Arte: Preta Hub/reprodução

Falta de acesso a editais e patrocinadores dificulta continuidade de festivais de cultura preta, aponta pesquisa

Com objetivo de desenvolver um panorama sobre os trabalhadores negros das áreas de economia criativa e produção de eventos, o Instituto Preta Hub em parceria com o Afrolatinas e o Instituto Locomotiva mapearam a realidade de produtores culturais negros no Brasil. A pesquisa, lançada em dezembro, entrevistou 590 trabalhadores de todas as regiões do país e também fez entrevistas em profundidade com representantes cinco festivais independentes de destaque: o festival Psica, no Pará; AfroFuturismo, na Bahia; Bocadim, no Distrito Federal; Festa Amem, em São Paulo, e Festival Porongos no Rio Grande do Sul. 

O mapeamento focou no perfil profissional dos entrevistados, investigando as principais dificuldades, demandas e conquistas do trabalho no setor cultural. Questões financeiras foram consideradas as maiores barreiras de entrada e permanência na economia criativa. A pesquisa mostra que para 60% dos produtores culturais o trabalho na área representa mais da metade da renda domiciliar. A maioria trabalha há mais de cinco anos na área, e mesmo com a experiência, mais de 60% atua como autônomos e freelancers, reforçando a chamada Economia Política da Incerteza e os recentes dados do IBGE.  

Com níveis diferentes de profissionalização, os produtores e produtoras, apresentam em comum os esforços para estarem inseridos na promoção de espaços, movimentos e eventos culturais independentes na sua região. Alguns se inseriram nesse contexto a partir da constituição dos festivais, dos quais hoje são responsáveis, outros já tinham experiências anteriores. No panorama profissional traçado, as profissionais são predominantemente mulheres, de até 29 anos, pretos, solteiros, héteros e com ensino superior.

Segundo a pesquisa, a cultura popular e eventos são as áreas em que há mais produtores culturais negros (41%) no país. Atrás dela estão as áreas de audiovisual (37%), música (33%), entretenimento (31%),  artes visuais (27%), artesanato (23%), artes cênicas (22%), embora a interconexão entre as áreas seja bastante indicada pelos entrevistados. Os campos com menor presença de produtores negros são rádio (2%), games (3%), TV (3%) e animação (6%). As áreas da Economia Criativa são diversas e a interconexão entre elas é bastante presente. O estudo revela que 71% dos profissionais trabalham em 3 áreas ou mais, mostrando que é praticamente regra a atuação em diferentes frentes do setor. 

Dificuldade com fomento público 

É importante ressaltar que o contexto de emergência da maioria dos festivais estudados, meados da década de 2010, têm importância para a construção de uma “cultura” de festivais pretos independentes no Brasil. Esses festivais surgem, em geral, a partir de eventos e festas menores e com grande participação de artistas locais, e, vão ganhando paulatinamente mais público e relevância. Os entrevistados relatam que esse movimento vem da necessidade da criação de espaços que valorizem suas culturas. “A necessidade de espaços em que suas singularidades fossem respeitadas foi a principal motivação para a inserção no mercado de produção cultural independente”, afirma a pesquisa. 

As conquistas mais citadas envolvem o ganho de visibilidade e atração do público. Muitos se orgulham de terem constituído festivais independentes, que geralmente surgem de forma amadora e se profissionalizam com o tempo. Outro ponto positivo citado é o fomento que produtores negros fazem ao empreenderosimo de grupos minorizados.

Arte: Preta Hub/reprodução

Entre os desafios, os produtores destacam o de garantir a permanência dos projetos ao longo dos anos. Citam também o desafio “de romper com os privilégios de artistas bancos e mais renomados para acesso aos editais e patrocínios, além do acesso a editais que sejam mais numerosos e que tenham a possibilidade cotas raciais.” Há também falta de oferta de fontes de financiamento específicas para a cultura preta. 

O financiamento via órgãos públicos é o mais citado pelos produtores, seguido de recursos próprios da produtora dos produtores de eventos. Para 71% dos entrevistados, a burocracia excessiva é o principal dificultador do acesso a financiamento público, assim como a dificuldade de encontrar empresas dispostas a investir em eventos

O mapeamento mostrou que 97% dos profissionais negros da Economia Criativa já passaram ou presenciaram algum tipo de discriminação, sendo que 79% dos profissionais negras citam terem passado por mais de 3 situações de discriminação. Eles acreditam que os eventos voltados para o público negro ou sobre temáticas negras enfrentam dificuldades ainda maiores para conquistar incentivos financeiros no cenário da produção cultural brasileira. A pesquisa revela também que mulheres negras enfrentam ainda mais dificuldades para obter reconhecimento e validação na área da economia criativa. 

Ser multitarefa é recorrente 

A falta de previsibilidade financeira aparece mais uma vez entre as dificuldades, pois os profissionais não conseguem se manter atuando em um projeto cultural, e por isso, sentem a falta de disponibilidade integral para se dedicar à idealização dos projetos nas etapas de pré-produção. Também cita-se a dificuldade na conquista de alvará para o uso de espaços, principalmente públicos.

Segundo a pesquisa, 76% estão envolvidos em 3 ou mais etapas durante a concepção ou produção dos eventos em que trabalha. Também chama atenção que 72% dos que trabalham com eventos organizaram uma quantidade média de 2 até 10 eventos nos últimos 12 meses. Essa multiplicidade de festivais é financiada principalmente por instituições públicas, no entanto, esse acesso ainda é considerado dificultoso. 

Há um alto grau de qualificação entre os entrevistados: 89% já fizeram cursos e entre os que não fizeram, 90% desejam fazer. Observa-se também uma preocupação na composição de equipes diversas. Quando trata-se de eventos voltados para o público negro ou com temáticas negras, 71% dos produtores acreditam que esses eventos estão mais preocupados em formar uma equipe diversa, e mais da metade acreditam que os eventos estão mais preparados para receber e acolher um público diverso

Criação de redes para o futuro

Existe uma pluralidade grande dentro dos festivais estudados, mas também similaridades que podem ser exploradas para se pensar em soluções. O potencial econômico que os festivais geram pode ser percebido naqueles envolvidos direta ou indiretamente na execução dos eventos. 

“Sejam empreendedores ou corpo técnico, a “indústria” dos festivais pretos independentes podem fortalecer circulação de valor no seu entorno. Para além dos aspectos relacionados ao entretenimento, os festivais carregam um potencial cultural, social e político que pode fortalecer todos os envolvidos dentro de sua cadeia, de produtores à expositores e público”, afirmam. 

Os problemas do setor cultural e da economia criativa no Brasil não afetam o otimismo dos profissionais. A maioria deles acredita que há possibilidade de os festivais crescerem e atraírem cada vez mais pessoas nos próximos anos. As oportunidades se relacionam principalmente ao fortalecimento de uma rede de produção e empreendedorismo a partir de regiões periféricas, além disso, há possibilidade de um impacto social, cultural e político. 

Ao olhar para o futuro, os produtores enxergam possibilidades de crescimento para suas realizações. Desde aumentar a diversidade das equipes até “furar a bolha” do seu público, atraindo pessoas que, de certa forma, não fazem parte do público-alvo inicial. A pesquisa mostra que os profissionais visualizam oportunidades de uma expansão dos circuitos turísticos proporcionados pelos festivais, assim como o fortalecimento de iniciativas independentes. Os entrevistados desejam um aumento de renda dos atores inseridos nos festivais e a criação de uma rede de festivais pretos e LGTQIA+. 

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Repórter do Nonada, é também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.
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