O processo de pesquisa desta reportagem, realizado em dupla com a repórter Gabriela Sardi, também deu origem à instalação do artista Maê Nardes, em exposição no Goethe-Institut Porto Alegre. O trabalho em conjunto foi contemplado pelo Edital Arte-Jornalismo, realizado pelo Nonada em parceria com o Goethe.
“Já nasci com isso aqui na mão”, assegura dona Francisca sobre os fios de palha de butiá que trança com destreza. Sem precisar pôr o olho na trama, em pouco tempo completa um metro de trançado. Com quatro, faz um chapéu. Com nove, uma bolsa de tamanho médio.
Na zona rural de Torres, no litoral norte gaúcho, o fazer atravessa gerações há mais de 150 anos, desde a época em que a noite era iluminada por lampiões e as famílias trocavam uma dezena de chapéus de palha por um saco de farinha ou alguns metros de tecido.

Em agosto de 2023, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae-RS) oficializou o modo de fazer artesanato com palha de butiá como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. Foi o segundo bem imaterial a receber a distinção no instituto gaúcho. O primeiro, cujo registro veio dois meses antes, foi o cultivo e a comercialização da erva-mate, matéria prima do chimarrão.
O reconhecimento institucionaliza um saber antigo, mas não garante sua continuidade. Em Torres, o número de artesãs diminui com o passar do tempo, enquanto os próprios butiazeiros escasseiam na paisagem. Ainda assim, a prática – fruto do encontro de saberes indígenas, açorianos e alemães –, segue presente na memória, na identidade e no cotidiano de toda uma comunidade.
‘Para ter um troquinho a mais e não pensar bobice’
Como a mãe, a avó e a bisavó, Francisca Trajano, 71, criou os filhos com a ajuda da palha de butiá. As antecessoras viviam em engenhos de mandioca, trabalhando na moagem manual do tubérculo; já ela foi cozinhar e limpar nos hotéis que se multiplicavam à beira-mar. No tempo que restava, trançava chapéus e bolsas, que viajavam com ela, na carona da bicicleta, até a praia ou a cidade, em busca de compradores.
À noite, em casa, era hora de se reunir com a família ao redor da palha. O marido, Dilson de Matos, amaciava as folhas, deslizando fio por fio sobre o dorso de uma pequena faca cega, como quem alisa os cabelos. Francisca trançava as braças – faixas de palha de cerca de um metro, que, esticadas, vão do pé ao peito da artesã. Por fim, os quatro filhos cortavam as pontas soltas que teimavam em aparecer no trançado. “A gente botava a eles a despicar para ajudar. Tinha que terminar a tarefa para poder brincar. Criamos eles assim.”
Para dona Francisca, o trabalho com a palha tem a ver com autonomia. “Nunca fui de esperar por ele [Dilson]. Ia fazer meu dinheiro para comprar coisas para os meus filhos, roupa para eles cansei de comprar com dinheiro de bolsa.”
Ainda hoje, o casal segue trançando, “para ter um troquinho a mais e não pensar bobice”, justifica Francisca. “É uma coisa que a gente aprendeu a fazer e continuou. Eu gosto e me lembra daqueles tempos antigos. É uma terapia. Enquanto eu tiver força, tomando os meus remedinhos de dor, vou continuar fazendo.”

No terreno da família, um butiazeiro centenário guarda a memória do pai de Dilson, Olímpio José, que, assim como a mãe, Maria Glória, trabalhava no artesanato. “Até esses anos minha irmã tinha guardadinho os rolos de trança do pai, de lembrança.” Foi com os mais velhos que ele aprendeu a cuidar da planta para que nunca falte palha. Explica: “a gente tem que tirar uma vez por ano, e sempre deixar umas quatro folhas, senão o pé para de crescer. Palha de ano fica boa, macia, resistente”.
Antigamente havia butiazeiro por todo lado. “Era tanto que nem tinha espaço para a gente plantar um pé de nada”, relata Dilson. Com o passar dos anos, a fim de dar lugar a lavouras, pastagens, estradas e empreendimentos imobiliários, o ecossistema dos butiazais foi minguando. O último levantamento feito pela Secretaria do Meio Ambiente do estado, há 12 anos, diz que o Butia catarinensis enfrenta “risco extremamente alto de extinção na natureza”.
Seu Dilson lamenta. “Eles cortam a natureza, fica só a terra. A terra não segura quando tem chuva, é a árvore que segura por causa da raizeira. A palha no chão molha, apodrece e serve de adubo para o próprio pé dela. Já o plástico enrola, vai para as bocas de lobo, que vai para o mar, para o rio, e polui. Os peixes comem e morrem.”
Uma dúzia de chapéu por um quilo de açúcar, por gentileza
Aos 87 anos, Eracy Joaquina da Rocha recorda os tempos em que o entardecer era acompanhado pelo som do farfalhar da palha. “Na casa da tia, a gente se juntava tudo ao redor do fogo de chão para trançar. Trançar era a primeira coisa que as crianças aprendiam a fazer antigamente.”
A palha de butiá está na família de dona Eracy há pelo menos cinco gerações. A mãe e a avó ensinaram o ofício a ela, que, por sua vez, ensinou aos filhos e netos. “Eu pedia para eles trançarem para ajudar em casa. Era uma vida muito sofrida. A gente trabalhava porque era obrigado mesmo.” Para ela, o artesanato remete principalmente a tempos de escassez, em que chegava a fazer uma dúzia de chapéus por dia. “Saudade não digo que tenho, mas a gente sente falta, né, das antiguidades que a gente fazia.”
Dona Eracy usava os chapéus como moeda de troca em armazéns como o da família de Judith Santos, 82 anos. “Antigamente não existia outra coisa, minha filha. Era só o que se fazia se não fosse lavoura. A turma ia para Águas Claras, levavam o chapéu para trocar por café, açúcar”, relata Judith.
Ela conta que o pai, Manoel da Rosa, fazia questão de checar a qualidade do escambo que fazia no armazém. Se a costura do chapéu fosse feita de embira, uma fibra vegetal que barateava a produção, ele mandava embora. O melhor mesmo era o fio de algodão, que não arrebentava nem apodrecia no calor da fábrica serrana para a qual vendia os chapéus, transportados em fardos de arame que enchiam as caçambas dos caminhões.

Passado um tempo, seu Manoel abandonou o balcão do comércio por uma lavoura em Campo Bonito. De início, enquanto os filhos homens não tinham idade, as mulheres da casa conciliavam o trabalho na roça com o manejo da palha de butiá. Com oito anos, dona Judith já sabia trançar. Aprendeu com a mãe, Gerônima, que costurava os chapéus a partir das braças tramadas pelas crianças.
“A gente lograva ela, sabe? Ela botava três braças para a gente trançar e marcava [na palha]. A gente desmarcava e botava para trás”, segreda, rindo. Para conseguir a palha certa para tramar os chapéus, dona Judith e a mãe caminhavam até um faxinal lotado de butiazeiros, no próprio terreno da família. Tiravam um cento de palha verde, sempre atentando para deixar três folhas, as mais novas, em cada pé. As velhas, já secas, viajavam de carro de boi até uma fábrica da região, para virar enchimento de colchões e sofás.
Com tantas décadas de palha entre os dedos, dona Judith aprendeu os modos do butiazeiro. Sabe que o pé precisa ser limpo das ervas daninhas, para não definhar; e que a melhor palha é aquela que cresce ao sol e seca longe do sereno. No verão, estação em que a planta dá frutos, o melhor é dar férias ao facão. “Se cortar palha depois que cresce o butiá caem todos, fica só o cachinho vazio”, alerta. Em casa, a chuva era celebrada. “As palhas ficavam macias, rendia mais. Senão tinha que colocar um pano úmido enrolado nelas, porque secas quebravam todas”, explica.
Sete caminhões depois
Eni Teresinha Monteiro, 67, fez de tudo um pouco, mas seu primeiro trabalho, ainda criança, foi a trança de chapéu. Aos seis anos, já sabia que três braças equivaliam a algumas horas livres para jogar bolita ou pular sapata. Para aligeirar a tarefa, a própria palha virava brincadeira. No “jogo do nó”, como em uma corrida, quem trançasse primeiro até a marcação vencia a rodada.
“À noite a gente fazia o tal serão. Convidava as primas, as vizinhas, cada vez em uma casa. Fazia doce, broa, merengue. Sentava em roda e ia até meia-noite trançando. Depois dava boa noite, falava ‘benção, tia’ e ia embora”, recorda, saudosa.

Caçula das artesãs entrevistadas, Eni posa para a foto segurando braças de trançado. Desde adolescente e até hoje, ela adora ir aos “bailinhos”, como chama. Lembra com carinho do comércio da falecida dona Maria, no qual, na cotação de três dúzias de chapéu por um vestido, garantia um traje novo para a festa. | Foto: Maê Nardes
Adulta, em meados dos anos 1980, Eni foi representante das artesãs na venda de chapéus para uma fábrica de Garibaldi, na serra gaúcha. Orgulhosa, ela narra o célebre dia em que sete caminhões pararam, em frente a sua casa, para buscar as encomendas. O declínio veio com o fechamento da fábrica.
“Quando fechou, tinha umas [artesãs] que ficaram com 40 dúzias de chapéu prontinhas em casa. Queimaram tudo.” Para Eni, as firmas representavam uma garantia de comprador e, sem elas, a continuidade do artesanato ficou ameaçada. “Eu não queria que isso aqui se terminasse. Jamais eu queria”, afiança.
Do registro à ação
Francisca e Dilson, Eracy, Judith e Eni ensinaram os filhos – e, no caso de Eracy, também os netos – a trançar a palha de butiá. O aprendizado começava já na infância e era motivado, sobretudo, pela necessidade de ajudar no sustento de casa. Atualmente, com novas possibilidades de renda, as novas gerações se afastaram do ofício. “Tive seis filhos. Nenhum quer saber de trançar. Eles dizem ‘credo, se vender chapéu vai viver?’ vai não. E é verdade, né? Salário ou profissão dá mais do que trança”, admite dona Judith.
Nesse contexto, a patrimonialização é um primeiro gesto de salvaguarda. O processo de registro do artesanato com palha de butiá junto ao estado foi encabeçado pelo Instituto Curicaca, organização não-governamental e sem fins lucrativos sediada em Porto Alegre.
A equipe do instituto conheceu algumas das artesãs da palha no início dos anos 2000, durante uma pesquisa sobre os microcorredores ecológicos de Torres e região. Em 2013, amparada por editais públicos, a ONG passou à elaboração de um extenso dossiê sobre a prática, a fim de, junto às artesãs, buscar a registro, oficializado em 2023 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae-RS).
A historiadora Frinéia Zamin, que, junto ao antropólogo Yves Marcel Seraphim, assinou o parecer técnico do Iphae, ressalta que o reconhecimento ajuda a romper com uma visão comumente limitada do litoral. “A gente se refere sempre ao litoral como turismo, praia, férias e lazer, e esquece que tem um povo originário ali, que tem sua forma de vida e sua forma de gerar economia independente do turismo. Isso é importante de ser reconhecido, senão essas comunidades ficam invisíveis.”

Patrícia Bohrer, coordenadora de educação e cultura do Instituto Curicaca, avalia que a patrimonialização fortaleceu a autoestima das artesãs e contribuiu para a valorização de seus saberes. Ela destaca que, sendo o trançado um trabalho ancorado no legado feminino, o registro oficial contribui para o firmamento de outras narrativas. “Proteger essa prática também é construir uma história que não seja nociva, mas pautada na cooperação, na sensibilidade, no afeto e em um tempo mais vagaroso, não contagiado pela aceleração exacerbada do mundo de hoje.”
A proposta técnica de registro elaborada pelo Instituto Curicaca elenca uma série de medidas de salvaguarda do modo de fazer artesanato com palha de butiá. Propõe, entre outras coisas, a promoção de ações comunitárias e pedagógicas; o firmamento de vínculos com entidades e órgãos regionais e estaduais; a elaboração de um selo de certificação de origem para o artesanato; a criação de associações e cooperativas; o monitoramento frequente dos remanescentes de butiazais; e a realização de atividades de formação para o público mais jovem.
A partir de 2025, a Prefeitura de Torres e a Sedac começaram a promover ações de valorização do bem cultural. Foram quatro oficinas de trançado, duas delas exclusivas para artesãs de outras áreas; uma palestra dirigida ao mesmo público; uma capacitação para as artesãs da palha de butiá e uma reunião com a gestão municipal. Além disso, os chapéus e bolsas produzidos por dona Francisca passaram a ser vendidos na Casa da Terra e do Artesanato, estabelecimento mantido pela Prefeitura que divulga e comercializa a produção local.
Apesar dos avanços, segue pendente uma medida importante: o reconhecimento do trabalho das artesãs para fins de aposentadoria, considerando os anos dedicados ao trançado. Embora possam contribuir como autônomas ou microempreendedoras, muitas nunca tiveram acesso a esse tipo de formalização.
Francisca, por exemplo, parou de trançar por 16 anos para correr atrás da previdência. Se mudou para Santa Catarina e começou a cozinhar em um restaurante para quitar o tempo de contribuição necessário à solicitação da aposentadoria. Hoje, ela e seu Dilson recebem, juntos, dois salários mínimos do INSS. Complementam a renda com a venda de ovos, queijo, leite e chapéus e bolsas de palha de butiá.
“As pessoas acham um absurdo [o preço do artesanato], mas é porque ninguém sabe como é feito. Eles acham que já vem pronto da fábrica, mas é palha por palha. Eu boto uma para cá e outra para lá, tudo manual”, conta Dilson. As vendas e elogios, quando vêm, são motivo de muita alegria, especialmente para dona Francisca – que, nas palavras do marido, é a autora mesmo do trabalho. “A gente só prepara as coisas, mas a artista é ela.”
A artista sabe que, com o andar da idade, pode ter que descansar a palha. “Eu gosto e queria que mais alguém ficasse fazendo no meu lugar.” Ela, que vende tudo que trança, garante: “a hora que eu parar, vou fazer uma peça de cada para deixar dentro da minha casa, de enfeite”. E sorri, orgulhosa.