Dez anos valorizando o jornalismo cultural

Rafael Gloria

Foto: Camila Lara/Nonada

*Artigo originalmente publicado no Caderno de Sábado, (Correio do Povo), no dia 12 de setembro de 2020.

O Nonada – Jornalismo Travessia completa dez anos de atividade ininterrupta na área do jornalismo cultural independente agora em setembro de 2020. É preciso refletir sobre o que significa manter um veículo online que realiza esse tipo de cobertura durante tanto tempo. Ao escolhermos lá em 2010 a palavra “Nonada”, que abre o livro “Grande Sertão: Veredas”  de Guimarães Rosa, para nos identificarmos também revelamos uma ideia de travessia, de aprendizado, assumindo o impacto e a inspiração dessa inventiva obra literária. Na época, grande parte dos fundadores do coletivo eram estudantes de jornalismo oriundos da Faculdade de Comunicação da Ufrgs, e alguns poucos recém-formados. Apesar da juventude, entendemos algo importante naquele momento: fazer um projeto desse tipo é também tentar compreender as diversas complexidades do fazer jornalístico ao mesmo tempo em que se realiza o ato da criação. 

E uma dessas complexidades sempre foi trabalhar com um jornalismo cultural não calcado na  agenda de lançamentos, e, sim, em análise e no trabalho da reportagem – o que acreditávamos que não era tão explorado nessa área. Isso foi em 2010, mas a ideia de aprofundamento do conteúdo continua sendo a nossa pedra fundamental. Nesse sentido, a independência jornalística estava inserida desde o cerne: os membros fundadores pagaram iguais parcelas para a criação do layout do site, um detalhe sutil, mas que denota uma ligação afetiva diferente. Um dos grandes acertos, aliás, foi apostar desde o começo em ser um “nativo digital”. Tantos outros projetos jornalísticos independentes que surgiram na mesma época que o Nonada escolheram o formato impresso e, infelizmente, não tiveram continuidade. Vale lembrar que essa ainda era uma época de adaptação dos veículos à Internet no Brasil e muitos profissionais acreditavam que o público não consumiria textos longos em uma mídia online, o que se provou uma grande bobagem. 

Com o passar do tempo, a nossa narrativa avançaria a partir de muitos conflitos e dificuldades, assim como qualquer outra boa história. O Nonada cresceu muito a partir de 2014, com a entrada e colaboração de pessoas com diferentes vivências e visões de mundo, e que ajudaram a problematizar o tipo de cultura que abordávamos. Em um conturbado ano de 2013, com muitas mudanças na vida política do país, várias pautas começaram a ficar mais evidentes principalmente em espaço nas mídias independentes e alternativas. Em diversas reuniões e questionamentos, o Nonada começou a repensar principalmente questões de representatividade e a importância dela na cultura e no jornalismo que cobre essa área. Por que delimitar a cultura quando ela é viva, pulsante e em constante transformação? Quando ela é plural?

Involuntariamente inspirados nas ideias de Raymond Williams e nos ideais dos Estudos Culturais, começamos a nos posicionar como um veículo que cobre a cultura para além do sinônimo estrito da obra artística, a compreendendo como o conjunto de elementos que representam as mais variadas formas de viver. Não só o produto, mas o processo. E continuamos aprendendo e refletindo as diferentes culturas: cultura popular, cultura LGBT, cultura feminista, cultura quilombola. Tornou-se também nosso objetivo representá-las em nossas matérias, caminhando assim cada vez mais para a conexão entre cultura e direitos humanos. Nesse sentido, essa mudança também se refletiu na disposição das matérias no site, isto é, abandonamos as convenções de divisão por editorias clássicas da cultura, que já não cabiam mais dentro do conceito que perseguimos. E assumimos uma divisão calcada em gêneros jornalísticos, com uma intersecção natural entre as diferentes áreas. 

O Nonada também entende que o jornalismo só se faz em conjunto, e nesse sentido sempre teve um ambicioso caráter colaborativo, uma de nossas maiores qualidades. Sempre fomos abertos também para profissionais de outros segmentos que só enriqueceram ainda mais essa trajetória, muitas redes de conhecimento e afeto surgiram assim. Mais de duzentos colaboradores já passaram pelo site ao longo desses dez anos, trazendo diferentes olhares sobre muitas pautas. 

Durante esse tempo todo também foram vários cursos de formação no jornalismo alternativo, eventos discutindo o jornalismo que cobre cultura, lançamentos de zines focados em perfis jornalísticos, rodas de conversas, saraus, reuniões, etc. Isso só evidencia o caráter de refletir sobre o processo enquanto se faz, ou seja: para nós, é preciso discutir sobre o fazer jornalístico na área cultural para continuar avançando, porque a cultura e os olhares sobre ela também estão em constante mudança. Vários reconhecimentos já surgiram ao longo dessa trajetória, como prêmios, editais, pesquisas acadêmicas sendo realizadas tendo o Nonada como objeto de estudo. Com trabalho sério, observamos a legitimação do site como uma instituição jornalística de credibilidade por diversos pares. 

Nos últimos anos, nos destacamos por uma cobertura mais focada em políticas públicas culturais, problematizando diversas questões que muitas vezes não são abordadas em outros veículos de comunicação de Porto Alegre, realizando também um trabalho de vigilância no segmento artístico, principalmente em uma época em que o conservadorismo está em voga. Porque entendemos e valorizamos desde sempre o jornalismo cultural, ao refletir e apurar com qualidade dentro desse segmento conseguimos mostrar que é possível fazê-lo de forma independente de qualidade e, como os dez anos provam, com muita história. 

Observatório de censura na arte 

Nesta trajetória de aprofundamento do jornalismo cultural, o Nonada chegou a um novo projeto, lançado em 2019: o Observatório de Censura à Arte. A partir de denúncias de leitores de outras regiões do país e percebendo o crescimento assustador de casos de obras de arte censuradas. Assim, foi criada uma chamada online para receber mais denúncias e, após a checagem de todos os casos seguindo preceitos jornalísticos, foi lançado o Observatório, uma plataforma digital que cataloga casos de censura na arte em todo o país, tendo como marco temporal o cancelamento da mostra Queermuseu, em 2017. 

Desde a publicação, o Observatório, que registra até o momento 51 casos, já chamou a atenção de diversos pesquisadores, documentaristas e jornalistas. Artistas que tiveram suas obras alteradas ou interrompidas tiveram algum conforto na denúncia da violência que sofreram. Veículos como a revista Veja, o jornal O Globo e o Diário de Notícias, de Portugal, publicaram matérias tendo nosso trabalho como fonte. Desta forma, o objetivo de fornecer dados para que o assunto seja debatido na sociedade foi cumprido com êxito. Neste ano, nosso podcast sobre o tema foi uma das 470 propostas selecionadas pelo edital Sesc Cultura Convida, que teve cerca de 14 mil concorrentes. 

Para além da visibilidade, sabemos que é preciso continuar o trabalho de vigilância e apuração. Como sempre ocorreu na história do Nonada nestes 10 anos, os direitos dos artistas estão no centro da nossa linha editorial. Por isso, o Observatório é uma iniciativa sempre aberta, e segue recebendo denúncias. E reafirmamos o compromisso de seguir ao lado dos profissionais da cultura nesta próxima década de Jornalismo.

Compartilhe
Jornalista, Especialista em Jornalismo Digital pela Pucrs, Mestre em Comunicação na Ufrgs e Editor-Fundador do Nonada - Jornalismo Travessia. Acredita nas palavras.
Ler mais sobre
Direitos humanos Notícias Políticas culturais

Unesco sugere salário mínimo a todos os trabalhadores da cultura

Direitos humanos Opinião

Artigo: Contra a extinção da Fundação Piratini