Thaís Seganfredo

Foto: divulgação

Os saberes do Griô, músico e luthier José Batista estão registrados no livro O Sopapo Contemporâneo – Um Elo com a Ancestralidade (MS2Produtora), lançado em junho no Rio Grande do Sul. Fundamentado na história oral, o livro estabelece como elo narrativo o sopapo, o “Grande Tambor”, instrumento possivelmente criado em terras pelotenses pelos escravizados que foram explorados no ciclo do charque. O livro terá distribuição gratuita em pontos de cultura, bibliotecas e instituições culturais e também pode ser solicitado pelo email editora@ms2produtora.com (pedido válido até acabar o estoque).

Quem já ouviu um sopapo ressoar pelas mãos de um tamboreiro ou tamboreira não esquece o som grave e marcante do “atabaque-rei”. O instrumento, que já esteve esquecido no tempo, é um bem cultural do estado, mas ainda não foi registrado oficialmente como patrimônio. Indícios da presença deste grande tambor no estado são a aquarela de 1857 do artista alemão Wendroth, na qual o sopapo aparece sendo tocado por escravizados sul-riograndenses, e o relato do viajante suíço-alemão Carl Seidler, publicado na obra Dez anos no Brasil, no qual descreve a Festa de Reis em Pelotas em 1834: “Dois homens fortes carregavam um grosso pedaço de tronco oco, revestido de couro, no qual logo um deles entrou a bater com os pés como num tambor.”

Ainda que guarde similaridades com outros tambores brasileiros, como o atabaque e o curimbó, sua altura e imponência fez percussionistas o apelidarem de “atabaque-rei”. “É um tambor muito versátil, com uma assinatura muito forte, um grave absoluto. O sopapo tem um som aveludado e muito bonito e que chega nas pessoas através da vibração”, me explicou em uma entrevista passada Richard Serraria, um dos músicos que inclui o sopapo como tambor central nas apresentações do grupo Alabe Ôni, de Porto Alegre. Serraria observa que o sopapo é ele próprio um tambor griô. “Ele conta histórias, ele permite que a gente fale dessas coisas, tem uma riqueza muito grande. O sopapo é um instrumento de comunicação dos homens com os orixás, mas também uma comunicação do homem com ele mesmo. É um instrumento de descoberta”, me disse o percussionista.

No século 20, o sopapo passou a ser bastante utilizado no Carnaval, principalmente no município de Pelotas, até um momento em que se tornou menos frequente nas escolas de samba e acabou, de certa forma, abandonado. Tudo mudou no início dos anos 2000, quando Giba Giba, percussionista e mestre griô pelotense, percebeu que o sopapo estava se tornando menos presente nas manifestações culturais populares e passou a fazer a salvaguarda deste instrumento, junto com Mestre Batista e outros griôs.

“Ali estava eu, diante de alguma coisa saída de mim mesmo, sobrevivente do tempo, surgido pelas mãos escravizadas, sob o chicote e a dor, entre lágrimas e saudades, debaixo de sóis e chuvas, frio e morte, ele estava ali. Lembrando dos momentos em que morria, assistindo minha infância, estive com ele em meu colo certa vez. Ele esteve lá, nas memórias escondidas do meu passado; ele esteve lá, em meu desejo de estar tocando os tambores da banda que fazia-nos marchar em reverência à Pátria; ele estava lá, no primeiro surdo que havia achado o jeito de calcular o diâmetro de um surdo; ele estava lá, no momento em que pela primeira vez dirigi uma bateria, como se fizesse aquela regência por anos, inspirada na levada da marcação. Ele sempre esteve lá, em minha vida, escondido, esperando, me lapidando”, escreve Batista. 

 

Após a morte de seu pai, o Mestre Batista, coube a José o destino de continuar mantendo vivo o conhecimento ancestral de sua família, tornando-se ele mesmo um Mestre Griô. Em O Sopapo Contemporâneo, o luthier traz a história do tambor como eixo narrativo para apresentar seu conhecimento ancestral sobre a cultura afro-gaúcha. A partir de memórias pessoais e ensinamentos passados de geração a geração, o griô perpassa aspectos basilares da história negra do Rio Grande do Sul, remontando as memórias afro-brasileiras desde as charqueadas até o século 21.  

As constantes tentativas de apagamento da presença negra no estado, a relação entre o sopapo e as mulheres e a história do Carnaval de Pelotas são alguns dos tópicos documentados no livro. De certa forma, a obra é um registro antropológico da sabedoria griô afro-gaúcha, seguindo uma tendência que vem encontrando ecos em obras como A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (Companhia das Letras). O projeto foi viabilizado pela Lei Aldir Blanc.

Um dos mais importantes registros presentes na obra é o espaço que ele dedica ao projeto Cabobu, uma vez que há poucos registros em texto, áudio ou mesmo fotografias do festival. Foi neste evento que o luthier se reencontrou com Giba Giba, no final dos anos 90. A pedido do amigo, o então jovem José Batista assumiu o desafio de construir 40 sopapos em seis meses, junto com seu pai. Desde então, seu conhecimento voltou a ser repassado para jovens luthier, tamboreiros e tamboreiras, em um processo constante de resgate e valorização do tambor gaúcho. ”Hoje sei que o sopapo se mostrava sempre aos meus olhos, mas eu dormia. Algo que poderia ter feito em um dia, precisei de quatro dias para alcançar o conhecimento perceptivo. Foi ali, naquele instante, que ele formou um elo de ligação comigo”, escreve.

Como a ancestralidade é também um saber pautado pela coletividade, o luthier reverencia mestres e mestras que deram grande contribuição ao desenvolvimento e à difusão do instrumento no estado, como sua mãe, Dona Maria; Dona Sirley Amaro, Dona Zuleica, Banha, Bucha e Cacaio, além de seu pai e do próprio Giba Giba, entre outros.

Agora, este conhecimento está também documentado através da obra,  que detalha as formas de se construir o Sopapo, uma vez que registros sobre a metodologia de construção são escassos. José Batista confirma: “As informações são raríssimas, ou simplesmente não existem e, se existem, faltam pesquisas específicas, talvez envolvendo, até mesmo, métodos científicos de datação”. 

Sobre a importância destes registros, ele reforça: “Nossas memórias são formadas por nossa cultura. Ser negro é ser formado pelas lembranças de nossos pais e avós, trazendo essa formação de berço, desde a infância, pois, na inconstância de registros, ou até pela ausência deles, buscamos nossas raízes por meio de nossa instrução religiosa e étnica”.

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