Fotos: Ana Beatriz Vieira/divulgação

Após debater o desejo nas paixões à distância em “3×4”, Viridiana busca a esperança no reencontro da dançante e poética “Expectativa”. O lançamento antecipa “Transfusão”, primeiro álbum da artista a ser lançado em breve.

Viridiana é o projeto artístico de Bê Smidt, multiartista trans não-binária de Porto Alegre. Em 2019, ela teve a estreia de sua carreira com o EP “Androgênia” e a performance audiovisual “Anatômica”, que foi indicada ao importante Prêmio Açorianos. Por email, a artista participou da nossa série de entrevistas Ouvidoria, que traz 20 perguntas fixas sobre arte e sociedade para artistas convidades.

Mesclando referências da canção brasileira com a música pop e eletrônica dançante, Viridiana canta sua vivência se camuflando nos sintetizadores e se descobrindo na voz. Viridiana produz e compõe todas as suas músicas em seu home studio, sintetizando seus sons e suas verdades. Isso se reflete na releitura do pop brasileiro setentista e oitentista com um olhar contemporâneo que marca o álbum “Transfusão”.

O lançamento chegará através da PWR Records, um selo musical e produtora de eventos focados na difusão e promoção dos discursos femininos como potências criativas, não um gênero musical ou tendência de mercado. O álbum de estreia de Viridiana tem patrocínio do Natura Musical.

Leia abaixo a entrevista e acesse aqui as outras edições da série Ouvidoria.

Quando e como começou na arte?

Eu comecei a tocar música quando eu tinha 10 anos, porque depois de me apaixonar por uma guitarra de plástico, que era de um videogame, decidi que queria tocar violão. Só comecei a enxergar isso como uma coisa que me acompanharia por muito tempo quando entrei na faculdade de música, e comecei a trabalhar com um grupo de pesquisa e experimentação sonora que tinha lá, a Medula. Meus primeiros shows foram como membra desse coletivo, tocando computador, passando efeitos na minha voz e construindo meus primeiros beats e texturas.
Isso era 2017, quando eu tinha 19 anos, e acabou sendo um laboratório não só sonoro, mas também da minha identidade quanto pessoa trans. Foi ali que comecei a me sentir verdadeira e inteira como artista, mas também como pessoa.

Quais as obras considera as principais na sua carreira?

acho que eu tenho uma posição meio interessante, por ser uma artista nova, cujas 5 primeiras músicas acabaram virando meu EP “Androgênia”, que lancei em 2019. Dessa forma, me parece que a cada novo lançamento, vou botando mais um pontinho nessa trajetória e fica difícil hierarquizar elas. Mas eu diria com certeza que meus lançamentos mais recentes, “3×4”, “expectativa” e dia 15 de setembro, “menina”, são marcos incríveis pra mim. Tanto por serem parte do meu primeiro LP, que tem patrocínio do Natura Musical, quanto por serem canções muito pessoais mas que são muito verdadeiras para mim.

Como você descreveria a sua essência enquanto artista?

Não confio muito em buscar uma “essência”, prefiro pensar que ser sempre mutável é a coisa mais interessante que podemos ser. Acredito nos desejos, nos impulsos, no fogo que temos dentro, nas conexões que fazemos com outres. Isso me parece essencial.

O que mais te irrita na cena cultural?

A insistência em modelos, pessoas e tradições que não são atuais ou coerentes. A resistência de encarar a diferença como potencializadora, preferindo a assimilar e apagar.

Quais qualidades são imprescindíveis para um artista?

Acho que a dúvida! A combinação dúvida + curiosidade não deixa a gente ficar parada, nos faz viajar longe, e talvez a arte possa ser o lugar pra mostrar as coisas que encontramos nessas viagens.

Qual o momento de maior dificuldade que já passou na carreira?

Sofro bastante com a autoconfiança. Depois de acabar qualquer música, tenho muito uma sensação de luto, de que aquela vai ser a última vez que vou conseguir me expressar assim. Esse ciclo acaba sendo bem cansativo e difícil, e acabou me levando pra lugares bem difíceis entre o lançamento do “Androgênia”e a composição das faixas do meu próximo disco. O fato de eu trabalhar sozinha compondo, gravando e produzindo potencializa essa cobrança interna, mas no processo das canções novas pude estar muito bem acompanhada, o que ajudou a amenizar essa sensação.

E de maior felicidade?

Tenho pensado muito nas micro-felicidades, aqueles momentinhos que não são grandes eventos, mas que se somam e viram coisas impactantes pra gente. Cada vez que recebo um comentário ou uma mensagem dizendo que meu trabalho ressoou pra alguém, é uma sensação muito única. Ainda mais quando é alguém que passa por vivências parecidas com as minhas. Claro que tem aqueles momentos chamativos também, tipo quando recebi o email dizendo que tinha passado no edital do Natura Musical, ou quando toquei no Agulha, um dos meus lugares favoritos de Porto Alegre. Ainda assim, tenho a impressão que o lançamento do meu próximo clipe, “menina”, no dia 15, vai ser bem especial…

Ume artista não deve…

Se ausentar do momento presente, em termos de discurso, e em termos de estética.

5 coisas que mais te inspiram a criar

As pessoas que estão ao meu redor, ou que já estiveram.
A minha vivência como pessoa trans no Brasil
O acaso e a imprevisibilidade da criação
As artistas que eu admiro, e os processos delas
As dores que talvez eu ainda não tenha entendido tanto

Acredita em arte sem política?

Não. Estamos sempre imerses nas políticas em que vivemos, e isso reflete diretamente na arte. Quem nega, provavelmente está inclusive se aproveitando disso.

Qual seria o melhor modelo de financiamento da arte?

Acho difícil pensar, porque acredito que antes de repensar em modelos de financiamento, devemos entender que atualmente as crises que vivemos são sistêmicas, consequências diretas da forma como estamos organizades como sociedade, numa economia neoliberal que tenta desesperadamente ocultar suas contradições e injustiças. Dentro de toda essa conjuntura, acredito muito em modelos que aproximem o máximo possível artistas/coletivos das pessoas que podem os apoiar, de forma colaborativa e transparente.

Existe cultura gaúcha?

Existem culturaS, que sempre são inventadas, construídas e reiteradas por quem as pratica (de forma involuntária ou não). Evidentemente, tem que se aproprie desse rótulo para tentar justificar racismo, transfobia, homofobia e tanto mais. Se esquecem que nada justifica perpetuar uma visão importada de outros continentes e séculos.

Que conselho você daria a Jair Bolsonaro?

ele não ouviria nenhum.

Tode artista tem de ir aonde o povo está?

Acho que a gente tem uma posição muito diferenciada, mas também privilegiada, de que lançamos os nossos gritos e anseios pra fora e sempre vem alguém atrás. Acaba que a gente constrói um “povo” que se reconhece na gente. Isso me parece mais genuíno do que tentar se lapidar pra agradar outrém (e vai saber do que o outro gosta, né?)

Ser brasileire é…

Poder acessar uma bagagem imensa, riquíssima e muito diversa. Cada vez se faz mais necessário preservar isso, porque tem quem se esforce pra apagar tudo isso.

O que você mudaria no jornalismo cultural?

Vou tentar acessar minha jornalista interior! Hehe Me dói o coração ter de ver amigues jornalistas meus tendo que
escrever sobre pautas que não são necessariamente de seus interesses ou de suas paixões, mas que vão atrair mais cliques, ou serem entendidas e apreendidas de uma forma mais ligeira. Acho que é um dos campos que tem mais sofrido na era de conteúdos pequenos, breves e que tem que agradar. Mas pra alternativas de como mudar, penso muito no mesmo que respondi sobre financiamento de arte: é sistêmico, e temos que olhar pras formas como esse sistema age para a sua manutenção.

Um livro: “Problemas de Gênero”, da Judith Butler

Um espetáculo: “Gira”, do Grupo Corpo

Um álbum: “trava línguas”, da Linn da Quebrada

Um filme: “O Serviço de entregas da Kiki”, de Hayao Miyazaki