O Nonada segue a sua cobertura do Oscar 2012 com o filme O Artista. Acompanhe-nos para ficar por dentro dos filmes que têm (ou não) chance de levar alguma estatueta para casa.

O Artista concorre a dez estatuetas no Oscar (Crédito: Divulgação)

Por Gustavo Dutra*

A transição do cinema mudo para o sonoro foi um processo traumático para várias figuras da época – e as histórias das grandes carreiras que se despedaçaram para dar lugar a novas estrelas já inspiraram várias obras, dentre as quais se destacam o clássico Crepúsculo dos Deuses e, é claro, o inesquecível Cantando na Chuva. Primeiro filme mudo a ter chances de vencer o Oscar desde a primeira edição da cerimônia (em 1927, quando Asas foi premiado), é curioso que O Artista esteja concorrendo com A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese: apesar de ambos contarem histórias que envolvem os primeiros anos do Cinema, o filme de Scorsese encontra-se na ponta oposta da linha do tempo da linguagem cinematográfica.

Escrito pelo diretor Michel Hazanavicius, O Artista conta a história do fictício ator de filmes de aventura George Valentin (Jean Dujardin), astro do cinema mudo na melhor fase de sua carreira, mas cujo casamento está à beira do abismo. Após a première de seu mais novo filme, Valentin conhece a jovem Peppy Miller (Bérénice Bejo), que passa a trabalhar como figurante no mesmo estúdio do ídolo. Quando surge a novidade do som, Valentin resiste e investe todo o seu dinheiro na produção de um longa fracassado, logo sendo relegado ao esquecimento enquanto Peppy torna-se em pouco tempo a diva favorita dos talkies de Hollywood.

Homenagem repleta de carinho ao Cinema (assim como Cantando na Chuva), O Artista reserva boa dose de seus tributos à obra-prima de Gene Kelly e Stanley Donen: Valentin, no auge da fama, a todo momento exibe um sorriso canastrão, exatamente como Don Lockwood; sua co-estrela (vivida por Missi Pyle, no filme perfeito para seus exageros habituais) irrita-se com a insistência do colega de deixá-la em segundo plano, assim como a vilã Lina Lamont; e, em certo momento Peppy é vista sob uma forte chuva com capa e chapéu idênticos aos da Kathy Selden de Debbie Reynolds. Além disso, Hazanavicius faz de O Artista um exercício de estilo interessantíssimo, empregando várias características visuais dos filmes da década de 20 – desde as mais óbvias, como a razão de aspecto 1:37.1 (similar ao 1:33.1 do período) e os intertítulos que trazem as falas dos personagens; até outras mais sutis, como os matte paintings (imagens de fundo) empregados nas produções da época e as variações do tom do preto-e-branco do negativo. Somando-se a isso, a fotografia de Guillaume Schiffman encontra tempo até para referências às sombras do expressionismo alemão, enquanto a recriação de época mostra-se convincente e impecável.

No entanto, O Artista não vive apenas de citações e homenagens: o roteiro de Hazanavicius, embora com problemas pontuais, faz um excelente trabalho no fio condutor da narrativa: o crescente encanto que Valentin e Peppy Miller sentem um pelo outro, simbolizado por cenas de comovente beleza e romantismo, como o momento em que ambos resistem a encerrar uma dança que deveria durar poucos segundos e outro em que Peppy se conforta no smoking do amado. E isto funciona porque os atores estão muito bem: Jean Dujardin (favoritíssimo ao Oscar), com um tipo físico que lembra Gene Kelly, retrata Valentin como um sujeito orgulhoso, mas também fica claro que ama sua Arte e seu público, exibindo uma contagiante alegria diante destes. Assim, sua queda torna-se triste, algo evidente no leilão dedicado a vender suas posses: só há idosos fazendo lances, como se ele próprio fizesse parte do passado.

Por sua vez, Bérénice Bejo cria uma Peppy Miller cheia de vida que se destaca no mundo do Cinema pelo visível prazer e energia com que executa seu trabalho, resultando numa performance incrivelmente carismática e cativante – e a cena em que ela evita cair na armadilha da vaidade soa tocante (apesar de não muito verossímil) por referir-se não apenas à sua relação com Valentin, mas também ao descaso da Hollywood falante com seus antigos astros. E enquanto John Goodman e James Cromwell, com seus rostos expressivos e marcantes, fazem ótimos trabalhos em papéis menores, o filme é roubado mesmo pelo cãozinho Uggie, que, simpático e bonitinho ao extremo, funciona bem em quase todos os seus momentos (seu papel na cena do incêndio soa forçado), lembrando o esperto Milu de As Aventuras de Tintim.

Mesmo cheio de virtudes, O Artista comete um tropeço aqui e ali – especialmente no ato final, que investe excessivamente em reviravoltas clichês e melodramáticas: fica óbvio, desde o início, qual lata de filme Valentin conseguirá salvar de um incêndio em sua casa, assim como sua reação ao fazer uma descoberta na casa de Peppy. Porém, isso é compensado pela forma com que o cãozinho de Valentin desperta o riso na cena mais dramática do filme sem fragilizar a importância do que está acontecendo.

Divertido, ingênuo e embalado por uma trilha excepcional de Ludovic Bource, mesmo os momentos em que O Artista soa simplista são compensados por sua cena final: técnicas podem ser criadas para tornar o Cinema mais complexo – som, cores, terceira dimensão – mas, assim como para o público de 1927 da cena inicial, ele estará sempre lá para envolver o espectador.

* Estudante de jornalismo da UFRGS, autor do blog http://saladeprojecao.wordpress.com/

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