O que acontece quando artistas e jornalistas trabalham juntos? Se por um lado as artes traduzem de forma sensível e estética realidades sociais através de pinturas e instalações, por outro, o jornalismo investiga, apura e documenta contextos da sociedade em reportagens e notícias, contribuindo com a compreensão sociocultural de uma comunidade ou território.
A união desses dois campos, somada ainda com ideias originais de projetos que transitam entre a reportagem e uma variedade de formatos artísticos, é a proposta do projeto Arte-Jornalismo: Cultura Viva, iniciativa da Associação Cultural Nonada Jornalismo em parceria com o Goethe-Institut Porto Alegre.
Através de uma chamada pública, foram selecionadas três duplas residentes no Rio Grande do Sul, compostas por uma jornalista e um artista, para desenvolver um projeto em conjunto, constituído por uma reportagem e uma peça artística. Na edição deste ano, o eixo temático é “Como culturas populares e tradicionais contribuem com a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente?”. Entre os projetos artísticos criados pelas duplas, muralismo, música e instalação são as linguagens que transpõem do papel para a realidade as ideias de pauta finalistas, com seus desdobramentos narrados nas reportagens.
Capoeira camará
Não foi difícil para a artista visual Brenda Klein desenvolver a ideia da peça artística a partir da parceria com a sua dupla, a jornalista e repórter Valentina Bressan. Além de artista, Brenda também é capoeirista: entende tanto de gingado quanto de arte muralista, expressão pública e monumental que é a sua especialidade. O projeto das duas, intitulado Gingar com a natureza: como projetos de capoeira de Porto Alegre promovem a preservação e a memória ambiental, tem por proposta investigar como as músicas de capoeira trazem nomes relativos à fauna e à flora dos biomas brasileiros.
Embora a dupla tenha desenvolvido dois produtos (um artístico e um jornalístico) a partir da expertise de cada uma, ambos os trabalhos, por partirem da mesma origem, resultaram na influência direta do processo criativo de um sobre o outro e dialogam entre si. Mesmo assim, Brenda percebe que os trabalhos carregam segmentos diferentes.

“Eu sinto que a reportagem em si acabou indo para um lado de como a capoeira e os conhecimentos de origem afro-brasileiros, pautados pela oralidade, já trazem em si a ideia de unidade do ser humano com a natureza, com o todo. Já a arte, por outro lado, foi mais na nossa ideia inicial, que é trazer as letras de música como símbolos da capoeira e do meio ambiente”, contextualiza a artista.
Brenda também relata que a oportunidade de acompanhar a repórter da dupla durante a apuração para a reportagem foi uma vantagem que garantiu ao projeto um maior direcionamento sobre a abordagem e os assuntos explorados na entrevista com os especialistas e mestres de capoeira. “Foi um aprendizado mútuo. Eu nunca tinha acompanhado um processo de entrevista, de reportagem. Mas por eu estar mais familiarizada com esse universo e ter mais conhecimento sobre capoeira, eu consegui ajudar a direcionar as perguntas”, explica.
O local escolhido para a pintura do mural foi o bairro Sarandi, da periferia de Porto Alegre. A escolha de Brenda pelo bairro se deu porque a artista descobriu, “enquanto pintava outro mural por lá, que as crianças têm uma super ligação com a capoeira, que muita gente faz capoeira lá, que o Sarandi tem essa cultura bem forte de ligação com a capoeira e é uma coisa que eu quero deixar marcado”.
Pelo direito de ficar
Essa mescla de expertises para compor os trabalhos também se fez presente durante a realização do projeto Volte para a sua terra: Enchentes, deslocamentos e a voz da cultura hip-hop pela memória, justiça social e ambiental, da comunicadora Jênifer Tainá e do rapper Kizua Trindade. Com a música “Volte para a Sua Terra”, a dupla se volta para as vivências de imigrantes que enfrentaram, durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, dilemas duplos sobre pertencimento e perspectivas de vida. No novo lar, os imigrantes viram se intrincar as esperanças sobre prosperidade e futuro ao testemunharem o sonho sendo consumido pela lama.
“Tudo o que uma vez sonhei/ aqueles sonhos que eu trouxe da terra que eu deixei/ e quando chega a água, implacável, sem demora/ vejo indo ao lixo o fruto da saudade que chorei”, diz o verso da canção cantado pelo rapper. No refrão, a dupla canta em uníssono sobre a incerteza de não saber se fica, ao mesmo tempo em sabe não ter para onde voltar.
A canção conta com a gravação de um videoclipe, que mobiliza uma série de conceitos e representações sociais das comunidades impactadas pela tragédia socioambiental, com destaque para as comunidades assistidas pela Casa do Imigrante de Porto Alegre. As fontes entrevistadas para a reportagem, escrita por Jênifer, também participaram da gravação do videoclipe.
“Primeiro a gente fez as entrevistas, e a partir das entrevistas a gente compôs a música. Com a música pronta, gravamos o videoclipe, que contou com toda uma equipe. O pessoal que trabalhou no videoclipe também escutou as entrevistas. A gente foi se inspirando nos processos que iam acontecendo”, comenta a repórter. A equipe que trabalhou na produção do videoclipe tem história para contar ao lado da dupla. Além de já terem gravado música com o rapper Kizua, o time também participou de ações voluntárias realizadas durante as enchentes ao lado da repórter, enfatizando a força coletiva do projeto.
Inserir o cinema no cotidiano das comunidades atingidas, através das gravações do videoclipe, é outro aspecto do processo de produção que contribuiu para a escrita da reportagem ao trazer impactos do projeto em tempo real. “Acho que isso também foi uma oportunidade para a comunidade atingida de poder rever esse lugar, que é o lugar onde eles moravam, e ter uma outra lembrança agora desse lugar”, destaca a repórter.
Artesanato intergeracional
Gabriela Sardi, repórter da dupla com o artista visual Maê Nardes, do projeto Artesanato com palha de butiá: saber transgeracional e preservação da espécie nativa, é direta: o encontro entre os dois aconteceu por conta da proposta do edital, algo que consequentemente influenciou o percurso de ambos os trabalhos. “Foi por conta desse trabalho que a gente estava em Torres conhecendo o trabalho das artesãs, e compartilhando essa vivência juntos. Só isso já faz a diferença”, ressalta.
Para ela, o processo já nasceu em conjunto. Desde o momento de elaboração da pauta até o momento em que as entrevistas, que embasam tanto a reportagem quanto a feitura da instalação, a dupla já se completava. “Ele perguntou para algumas artesãs sobre o processo e sobre o manejo da palha, a materialidade do fazer delas, coisas que talvez eu não tenha me apegado tanto.”

Uma das descobertas principais da dupla durante a apuração foi o fato de o ofício, apesar de registrado como patrimônio cultural do estado, corre risco de desaparecer pela falta de oportunidades e pelo desaparecimento dos próprios butiazeiros. Essa questão foi a base para a instalação criada por Maê, em exibição no Goethe-Institut Porto Alegre. “Eu tentei trazer pra obra essa questão de finitude, uma rede que está se desmanchando e por cima tem os chapéus”, explica.
Você pode conferir os trabalhos artísticos e as reportagens na página do projeto.