Rio de Janeiro (RJ) – Uma estrutura de caixas de som, CDJ e microfones interrompe o fluxo da Rua do Ponto Chique. Um banner exibe fotos do cantor Bob Marley e anuncia o evento da sexta-feira à noite: “Baile dos Crias”. A rua, conhecida também como “Base”, é uma das partes mais famosas da Cidade Alta, favela que integra um complexo na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Na Cidade Alta, se pode ver a recente revitalização de espaços públicos — uma pista de skate, uma quadra reformada, e um novo anfiteatro para eventos, construído pela Prefeitura do Rio. No mesmo lugar, também se expressa o cenário cotidiano do território: fluxo intenso de motos, predominância masculina e o funk e o trap como trilha sonora urbana.
Se no final dos anos 90 e no início da década de 2000, a comunidade era conhecida por uma efervescência cultural — pela disseminação do passinho, por exemplo –, os últimos anos foram mais de silêncio do que de baile na região. O evento acontece no “Bar dos Crias”, tradicional ponto de encontro de moradores e visitantes de favelas vizinhas, e marca um movimento de fomento à cultura que cresce nas ruas, principalmente, através da atuação de agentes e lideranças da favela.
Começa o baile
Dentro do bar, DJ HighTuco conduz a festa a partir da própria assinatura sonora, reproduzindo um set que mistura DanceHall, Reggae, FunkHall, R&B, e outras sonoridades diaspóricas. O público, ainda tímido, se acomoda próximo às caixas de som. As pessoas, várias delas artistas da comunidade, vestem roupas marcadas por estilos autênticos e coloridos, exibem seus cabelos naturais. Alguns filmam e fotografam a festa, enquanto andam de um lado ao outro, colaborando com a organização.
Ao redor, moradores da Cidade Alta olham com certa desconfiança, observando entre a mesa de sinuca do bar e as mesas de concreto recém pintadas nas imediações. No microfone, Juju Rude, artista, organizadora da intervenção e liderança de favela, anuncia: “E aí, favela! Boa noite. Quero agradecer a presença de geral que colou para ouvir um som diferente. É importante.”

A noite segue com apresentações de artistas do rap independentes locais e vizinhos (Ovampiroblade, Cbzsul, Vtê, McVersa…), alguns estreando naquele formato de baile. Conforme a noite avançava, o público parecia se engajar de forma mais intensa, como se entrasse em um consenso, como se uma presença coletiva ganhasse corpo e lembrasse os dias mais sonoros e culturais podem voltar ao território. As apresentações, no entanto, foram breves. A festa, organizada para promover visibilidade a rappers locais e estimular o engajamento dos bairros circunvizinhos com a revitalização, naquela madrugada ainda é uma exceção.
Segundo Juju, ainda há um descrédito na importância do trabalho dos artistas da comunidade. Ela declarou que “com ou sem apoio”, seguiria firme: “O pessoal não entende o que eu faço. Acha maneiro, apoia… Tem um amigo ou outro que normalmente presta um pouco mais de atenção. […] A galera tem esse bloqueio, né? Infelizmente.”
Insistência é uma palavra que define o trabalho de Juju, nome artístico de Julyany Alexsandra de Oliveira, artista que de forma multidisciplinar, realiza projetos culturais há quase uma década ao Complexo de Israel, nome que se refere ao conjunto das favelas de Parada de Lucas, Vigário Geral, Pica-Pau, Cinco-Bocas e Cidade Alta. A cultura não é pura, e por isso, é sempre produto de engajamentos que atravessam fronteiras culturais, uma adaptação aos mistos, e em suma, a contradição.
Favela é sobre consideração

O conflito entre facções pelo controle da Cidade Alta, em 2016, foi um ponto de inflexão não só para a cidade do Rio de Janeiro, mas para todo o estado. Para alguns, o conflito trouxe melhora da infraestrutura da comunidade, sendo visto com bons olhos; para outros, como os artistas, foi o início de uma regressiva incessante.
Atualmente, o território é revestido por um pensamento fundamentalista, o “narcopentencostalismo“, com referências à estética “judaico-cristã”. Na prática, a prática religiosa politeísta foi inibida, e a favela ficou conhecida como a “Terra Prometida”. A troca de domínio na área impactou diretamente na desmobilização social e cultural, e no convívio, visto que muitas pessoas tiveram de se mudar, e outros novos moradores foram se habituando.
A rapper Juju entende que a “favela é sobre consideração”, constituída de relações longas entre linhagens familiares anteriores às suas, como “os nossos pais se conhecerem, ter nascido no mesmo bairro, no mesmo prédio”, e, dessa forma, os laços são criados através dos anos, pela aproximação. Quando as dinâmicas mudam, a rotina dos moradores e as possibilidades de atuação cultural também se alteram completamente.
Ela explica que as mudanças de conjuntura criam tensões para quem vive na favela: “Quando tem essa quebra brusca, assim, de repente, da segurança, ‘da paz’, isso faz com que as pessoas, realmente, se questionem. É como se fosse uma cultura nova. Todo mundo fica um pouco: ‘O que será que pode fazer? O que será que não pode fazer? Até onde eu posso me expressar? Até onde eu posso chamar a atenção?’”
Ao contrário da “Alta”, Parada de Lucas, favela vizinha mais próxima, mantém o mesmo domínio de facção desde o nascimento e crescimento de Juju. Sem rupturas abruptas, mas marcado por violência extrema, o território passou recentemente a se integrar de forma mais próxima à Cidade Alta, influenciando inclusive na nova formação da dinâmica social.
De fácil acesso, no bairro Cordovil, a Cidade Alta conecta-se às principais vias do Rio, (Avenida Brasil, Washington Luiz e Linha Vermelha), e é integrada com estações de trem e linhas de ônibus para outros municípios, o que em outros momentos favoreceu o acesso de pessoas de vários lugares que iam para o prestigiado “Baile da Cidade Alta”.
Histórico de hit
No ápice, entre os anos 2009-2015, músicas famosas faziam referência à área, sendo o baile um dos responsáveis por efervescer a cultura do “passinho” no município. Alguns vídeos gravados na favela chegaram a milhões de views, compartilhando batalhas entre nomes consagrados da prática, caracterizadas por passos de funk autorais
Outro fator que colaborou com o prestígio nacional do Complexo um dia foram projetos como o Grupo Cultural AfroReggae, em Parada de Lucas, fundado em 1993 (ano da chacina de Vigário Geral). A ONG tem como prerrogativa o uso da cultura como instrumento de reconstrução social, e assim fez, por meio de oficinas, comunicação e música, até alcançar o reconhecimento internacional.
“Tinha uma doutrina de incentivar a gente a sair da favela, muito esse lance de incentivar a gente a ir para a rua e para a pista, circular fora”, diz Juju, que entrou no projeto aos 17 anos como locutora e produtora de um programa de rádio. A iniciativa contribui até hoje para que artistas conheçam celebridades e acumulem um conhecimento que, segundo Juju, fez total diferença para sua vida profissional atual. “O Afroreggae foi muito grande e fez o mundo inteiro vir aqui em Vigário Geral. As pessoas queriam o Afroreggae em todos os lugares”, diz.
O histórico cultural dos complexos já figurou nas telas de cinema. A Cidade Alta, considerada uma favela relativamente “nova”, de ruas largas e estrutura vertical, é estruturada por conjuntos de prédios (verdes e vermelhos) construídos entre o fim da década de 1960 e o início de 1970. Isso porque, foi um conjunto habitacional feito para alocar moradores do Morro do Pinto, o primeiro dentro do programa de remoção de antigas favelas das áreas centrais do Rio feito na ditadura.
Esses “predinhos” são mundialmente famosos, já que a maior parte das cenas do clássico Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, tiveram como plano de fundo a Cidade Alta. O pesquisador Mário Brum, na tese “Cidade Alta: história, memórias e o estigma de favela num conjunto habitacional do Rio de Janeiro”, diz que o conceito de “favela” e a estigmatização do local foi subsequente a sua construção, resultado do incipiente apoio governamental.
Os últimos anos, porém, foram bastante diferentes dos retratados pelo cinema. A remoção que, supostamente, “acabaria” com a favela criou novas “favelas” no entorno e, com o ativo da violência promovida pelo tráfico de drogas, influenciou um processo de grande estigmatização. A própria consolidação do nome “Complexo de Israel” na imprensa e no debate público, contribui para a homogeneização do território e para a narrativa de violência que o pretende definir.
Nesse projeto societário complexo, os agentes culturais carregam memórias das remoções e, atualmente, constroem uma remobilização da área. Um dos objetivos de quem atua é retomar o trabalho do terceiro setor no local, pois uma das consequências do êxodo populacional em torno do conflito foi a redução da presença de ONGs na comunidade. O fechamento de uma das sedes da Organização Não-governamental Ação Comunitária do Brasil, localizada na Cidade Alta, atesta o fato.
Há mais de 50 anos, o projeto oferecia desde cursos de capacitação (informática, costura, tranças), até aulas práticas (dança, capoeira, teatro), e foi importante para a circulação dos alunos na cidade por meio de apresentações. Tradicionalmente reconhecida como fonte de formação para muitos moradores, a iniciativa rompeu com um ciclo de desigualdades ao oportunizar acessos.
Mestre Jagunço planta árvores e futuros
Um portão estreito entre duas lojas na Estrada do Porto Velho — rua que liga a estação de Cordovil à Av. Brasil e contorna toda a Cidade Alta – leva um corredor e a um outro lugar, fora da vida urbana e do imaginário social da favela. Por trás do portão, crescem árvores maduras, germina uma horta saudável e desenvolve-se uma criação de bichos. Além da natureza, uma dezena de casas forma uma espécie de vila, com espaçosas salas de aulas, biblioteca, e espaço para prática de reciclagem e capoeira.
Ao fundo do extenso terreno, uma estrutura oval, gigantesca, feita de madeira e palha chama atenção. Foi Mestre Jagunço, de 53 anos, que o fez, e trata-se de um projeto de construção de uma oca. Ele é uma das pessoas que têm trazido vida ao território.

Ele contou ao Nonada que tem se dedicado a ensinar às crianças da comunidade a plantar ervas medicinais e árvores: “Nós vamos plantar árvores frutíferas, cada árvore vai levar o nome da criança que está plantando. Na minha cultura, quando nasce um filho, você planta uma árvore na circunferência do terreno. A minha é uma jaqueira que está lá em Sergipe.”
Nascido em São Paulo, cresceu em Sergipe, e aos 19 anos iniciou seu trabalho no “social” em Cordovil, de onde nunca mais saiu. Indígena, filho de sergipanos originários e mestre de capoeira, José Romildo dos Santos é diretor-fundador da Casa de Bambas, uma ONG que existe há 7 anos, fruto do trabalho social desenvolvido por ele há mais de 30 anos com os jovens no bairro – a incidência mais longeva em atuação.
Mestre Jagunço começou dando aulas de capoeira na Ação Comunitária, até colocar em prática sua filosofia de “aprender a sobreviver através da capoeira e também do social”, expandindo suas aulas para o que ele considera o “além de só levantar as pernas”.
Ele fundou em 2003, na Associação, a Companhia de Dança Negra-Contemporânea Kina Mutembua, que praticava e realizava apresentações de ballet clássico, dança contemporânea, capoeira, dança afro e percussão. Os jovens realizavam espetáculos em hotéis nas orlas de Copacabana à Barra, em teatros municipais e nacionais de vários estados do Brasil, e até mesmo fora, como no Chile.
Ele permaneceu 16 anos na Cidade Alta, e para ele, que segue replicando as ideias na Casa de Bambas, “dói no coração” ver as salas que um dia serviam para aulas, agora vazias. Disse que ficou emocionado na ocasião que visitou o prédio que costumava receber 2500 pessoas, muitas no primeiro emprego. “Cada canto ali tem um pedacinho das minhas mãos”, diz.

O mestre afirma que “o tráfico de drogas não é a violência, mas a consequência dela”, sendo a impossibilidade de construção de referências para os mais novos o que de fato o preocupa. Aprofunda o argumento citando a falta de aulas e professores, as mães solos que precisam deixar seus filhos em casa para trabalhar, a violência e abusos domésticos, e que, dessa forma, se coloca como imagem positiva para seus alunos, evitando que a falta complemente um novo ciclo. “A pobreza é bom para alguém, não para o pobre”, ele diz, no objetivo de formar uma base no bairro que questione a realidade, sendo sua total prioridade “abrir os olhos” das crianças.
Ele diz que sempre sentiu que faria algo grande e pelas pessoas, como uma missão: “A gente aqui na ponta acaba sempre acusando alguém ou colocando a culpa em alguém. Eu também sou responsável por essa mudança. Se eu não me ver responsável, acabo tirando uma contribuição que é minha e culpando alguém por algo que eu poderia fazer também.”
Entre 2013 e 2014, desenvolveu o Encontro Nacional de Bambas, acreditando em uma metodologia da sua forma, fora da Associação. Ainda ativo, o projeto realiza encontros com mestres de capoeira do Brasil inteiro. “A ideia desse evento é tirar jovens da favela e colocar nos museus, teatros e espaços que eles não têm acesso”, complementou.
Isso impulsionou Mestre Jagunço a criar a própria organização em 2018, uma ideia que teve durante uma aula de capoeira que ministrava em uma quadra pública na Porto Velho, rua do bairro Cordovil que contorna todo complexo. No início da pandemia da Covid, se viu responsável por cerca de 30 famílias que ali estavam representadas por seus alunos. Assim como várias OSCs atuais, a Associação de Cultura e Arte Casa de Bambus nasceu do trabalho voluntário que chegou a alcançar até 1000 pessoas com distribuição de cestas básicas.
O propósito do Mestre segue o mesmo do início de sua trajetória. Ele usa a capoeira como transformação e a música, a dança, teatro, educação ambiental e circo como ferramentas. Ele trabalha também com parcerias com o CRAS, por exemplo, para atendimento e saúde das crianças.
Uma das questões que o Mestre enfrenta é o medo do público em frequentar as atividades da organização. Ele lembra que nem sempre foi assim e que, na sua visão, a mídia contribui para uma criação de pânico e estigma sobre as comunidades. Para ele, a generalização das coberturas midiáticas exacerbam o medo coletivo e o isolamento da área em relação ao resto da cidade.
Cantar a identificação
Juju Rude cresceu em Parada de Lucas, em uma casa próxima a Avenida Brasil. Passou um período da infância em Natal (RN), onde parte de sua família vive, e retornou para casa aos 12 anos, em uma adolescência desenvolvida perto da comunidade e da música. A sua vida é dedicada à cultura desde sempre. Ela é produtora, cantora e idealizadora do Festival Negril Sound System, o primeiro festival de reggae do Rio de Janeiro produzido integralmente por uma equipe negra. Fez parte do coletivo de artistas Jamaicaxias, e recentemente foi contemplada por um edital do Ministério da Igualdade Racial (MIR), sendo apoiada como Agente Territorial de Promoção da Igualdade Racial.
Inicialmente, usando a alcunha “Sista”, Julyany aproximou sua vida ao rap e à cultura SoundSystem (Reggae, DanceHall), influenciada por sua forte admiração por Bob Marley. Aos 25 anos, precisou retornar a Natal, e passou um longo tempo longe do Complexo de Israel.
No retorno, ela percebeu que não estava praticando “o hip hop de verdade”, especificamente em Parada de Lucas, de onde ela é. Notou também que não tinha acesso aos jovens, nem havia feito amigos em comum no meio: “Pô, ia para ‘os rap da vida’ aí e voltava sozinha, era maior dor no coração. Eu falei: ‘Caraca, mano. Não tem um parceiro/parceira aqui que gosta de rap na favela? Não é possível que eu não conheça essas pessoas.’”
Foi quando ela considerou ser sua “despertada política”. A partilha e a co-participação são inerentes a culturas negras focadas na música, e dessa forma, mesmo sendo a única mulher a fazer rap no seu bairro, para ela, estar sozinha é diretamente contra o que acredita. Assim, escolheu mudar o nome para “Juju Rude”, e focou seu estilo sonoro no trap, vertente do rap em alta na época, exatamente como uma “ferramenta para se aproximar da galera”.
A moda do trap entre os jovens ajudou na sua reinserção e guinada na carreira fora do território de Lucas, e por estar “representando a favela fora da favela”, as pessoas começaram a dar credibilidade ao fato desta ser sua profissão há anos. Outra ferramenta de adaptação ao espaço misto de culturas, foi a utilização da linguagem comum ao território em suas músicas – gírias derivadas do linguajar associado a determinados domínios de facção, palavras que circulam livremente pelo hábito e que geram identificação e pertencimento entre indivíduos que compartilham uma vida marcada pela excepcionalidade e pela marginalização.

“Cara, já sabendo que isso me fecharia portas, e ao mesmo tempo, quando as pessoas entendessem o objetivo, que nem você entende, quando as pessoas entendessem o plano, muitas portas iam se abrir para mim, como estão se abrindo. Para essa galera me notar, eu tenho que falar a língua da galera aqui. E foi quando eu comecei a usar gírias que a galera da facção costuma usar. E nisso eu fui usando, e o pessoal foi se aproximando.”
Então, para além do aprendizado que teve ao ser estimulada a circular “fora da favela”, desde o tempo em que participava do projeto social Afroreggae, ela focou em captar a atenção daqueles, que, de alguma forma, não alcançaram oportunidades que desloquem seus olhares, e que os façam adquirir pensamento crítico. “Para eu acessar a galera, eu tenho que cantar o que eles se identificam”, acrescentou.
Como um meio, a música serviria para politizar as pessoas ao redor, para que juntos, conseguissem propor realizações e estimular uma apreensão mais reivindicativa da vida no Complexo, justamente pela falta de políticas públicas no espaço. “Fica difícil você se posicionar se você não sabe o básico”, ela disse, em uma postura resistente frente aos desafios enfrentados. Sua postura encontra resistência de alguns, que a acusam de levantar “bandeiras de facções”, mesmo fazendo o que “outros MCs sempre fizeram”.
O “Baile dos Crias” não foi a primeira experiência de Juju com eventos na Cidade Alta. Ela já ocupou uma das salas então vazias da Ação Comunitária com o projeto educativo “Aula e Palestras”, em duas edições, focando em gestão e formação de carreira e no mercado musical. A terceira edição aconteceu na Casa de Bambas, em Cordovil, inspirada em um seminário sobre o livro Cidade Partida, de Zuenir Ventura. Por diferentes frentes, ela, Mestre Jagunço e outros agentes fazem barulho e buscam, diariamente, desconfigurar o silêncio cultural dos últimos anos.