Truques e Trambiques na Mostra de Teatro Rua Lino Rojas em SP (Foto: Pedro Salvador/divulgação)

Artistas de rua lutam para continuar seu trabalho em meio à crise climática

Natasha Meneguelli, especial para o Nonada Jornalismo

São Paulo (SP) — “Um médico já me recomendou se afastar do trabalho por conta das tintas, da chuva, do sol. Mas é difícil abandonar um trabalho que, além de sustentar, a gente gosta”, relata Mina Ribeirinha. A grafiteira, de Belém, Pará, mora no bairro fundado pelos pais e também tem um ateliê para complementar sua renda. “No verão o sol acaba com a nossa pele. Antes a gente usava protetor solar fator 30, mas a gente mudou porque não dava conta, agora é 70, 80. E como ele é mais espesso, mais pesado, acaba com a nossa roupa”.

O trabalho dela, assim como de outros artistas de rua, vem sendo afetado pelas condições do clima. “Temos presenciado ondas de calor cada vez mais intensas, e mortes, inclusive de jovens”, explica o doutor Daniel Bitencourt, pesquisador do Fundacentro (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho) com pós-doutorado no Centro Nacional do Clima da Universidade de Oklahoma, nos EUA. 

As ondas de calor são caracterizadas por um aumento de temperatura acima da média por mais de 5 dias. Segundo estudo do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgado em novembro de 2023, o Brasil, nos últimos 30 anos, teve uma mudança de 7 para 53 na média de dias por ano em que houve a presença deste fenômeno. “E se está ruim agora, em menos de 10 anos vai ficar mais complexo, por conta do aquecimento global, da crise climática”, afirma Bitencourt.

Mina Ribeirinha, artista de Belém (PA) (Foto: divulgação)

O especialista, que pesquisa os impactos das condições atmosféricas no trabalho a céu aberto, conta que em cidades do Centro Oeste e do Norte do Brasil, como é o caso de Belém, muitas atividades já estão inviáveis. Bitencourt explica que os centros urbanos vão ser sempre mais complicados, porque não foram pensados para a mitigação e adaptação climática. Ou seja, não possuem estratégias efetivas de diminuição dos gases de efeito estufa e de medidas que diminuam os seus efeitos na população e no meio ambiente.

“A gente fala em São Paulo porque é uma grande metrópole, mas qualquer capital e cidade de tamanho médio tem as chamadas ilhas de calor”. Outro evento climático, elas acontecem em áreas urbanizadas muito densas, quando há maior proximidade entre as edificações, além de arborização insuficiente, o que armazena calor pela baixa capacidade reflexiva do concreto e do asfalto e, por isso, intensifica o aumento das temperaturas. 

O aquecimento global chegou a um novo patamar em 2023, quando a temperatura global atingiu 1,48°C acima da média. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), são necessárias ações urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A queima de petróleo, carvão mineral e gás natural precisa cair 43% até 2030 e ser eliminada completamente até 2050. A meta é essencial para que a temperatura global fique dentro do limite de 1,5°C acima da média, índice considerado seguro para a vida na Terra.

Estresse térmico é experiência comum entre os artistas de rua

Mina Ribeirinha não é a única a sentir as implicações das altas temperaturas no dia a dia de trabalho. O casal Agatha Pereira dos Santos e Val Santos trabalham juntos como dupla de palhafros, além do teatro de rua e da música, há mais de 10 anos em São Paulo e outros estados do Brasil. “Nestes meses (em que ocorreram ondas de calor), a temperatura estava bem alta, e isso acabou afetando muito a gente, porque o tempo fica muito seco. A gente trabalha no transporte público e a acústica não nos favorece tanto”, conta Agatha. “Costumamos trabalhar de manhã, mas nessa época de calor extremo a gente tava trabalhando mais à noite”.

Além do ajuste no ritmo e nos horários de trabalho, ainda mais importante aos finais de semana, quando realizam intervenções em parques, os dois congelam uma garrafa de água de dois litros, que é carregada por eles em uma bolsa térmica durante o dia. “Quando não tá congelada a gente tem que arrumar dois, três, quatro reais para ir num lugar comprar”, conta Val.

A dupla de “palhafros” Agatha e Val (Foto: divulgação)

No caso de Ligia Corrêa Facciolla, a Abelha Palhaça, moradora de São Paulo que trabalha tanto com recreação em locais fechados quanto em parques e ruas, tem vezes que mesmo a água não ajuda: “parece que não tomei nada. Fica seca a garganta, rouca, áspera. Normal, porque num sol de mais de 30 graus, mesmo com todo o protetor solar do mundo, com toda a água, ainda parece que tá seco”.

Os relatos dos artistas representam momentos de estresse térmico, quando o corpo tem que lidar com uma temperatura tão extrema que atrapalha a regulação térmica, por calor ou frio. O doutor Bitencourt explica que, no caso das ondas de calor, tanto a temperatura quanto a umidade ficam elevadas, o que aumenta ainda mais esse desconforto. “Isto acontece por conta do suor, que controla a temperatura e retira a energia e calor do corpo. Quando a umidade está muito alta, esta evaporação não acontece com a mesma eficiência”.

Um estudo publicado pela revista Nature, em 13 de março deste ano, mostra que a perda global do Produto Interno Bruto (PIB) causada pelo calor extremo tem projeção entre US$ 3,75 trilhões e US$ 24,7 trilhões, dependendo da quantidade de CO2 emitida na atmosfera. Isto por conta da perda de saúde e de produtividade.

“Eu venho sentindo, é uma questão de ânimo, uma questão de saúde, até. Eu sinto que às vezes a pressão baixa ao fazer as coisas, porque é muito sol na cabeça. E isso afeta bastante”, conta Amanda Nascimento, atriz, cantora e sanfoneira de 34 anos, membro da Cia da Cabra Orelana, coletivo feminista do Núcleo Sem Drama, paulista. “É uma coisa de se preocupar, né? Como é que a gente vai continuar?”.

Tiago Munhoz, artista do Grupo Rosa dos Ventos, sentado na frente dela durante conversa com o Nonada Jornalismo, conta que, em Presidente Prudente (SP), onde ele mora, “a coisa tá delicadíssima. A onda de calor chega numa situação que fica insuportável estar no sol, estar na rua”. Ele diz que às vezes é possível marcar os espetáculos à noite e levar uma estrutura de luz, mas que isso não resolve o problema por inteiro. “A gente começa a montar às 4 horas da tarde, então é um desgaste, é muita água. É um cuidado um com o outro, porque tá visível que a coisa está muito diferente e que vai ser cada vez mais difícil estar [no espaço público]”.

Além disso, quando precisam se apresentar no sol, pensam numa situação em que os raios ficam de frente para eles, porque se estiver para o público, as pessoas não param para assistir. “Outra diferença é que em uma roda ou numa praça a céu aberto pode ter 300 pessoas, e num lugar fechado são 20, 30. Por isso também que a gente dá essa prioridade”.

Grupo Rosa dos Ventos (Foto: Luis Valente/divulgação)

O doutor Bitencourt esclarece que, por serem autônomos, os artistas não se beneficiam inteiramente da legislação, como o anexo nº 3 da Norma Regulatória 15, que trata de “Limites de Tolerância para Exposição ao Calor” e traz características de insalubridade relacionadas às altas temperaturas. Isto porque são raras as vezes em que há uma empresa responsável por garantir o conforto térmico destes trabalhadores.

“Como é autônomo, ele mesmo pode determinar as pausas dele, beber uma água, ir para a sombra quando possível, obedecendo os sinais do próprio corpo”, complementa Daniel. “No entanto, eles ganham por produção. Ao parar, não tem público. E não tem pagamento”.

Val conta que há sempre uma incerteza sobre a renda financeira garantida com o trabalho na rua, porque mesmo os editais possuem prazos e concorrência, o que traz uma outra dinâmica financeira. “Se a gente não sai para a rua, não paga aluguel, não paga água, não paga nada, na verdade”.

Filipe Farinha (Foto: reprodução)

Filipe Farinha é um artista versátil, que atua da acrobacia à pirotecnia, além de ser especializado em funambulismo, arte circense que consiste em caminhar na chamada corda bamba, sendo o primeiro brasileiro a se equilibrar sobre os cabos do Pão de Açúcar, na cidade do Rio de Janeiro. Morador do Rio Grande do Sul, ele diz que, na casa onde vive e recebe artistas, tanto de passagem quanto de forma permanente, é perceptível que a arrecadação caiu bastante. 

Ele relata que isso teve um peso maior por conta do pós-pandemia, mas que o clima também é parte disso. “Ao mesmo tempo, está todo mundo precisando. Então a gente não encara como uma disputa, mas sim como a necessidade de todos de estarem sobrevivendo”.

Filipe desabafa que é como a expressão “vender o almoço para pagar a janta”, contando que tem gente que trabalha para conseguir tomar um café, responder a necessidades imediatas, principalmente aqueles que viajam e precisam pagar hospedagem e passagem. “Se isso continuar assim, não sei, né. Quais as opções?”

Daniel Bitencourt reforça que é preciso, por parte do poder público, que ações de adaptação sejam realizadas com urgência. “Nos parques, por exemplo, é preciso ter um espaço mais preparado, que proteja tanto os artistas quanto o público, com uma melhor circulação de ar, ainda que ao ar livre”. Ele alerta que mesmo nos cenários mais otimistas o indicativo de aumento de temperatura permanece. Portanto, o esforço da mitigação se torna o mais essencial.

De acordo com o estudo “Disparidade Norte-Sul no impacto das alterações climáticas em ‘dias ao ar livre’, publicado pela revista científica da American Meteorological Society (Sociedade Meteorológica Americana), países do Sul Global sofrerão uma grande perda de dias ao ar livre nos próximos anos. Nas últimas três décadas, em comparação com o período de 1961 a 1990, as áreas tropicais tiveram uma redução de 13% dos dias ao ar livre.

A pesquisa considerou como ‘amenas’ as temperaturas entre 10 e 25 Cº, mas também disponibilizou uma plataforma onde os usuários podem definir os dias ao ar livre de acordo com sua faixa de temperatura preferida e ver como o número desses dias mudará em sua área até o final do século.

“[Pelos artistas de rua] serem autônomos, eles não têm como exigir normas legais e, mesmo se houvesse, não há garantia de cumprimento da parte deles”, explica Daniel. O especialista indicou um aplicativo disponibilizado pelo Fundacentro, no qual colaborou para o desenvolvimento: MONITORIBUTG. Ainda que seja mais exato e eficiente para áreas rurais, e não as urbanas, ele utiliza os critérios do Índice de Bulbo Úmido e Temperatura de Globo, uma métrica que avalia o conforto térmico de determinado local, e tem uso gratuito.

Chuvas fortes também são problema

Amanda e Tiago trabalhavam como produtores da 16ª Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas que, enquanto esta reportagem era produzida, teve parte de seus espetáculos realocados por conta das condições climáticas. Na tarde de sábado do dia 09 de março, as apresentações aconteciam dentro da Ocupação São João 588/288, no Centro Histórico de São Paulo. 

Originalmente elas aconteceriam ao ar livre, no Território Cultural Okaracy na Comuna da Terra Irmã Alberta, Zona Oeste de São Paulo, depois do Parque Estadual Jaraguá. Entretanto, com a previsão de chuva forte, terreno lamacento e outros perrengues do dia anterior, quando as apresentações foram interrompidas pela tempestade, a decisão foi mudar de endereço.

Cia da Cabra Orelana, “A Farsa do Açúcar Queimado Ou a Mulher que Virou Pudim” (Foto: divulgação)

“O calor também implica em chuvas mais fortes, porque a atmosfera aquece durante o dia e vem as pancadas de chuva imprevisíveis à tarde”, detalha o doutor Bitencourt. “Onde ocorrem, são chuvas fortes, tempestades, e surgem rajadas de vento, até antes da chuva, que trazem insegurança. Pode ter alagamentos, raios, granizos, que é uma situação perigosa também”.

Os dois artistas explicam que, para a arte de rua, o plano B está sempre presente. “É praticamente uma recuperação, para a mostra ou para as apresentações continuarem”, diz Amanda. Mas mesmo funcionando e a apresentação ocorrendo em um lugar fechado, a situação não se resolve por completo. Ainda é necessário repensar a disposição do público no espaço aberto e a possibilidade de intervenção das pessoas, o que afeta o trabalho artístico realizado.

“[Na rua] é mais mágico, mais prazeroso. Hoje, por exemplo, a gente tá apresentando aqui dentro, com essa possibilidade de chuva, mas eu já tô tentada. Queria muito passar lá pra frente, ficar na frente do ponto [de ônibus], sabe?”, conta Amanda. “A gente entende que perde o potencial quando tá nesses espaços, dá até uma agonia. É até uma forma de formação de público, de acesso, é uma luta política”.

Tiago explica que, quando o edital é mais flexível, eles tentam montar no espaço até o último momento, e se há confirmação de chuva eles desmontam e remarcam a data. Contudo, quando é um contrato diferente, eles preparam um plano B para não perder a viagem nem o cachê. 

“Cenário às vezes tem coisas muito baratas, mas que dão um trabalho para fazer, para a mão de obra construir”, conta Tiago, sobre as perdas causadas pelas chuvas imprevisíveis. Amanda complementa explicando que há um risco grande com caixas e mesa de som, além do material cênico, que também é responsabilidade deles no caso das Mostras. “A gente já passou a experiência de queimar, né? Super equipamento. É uma grana, um investimento que você perde”.

Filipe também teve uma série de eventos cancelados em 2022. “O ano passado foi bem complicado essa coisa de chuva, de alagamento”. Vários eventos do coletivo do qual participa foram cancelados ou adiados. “A gente conseguiu fazer dois piqueniques culturais no ano todo, que era uma coisa que, a princípio, era para ser duas vezes, de dois em dois meses”.

No final do ano passado, em São Sebastião do Caí (RS), onde haviam vários eventos agendados, os espetáculos foram cancelados por conta da chuva. “A gente ia apresentar numa praça lá, pelo SESC, e acabou não rolando”, ele conta. Por fim, conseguiram remarcar para o mês de março deste ano. O mesmo ocorreu em um cortejo em Pântano Grande, quando já estavam na cidade e mesmo os equipamentos dos técnicos foram afetados.

Mina descreve uma experiência semelhante. “Quando chove, é uma correria para cobrir o material com a lona, e a gente fica esperando passar pra voltar a trabalhar, o que pode levar 2, 3 horas”. Contudo, há vezes em que chega o final da tarde, não passa, e é preciso recolher as coisas e voltar para casa. “Às vezes você acaba pagando para trabalhar, porque passa o prazo e tudo”, lamenta.

Natasha Meneguelli

Repórter e jornalista formada pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), já atuou como produtora de podcast e assistente editorial. Tem dedicação especial para pautas que trabalham a interseccionalidade entre clima, cultura, economia e direitos humanos.

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