitimação do colonialismo e do nacionalismo.

Na época, artistas, coletivos e movimentos sociais também passaram a usar a cartografia com objetivos insurgentes, movimento que vem ganhando ainda mais força com a facilidade de difusão na internet e redes sociais. Para o coletivo Orangotango, “mapas articulam enunciados que são moldados por relações sociais, discursos e práticas, mas essas declarações também os influenciam por sua vez. Portanto, mapas (e atlas) são sempre políticos”.

Opressão a povos indígenas em território no Equador (This is Not an Atlas/Reprodução). Clique na imagem para ampliar

O geógrafo alemão Paul Shweizer, que veio a Porto Alegre representando o coletivo (e falou em português para o público), contou que um dos projetos que ajudou o grupo a ter ainda mais incentivo para a realização do livro foi um mapa da gentrificação de um bairro de Berlim. Com ajuda de custo do instituto Rosa Luxemburgo, o coletivo produziu o livro durante quatro anos. Os textos estão em inglês e o material está disponível na íntegra no site, com licença livre para reprodução. Segundo Paul, o livro engloba diferentes usos da cartografia crítica (ou ainda cartografia insurgente): “a escrita de uma história social da cidade, o mapa como instrumento de visibilidade e também para criar pressão política”, diz.

Em Porto Alegre, o coletivo Ambiente Crítico vem utilizando a cartografia crítica em seus projetos, voltados para o ambientalismo. Um dos projetos é o Preserva Arado, que busca barrar a especulação imobiliária da região do Arado Velho, zona sul da cidade. Com 426 hectares, a área já foi reconhecida como sítio arqueológico e está atualmente sendo retomada por mbyá-guaranis.  

Mapa criado pelo Ambiente Crítica representando o projeto capitalista proposto para o Arado Velho (Reprodução). Clique na imagem para ampliar

Um aspecto da cartografia insurgente abordado no livro está na resistência de comunidades tradicionais e povos originários. Como explica o coletivo, foi também por volta dos anos 1970 que grupos indígenas no Canadá e no Alaska passaram a fazer uso dos mapas para reivindicar a retomada de terras apropriadas, a partir da ideia de que “mais territórios indígenas foram apropriados por mapas do que por armas.”

O mapeamento indígena suscita também discussões sobre a estética capitalista da cartografia, cuja linguagem tem sido pouco desconstruída por cartógrafos especialistas ou amadores no âmbito da cartografia crítica. Nesse sentido, mapas indígenas  vem desafiando este modelo, na medida em que as representações acabam englobando as cosmovisões e elementos culturais destes povos. É nesta contradição entre a cultura tradicional e a dominante, porém, que podem ocorrer distorções nas intenções destes povos.

Mapa da Aldeia Boa Vista, no Amazonas (This is Not an Atlas/reprodução). Clique na imagem para ampliar

Como afirma a professora de Geografia da Ufrgs Sinthia Batista, cartógrafos críticos devem sempre problematizar o fazer cartográfico, de modo a não correr o risco do movimento de resistência ser apropriado pelo capital. “É preciso pensar numa apropriação estratégica da linguagem. A nossa visão do mundo é determinada pela representação que chega até nós. O próprio globo é um lugar em movimento, quem dera fosse assim a produção das fronteiras”, propõe.  

Artistas na vanguarda da contra-cartografia

América Invertida, de Joaquin Torres (Reprodução). Clique na imagem para ampliar

Em 1934, depois de viver quase 40 anos na Europa e Estados Unidos, o uruguaio Joaquín Torres Garcia decide voltar ao hemisfério Sul para dar continuidade a seus trabalhos artísticos. Enquanto no Brasil a turma do modernismo havia lançado seu manifesto antropofágico seis anos antes, Torres começa a esboçar a obra que viria a se tornar referência nos movimentos pela valorização e autonomia da América Latina. Em América Invertida (1946), Torres desenha o continente de cabeça para baixo, um manifesto contra o eurocentrismo, que contesta a imposição  hegemônica de que o Norte seria mais importante que o Sul. A obra se insere, então, na vanguarda da contra-cartografia, assim como o “mapa surrealista de 1929”, destaca o coletivo Orangotango.

Para o doutor em História Social pela USP André Mesquita, que pesquisa as relações entre arte e política, por volta dos anos 1970, vários artistas passaram a usar a cartografia como material da arte engajada, o que influenciaria, poucos anos mais tarde, as discussões na academia. Um dos principais artistas, descreve Mesquita no livro, talvez seja o sueco-brasileiro Öyvind Fahlström, que desenvolveu diversas obras calcadas na exploração da cartografia para pensar criticamente o âmbito da geopolítica. Com seu World Map (1972), Fahlström confronta limites estabelecidos e poderes dominantes individualmente, para construir uma contra-cartografia como ferramenta para a sensibilização política e a indignação pública” (tradução da repórter).

No mapa, Fahlström delineia as fronteiras e preenche os espaços conforme a coleção de acontecimentos e crônicas que escreveu, relatando sobretudo o domínio dos Estados Unidos após o fim da Primeira Guerra Mundial e as respectivas consequências para diversos países. A obra contesta os mapas pretensamente apolíticos da cartografia tradicional.  

World Map (1972), Fahlström (MOMA/Reprodução). Clique na imagem para ampliar

“Sobre a geografia estranha de um país chamado Brasil, Fahlström dispara uma pergunta: ‘BOOM para quem?’ O amadurecimento das forças conservadoras que levaram ao Golpe Militar de 1964 é descrito em World Map como uma breve história das destituições dos presidentes brasileiros. (…) abaixo do retalho onde essa descrição se desenvolve, as botas do militar esmagam brutalmente o movimento estudantil saindo nas ruas em junho de 1968 contra a ditadura”, descreve Mesquita em sua tese “Mapas Dissidentes: proposições sobre um mundo em crise [1960-2010]”.

Nos anos seguintes, artistas contemporâneos continuaram a desenvolver trabalhos com mapas. Só no ano passado, por exemplo, duas obras contra-cartográficas de artistas brasileiros integraram a Bienal do Mercosul. Enquanto o veterano Arjan Martins representou em um enorme painel um mapa sobre o tráfico de escravizados para o Brasil (O Triângulo Atlântico em Tempos Distópicos, 2018), Jaime Lauriano recriou os primeiros mapas da América, desenhando com o giz usado em celebrações das religiões de matriz africana as marcas da colonização no país: desmatamento, invasão em terras indígenas, etc. (Invasão, 2017, foto de capa desta matéria). Como ressalta Mesquita, “com uma orientação anticapitalista, um dos objetivos dos contra-mapas é tornar os poderes obscuros e estabelecidos mais perceptíveis para confrontá-los.”

Mapa “Nadie es Ilegal”, do Iconoclasistas, destaca os muros que separam os países (Reprodução). Clique na imagem para ampliar

Essa mútua influência entre geografia e arte uniu profissionais das áreas (e outros entusiastas) em diversos coletivos na esteira da criação de novos mapas contra-hegemônicos. Além do Orangotango e do Ambiente Crítico já citados, o Bureau d’études e o Iconoclasistas são alguns dos mais atuantes, um modelo horizontal e democrático de criação em conjunto que se torna mais que propício para a contra-cartografia.

O próprio This is Not an Atlas traz três manuais para quem deseja se tornar um cartógrafo ocasional, apresentando de algumas técnicas básicas a questões a serem levantadas como se há a real necessidade de criar o mapa em questão e quais são seus objetivos. Para André Mesquita, “por meio da criação coletiva de mapas, a linguagem, ferramentas e técnicas da cartografia, anteriormente restrita a ‘especialistas’, são socializadas e reinventadas”.