Gingar com a natureza: como mestres de capoeira aliam consciência socioambiental à tradição

Nas músicas, nos instrumentos e nos rituais da roda, a capoeira guarda uma tradição que trata o meio ambiente como um igual
Arte: Brenda Klein

“Onde vai caimã/vou pra ilha de maré/onde vai caimã/vou jogar capoeira”. O verso entoado em coro em rodas de capoeira carrega mais do que a tradição da ginga afro-brasileira: guarda uma filosofia que considera homem e natureza uma coisa só. Caimã quer dizer jacaré, um grupo de espécies típicas das Américas. Mas é também uma palavra que nasce em berço indígena para se referir a esse animal, e marca toda a mistura e o sincretismo que fundam a capoeira. 

Ao cantar na roda acompanhando o berimbau, o atabaque e o agogô, dá para se deparar com várias palavras que geram curiosidade – e apontam na direção das sabedorias anteriores à própria noção de preservação ambiental, porque traziam como fundamento o respeito ao ser humano e a todo seu entorno. Dos nomes de árvores, como jequitibá e massaranduba, guatambu e ipê, aos de animais, as canções da capoeira são exemplo de conhecimento oral que parte da natureza para ensinar sobre a vida.

“A capoeira tem uma ligação mítica com a natureza”, resume o Mestre Ferradura, do Instituto Brasileiro de Capoeira-Educação. “Está nos nomes de golpes, por exemplo: rabo de arraia, morcego, macaco, pose da zebra. Existe um berço comum das religiões afro-brasileiras e da capoeira, em que há uma ligação com deuses, orixás, animais, entidades.”

A união entre natureza e ser humano não é mera metáfora da capoeira. As canções ensinam, na tradição oral, que o capoeirista não é mais resistente que uma árvore, por exemplo – não porque há uma superioridade, mas porque ambos fazem parte de um coletivo inseparável: madeira de baraúna/difícil de derrubar/mas no jogo de mandinga/baraúna vai tombar. “Se a resistente baraúna pode cair, quem sou eu para não cair também?”, explica Jonatas da Costa, professor da Projete Capoeira, que há 10 anos conduz as rodas sediadas no Centro Cultural Vila Flores, em Porto Alegre (RS).

Arte: Brenda Klein

Para o pesquisador e capoeirista Cássio Henrique da Silva, essa filosofia descrita na canção tem raízes nas epistemologias africanas. “Dentro dessa tradição, não se vê a divisão homem e natureza. O que se vê é uma coisa só, é uma outra perspectiva”, explica Cássio, que transformou a capoeira em tema de pesquisa na dissertação A capoeira joga com a dureza da vida, publicada também em livro e ebook.

Ele começou a participar das rodas em 1995 com Mestre Ratinho, fundador do Grupo Rabo de Arraia e um dos pioneiros da capoeira angola em Porto Alegre, que hoje conduz suas rodas no bairro Sarandi. Era um tempo de efervescência da cultura negra, em torno do 300 anos do assassinato de Zumbi dos Palmares. “Comecei a acessar uma epistemologia muito diferente do que eu tinha no contexto educacional convencional”, conta Cássio. 

Cássio define esse manancial de conhecimentos da capoeira com um conceito da pensadora Leda Maria Martins: “oralitura”, que considera a oralidade como produtora de conhecimento e memória. “A capoeira é multidisciplinar, inclui esse espectro amplo de conexão dos saberes que podemos alcançar com ela”, conclui. “Vejamos as ladainhas, as músicas: elas têm uma riqueza histórica em que se fala de episódios vividos, se lembra da época de proibição da capoeira.”

Assim, os conhecimentos preservados pela capoeira não se traduzem em cartilha de ecologia, mas ensinam uma cosmologia de tradição africana mais ampla. “Com o Mestre Cica de Oyó, eu aprendi que a capoeira está além da religiosidade, porque a cosmologia, a tradição africana vai além dessa conexão mais religiosa, cristã. Ela está conectada ao fazer, ao existir”, explica. 

A pesquisa de Cássio dá um endereço concreto para essa filosofia de origens africanas: os quilombos. Na década de 1990, quando entrou para a capoeira, começou a compartilhar a roda com amigos e parceiros do Quilombo dos Machado, na Zona Norte de Porto Alegre. Para ele, a capoeira serve de ferramenta para nomear esses territórios e fortalecê-los. “A capoeira pode nos fazer ampliar cada vez mais essa presença negra que até então foi invisibilizada e a partir disso fazer ela ecoar, fazer com que ela se encontre com essas estratégias de resistência e essas necessidades de reconhecimento que ainda são vividas pela população negra, pela população quilombola”, diz. 

A roda como escola para a vida

A circulação de saberes pela roda não para na natureza. Ela ensina também a viver — e a ocupar um lugar no mundo. Antes de pensar a capoeira como caminho para uma conscientização ambiental, os mestres consideram o valor pedagógico do jogo para a própria afirmação da cidadania. Mestre Ferradura, capoeirista há 35 anos, classifica o trabalho no Instituto Brasileiro de Capoeira-Educação (IBCE) como uma “tecnologia social” que democratiza a educação, a cultura, o lazer, o esporte e o bem-estar para pessoas vulnerabilizadas.

Foto: Valentina Bressan

Sediado no Morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, o projeto conduz rodas de capoeira entre pessoas em situação de rua, crianças com deficiência visual, jovens em cumprimento de medida socioeducativa e nas praças e escolas públicas, para quem se interessar. Desde 2023, o IBCE promove também uma formação em educação ambiental. 

Junto de outras organizações, o IBCE transforma a capoeira em iniciativa social de conexão com o território da favela. A Coop Babilônia é parceira no projeto de educação ambiental, promovendo turismo ambiental no Morro e atuando com reflorestamento. “Quem olha hoje em dia, não imagina que há 25 anos esse Morro estava pelado, a temperatura era mais alta. Nossa participação se dá com a conscientização deles, indo nas ações, conhecendo a trilha, participando de palestras sobre reflorestamento, território”, explica. Para Ferradura, esse engajamento social é natural e tem raízes na cultura negra e na relação histórica dos capoeiristas com as periferias. “Parece haver uma certa vocação da capoeira para isso. Tem uma pegada de compromisso social, a maioria dos núcleos de capoeira fazem algum projeto social”.

Essa noção virou lema do grupo Projete Capoeira. “O Mestre Gladson, um dos pioneiros da Projete, considerava a capoeira um instrumento para a cidadania”, conta o professor Jonatas. Em sua própria história e na trajetória dos alunos, ele enxerga nessa relação de respeito uma sabedoria que é anterior à ideia de consciência ambiental: um tipo de respeito a si mesmo e ao coletivo que é herdeiro de uma tradição africana. 

Jogar capoeira envolve ritos que marcam o respeito a si mesmo, aos outros e à tradição. Os exemplos vêm de ações simples, como cantar em roda. “A gente começa cantando em coro, acompanhando os outros sem a responsabilidade de cantar sozinho, com a maior preocupação de não atrapalhar. Às vezes nem é bom ter a voz mais bonita – na roda mais vale um cantador que inspira e traz energia do que um afinadíssimo. E depois, tu vai aprendendo a se colocar nesse palco, a dar aula. Um dia tu vai dar uma palestra. Tudo isso me ajudou a virar adulto.”

Antes de entrar na roda, o capoeirista saúda o berimbau, que conduz o ritmo das músicas, e cumprimenta seu parceiro de jogo. Quem não sabe andar, pisa no massapê e escorrega: o verso traduz o tipo de malandragem respeitosa que o capoeirista deve ter. “É um pouco para dizer: tem que saber chegar, tem que saber sair. Como regra primeira, nós temos um respeito aos mais velhos. Se tu vai ‘comprar o jogo’ e tem outros dois capoeiristas, tu vai jogar com o mais velho, não o mais novo”, explica Jonatas.

Como a capoeira se fundamenta na tradição afro-brasileira, o respeito se destina não só aos outros capoeiristas da roda, mas a si mesmo e ao chão em que se pisa. “Eu simplificaria definindo assim: nós somos parte da natureza. Às vezes nós, e a maioria do mundo com pensamento ocidental, esquecemos disso. Quando se fala em preservar o meio ambiente, deveríamos pensar em se autopreservar também. A força vital está na bananeira, mas está em mim também”, diz o professor da Projete Liberdade.

“A capoeira vem dos animais”

Para o contramestre Piloto, como é conhecido nas rodas o neurocientista Sidarta Ribeiro, a capoeira resgatou justamente sua “força vital”. Ele estava nos Estados Unidos, cursando doutorado, quando se viu desconectado das suas raízes. “Era uma questão de sobrevivência. Poderia ter sido o maracatu, o samba de roda, o afoxé, mas eu precisava dessa cultura afro-indígena desesperadamente”, conta.

 À época, ele partiu rumo à Carolina do Norte para seguir seus estudos. “Um lugar muito interessante, mas que mostra as profundezas de um estado supremacista branco, capitalista, patriarcal. Estava sentindo o peso disso tudo e com medo da minha fagulha, da minha alma, se apagar naquela tristeza, naquele borocoxô”, diz Piloto. “Essa doença, a adoração do deus dinheiro é um negócio que vai deprimindo e matando a imaginação, o axé. Eu me salvei ao me agarrar na capoeira”.

Foto: Valentina Bressan

Sob o berimbau do Mestre Caxias, do Grupo Capoeira Brasil, Piloto se tornou “um discípulo fervoroso da capoeira”, levando os instrumentos como o agogô para todo congresso científico de que participava. Também aprendeu ao lado de Mestre João Grande, referência de capoeira Angola nos Estados Unidos.

“Lá no meu início na capoeira, fui falar com o Mestre João Grande, e certa vez ele me disse que a capoeira vêm dos animais: desde o pisão, a chapa, o coice. Ele também falou que a pessoa nasce sabendo capoeira – e depois esquece e tem que estudar muito para reaprender”, conta. Essa presença animal está também nas canções que Piloto aprendeu a entoar, como metáfora e alerta. Onça morreu, onça morreu, o mato é meu, canta o contramestre. Ou Bem-te-vi cantou no alto da gameleira, sabiá responde, já nasceu na capoeira – não à toa, Piloto relembra o Mestre Paulinho Sabiá, que faleceu em abril deste ano. “E deixou em luto o mundo todo, porque a capoeira é a tradição diaspórica que mais se espalhou”. 

“A capoeira é uma biblioteca viva”

Tão diversas quanto o próprio jogo de capoeira, as músicas cantadas nas rodas trazem em seus versos registros orais dos ecossistemas locais. Enquanto no Rio Grande do Sul é possível encontrar referências ao campo e ao bioma pampa, as canções entoadas em coro pelos capoeiristas baianos mencionam outros tipos de vegetação. “Licuri quebrar dendê, quem nunca viu, venha ver” são os versos de uma música tradicional para abrir a roda. 

“Se você não mora na Bahia, dificilmente vai saber o que é um licuri. Muitas das músicas são regionalizadas, são do sertão. Tem outra música super clássica da capoeira: tabaréu que vem do sertão, vendendo maxixe, quiabo e limão. É capaz do menino nem saber o que é um quiabo, quanto mais um maxixe”, ilustra Mestre Ferradura, do Instituto Brasileiro de Capoeira-Educação (IBCE). 

Na malandragem do aprendizado oral, as músicas se trocam e se misturam nos encontros entre capoeiristas de diferentes territórios do Brasil – e, junto com elas, circulam paisagens, nomes de bichos e de plantas que muitos nunca viram ao vivo. 

“Tem essa música do Mestre Toni Vargas que era meio indecifrável, até eu entender que a palavra era ‘gibão’: Mandacaru tem espinho/olha, bota o gibão/não bota a mão. O gibão é aquela roupa de couro do sertanejo, que vai te proteger para não se machucar com o cacto”, lembra Jonatas, do grupo Projete Liberdade. “Aqui [no Rio Grande do Sul], por exemplo, não iríamos compor uma música falando do mandacaru, mas do chimarrão.”

Para o Mestre Ferradura, é a oralidade herdada da tradição africana que permite à capoeira manter esses conhecimentos vivos até hoje. “A capoeira é uma biblioteca viva. Hoje temos músicas gravadas na internet, vídeos. Mas a todo momento ainda se produz conhecimento oral, uma música ‘viraliza’ no mundo da capoeira e ninguém sabe quem é o autor, de onde veio. É uma cultura viva, fora do museu”, resume. 

A madeira que canta

A feitura dos instrumentos da capoeira preserva uma relação de reverência com a matéria-prima natural que é transmitida de roda em roda. “O atabaque, por exemplo: nunca se coloca nada em cima dele, em respeito ao boi que morreu e deu o couro que está ali”, explica Jonatas. “Isso tem a ver com essa visão de mundo, que pensa na gente e na natureza como uma coisa só. Não se mata um bicho à toa, então, em respeito, não coloco nada sobre o atabaque”. 

As próprias músicas servem para lembrar desse dever: o que colher, quando, e como aliar a artesania dos instrumentos à preservação do meio ambiente. As canções carregam uma memória ecológica, não só dos nomes das espécies, mas dos tempos da natureza.

A noite vem eu entro na mata/ Lua clareia, eu vou procurar/Jequitibá e maçaranduba/O guatambu eu devo achar. Se o Mestre Bimba estivesse aqui/Pra me ensinar a escolher madeira/Eu entraria agora na mata/Tirava Ipê e Pau Pereira. Na Lua cheia vou colher os frutos/E na minguante eu tiro a madeira/Para fazer o meu berimbau/Para tocar na capoeira.

Foto: Valentina Bressan

O contramestre Caçapa do Catiguá, que há 19 anos pratica capoeira no Grupo Rabo de Arraia, em Porto Alegre, carrega no nome a sabedoria que aprendeu na mata. “Cada um vê a capoeira da maneira que viveu. Para mim, a capoeira é fé, é minha religião”, conta. 

Caçapa se apaixonou pela capoeira na adolescência, na cidade de Caçapava do Sul – daí, seu nome nas rodas. Quando se mudou para Porto Alegre, começou a participar das rodas com Mestre Ratinho. “Sempre gostei do berimbau e quando cheguei, via Ratinho fazendo. Agora sou eu que faço.” 

Mesmo morando na capital, guardou na memória os caminhos no meio do mato que aprendeu na infância e adolescência, quando trabalhava nas lavouras de Caçapava do Sul. Foi no retorno à cidade natal que ele descobriu que era possível fazer berimbaus com uma madeira comum por ali: o catiguá. “Para fazer berimbau, não é só ir cortando madeira. Já fiz berimbau de pitangueira, de angico, mas não são madeiras que encontro em abundância. Um dia, no mato, cruzei por uma madeira reta, cortei duas e fiz os berimbaus. Gostei deles. Depois, meu primo que me disse que era catiguá”, conta. 

Para Caçapa, a conexão da capoeira com a natureza se dá na miudeza do preparo do berimbau e na sabedoria de escolher e tratar a madeira que vai gerar o som para as rodas. “Fui amadurecendo na capoeira e aprendendo a não desperdiçar sem necessidade. Se o catiguá deu certo, sigo nele. Trabalhando lá fora, precisava derrubar mata para fazer lavoura, era a necessidade do trabalho. Mas acho um pecado fazer algo que não vai me servir”, resume. 

Hoje, Caçapa só faz berimbaus quando o Mestre Ratinho, de seu grupo de capoeira, pede. Não aceita encomendas e não faz para vender: para ele, quem compra não entende o valor. Cada incursão em busca de madeira para o berimbau precisa ser feita com cuidado.

“O berimbau do Sul é difícil de fazer: o porongo aqui é grosso, não faz som com qualquer madeira. Foi com espiritualidade que aprendi a lidar com a madeira, até para cortar tem um jeito”, diz Caçapa. Para escolher o catiguá mais adequado, é preciso ver se a árvore está crescida o suficiente, se os galhos têm a espessura correta e ter cuidado para, ao tirar a verga para o berimbau, não matar o restante da planta. 

“O mato é um troço espiritual. Se tu entrar e ele não quiser, se tu não tiver respeito, ele não te dá madeira. Para trazer uma verga para o berimbau, tem que ter uma fézinha.”

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