Atibaia (SP) — O sol ainda nem havia raiado e os marujos da Congada Rosa já entoavam cantos em mais uma Alvorada em frente à Igreja da Matriz, no centro de Atibaia, interior de São Paulo. É assim que a cidade amanhece todo 24 de junho, dia de São João Batista, seu santo padroeiro. Neste ano, o dia também celebrou o aniversário de 361 anos da cidade.
A baixa temperatura e a garoa fina, típicas do inverno, dão um sentido ainda mais devoto à celebração. Vestidos com suas camisas rosas cheias de fitas coloridas e seus chapéus enfeitados, os congadeiros levam a bandeira de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário na frente, enquanto a capitã apita logo atrás.
O mestre violeiro dá o compasso para os rapazes, que tocam fortemente os tambores – o som da caixa pode ser ouvido a quilômetros dali. Assim, adultos, jovens, crianças e idosos caminharam lado a lado, dançando e cantando em um percurso que dura cerca de meia hora, entre a paróquia São João Batista até o Santo Cruzeiro, um espaço sagrado erguido ao lado da prefeitura, que é venerado pelos devotos.
A chuva persevera e, ainda assim, eles acendem suas velas e fazem suas preces ao chegarem no altar. “Eu faço tudo pela fé”, diz Jonathan Vinícius, o mestre violeiro da Congada Rosa, de 20 anos. Com sua guia protetora cruzando o corpo, ele é responsável por conduzir todas as orações do grupo.
“Viva o povo de Atibaia com sua família inteira, viva o menino e a menina, os casados e os solteiros. Viva meu São João Batista, nosso santo padroeiro”, cantam os congadeiros e as congadeiras
Nesse dia, não houve procissão após a missa, como é de costume. A chuva aumentou consideravelmente, atrapalhando os ritos. As outras congadas, que se juntariam aos Rosa pouco tempo depois, sequer tiveram condições de levantar suas bandeiras. “Mas cumpriram sua missão”, declarariam mais tarde, numa demonstração de profundo respeito pelos seus santos de devoção.

Tradição secular
Em Atibaia, existem hoje quatro grupos de Congada: os de Terno Rosa, Verde, Vermelho e Azul. Os grupos vêm resistindo ao tempo por meio da fé e da união de seus integrantes há mais de dois séculos e meio. “As congadas existem desde a época dos escravizados. Pode estar chovendo, posso estar cansado, não tem problema, eu sempre saio na Congada e quando termina, fico com as energias renovadas”, comenta Jonathan, da Congada Rosa.
Os congadeiros têm orgulho de lembrar que os grupos foram formados por homens escravizados, que se juntavam para dançar, cantar e rezar pelas ruas da cidade nos dias dos santos. Os rituais sempre foram marcados pelo sincretismo, em uma mistura de práticas da religião católica e de matrizes africanas.
Ainda hoje, os grupos são formados pelas camadas populares. Nas últimas décadas, passaram a ser considerados grupos folclóricos e requisitados pela prefeitura para participar de celebrações oficiais do município. Mas é a devoção que os move. As congadas são feitas de gente de fé, que honra, ao mesmo tempo, suas santidades e seus antepassados em demonstrações públicas da tradição.
Os Congos, Congadas e Reisados são encontrados em quase todo Brasil, com suas características regionais e,muitas vezes, locais. Relatos históricos indicam que a tradição surgiu no Brasil no século XVII, com a primeira coroação do Rei Congo em Pernambuco, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em 1674.
A coroação tem um significado singular: pouco antes da colonização portuguesa no Brasil, o navegador português Diogo Cão chegou com sua expedição na embocadura do Rio Congo, na África, onde viviam grupos nômades, caracterizados por repúblicas autônomas e monárquicas.
Os pequenos grupos pagavam impostos a um único soberano e com o início do processo de escravização de africanos, os agentes de captura buscavam entre os grupos aquele que era líder, dando-lhe o título de “Rei do Congo”, com o objetivo de facilitar o contato e realizar o tráfico de pessoas para Portugal, e mais tarde, para o Brasil.

Ao chegarem no Brasil, eles eram evangelizados e obrigados a se batizar na Igreja Católica. As irmandades de São Benedito, Santa Ifigênia e Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos formavam as principais conexões entre o catolicismo formal e os rituais manifestados pela população negra. Assim, nas festas católicas, os integrantes dessas irmandades saíam às ruas todos bem trajados, cantando e dançando para celebrar seus santos ao som de batucadas e outros instrumentos de percussão.
Em Atibaia, há relatos de que as primeiras congadas surgiram por volta de 1769, quando o povoado foi elevado à categoria de vila. Naquela época, a população era estimada em 1.500 habitantes, sendo 354 escravizados. “Um povoado pequeno, com uma economia primitiva, ligada à agricultura de subsistência”, descreve Lilian Vogel no livro “Viva São Benedito! Viva a Mãe do Rosário!”, de 2013.
A pesquisadora fez um estudo aprofundado sobre o tema e revela que as congadas também narram o processo de escravização no Brasil. “Aos negros não era permitida a entrada nas igrejas do senhores – a Igreja Matriz de São João Batista. Eles só podiam frequentar a Igreja Nossa Senhora do Rosário, construída por eles e para eles, por volta de 1776”, explica na obra. Ela conta que, na frente da igreja, a população escravizada poderia realizar suas manifestações. Surge, assim, para comemorar o Dia do Senhor Menino, o levantamento dos Mastros de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.
A participação das mulheres
Passados tantos anos, essas manifestações culturais continuam e se atualizam, conforme as mudanças sociais de cada tempo. Se, ao princípio, as congadas eram restritas aos homens, nas últimas décadas as mulheres têm assumido um protagonismo cada vez maior. Os jovens, por exemplo, gravam vídeos da tradição por meio das redes sociais, em perfis do Tik Tok e do Instagram. Mas são as mulheres, em especial, que têm mantido os grupos unidos. Se no princípio, as congadas eram formadas exclusivamente por homens, nos últimos anos elas são as maiores responsáveis pela sua organização, pelo interesse das novas gerações. Hoje elas assumem postos de liderança dentro dos grupos e podem tocar instrumentos.
O colunista do jornal “O Atibaiense”, Márcio Zago, identificou nos registros dos jornais locais que “a inserção feminina nas festas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário ocorreu no final de 1955, uma presença inédita até então”. Mas foi uma inserção tímida. “Não havia mulheres dançando nas congadas até os anos setenta. Quando muito, levavam a bandeira. Tocar tambor, nem se fala!”, lembra a pesquisadora Élsie da Costa.
Autora do livro “Balanceia meu batalhão”, de 2005, Élsie vem acompanhando os grupos de Atibaia desde os anos 1970 e observa que foi somente nos últimos anos que a participação feminina nas congadas assumiu um papel fundamental para a manutenção e preservação da manifestação.
Zago recorda que no final de 2024, por exemplo, a Congada Vermelha do bairro do Portão, região X de Atibaia, percorreu um trajeto religioso com aproximadamente trinta mulheres e apenas quatro homens. “Uma inversão simbólica e histórica na configuração tradicional desses grupos”, comentou. Para o colunista, “provavelmente sem a presença das mulheres, seja como dançante, seja na liderança e na organização dos batalhões, as congadas de Atibaia não existiriam mais”, diz.
“Antigamente eu só carregava a bandeira, hoje toco tambor”

Dona Silmara Batista de Almeida, da Congada Vermelha, é uma dessas protagonistas das Congadas da Atibaia. Aos 62 anos, ela mantém o grupo unido com ajuda de seu filho Adonai. “Ele é o coordenador porque é mais jovem, tem estudo, sabe mexer no celular. Eu nunca toquei na Congada, mas ensinei ele a tocar o bumbo quando ainda era criança. Eu também estou sempre chamando as mulheres da família para participar, sempre trago minhas netas, minha irmã”, revela.
O pai de dona Silmara era o Rei do Congo. Ela conta que quando ele faleceu, 17 anos atrás, pediu à filha que continuasse o Terno Vermelho. Sua morte aconteceu próximo aos dias das festas de final de ano, principal período do ano para os congadeiros, quando levantam o mastro em uma demonstração simbólica de contato com o divino.“Ele morreu no dia quatro de dezembro e disse que era pra gente ir pra rua mesmo assim, então venho mantendo a congada para honrar meu pai”, diz, demonstrando a ancestralidade constituinte da tradição.
A figura do coordenador de uma Congada é recente em Atibaia. O surgimento está relacionado com a folclorização dos grupos e a necessidade de estabelecer vínculos com o poder público e outras instituições de apoio. Os integrantes da nova geração contam como esses processos têm sido fundamentais para sua continuidade, como o trabalho de Amanda do Rosário Oliveira, de 38 anos, da Congada Azul.
Seu avô formou o grupo em 1973. Em 2005, ele faleceu e sua mãe passou a tomar conta da congada. Há quatro anos, Amanda assumiu a função. “Como coordenadora, entro em contato com os festeiros, faço o convite, vejo a parte de condução e da alimentação.” Ela e a mãe são responsáveis pelas fardas, confeccionando camisas e chapéus. “No dia da Congada, também preciso organizar tudo, o que cada um vai fazer, que música vai cantar”, explica.
Das quatro congadas de Atibaia, três são coordenadas por mulheres atualmente. “Antes a gente nem podia participar. Minha mãe, quando era criança, dançava do lado de fora, não podia entrar no grupo. Então para nós ver as mulheres à frente das congadas é uma grande conquista. O mais importante é que os chefes confiaram nas mulheres. O costume era passar para o filho, para o neto. Meu avô não teve filhos homens e o neto dele não quis seguir. A gente não teve escolha, ou era isso, ou acabava a Congada”, lembra Amanda.

Entre mestras, mulheres e crianças
Ter os instrumentos e saber tocá-los é fundamental em uma congada. Amanda lembra que quando seu pai era vivo, sempre dizia que ela deveria aprender a tocar a viola. “Mas eu não gostava, então disse que ia tocar o bumbo”, recorda-se. Hoje, ela toca a viola, o bumbo e puxa as canções.
“Você é uma mestra?” pergunto. “Não! Mestra é minha mãe. Tem a ver com sabedoria, mais tempo de dança… Minha mãe dança desde os sete anos, ela vai fazer 68 anos mês que vem. É isso que a gente respeita: o tempo, a idade e a sabedoria”, diz Amanda. “Agora estou ensinando meu primo mais novo, de 13 anos, a ser capitão. Ele aprende as letras das músicas, a tocar instrumentos. Nós vamos passando esses ensinamentos de geração em geração”, conta.
A mãe de Amanda, dona Maria Rosalina, também é poetisa. Ela lançou seu primeiro livro, “Memórias poéticas de uma congadeira”, em 2025, trazendo histórias sobre seu pai, relatos de sua vida, histórias da Congada, cantigas e outros poemas. “Eu fui a primeira mulher a carregar a bandeira na Congada Azul”, diz com orgulho.
A pesquisadora Élsie da Costa ressalta que, nos últimos anos, há uma certa dificuldade de conseguir a participação de rapazes nas congadas: “atividades esportivas e outras formas de lazer social concorrem com os encontros na Congada”. Além disso, “a participação nas congadas tem a ver com o sistema familiar, mas a adolescência é sempre um momento de vulnerabilidade. O que segura os jovens rapazes nos grupos são os tambores”, explica.
“As moças se identificam com a dança e têm cumprido importante papel no aprendizado e transmissão de conhecimentos. Elas constituem peças chaves na produção e organização dos batalhões, na confecção das fardas e na tomada de importantes decisões. O Batalhão as mantém junto com os filhos que participam desde a gestação. Dançam segurando o ventre, como se já embalassem o filho, ao ritmo da Congada”, diz a pesquisadora.
As mães, portanto, inserem as crianças na tradição. “As crianças congadeiras ouvem o som dos tambores desde o ventre. Aos dois anos, os marujinhos já identificam e reproduzem as sete batidas fortes. Aos quatro ou cinco já percebem e procuram executar algumas batidas intermediárias. Aos oito já acompanham os adultos”, continua.
O crescimento das crianças acompanha as diferentes posições dentro do grupo. Durante os cortejos, as crianças pequenas ocupam o centro dos batalhões, ficando mais protegidas. Já as crianças maiores, ocupam a posição de Marujos, atrás da primeira fileira, aprendendo a seguir o Capitão.
Patrimônio cultural

Élsie observa que há duas formas de participação dos congados em Atibaia: em festas tradicionais do calendário religioso e nas de caráter profano. “A primeira forma traduz a motivação interna que leva os grupos de dança a se apresentarem reverenciando os santos padroeiros ou cultuados. A segunda, convocada pelos poderes oficiais ou entidades particulares, refletem motivação externa ao próprio grupo, como festas cívicas e eventos culturais.”
Para ela, as festas de caráter profano também cumprem um papel importante, pois possibilitam “demonstrar as tradições e a cultura como fatores de formação do cidadão brasileiro e, em especial, do atibaiano”. Ela ressalta que há, no entanto, uma discussão entre os congadeiros sobre não perder o vínculo com o sagrado.
“Existe uma certa privacidade nas manifestações congadeiras. A transformação da tradição em produto e alegoria evidencia mais suas características visuais, sensorializam os ritos, mas não sensibilizam”, resume Élsie.
Desde 2019, a Associação de Apoio ao Folclore e Tradições de Atibaia – ATIFÉ vem tentando patrimonializar a tradição. “Eles fazem parte da nossa história, então o poder público tem obrigação de preservar o patrimônio, tanto material quanto imaterial. A salvaguarda poderia fortalecer ainda mais as tradições”, diz Lilian Vogel, uma das fundadoras da ATIFÉ.
Na opinião dela, ainda está longe de uma valorização efetiva. “ Falta vontade política. A salvaguarda pressupõe investimentos e a secretaria de Cultura não quer assumir este ônus. Há anos os grupos só têm apoio de transporte e estrutura para as festas, mais nada. Antigamente nós conseguíamos fornecer o fardamento, instrumentos, tênis e várias viagens a cidades da região. Hoje não conseguimos mais”, lamenta Lilian. A nível nacional, porém, o caminho de reconhecimento indica algumas vitórias importantes. Em junho, avançou para o Senado o projeto de Lei que reconhece o Dia Nacional dos Congadeiros e dos Reinadeiros, a ser celebrado anualmente em 7 de outubro, dia da Nossa Senhora do Rosário.