Thaís Seganfredo (Nonada) e Adriana Lampert (Dossiê Palcos Públicos de Porto Alegre)
Foto: Tânia Meinerz/Dossiê

A novela que envolve o restauro da Usina do Gasômetro, um dos equipamentos culturais mais importantes de Porto Alegre, tem nova data para acabar: fevereiro de 2022. O espaço de 15.000 m², que abrigava grupos de artes cênicas, sala de cinema e exposições culturais, está fechado desde 2017 por conta de um projeto de restauração inicialmente ambicioso, que foi reduzido na gestão do prefeito Nelson Marchezan Jr (PSDB). Com as mudanças no projeto e a pandemia de covid-19, a prefeitura adiou a previsão inicial de reinaugurar a Usina em março de 2021. Até o momento, 28,3% da obra está concluída, segundo a secretaria de Obras e Infraestrutura da prefeitura.

A nova Usina terá acessibilidade universal para pessoas com deficiência, uma sala exclusiva para a dança, novas escadas, além da reabertura do terraço e da sala de cinema PF Gastal, que ficará no térreo. O Teatro Elis Regina, em formato de Arena, não estava no projeto, mas ganhará novo mobiliário e terá capacidade para 300 pessoas.“Estamos melhorando todo o fluxo do prédio, a cidade vai receber um centro cultural mais integrado, orgânico e funcional”, diz o secretário de Cultura de Porto Alegre, Gunter Axt, nomeado em janeiro. Um espaço para gastronomia e a reestruturação das galerias também fazem parte da iniciativa.

A primeira proposta de restauro do prédio, tombado como patrimônio histórico e cultural pelo município e pelo estado, previa uma transformação completa, com a construção de estruturas novas e uma remodelação interna inspirada na Tate Modern Gallery, de Londres. “O anteprojeto foi pensado ainda no governo Fortunati, feito como ideal, para qualificar e colocar a Usina como um dos melhores centros culturais do país”, relembra o arquiteto Tiago Holzmann, da 3C, empresa escolhida via licitação em 2015 para desenvolver o projeto arquitetônico e estrutural. Em novembro de 2017, quando o projeto já estava concluído, o então prefeito alterou os planos, sob a justificativa de que não havia como captar os R$ 40 milhões necessários para executar uma obra com as proporções previstas. 

Usina  já sediou diversas exposições artísticas e recebeu até a instalação Tropicália, de Hélio Oiticica, em 2015, dentro da programação da Bienal do Mercosul (Carol Ferraz/Sul21)

Para Axt, “este primeiro projeto tinha inviabilidade intrínseca, pelo valor estimado, que dificilmente a cidade conseguiria captar. Seria mais uma daquelas obras que iniciam e não são concluídas”, opina. O projeto final foi reduzido então para se adequar a um custo de R$ 12,5 milhões”. Na avaliação de Holzmann, o plano poderia ter sido mantido para ser executado quando houvesse financiamento, via Lei de Incentivo, por exemplo. “Na nossa opinião, era melhor manter o projeto original integral, mas executar apenas uma parte que coubesse nos R$ 12,5 milhões, para mais para frente executar o restante quando fosse possível”.  

Em entrevista por telefone, o atual prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), afirmou que não há como voltar para o plano inicial. “Eu lamento que o Marchezan não tenha dado continuidade para o projeto original, afinal se um projeto é bom, não interessa de onde vem, o que tem é que tocar adiante. Mas se voltarmos atrás, ficaremos mais dois ou três anos neste processo”, observou Melo, que era vice de José Fortunati na gestão que propôs o restauro da Usina.

A maior parte dos recursos para a execução da obra, cerca de R$ 10 milhões, são oriundos de um empréstimo do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), como parte da remodelação da Orla do Guaíba. O restante (R$2,5 milhões) virá do caixa da prefeitura, além de R$ 2,5 milhões extras, também dos cofres públicos, que serão destinados à compra de equipamentos para o Teatro Elis Regina e para a sala de cinema PF Gastal.

Projeto de restauração foi reduzido a uma obra de melhoria das estruturas

Projeto arquitetônico de restauro da Usina, da empresa 3C Arquitetura (Crédito: 3C/divulgação)

Segundo a 3C Arquitetura, o  projeto final de restauro da Usina inclui basicamente a recuperação de pisos, infiltrações e pintura geral, reformas na estrutura, escadas, da reformulação das instalações elétricas e da atualização do PPCI. Para o arquiteto Holzamann, o que era para ser uma restauração de um prédio histórico se transformou em uma obra de manutenção e melhoria das estruturas já existentes, com pouco mais de ¼ dos recursos previstos inicialmente.  “Com esta verba, itens como novos elevadores, novas instalações, equipamentos de ar condicionado tiveram que ficar de fora. Fizemos o que era prioridade, atender a legislação de incêndio e de acessibilidade”, diz Tiago Holzmann. 

Em 2017, a empresa recebeu um adicional para readequar o projeto arquitetônico, mas o projeto estrutural não foi aceito pela prefeitura. “Optaram por contratar o projeto de estrutura junto à empresa que ganharia a licitação da obra. Sei que agora a concepção é outra, com novas estruturas e fundações, diferentes das que prevíamos no nosso projeto”, explica Holzmann.

Em outubro do mesmo ano, o então secretário municipal de Cultura, Luciano Alabarse, qualificou o projeto existente como “inviável”, “megalômano” e “de dimensões herzoguianas” em um debate no Instituto Goethe, mediado pela jornalista do Dossiê Palcos Públicos Michele Rolim: “Eu não vou entrar para a história da cidade como o homem que fechou a Usina para nunca mais abrir”, afirmou Alabarse. Os planos do secretário não deram certo, uma vez que as obras, que iniciaram em janeiro de 2020, não foram concluídas até o fim do mandato. 

Um problema estrutural envolvendo uma laje acima do teatro Elis Regina e o início da pandemia acabaram reduzindo o ritmo das obras em 2020, embora o trabalho não tenha paralisado por completo. Atualmente, 30 pessoas operam na execução do restauro, que precisou de um termo aditivo de cerca de R$ 3 milhões, assinado em janeiro, para consertar a laje e custear outros itens da obra estrutural. 

Patologias na estrutura também foram identificadas e estão sendo sanadas. Axt destaca que, com o passar do tempo ocorreram várias intervenções no prédio, que é tombado como patrimônio histórico e, por isso, só pode ser modificado via restauro.  Desde que se tornou centro cultural, em 1995, o prédio nunca havia sido restaurado. “A Usina sofreu muito com as ocupações que foram se sobrepondo. O resultado foi um conjunto de cercadinhos e divisórias que acabavam poluindo o espaço. Funcionaram em um determinado conceito de gestão, mas agora vamos partir para algo diferente.”

A empresa  responsável pela execução do projeto é a RAC/Arquibrasil, selecionada via licitação em 2019.  Nonada e Dossiê Palcos Públicos entraram em contato com a empresa, que não aceitou conceder a entrevista com a justificativa de que a prefeitura seria a instituição autorizada a falar sobre a obra.

Usina das Artes não retornará ao Gasômetro

Ksa Terezinha abriga os grupos do projeto Usina das Artes desde 2017 (Foto: Eduardo Beleske/PMPA)

Se os porto-alegrenses têm uma relação de afeto com a Usina, a classe artística – em especial, os profissionais das artes cênicas – construiu uma relação histórica com o espaço cultural. Foi lá que muitos grupos se formaram e se consolidaram, como é o caso do GRUPOJOGO e da Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela.

Essa relação se intensificou com o projeto Usina das Artes, que, até 2016, selecionava anualmente dez grupos de teatro, dança e circo da Capital, via edital de ocupação, para desenvolverem pesquisas artísticas nas salas do prédio, com uma ajuda de custo mensal de R$ 1800. Instituído pela lei 10.683/2009, o Usina das Artes sempre foi preferencialmente atrelado à Usina, como indica o texto da matéria.  

Na gestão de Marchezan, o projeto (bem como a ajuda de custo) foi suspenso pela primeira vez desde a criação da lei, uma vez que não foram lançados novos editais. Artistas tiveram que sair às pressas das salas que ocupavam, inclusive deixando para trás materiais que não cabiam no transporte oferecido pela prefeitura. “O diálogo com a Secretaria de Cultura nunca foi muito produtivo, durante diversos momentos essa transição deixou várias incertezas”, lamenta Alexandre Dill, do GRUPOJOGO.

Por decisão unilateral, os coletivos que integravam o Usina das Artes em 2016 foram parar em um sobrado do bairro Santana ao lado da Vila Planetária, mais tarde nomeado informalmente como Ksa Terezinha. “Três destes grupos (todos de dança) não se mantiveram no novo espaço, porque não era adequado para as atividades que mantinham”, conta Sandro Marques, do Levanta Favela. 

Com poucas salas disponíveis para ensaios, a Ksa Terezinha não tem um palco para os coletivos se apresentarem, além de ter sido sede (até o ano passado) também de uma cooperativa, que já estava no sobrado quando os integrantes do Usina das Artes chegaram. “Toda a ideia de fomentar o trabalho continuado dos artistas foi prejudicado, vários grupos perderam alunos e o aporte financeiro parou”, destaca Dill. Com a desistência do pessoal da dança e de um grupo de teatro, atualmente ocupam a Ksa Terezinha os grupos Teatro Ateliê, Cia. Rústica, Depósito de Teatro, Cia. Espaço em BRANCO, GRUPOJOGO e Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela.

Legenda: espaço da Kza Terezinha tinha objetos empilhados e outros pronto para descarte quando artistas chegaram. Foto: Tânia Meinerz/Dossiê Palcos Públicos

No momento,  Axt avalia decidir junto com a classe artística e os seis grupos que permanecem no local o futuro do projeto Usina das Artes, mas descarta o retorno dos coletivos ao prédio do Gasômetro. “A Usina precisa ser compreendida como um centro cultural ativo, e estas ocupações transitórias não irão mais acontecer. As intervenções cumpriram seu papel no tempo que ocorreram, mas estamos construindo uma nova Usina, com um novo conceito de gestão”. O secretário de Cultura reforça que se o prédio vai ser tratado como um centro cultural, e não terá mais “loteamento” de espaços internos. “Tem que ser um espaço efetivamente da comunidade, para as pessoas circularem por lá”, destaca.

Em janeiro, Axt visitou a Kza Terezinha e afirma ter visto potencial no sobrado para consolidar como um espaço para outro projeto da secretaria de Cultura. “Quero levar a Descentralização para a Kza, que pode vir a se chamar Casa da Descentralização”, adianta. “O prédio precisa de reforma, estamos fazendo os primeiros movimentos neste sentido, pensando sobre a possibilidade”, pondera.

Uma das ideias do secretário é que os grupos que atualmente ocupam o espaço decidam  se preferem que seja lançado um novo edital ou que seja feito um termo de ocupação com os artistas que estão atualmente na Ksa, para dividirem a área com a coordenação de Descentralização da secretaria. “O Usina das Artes está sob avaliação, não será abandonado ou extinto, mas envolve conversa com os seis grupos que estão por lá, e com outros grupos da cidade”, diz Axt.  

Já em relação à lei que rege o projeto, o secretário de Cultura avalia que “do ponto de vista jurídico”, é preciso ter  um olhar também orgânico e estratégico para o marco da Cultura em Porto Alegre. “Há muitas coisas que precisam ser atualizadas”.

Participação do Instituto Odeon não foi explicada

Foto do relatório-síntese feito pela Odeon já diagramado, que nunca foi apresentado ao público. Crédito: reprodução

Um outro capítulo da novela do restauro da Usina do Gasômetro ainda tem mistérios não solucionados: a participação do Instituto Odeon, que assim como surgiu, desapareceu do debate. A OS (Organização Social) prestou consultoria para a prefeitura em 2016 e 2017 “para desenvolver o planejamento da gestão e sustentabilidade da Usina”, que seria terceirizada.  A entidade foi selecionada na gestão de Marchezan, segundo uma nota oficial então divulgada pela SMC, pela “expertise que a OS Odeon tem nas duas áreas mais fortemente ativas do Complexo Cultural do Gasômetro, que são a cênica e a visual.” 

No início de 2017, o Instituto entrevistou artistas, gestores e a comunidade local para saber qual era a percepção do público sobre o futuro da Usina e como ela deveria ser gerida. Segundo o arquiteto Thiago Holzmann, a pesquisa corria em paralelo com a construção do projeto, pois a 3C não recebeu demandas originadas do trabalho do Odeon. Até o momento, os relatórios da pesquisa tampouco foram apresentados ao público e a única entrega do Instituto foi um seminário sobre o papel do Terceiro Setor na gestão cultural. 

O atual secretário de Cultura revela que está estudando a proposta de uma administração terceirizada, considerando fatores como o número insuficiente de servidores. “É muito difícil administrar uma estrutura desse porte, com a estrutura operacional que temos na SMC, que está trabalhando com 50% da equipe que tinha há cinco anos atrás.” Sobre a viabilidade de retomar a relação com o Instituto Odeon, Axt pondera: “Gosto da ideia, mas não sei se vamos seguir com ela. Essas parcerias precisam ser construídas com diálogo e aprimoramento”. 

Até hoje, o poder público nunca apresentou à população o modelo de gestão proposto pelo Odeon, embora o relatório-síntese já esteja concluído e diagramado desde 2018. O Nonada e o Dossiê Palco Públicos tiveram acesso a algumas páginas da publicação, que traz conteúdo sobre o público que frequenta o equipamento cultural, além de detalhes sobre o funcionamento de cada andar. O  índice do relatório também cita o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (Lei 13019/2014).

Foto do relatório-síntese feito pela Odeon já diagramado, que nunca foi apresentado ao público. Crédito: reprodução

No site oficial do Odeon, o serviço de consultoria para a prefeitura de Porto Alegre é descrito como uma “parceria”, mas os valores desta relação ou mesmo o contrato também não foram revelados.  Em matéria publicada no Dossiê Palcos Públicos, o diretor-presidente da OS, Carlos Gradim, afirmou que a CAF era a responsável por financiar a consultoria. O Odeon estava à frente da gestão do Theatro Municipal de São Paulo até 2020, mas o contrato foi rompido pela prefeitura após não aprovar as contas apresentadas pelo Instituto.

A reportagem entrou em contato com o Instituto Odeon, que aceitou conceder uma entrevista na semana passada. Até o fechamento da matéria, no entanto, não retornou mais nossas tentativas de contato. 

 

Edição: Michele Rolim (Dossiê palcos Públicos de Porto Alegre) e Rafael Gloria (Nonada)

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