Foto: André Cavalcante/divulgação

Coletivo Artistas pelo Clima alia arte à consciência ambiental em Manaus

Elanny Vlaxio, especial para o Nonada Jornalismo*

“Se eles lá não fazem nada, faremos tudo aqui”, é com essa frase da música “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca que a rede “Artistas pelo Clima” se inspira ao falar de justiça climática. “Temos a sensibilidade de entender o território que vivemos e pisamos, muito de nós artistas somos da periferia e sentimos na pele os efeitos das mudanças climáticas, como o calor e as enchentes”, relata Mel Angeoles, de 28 anos, vice-presidente da Associação Intercultural de Hip- Hop Urbanos da Amazônica e uma das idealizadoras do projeto.  

Fumaças de queimadas, forte calor e seca histórica em 62 municípios do Amazonas. Esses foram apenas alguns dos problemas ambientais que a região amazônica enfrentou em 2023. Com a crise ambiental, artistas amazônidas se uniram para denunciar e incentivar o debate sobre justiça climática por meio da rede “Artistas pelo Clima”, que hoje conta com 150 voluntários e artistas. 

A iniciativa partiu da associação, que percebeu que a ajuda da Prefeitura de Manaus e do Estado não estava chegando tão rápido nas comunidades ribeirinhas que sofriam mais com as consequências da seca. Foi dessa maneira que surgiu a primeira ação do Artistas pelo Clima. Virtualmente,  artistas da região começaram a denunciar a crise e arrecadaram mais de 2000 itens de limpeza, água e alimento que foram distribuídos na Aldeia Inhaã – Bé, Comunidade Três Galhos e na Terra Indígena Uneiuxi. “Não tem como falar sobre cuidar da floresta, sem falar em cuidar das pessoas que moram nesses locais, e sabem muito bem como os proteger”, diz Mel.

Antes mesmo de oficializar a rede, participantes do coletivo realizaram o 1º ato ‘Manaus sem Fumaça’, em que pelo menos 22 organizações e coletivos da sociedade civil protestaram contra as queimadas em Manaus. A cidade chegou a registrar a segunda pior qualidade de ar no mundo, segundo a plataforma Selva, responsável por monitoramento do ar.  

Cultura e justiça climática andam de mãos dadas 

Foi na Zona Norte da cidade, na comunidade periférica Conjunto Viver Melhor 2, que a segunda ação da rede aconteceu, em dezembro de 2023. De forma coletiva e voluntária, os artistas realizaram mutirões de limpeza, oficinas e construíram dois grandes murais com denúncias de crimes ambientais e homenagens a personalidades que lutam por Manaus. As obras foram construídas por quinze artistas na linha de frente com pixo, grafite e lambe. 

Capivara inflável integra intervenção artística que denunciar o desmatamento (Foto: André Cavalcante/divulgação)

Para a grafiteira Beatriz, de 25 anos, “a união da arte, de artistas e de voluntários nos faz enxergar o quão grande pode ser uma atitude em prol de um mundo mais sustentável”, afirma uma das artistas responsáveis pelo mural com denúncias. 

A iniciativa contou com a exposição de uma capivara inflável de mais de três metros de altura em uma sátira a Elmar Cavalcante Tupinambá, acusado de ser um dos principais responsáveis pelo desmatamento no município de Autazes e avô do influencer Agenor Tupinambá – ‘TikToker da Capivara’. Segundo aponta a Amazônia Real com dados do Ibama, nas duas últimas décadas, 42% do desmatamento do município foi causado por Cavalcante. A ação também  foi exibida em dezembro de 2023 no Festival Psica, em Belém, que teve atrações de todo o Brasil. 

Atuante na área cultural há 31 anos, a especialista Luciana Mallon complementa que a tecnologia é um bônus na luta ambiental: “Um adolescente que vê na internet artistas e ativistas que se posicionam sobre esse tema se sente motivado a entender a causa”. O sociólogo Luiz Antônio complementa que a linguagem artística é uma facilitadora de temas como o de direitos humanos e da crise climática, por isso, é importante que o diálogo seja feito em locais como o Viver Melhor: “Às vezes, pesquisadores utilizam uma palavra que não é clara para quem escuta/lê e a arte chega para isso, para conversar com todas as classes e raças”.

O artista precisa ser levado a sério 

Coletivo já realizou ações em Manaus e também teve vídeo exibido em festival de Belém (Foto: André Cavalcante/divulgação)

No contexto de protagonismo do Brasil em instâncias como a COP, artistas avaliam que é necessário um debate plural sobre a justiça climática das diferentes Amazônias, trazendo as problemáticas das culturas e vivências, principalmente a urbana. Na conferência em Dubai (COP28), apenas seis artistas representaram a Amazônia, sendo quatro do Pará. Artista há 15 anos e acompanhando o cenário local e internacional, Mel conta que a maior dificuldade em unir debates de direitos humanos e a arte é o poder público: “Não levam a sério a classe de artistas, a gente é potente como ponte de diálogo nas comunidades, mas ainda somos vistos apenas como lazer e diversão”, enfatiza.

Já para a grafiteira Deborah Ere e colaboradora da rede, é inevitável ignorar a crise climática, segundo ela, a falta de apoio financeiro é outro problema que interfere no diálogo. “Nem todos estão dispostos a assumir esse problema, porque é uma luta que vai contra os interesses de pessoas e empresas que têm influência política econômica no Brasil e no mundo. Não é um tema que ‘vende’, é difícil ter apoio e remuneração. Isso dificulta muito a expansão desse tipo de ação e a adesão de mais artistas na pauta da justiça climática”, pontua. 

Acompanhando o Artistas pelo Clima desde o início, Sarah Campelo conta que muitas pessoas lutam por justiça climática nas regiões periféricas, mas não conhecem o termo, e o artista com sua arte chega para dialogar sobre o assunto. “A arte coletiva é uma forma da gente se levantar e se reconhecer na luta. Se não for para despertar os meus, a arte perde sentido na existência. Existe um compromisso comunitário, que é quando você desperta, você tem que potencializar o despertar do outro. Sozinho a gente ganha, mas junto nois vence”.

Em 2024, a rede planeja crescer de maneira coletiva e inspirar artistas de outras partes do país a dialogar sobre crises ambientais, justiça climática e direitos humanos dentro e fora do meio artístico. E espera que o poder público também possa entrar na luta, e construir ações e campanhas em comunidade. 

Elanny Vlaxio

Bacharela em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), já atuou como repórter e em assessoria de imprensa. Também foi voluntária e bolsista pesquisadora pela Universidade Federal do Amazonas nas áreas de Ciências Sociais Aplicadas e Semiótica. Tem interesse em pautas sociais, culturais e ambientais.

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