O que lideranças de terreiro e jovens de axé querem das eleições

Combate efetivo ao racismo religioso é a maior demanda das Comunidades de Terreiro para os próximos anos

O racismo religioso é uma realidade para mais de 76% dos terreiros brasileiros, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. E essa também é a maior preocupação manifestada por lideranças ancestrais, ativistas e jovens das Comunidades Tradicionais de Terreiro ouvidos pelo Nonada sobre as demandas que têm para as eleições. Em um momento de discussão de políticas públicas para os próximos anos, lideranças apontam que a desigualdade é uma constante em diferentes áreas e debatem os caminhos de enfrentamento.

Nos últimos meses, três casos de racismo religioso ganharam a cena pública, em diferentes regiões do Brasil. Em São Paulo, policiais militares entraram em uma escola municipal para investigar o desenho de uma criança de 4 anos sobre a Orixá Iansã. Na Bahia, o Ilê Axé Icimimó Aganjú Didê, considerado Patrimônio Cultural Brasileiro, precisou acionar a justiça para garantir o direito às suas terras, compradas há mais de um século. Já no Amazonas, o Centro Religioso Tambor de Mina Jeje-Nagô teve os ritos de sua casa invadidos e interrompidos pela polícia. 

Formados majoritariamente por pessoas negras — pretas e pardas, segundo o Censo de Religião mais recente —, os membros dessas comunidades analisam que o cenário se agrava no contexto atual do país, ainda que a população das religiões de matriz africana tenha triplicado nas últimas décadas. Neste ano, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) lançou a segunda edição da pesquisa “Respeite o Meu Terreiro”, desenvolvida pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) junto ao Ilê Omolu Oxum. Os dados revelaram que, entre os 511 terreiros de umbanda e candomblé entrevistados, 80% de seus membros foram vítimas de racismo religioso nos últimos anos.

Essa pesquisa mostra que, de norte a sul do Brasil, os desafios enfrentados pelos terreiros são semelhantes: perseguição a lideranças e comunidades, ataques físicos e simbólicos às casas de santo, luta por regularização fundiária, violência de facções criminosas nas periferias e impactos severos do racismo ambiental – que degrada e invade os territórios dessas tradições e suas matas, rios e biomas. Os pesquisadores e as lideranças escutados compartilham um ponto em comum: é preciso efetivar as leis que já existem e avançar na garantia efetiva de direitos. Segundo eles, o caminho deve ser feito junto aos mais velhos, que muito já conquistaram, e aos mais novos, que têm um papel fundamental nas lutas das comunidades tradicionais.

Nas redes e nas ruas, lideranças se mobilizam para garantir a aplicação das legislações existentes, como a Lei 10.369, e a conquista em direção a novos passos para as comunidades tradicionais. Foto: Mariana Maia/Arquivo pessoal/Nonada

Fortalecimento da legislação

Cruzando uma breve linha do tempo, os povos e comunidades tradicionais, junto com os movimentos negros, construíram direitos e políticas públicas importantes para proteger e valorizar seus quilombos e lideranças.

Em 2003, a Lei 10.639 estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas — uma medida que, mesmo sob o fogo cruzado do conservadorismo e do racismo institucional que atravessa as instituições educacionais, segue contemplando a história de pessoas negras e suas matrizes de conhecimento, cosmopercepções e culturas.

Na sequência, a assinatura do Decreto 6.040, em 2007, instituiu a Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Como explica a historiadora e coordenadora nacional do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, Silvany Euclênio, esse foi um marco fundamental que reconheceu formalmente os terreiros como territórios e “sujeitos de direitos” das políticas públicas.

Mais de uma década depois, em 2019, a mobilização negra garantiu a vitória histórica no Supremo Tribunal Federal (STF) pela constitucionalidade do abate religioso, barrando a tentativa de determinados grupos cristãos, segmentos conservadores e órgãos jurídicos, por exemplo, de criminalizar o rito do sacrifício animal praticado nos terreiros.


O babalorixá Alberto Jorge, coordenador geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (Aratrama), alerta para a urgência da formação crítica e do voto consciente nas comunidades de axé para as eleições de 2026. Foto: Arquivo pessoal/Nonada

A força dessa incidência pública continua gerando frutos: em janeiro de 2023, a sanção da Lei 14.519 instituiu o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, cravando no calendário oficial um dia não de celebração passiva, mas de confronto, memória e justiça em movimento. “Sem controlar instituições educacionais, sem controlar a mídia corporativa, o movimento negro conseguiu construir a data mais celebrada neste país, que é o 20 de Novembro, comemorado de Norte a Sul do país”, destaca Silvany, também apresentadora do Canal Pensar Africanamente.

Para a construção do tão aclamado “futuro ancestral”, a pesquisadora ressalta que, embora o fortalecimento jurídico de pautas específicas para populações de santo — sejam territoriais, ambientais, de saúde ou religiosidade — seja fundamental, a luta contra o racismo segue sendo central para a salvaguarda política dessas comunidades: “Toda e qualquer legislação que criminaliza o racismo é um avanço para a garantia das tradições de matriz africana”.

Terreiros são espaços civilizatórios   

A violência ganhou contornos dramáticos no terreiro do Babalorixá, Pai Alberto Jorge Silva, em Manaus (AM). Líder da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (ARATRAMA), ele teve seu corpo atravessado pelo ódio, pela fúria e pela violência, como nunca havia acontecido antes.

Sua casa, originária de uma linhagem que remonta a 1892 e preserva as tradições ancestrais Fon e Nagô, viu a urbanização predatória engolir os limites do seu território, localizado no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus. No início da década de 1990, ao fotografar a derrubada ilegal de árvores na Área de Preservação Permanente (APP), onde vizinhos tentavam lotear a área verde para construir uma movelaria e erguer um templo evangélico, Pai Alberto teve o quintal do terreiro invadido. Após uma discussão, ele foi agredido, carregando as marcas da fratura no corpo até os dias de hoje.

Para além da violência física, o racismo religioso se manifesta na negação de direitos básicos: em 2014, a rede ARATRAMA precisou acionar o Ministério Público Federal para garantir a isenção de IPTU a terreiros da região — direito concedido de forma facilitada para templos de qualquer culto,  mas frequentemente burocratizado aos povos de matriz africana. 

Para fazer frente a esse cenário de desigualdades, Silvany Euclênio destaca três premissas fundamentais: a democracia exige vigilância, os direitos não são uma concessão e a fé não pode ser usada como instrumento para discriminar.

Para Silvany, entender a fronteira entre a fé e a cidadania é a chave para exigir deveres concretos do poder público. Ela explica que o enquadramento dos terreiros na categoria ocidental de “religião” — embora tenha sido um recurso histórico fundamental para a continuidade dessas tradições — acabou, na contemporaneidade, limitando a atuação dessas populações. Por isso, a pesquisadora defende que o papel do Estado não é interferir no sagrado, mas sim assegurar a existência plena dos territórios ancestrais: 

“Hoje existe a compreensão de que os territórios de matriz africana não são templos religiosos, não são espaços de religião. Eles são espaços de prática de tradição e de existência de tradição e de valores civilizatórios”, defende. “São espaços de prática de saúde, de preservação ambiental, de justiça climática, de prática de segurança alimentar e nutricional. Portanto, eles são sujeitos de direito de política pública.”

A pesquisadora e ativista Silvany Euclênio, integrante do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, enfatiza a organização política e a construção de uma frente ampla entre as diversas tradições de axé. Foto: Arquivo Pessoal/Nonada

Na prática, as lideranças precisam separar o sagrado do direito civil. Silvany explica que o dever do Estado com a fé deve ser garantir a liberdade de consciência e de crença. Portanto, ao reivindicar políticas públicas, o que legitima o terreiro não são as suas práticas religiosas, mas sua força permanente como espaço de riqueza cultural e atuação comunitária.

É exatamente essa virada de chave — deixar de disputar o status de “religião” para se afirmar como “território” — que baliza a atuação dos mais velhos.

Política viva 

É justamente como fruto dessa consciência política construída pelos movimentos negros que as comunidades de terreiro têm repensado seu papel nas urnas. Diante de um cenário em que a fé foi sequestrada como moeda de troca e espaço de conversão política, casas de santo e barracões seguem se organizando como atores ativos de disputa institucional. 

Para o Babalorixá, professor e doutor em Linguística e Semiótica Sidnei Nogueira, o extremismo pautado no ódio transformou a religião em um instrumento de poder. Ou seja, o fundamentalismo religioso não disputa apenas fé, mas o Estado, as leis, a educação, ditando quem tem direito de existir.

Prestes a lançar seu próximo livro, O Perigo de Uma Religião Única, sobre a relação da fé negra ancestral com a democracia, Pai Sidnei chama atenção para como o extremismo tem manipulado as instituições no Brasil: “Eles estão usando a religião como ferramenta, como instrumento para conversão política. Quais violações têm sido cometidas nesse percurso? Por isso, nós precisamos de uma agenda que não é mais sobre o rito, não é mais sobre o mito. É uma agenda política.”

Para o sacerdote, assumir publicamente uma religião de matriz africana no Brasil é um ato radical de coragem que coloca pessoas de terreiro na linha de frente de uma luta ancestral. Liderança da Comunidade da Compreensão e da Restauração Ilè Asè Sangó (Ccrias – SP), de nação Ketu, ele defende que  “o Candomblé é uma causa” que exige não só compromisso político e ético, mas também organização coletiva.

Segundo ele, para os povos de terreiro, a “epistemologia da encruzilhada” e “saber preto” são as estratégias para construir um projeto de poder voltado às populações afro-religiosas. Enquanto a cultura política do Ocidente é orientada pela lógica do controle, da verdade absoluta e da exclusão, o Babalorixá afirma que a política ancestral é a cultura da inclusão, da diversidade e do diálogo, onde as diferenças e as contradições são terras férteis para a geração de vida e de direitos.

Diferentes enfrentamentos

Pai Sidnei também enxerga a internet como um campo estratégico para desarmar a violência e formar a juventude: “Você só combate medo e ressentimento com informação. E é por isso que estou no Instagram, por isso que estou na internet.  Não adianta. Eu não vou conseguir conversar com as pessoas se eu não estiver onde elas estão, sobretudo os jovens”, pontua. Para a liderança, o uso da tecnologia é também uma atualização simbólica e espiritual do axé: “Eu penso que nós precisamos usar o mundo virtual. A tecnologia envolve Exu, envolve Ogum, quer dizer, a comunicação, a palavra, a mutabilidade”.

Diante dos ataques e das distorções que circulam nas redes, Pai Sidnei defende que a promoção da cultura de terreiro segue sendo fundamental para a agenda política dessas tradições: “Eu sempre falo para as pessoas: ‘Olha, a minha linha editorial é a linha editorial do professor’. Então, ela é didático-pedagógica, ela é de promoção dos saberes ancestrais, ela não é de ataque. Atacar, já tem bastante gente que faz. Eu não vou fazer. Nesse momento, a nossa agenda precisa incluir duas coisas: produzir uma contranarrativa e colocar essa contranarrativa no mundo”

Sobre as demandas no cenário das eleições, ele defende que a regulação das plataformas de tecnologia também é importante:  “O terreiro é a favor da revolução do mundo virtual. O mundo virtual não pode ser uma terra sem lei, porque justamente a ausência de lei prejudica a quem mais? A nós. Negros, mulheres, indígenas, religiosos de matriz africana. Segundo ele, a regulação das redes é essencial para a garantia de direitos dessas populações. 

Luta que vem de longe

De Cachoeira, na Bahia, Tata Lubito Konmannanjym fala das Comunidades de Terreiro como seu território, identidade e raiz, valores que aprendeu com seus ancestrais e seus mais velhos, e que vêm orientando sua caminhada pela defesa das tradições de axé:

“A gente quer ficar disputando religião com católico, com protestante. Mas nós somos mais amplos que isso. Somos um território cultural e de matriz africana. Nós temos várias raízes, do Fon, do Ijexá, do Yorubá, do Bantu. Nós somos um movimento, e precisamos fazer política da porta para fora. Lá dentro, a gente faz discussão de religião”.

Historiador e filho de Nzazi, iniciado no Unzó kwa Mpaanzu, da nação Angola, em 1987, o hoje presidente da Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (ACBANTU) busca na memória das cantigas o passo e o ritmo de sua luta. Ao lembrar uma cantiga de saída de Caboclo, entoada na tradição de Angola, ele explica como se faz política, cultura e direitos pelas macumbas do Brasil: “Há muito tempo que eu não lhe vejo. Eu tô com saudade de coração”.

Com um sorriso sereno no rosto e a palavra firme, ele explica que é no culto aos ancestrais que se encontra o caminho:

“É por eles que eu estou aqui, entende? Alguém perdeu a vida por mim. Alguém foi sacrificado, foi violentado, foi estuprado. Eles lutaram para manter essa cultura viva, na qual eu posso errar: por excesso, mas não por negligência. A gente tem que ter sabedoria para não perder a essência e continuar cultuando a energia dos nossos mais velhos, dos nossos pais, dos nossos avós e a energia da natureza. Cantar guerra não adianta, a gente precisa ter sabedoria para rodear, igual a água., diz ele.

Afirmar a macumba como vetor de luta política é recusar o lugar de mero objeto de estudo, folclorização ou homenagens simbólicas. O povo de santo deixa de ser público-alvo de medidas pontuais para se colocar no centro da elaboração das leis, da disputa pelos orçamentos públicos e da tomada de decisões que definem o país. Afinal, garantir direitos no papel exige a materialidade dos recursos, sob o risco de não sair da promessa. Como resume de forma categórica Silvany Euclênio: “Política pública sem rubrica orçamentária não é política pública, é apenas retórica”. 

Foto: Mariana Maira/Arquivo pessoal/Nonada

Juventudes de terreiro

Para sustentar esse projeto nas eleições, a liderança e o acolhimento da juventude tornam-se a pauta mais urgente das casas de santo. Para o Babalorixá Sidnei Nogueira, a longevidade da resistência ancestral agora depende da participação dos mais novos: “Nós nunca precisamos tanto de uma formação política e formação de liderança de jovens de terreiro. A gente precisa da juventude no terreiro”, defende ele.

Essa virada passa por reconhecer que o percurso da construção de direitos civis dos terreiros segue não se restringindo às vias tradicionais da política institucional, mas acontecendo de forma vital pela educação construída no chão dos terreiros, junto aos mais velhos.

Tata Lubito Konmannanjym também defende que os jovens de terreiro são “a esperança” do amanhã e que “o projeto de poder da população negra de terreiro é a educação e a formação negra”. Mas ele alerta: é preciso “uma juventude qualificada, que saiba dos ritos, dos costumes, das línguas, que saiba da sua origem, de sua identidade e de onde veio, defendendo o território de cabeça erguida” para que o fazer político esteja alinhado à educação de terreiro.

Sem a preservação da cultura de axé que a sociedade brasileira tenta embranquecer e demonizar, não existe futuro para o Brasil — apenas a repetição da violência. 

Essa necessidade de educação ancestral para a luta política encontra eco na caminhada e perspectiva de Bárbara Stela, Iyawô de Oxóssi do Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, e Coordenadora Pedagógica Adjunta da Biblioteca Ikòjópò Ála Omodé / Maria Stella de Azevedo Santos. Para pensar na mobilização dos jovens de axé nas eleições de 2026, a pesquisadora busca o significado da cumieira — o espaço mais alto e central em muitas casas de santo, onde o axé é plantado e de onde emana a força espiritual dos terreiros.

“A cumieira estruturante das nossas vidas, enquanto pessoas de axé, vai estar atrelada a esses princípios fundantes do nosso viver. É o ensinamento dos nossos mais velhos, o modo como essas pessoas estabelecem a educação conosco, a cultura e a identidade de cada família de santo”. explica. “Como é que, a partir da educação do meu espaço, dos meus saberes, tudo isso vai edificar a minha vida e me preparar para caminhar em qualquer espaço, dentro ou fora do terreiro?”, provoca a pedagoga.

É fortalecendo essas bases e vivendo o seu próprio processo de aprendizado, principalmente o “tempo de iyawô” – período de recolhimento, iniciação e aprendizado dos fundamentos da tradição junto aos mais velhos – que os mais novos se preparam para a disputa institucional. Bárbara defende que a aproximação com a política é um dever coletivo e intergeracional:

“ A juventude pode e deve se aproximar desses pleitos, da garantia de direitos, dos debates e das políticas públicas. Porque lá no futuro — além do aqui e agora —, são essas questões que vão reverberar em melhores condições de existência”, vislumbra.

Relembrando o provérbio “Cantiga que menino canta, gente grande já cantou” ensinado por Mãe Cantu, Bárbara Stela aponta que as pautas políticas presentes já foram riscadas: “O que nós estamos buscando hoje enquanto juventude de terreiro, na garantia de direitos e em pautas de políticas públicas, os nossos mais velhos já fizeram à base de muita luta, suor e sangue”, reflete.

Para Bárbara, essa formação de lideranças no chão da roça se conecta diretamente com a efetivação real da Lei 10.639 nas escolas. A cobrança ao poder público exige recursos e fiscalização para o ensino obrigatório de história e cultura afro-brasileira, quebrando o veto ideológico nas salas de aula e estimulando programas permanentes de empoderamento e formação política para a juventude de terreiro. 

O voto que combate o racismo religioso 

A mobilização da juventude, contudo, esbarra em diferenças de amparo estatal e de visibilidade que cortam o país. Enquanto o Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de Bárbara Stela, é um patrimônio centenário tombado desde o ano 2000 em Salvador, outras casas periféricas e do interior do Brasil enfrentam a ausência de regularização fundiária, pressões socioambientais e a ameaça constante de invasões. 

É nessa realidade de vulnerabilidade que o educador, historiador e egbomi Renato Carvalho vivencia os desafios do terreiro Ilé Àṣẹ Àiyé Ọbalúwáiyé. Localizado em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o local é constantemente pressionado pelo avanço da especulação imobiliária, pelo racismo ambiental e pelas disputas do poder paralelo.

Segundo as lideranças ouvidas pelo Nonada, é  essa assimetria que faz da regularização fundiária uma demanda central para as eleições de 2026. Garantir a titulação oficial das casas que ainda não possuem registro e blindar o chão do axé contra a especulação imobiliária significa reconhecer os terreiros como guardiões da biodiversidade e de áreas de preservação ambiental.

Para Renato, incluir os mais jovens no debate político diante dessa dura realidade “é um chamamento incrível” para que eles se compreendam “como sujeitos ativos da nossa sociedade”. É por isso que, em anos eleitorais, sua casa de santo também mobiliza discussões abertas e coletivas sobre candidaturas e agendas: “Já abrimos espaço para que candidatos e candidatas conversassem presencialmente com a nossa comunidade e divulgassem a sua plataforma”, conta.

O historiador reforça que além da importância do voto consciente pelo povo de terreiro, as candidaturas religiosas também devem estar alinhadas com pautas transversais: “Não faz muito sentido o cara defender o terreiro e votar contra os professores na Câmara na segunda-feira, por exemplo”, arremata Renato. 

O Pai Alberto Jorge Silva (de vermelho) foi testemunho do racismo religioso e atua nas articulações políticas e sociais em defesa dos povos tradicionais de terreiro. Foto: Arquivo Pessoal/Nonada

A provocação não é por acaso. Como educador e pesquisador dedicado às infâncias de terreiro, Renato alerta que a defesa da educação pública é uma das demandas centrais a serem cobradas nas urnas. Afinal, a escola — que deveria ser um espaço de acolhimento e proteção — muitas vezes se converte em um dos lugares mais hostis para uma criança de axé, tornando-se o espaço das primeiras violências do racismo religioso. 

Enfrentar essa hostilidade exige ir além da denúncia e efetivar a Lei 10.639/03. Bárbara Stela aponta que a legislação esbarra em barreiras estruturais: a ausência de obrigatoriedade da pauta nas licenciaturas que formam os professores, a falta de orçamento carimbado no poder público e a restrição da aplicação a datas episódicas.

“A aplicação muitas vezes falha e o tema fica restrito ao mês de novembro ou a festivais isolados de dança e música”, explica. Para a pesquisadora, o desafio é romper com a visão meramente documental do currículo e exigir um compromisso ético do Estado e dos docentes para que os saberes de terreiro sejam tratados como ciência e produção real de conhecimento nas salas de aula, e não como folclore: “Precisamos buscar ferramentas para justificar que o que nós estamos falando é conhecimento”, defende Bárbara Stela

Terreiro, independentemente do tamanho

Essas disparidades de infraestrutura, apoio político e acesso a políticas públicas são apontadas por Tata Lubito Konmannanjym ao falar dessa tensão entre capital e interior, denunciando como o olhar do poder público costuma ficar restrito às grandes casas de santo das capitais:

“Quando o governo vai ajudar a gente, ele quer ajudar o da capital, que tem um nome grande. Esquece que um terreiro menor, sem estrutura física, é tão importante quanto”, denuncia. Para o presidente da ACBANTU, é urgente que o Estado passe a enxergar e incentivar a tradição viva que pulsa longe das grandes cidades. “A nossa força espiritual também está interior, que tem tudo ali próximo: tem mata, tem bicho, tem rio perto, tem rua de barro. Esses elementos da natureza, tudo ali próximo. Só não é famoso”, conclui.

Pai Alberto também reforça: “Quando nós falamos em democracia, quando nós falamos em equidade, nós temos que pensar nos curandeiros, nos mestres, nos que têm mesinha, nos que têm banquinha. Embora seja num pequeno cômodo, num pequeno espaço, é templo. Sim. É espaço sagrado de povos e comunidades tradicionais”, ressalta, defendendo que esses territórios devem ser amparados por direitos.

A Comunidade da Compreensão e da Restauração Ilê Asé Sàngó (CCRIAS) é um terreiro de candomblé localizado em Mairiporã, São Paulo, liderado pelo babalorixá, escritor e doutor em semiótica Sidnei Barreto Nogueira. Foto: Bendito Benedito/Arquivo Pessoal/Nonada

O ataque aos tambores

Essa vulnerabilidade territorial e a urgência de garantias políticas esbarram em uma ferida histórica que volta a assombrar os terreiros: a violência exercida pelo próprio Estado. Para Pai Alberto, as recentes investidas policiais sobre casas de axé reeditam episódios sombrios do passado:

“Tivemos recentemente episódios em que a polícia invade o terreiro e apreende atabaques — algo digno da ditadura ou da Quebra de Xangô. É quase surreal o retrocesso que estamos assistindo”, afirma. A denúncia resgata o massacre ocorrido em Maceió, em 1º de fevereiro de 1912.

Naquele dia, uma milícia paramilitar destruiu os principais terreiros da capital alagoana, queimou objetos sagrados e espancou religiosos em praça pública. O terror institucional inaugurou o fenômeno do “xangô-rezado-baixo”: por décadas, os rituais afro-brasileiros foram realizados em silêncio, sem cânticos, palmas ou o toque dos atabaques — um retrato da violência do racismo religioso.

Como alerta a pesquisadora e ialorixá Silvany Euclênio, esse trauma centenário consolida a necessidade trágica de calar os tambores para conseguir sobreviver à violência. “Até pouquíssimo tempo, as pessoas em Alagoas não tocavam os tambores como resquício desse episódio. O risco que vemos crescer hoje no Brasil é justamente esse: o retorno do medo de tocar o tambor para proteger a própria vida”, adverte Silvany.

Essa mobilização permanente se traduz em incidência institucional direta, a exemplo da campanha “Justiça e Reparação”. Lançada para cobrar a devida representação no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) – esvaziada após 2016 –, a articulação obteve uma vitória recente: o compromisso do Ministério da Cultura em corrigir a nomenclatura da cadeira para Culturas dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, restituindo a identidade política e coletiva das comunidades. 

Contudo, como alerta Silvany Euclênio, a conquista institucional não pode adiar a proteção à vida. Diante da escalada de violência contra os territórios sagrados, o movimento exige a criação urgente de um Grupo Interministerial, unindo Cultura, Justiça e Segurança Pública, para desenhar ações estruturantes de combate ao racismo religioso. 

Conforme aponta o relatório Eleições 2024 e as candidaturas afrorreligiosas, do grupo de pesquisa Ginga (UFF) — sob coordenação da cientista social Ana Paula Mendes de Miranda —, a tradição das análises eleitorais costuma ignorar a força política e o impacto social das casas de santo:

“A ciência política não olha para o terreiro como um grupo importante na definição de votos. Todo mundo olha para católico e para evangélico, mas o terreiro é visto como se fosse um espaço não político e sem competência de influenciar politicamente o voto”, analisa a pesquisadora, também Ekedy do Ilê Axé Oyá Onira (RJ).

A Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (ACBANTU), Tata Lubito Konmannanjym reflete sobre a importância da educação de terreiro e da pedagogia ancestral na formação dos jovens para a atuação política. Foto: Arquivo Pessoal/Nonada

Essa invisibilidade começa no próprio registro oficial. Como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não disponibiliza a religião como dado público obrigatório, menos de 2% da base total de candidatos é categorizada por pertencimento de fé. O mapeamento do Ginga UFF atua sobre esse contexto ao identificar 284 candidaturas afrorreligiosas distribuídas por quase todo o país — com forte concentração na Bahia (17,6%), São Paulo (16,9%), Rio Grande do Sul (15,8%) e Rio de Janeiro (14,4%).

O levantamento revela a presença de projetos políticos construídos de modo coletivo, por terreiros e movimentos sociais, que têm como semelhança uma busca por direitos básicos para as comunidades: saneamento, saúde, educação, preservação ambiental e a reparação de violações históricas. 

Como sintetiza a coordenação do Ginga UFF, o povo de santo ocupa a cena pública para garantir direitos coletivos e exigir tratamento equivalente: “Se a política atravessa a religião para garantir o direito dos cristãos, nós também queremos discutir o nosso pedaço. O terreiro está na política para garantir a própria existência, não para levar ninguém para a sua fé”. 

Essa busca por garantia de direitos fica evidente na própria composição dos candidatos. No universo afrorreligioso, 20% das candidaturas são encabeçadas por sacerdotes, sacerdotisas ou filhas e filhos de santo. 

Nas urnas, o perfil desse eleitorado subverte a lógica hegemônica da política tradicional: onde o campo conservador se ancora em figuras majoritariamente masculinas (71,1%), a representação eleitoral de matriz africana é massivamente feminina (63,4%), negra (83%) e de alta escolaridade (82,9%), concentrando-se em legendas, como o como PSOL (29,3%), PSB (17,1%) e PDT (14,6%).

Esse avanço nas urnas carrega tradição e legado: o protagonismo de Ialorixás, Mametus, Ekédis, Makotas, rezadeiras, benzedeiras, parteiras, mestras da cultura e raizeiras. A ocupação da política pelas mulheres de axé reflete a liderança histórica feminina na sustentação das comunidades de terreiro — do chão ancestral às políticas públicas —, atuando como guardiãs da continuidade das tradições, da gestão do território e da preservação da memória.  

Para muitas dessas lideranças, contudo, a vitória no pleito vai muito além da matemática das urnas: é um ato tático de demarcar o espaço público e driblar a invisibilidade imposta pelo Estado. Como observa a antropóloga, Mariana Maira, Yawô de Oxóssi do Ilè Àjágúnà Asé Ògún Mejéjé (RJ) e pesquisadora do Ginga UFF, a candidatura se afirma como um manifesto da identidade política e cultural dos terreiros:

“A gente já avançou um pouco no discurso de que ‘fé não se mistura com política’. O terreiro tem visto cada vez mais o quanto é preciso estar articulado — seja com a associação de moradores, fazendo ações de incidência no território, ou buscando apoio de vereadores, deputados e prefeitos —, justamente para barrar a violação de direitos. A gente tem ciência de que nem sempre vai ganhar, mas o que importa é estar ali, marcando presença com a imagem de torso, colocando o nome de Mãe, Makota, Pai ou Babá. É um protagonismo político por espaço”, enfatiza Mariana. 

O Babalorixá Pai Alberto Jorge também reforça que o processo eleitoral exige formação crítica diária para que o povo de santo avalie os discursos, as promessas e as plataformas eleitorais para votar criticamente:

“A serpente, cada vez que come, troca de pele. Essa é uma lição que a natureza e a ancestralidade nos colocam. Nós temos que nos alimentar do conhecimento, processar essa informação e tirar a pele antiga, essa pele morta, cheia de confiança em quem, na realidade, é nosso inimigo.”

A defesa dos direitos humanos, entre eles a saúde, o território e a expressão cultural, faz parte do que as comunidades de terreiros considera central para os próximos anos.
Foto: Mariana Maira/Arquivo pessoal/Nonada

Muito além da urna 

Para as comunidades de axé, a política não é uma discussão abstrata ou distante. Ela atravessa o cotidiano em sua dimensão mais concreta: está na segurança para realizar uma gira sem medo, no direito de circular usando roupas e símbolos sagrados, na proteção do território e no enfrentamento direto ao racismo religioso.

A disputa pelo poder público atinge o chão do terreiro no posto de saúde que respeita os corpos pretos, na escola que recusa a demonização das tradições de matriz africana, na delegacia que registra a violência com o devido rigor e na decisão institucional de reconhecer as casas de santo em sua dignidade de comunidades tradicionais.

Embora ganhem urgência no horizonte eleitoral de 2026, essas reivindicações são fruto de mais de três séculos de resistência. Não se trata de uma pauta passageira de ano de pleito, mas de uma articulação permanente das lideranças e dos movimentos de terreiro, que traduz as necessidades estruturais do povo de santo em um projeto coletivo de futuro.

Diante desse cenário, Pai Sidnei é categórico: “Só se enfrenta um projeto de poder com outro projeto de poder: o nosso”. Para o Babalorixá, o horizonte eleitoral exige fortalecimento interno, protagonismo da juventude e alinhamento estratégico entre as próprias casas.

Essa virada de chave, como sintetiza Silvany Euclênio, depende tanto da maturidade política quanto da construção de uma frente ampla entre as comunidades de axé. Para a pesquisadora, a diversidade de nações e tradições não pode fragmentar a luta coletiva: “A compreensão dessa unidade está vindo muito recentemente e é fundamental para a construção da agenda política dos povos de terreiro”.

Como um lembrete de que a política dos terreiros é, acima de tudo, um pacto com a vida no tempo presente, o pesquisador Renato Carvalho evoca um itan, uma história afro-brasileira, para projetar o futuro. A tradição nagô conta que, quando Iku (a morte) vagava descontrolada aterrorizando a humanidade, nem mesmo as divindades guerreiras conseguiram freá-la. Foram os Ibejis – as crianças gêmeas –, escondidos na floresta e munidos de tambores mágicos, que se revezaram na música e fizeram a morte dançar até a exaustão, obrigando-a a firmar um pacto.

“O mais incrível desse itan é que quem salvou o mundo foram as crianças”, reflete o educador. Ao estruturar suas demandas para as urnas de 2026, as comunidades de terreiro reafirmam essa mesma sabedoria: cultuar, cuidar e preparar as novas gerações não é apenas projetar o amanhã, mas é garantir a continuidade da memória, do axé e da cultura afro-brasileira.

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