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Obras Amnésia (2015) e Sobre tudo, mas não sobre qualquer coisa (2016), de Flávio Cerqueira (Foto: Romulo Fialdi/divulgação)

Luciara Ribeiro: “O sistema das artes tem feito muito pouco para garantir a sobrevivência dos profissionais negros e indígenas”

*editado às 13h40 para alterar trechos da entrevista a pedido da entrevistada

Luciara Ribeiro é educadora, pesquisadora e curadora. Em sua pesquisa, vem jogando luz a um assunto que parece, muitas vezes, intocável: o sistema das artes. O que estrutura esse sistema e as instituições que o compõem? Que éticas regulam (ou não) as práticas de trabalho do campo? Mestra em História da Arte pela Universidade Federal de São Paulo e pela Universidade de Salamanca, Luciara interessa-se por questões relacionadas à decolonização da educação e das artes e pelo estudo das artes não ocidentais, em especial as africanas, afro-brasileiras e ameríndias.

Existe uma distância entre o discurso sobre “diversidade” e o cotidiano de trabalho das instituições de arte. Em artigo escrito para a Revista Select em 2020, Luciara defende a importância de uma política de cotas também para atuações profissionais. No texto, ressalta que, os discursos sobre diversidade e antirracismo são sustentados pelas instituições, até o momento em que uma crise, como as demissões em massas durante a pandemia, afetam principalmente os trabalhadores negros dentro das artes.

Dois anos depois, agora em entrevista para o Nonada, a pesquisadora ainda visualiza que ações afirmativas podem ser importantes em processos seletivos dentro do mercado artístico. “As cotas tinham que estar em todas as equipes e setores, porque só esperar que nosso esforço e profissionalização nos faça chegar até uma diretoria é muito peso. O estado tem que garantir  – e não estou dizendo que alguém vai chegar em uma diretoria sem competência – equidade e meios que realmente façam reparação nesses lugares. Queremos estar em coordenações”, defende a pesquisadora. Mas Luciara ressalta que é necessário pensar no que acontece depois dessa inserção. Como as instituições recebem os profissionais, seus pensamentos e modos de ser. 

A conversa integra uma reportagem especial sobre o impacto das cotas raciais no meio artístico. Conversamos com artistas, especialistas e professores para descobrir o que mudou nos cursos de artes e nas instituições culturais desde a aprovação da Lei de Cotas, em 2012. O resultado você acompanha aqui

Confira a entrevista completa com Luciara abaixo: 

Nonada Jornalismo – Pensei em começarmos falando sobre a diversidade em instituições culturais e como isso se relaciona com o debate sobre cotas

Luciara Ribeiro – Não tem como negar o impacto das cotas. Elas foram e são muito importantes. Exatamente por terem sido políticas de reivindicação dos movimentos negros de décadas. Foi uma conquista. E a gente não pode deixar de celebrar as conquistas, mesmo que os problemas estruturais continuem vigentes. Não podemos deixar de ver o que plantamos e que estamos colhendo. 

A curadora Luciara Ribeiro (Foto: Jeferson Santos)

Ontem ouvi uma palestra do Ailton Krenak, em que ele falou sobre isso e deu um exemplo que achei muito legal de pensar. Ele falou que pensar nos problemas estruturais é o mesmo que você chegar em uma casa e você ver que a pia está torta. Você sabe que você precisa arrumar a pia e que ela torta vai prejudicar, vai derramar água, e que isso vai levar a uma série de outros problemas. Não é só uma questão estética. Um problema visível, que sabemos solucionar. Só que essa mesma casa está pegando fogo. E aí o que a gente faz? Consertar a pia ou apagar o fogo? Ou tenta apagar o mínimo do fogo para não queimar tudo. A gente está em um momento em que a casa está pegando fogo. Sempre esteve, na verdade. O Brasil é essa casa que sempre esteve pegando fogo. A gente vai tentando ver o que é possível salvar nisso tudo. A pia continua lá torta e a gente sabe. Tem um problema estrutural que a gente sabe que está aqui e não podemos esquecer dele. Mas o que cada um tem feito é ver o que dá para salvar, como não morrer também. 

Vejo que o impacto que as cotas fizeram na vida das pessoas é, em uma dimensão, grande. Impacta não só na minha vida. É na vida da minha família, de alguém que encontro na rua. Quando a gente olha para o sistema das artes, o impacto ocorre de muitas maneiras. Não só na presença, no fato de ter profissionais negros. Mas quando acontece nossa entrada em um sistema que está acostumado a trabalhar com o mínimo de presença – ou nada, ou nenhuma – isso gera um conflito do modo como esse sistema opera.  

São sistemas que estão acostumados a tratar com violência os nossos corpos, os nossos modos de ser e de pensar. Quando chegamos ali, ter que lidar com essa violência é também muito difícil. Porque você precisa lidar de uma maneira macro e micro, também na dimensão pessoal. Estamos em um ponto crucial, que é dar um passo à frente. Já não dá mais só para falar da entrada, como quando começou a política de cotas. Era nossa entrada em um sistema, tanto educacional, quanto profissional. Porque estão atrelados. A formação acadêmica está atrelada à formação profissional. Mas agora é a mudança estrutural, do modo de trabalho e funcionamento do sistema das artes que está em pauta. E as possibilidades de criarmos nossas instituições. Como sobreviver no sistema das artes e da cultura? O que o sistema das artes tem feito para garantir a nossa sobrevivência? Eu diria que quase nada. 

Infelizmente, envolve questões políticas do governo atual que tem acabado com a cultura. Mas diz muito também sobre a responsabilidade que cada pessoa toma para si no momento de se entender, de fato, como um responsável por essa mudança. Porque vejo também a terceirização das mudanças, sempre para esse corpo que já é violentado, que já tem que brigar por muita coisa. Pedem para ele, ainda, sustentar todo esse lema e dilema da diversidade. Quem são os diversos? O que queremos com este termo? Porque destinam a nós, negros e indígenas, o pensar e sustentar o discurso de diversidade? Tem mesmo se construído processos justos neste debate? Porque o diverso precisa ter uma porcentagem alta. Não é diversidade se você tem uma ou duas pessoas negras em uma equipe de 40, 50 pessoas brancas. Isso não é diversidade. Então, o impacto das cotas é visível, no entanto ainda está em andamento. Ainda em construção.  

Nonada – Olhando até mesmo para os últimos acontecimentos, existe uma distância entre o discurso por parte das instituições, que se dizem decoloniais, e a prática dessas falas. Como você percebe isso? 

Luciara – Em um mundo capitalista como o nosso, que incentiva a competição – e as artes são extremamente competitivas – torna-se violentíssimo. A gente tem poucos órgãos que pensam a ética do campo. Não tem para quem recorrer. Então, acho que a gente tem que falar também da fragilidade do trabalho, da precariedade do trabalho. Não tem um sindicato dos curadores, por exemplo. Se acontece algo, como um assédio moral, que é muito normal dentro dessa área, você não tem o que fazer. Você adoece, porque todo mundo se conhece e tem uma prática de inibir qualquer reação que possa ser contrária aos desejos da instituição ou dos demais superiores.

Então é totalmente um modelo de controle, imposição e pouca escuta. Pouquíssimo escuta. A gente está nesse lugar de fragilidade extrema – e o campo já é frágil. Quando nós entramos, entramos por baixo e é difícil se manter. Porque isso mexe com a nossa ética. Acho que a maioria das populações negras e, principalmente, as indígenas, têm uma ética com a vida que é de outra lógica.

História Natural, de Rosana Paulino (2016)

A gente está falando de poder financeiro, poder político, poder social mesmo. É uma disputa de poder, de fato. Muito maior. Mexe com você estar bem para conseguir se manter, para poder permanecer. Bem economicamente, socialmente, psicologicamente. E é muito complicado se manter assim em uma sociedade que a gente já nasce sendo violentado. Eu penso, e já falei isso em alguns lugares, que é fundamental que os órgãos que trabalham com o campo possam criar medidas de respaldo ético, profissionais e jurídicos para seus profissionais da área. Faltam meios de apoio à prática. Ela fica solta e aí as pessoas se sentem à vontade para fazer o que elas acham que é o adequado. E nisso tem toda uma estratégica de culpabilizar e responsabilizar o outro. 

É comum usar estruturas de organização diárias para dizer que se você não fez isso do jeito que se espera, você é incompetente. Às vezes não, às vezes eu funciono de outro jeito. Minha forma de trabalho é outra. A arte se coloca nesse lugar de aberturas, possibilidades, de relações  e pensamentos, mas isso precisa chegar na prática de trabalho também. Estão mesmo querendo fazer coisas diferentes? Processos diferentes? Ou é uma fachada? É uma questão que fica. 

Nonada – Poderia comentar um pouco sobre o mapeamento dos curadores afro-indígenas no Brasil que você tem realizado junto à Rede de Pesquisa e Formação em Curadoria de Exposição e ao Projeto Afro? Até porque pensando na formação, e na discussão sobre cotas, o campo da curadoria talvez seja um dos mais elitizados da arte (já que poucos lugares formam curadores, são quase inexistentes formações específicas para chegar nesse lugar). 

Luciara – O projeto está um pouquinho parado, por conta de outras demandas desse período de pandemia. Tem sido complicado ajustar as agendas e dedicações. Mas ele segue em andamento com a Rede. 

Pesquisa realizada em colaboração através das redes sociais por Luciara Ribeiro. Colaaboração e designer: Projeto Afro, Guillermina Bustos, Jorge Sepúlveda T., Gabriela Diaz Velasco e equipe de Trabalhadores de Arte.

Acho que a grande contribuição e impacto que essa pesquisa já deu foi de mostrar que já estamos em outra chave, em que não dá para usar a justificativa de ‘não há profissionais’. Já se avançou nisso. Há profissionais, todo mundo sabe. Agora estamos em outro momento que é: como vocês vão lidar com as violências institucionais? 

E uma outra questão que com o mapeamento foi possível notar também, nesse campo da relação de formação e atuação profissional, é que os curadores negros e indígenas são pessoas com graduação ou mestrado (grande parte com mestrado e doutorado) em artes ou nas áreas de humanas críticas. A gente está falando de curadores que têm formação educacional e pesquisa que investiga. Enquanto é muito comum, quando a gente olha para carreira de curadores brancos, a vinda de áreas que não necessariamente estão relacionadas. 

Claro que a curadoria não é um campo que tem formação específica no Brasil. Tem uma ou outra iniciativa. Não há exigência que você tenha alguma formação para ser curador. Mas há certas áreas que me parecem preparar melhor para a profissão. E a gente vê isso muito presente na formação de curadores negros e indígenas.

O que estou querendo dizer é que não é que essas pessoas estão em desvantagem em sua formação ou educação. O que quero dizer é que me parece que há um privilégio maior para a entrada de pessoas brancas na curadoria, a ponto de abranger outras formações. De ser algo que consiga ter uma entrada alargada. Enquanto, para nós, a entrada é mais estreita e exigente intelectualmente. E mesmo exigindo mais, nos coloca em uma posição subalterna. 

É um exercício para a gente ocupar essas posições, nós temos que ser três vezes melhores, fazer três vezes mais. Ser impecáveis. E isso é um peso muito grande. A gente não pode falhar. Porque, se falha, é a próxima justificativa que vão dar. “Não dá pra trabalhar, porque não sabe fazer isso”. Enquanto uma pessoa branca pode falhar. Ela vai ter apoio e vai ser vista, porque tem meios e recursos para que ela se sustente ali. E é isso que a gente precisa falar. Como têm se organizado essas disputas e relações de sistemas. Formação e mercado. Olhar o sistema de artes me empolga muito. Me interessa pensar nessa rede interligada. Não fragmentá-la como é comum de se apresentar. Na pratica, não é fragmentada, funciona com uma cadeia. 

Nonada – O sistema das artes aparece, muitas vezes, como se fosse “neutro”, como se não houvesse um estrutura muito bem consolidada em uma lógica. Em 2020, você escreveu um artigo para a Select em que fala sobre a necessidade de existir uma política de cotas nas instituições de arte, no mercado. Você ainda pensa dessa forma? 

Luciara – Sim, ainda sou a favor. Não acho que seja uma política que solucione problemas, como a gente já falou, eles são muito mais profundos. Mas ela garante uma presença, garante uma partilha de investimentos públicos. E essa cota tinha que estar em todas as equipes e setores, porque só esperar que nosso esforço e profissionalização nos faça chegar até uma diretoria é muito peso. 

O estado tem que garantir  – e não estou dizendo que alguém vai chegar em uma diretoria sem competência – equidade e meios que realmente façam reparação. Queremos estar em coordenações. E não é só colocar uma pessoa negra, não é só ter a representatividade, mas é pensar que é necessário, sim. Ter uma formação comprometida com debates. Acredito na necessidade de uma política de presenças. Uma política de cotas, porque senão as instituições fazem isso, nos colocam como incompetentes e falam “eu tentei, a culpa foi de vocês”. As estratégias são muitas. E quando isso é uma obrigação política e social, muda. A gente vê no campo da educação. As estratégias foram várias para tirar as cotas. Só não tiraram porque era uma lei. E estamos vendo o impacto que essa lei provocou. 

Mas nesse cenário em que a gente não tem nem Ministério da Cultura, não sei mais o que pensar. É um desejo futuro. Se a gente tiver cotas dentro dos setores todos, tem que vir acompanhado por uma reorganização e discussão da área. De um código de ética para as instituições. Tem que estar alinhado com essas chaves.

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Estuda jornalismo na UFRGS. É também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.
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