A paraense Raquel Leão prepara Nega, seu novo EP (Foto: Erick Peres/Nonada)
A paraense Raquel Leão prepara Nega, seu novo EP (Foto: Erick Peres/Nonada)

Em meio à turbulência do país, a arte faz a resistência da alegria e alguns lugares servem de refúgio temporário para a celebração dos encontros. Foi assim quinta-feira à noite (17 de março), no Comitê Latino-Americano, que acolheu o show de Raquel Leão, cantora e compositora paraense, radicada em Porto Alegre há quase seis anos. Acompanhada pelas vozes e violões de Ricardo Cordeiro e Jéssica Berdet no primeiro bloco, e de Pramit Almeida, no segundo, Raquel interpretou as cinco composições de seu EP Nega, alternadas com temas de Elza Soares, Caetano Veloso, Ivan Lins, Luiz Tatit e Chico Buarque.

A voz de Raquel tem um timbre que tende ao grave, com um toque de rouquidão irresistível. Estar ali, ouvindo ela cantar em meio a cerca de cinquenta pessoas, tendo pago o valor singelo de R$ 5,00 para o show, foi de um sabor agridoce. Açúcar e muito afeto pela qualidade das interpretações e por ouvir em primeira mão canções como “Te ter”, uma das que compõem o EP Nega. Seus versos românticos e a melodia – que transmite o embalo solar do apaixonamento – encheram o Comitê de sorrisos e olhinhos molhados. Outros grandes momentos foram a interpretação de “Capitu”, de Luiz Tatit, e o encerramento o show, com “Mulher do Fim do Mundo”, cuja interpretação recebeu aplausos de pé. A leve amargura foi sair de lá pensando no fato de artistas dessa qualidade não conseguirem sobreviver de seu trabalho em nosso país.

Mais cedo naquele dia, pude conversar com Raquel por cerca de duas horas, um diálogo fluido e aberto, em que ela me contou sobre sua trajetória pessoal e artística, suas impressões com relação ao cenário cultural local e questões como representatividade, empoderamento e identidade. Raquel tem o olhar firme e o sorriso doce. Ao falar, transmite uma mistura de força e suavidade que transparece também em suas composições. “A revolução do amor”, missão que ela reconheceu como sua a partir da vivência na comunidade Osho Rachana, onde vive desde 2010, é o que poderíamos chamar de núcleo simbólico do EP Nega. Quem quiser apoiar esse projeto – que é de música, mas é, fundamentalmente, de vida – tem até amanhã (20 de março) para contribuir com o financiamento coletivo no Catarse.

Abaixo, uma parte da nossa conversa.

Raquel – Quando eu morava em Belém, minha música era de um jeito e depois que eu vim para cá para Porto Alegre ela foi ficando de outro, por tudo, pela temperatura, tudo influencia, entende? A música é corpo, ela tá no teu corpo, ela vem do que tu sente, porque ela é do teu sensorial, o primeiro lugar onde ela reverbera é no teu corpo. Então, do jeito que o teu corpo estiver, tu vai sentir e a partir daí tu é um compositor, tu vai compor a partir disso. Aqui em Porto Alegre eu sinto que o que chama a atenção das pessoas, o que chama atenção para a música que eu faço, é que ela é – eu não tenho uma classificação, né, ah, perguntam assim: o que é a tua música? Que estilo é?

Nonada – Essa é uma das perguntas que eu ia te fazer inclusive (risos).

Raquel – E eu nem ia saber te responder. Mas uma vez alguém me disse: “a tua música é uma música afro-amazônica”. E eu respondi: pode crer, é verdade. Ela é uma música afro-amazônica, ela é muito forte, ela tem o tambor, mas ela também tem a malemolência do rio, que é uma vivência muito forte no Pará. Aqui tem o Guaíba, o lago, e é bem parecido nesse sentido, aquele cais que nem aqui, mas lá é rio mesmo, é o rio Guamá, que é enorme. Então os ribeirinhos, o pescado, tudo isso é uma coisa muito típica do cotidiano de Belém. Por isso quando disseram assim “ah, tua música é uma música afro-amazônica”, eu pensei é, eu posso dizer isso sim, que minha música é afro-amazônica e ela vai ser afro em qualquer lugar. Vai ser afro em Belém, vai ser afro no Rio Grande do Sul, porque aqui também tem uma influência afro muito forte, ainda que às vezes as pessoas não queiram ver.

Nonada – Sim. Já que tu falou disso, queria te perguntar por que tu escolheu vir do Pará para o Rio Grande do Sul.

Raquel – Na verdade, em primeiro lugar eu escolhi a comunidade. Eu vim para morar na comunidade. Como o Rio Grande do Sul é um lugar tão longe, é na outra ponta, eu nem tinha em mente vir conhecer o Rio Grande do Sul. Mas aí eu conheci a comunidade do Namastê e vim passar o final do ano aqui, na gincana, que é a ginacana Namastê, que acontece todo ano. E então eu fiz um processo terapêutico que se chama “Pai e Mãe”, uma dinâmica bem profunda, que a gente faz no sítio. A gente fica em torno de 18 dias no sítio, trabalhando essa relação primeira que a gente tem com nosso pai e nossa mãe, para a partir daí ir entendendo como a gente se relaciona com tudo, com as pessoas, com a grana, com trabalho, com o mundo, com os amores, a partir dessa relação primordial. Depois desse processo eu já nem queria voltar para casa. Ainda fiquei mais um mês por aqui e voltei para Belém dizendo ao pessoal daqui que viria em junho para Porto Alegre. Foi o que eu fiz e tô aqui desde lá, são quase seis anos.

Nonada – Foi um caso de paixão, então?

Raquel – Sim. Me apaixonei pela comunidade. Mas depois disso tem também o meu carinho e meu coração pelo Rio Grande do Sul e, mais precisamente, por Porto Alegre. Porque o que aconteceu: em Belém eu cantava na noite, mas as minhas músicas eu quase não mostrava. Eu fazia cover, eu fazia bar, gig e tudo. Quando eu vim morar para cá eu continuei compondo, mas também não mostrava muito. Aí apareceu o Autoral Social Clube, e eles me convidaram para cantar lá. Me lembro que eram sete artistas e cada um cantava três músicas. Eu cantei minhas três músicas, as pessoas gostaram, nisso eu conheci vários outros músicos que começaram a tocar essas canções, aí elas também foram tomando outro rumo à medida que cada um se apropriava dela. Então, na real, o meu trabalho como compositora apareceu aqui em Porto Alegre.

Nonada – Que legal. Eu queria saber justamente como tu sente o cenário de Porto Alegre para a musica autoral, mas pelo que tu disse foi aqui que tu conseguiu encontrar espaço. Apesar disso, eu vejo que tem bastante música autoral em Porto Alegre, mas que pouca gente conhece. Como tu entende essa situação?

Raquel – Sim. Tem muito músico autoral. Tem muito músico autoral foda. Mas é incrível que muitas pessoas não conhecem essas pessoas mesmo. Tem muito, mas eu acho que isso é uma coisa em nível de Brasil. Porque eu, honestamente, considero a música brasileira a melhor música do mundo, justamente porque a gente tem essa grande mistura e – uns mais outros menos  – existe uma abertura para a troca. Ainda não é fácil, eu vejo amigos meus lutando para mostrar a música deles, porque tem essa coisa com a cultura né –  que o governo e a população mesmo não dão tanto valor. Tem essa dificuldade, a dificuldade de grana. Eu quero gravar meu EP e eu não tenho grana para gravar um EP, mas se eu não gravar, as pessoas não conhecem a minha música. O que aconteceu comigo, por exemplo? Desde que eu comecei a cantar músicas próprias, as pessoas que gostam me perguntam: onde eu acho a tua música? Elas não acham (risos). Tem vídeo no Youtube, mas enfim. O que aconteceu de mais curioso foi que alguém pegou – até hoje eu não achei a pessoa, porque queria muito agradecer a ela – um dia alguém me liga e diz assim “ei, tô escutando tua música na rádio”, e eu digo, meu deus, mas de onde? Provavelmente ela pegou de um vídeo. A gente fez um Autoral no 512, eles têm um trabalho muito massa com a produtora Outros 500, entende, fizeram uma filmagem massa, com um áudio massa, eu acho que pegaram dali e até hoje está tocando na rádio.

Nonada – Qual é a canção?

Raquel – É a “Tótem”, que eu digo que é unanimidade. Todo mundo adora ela. Então foi isso, eu me dei conta de que precisava gravar esse EP. Também teve outra situação, uma vez eu fui cantar no Rio Grande. Fui fazer um show meu e defender a música de um amigo num festival lá, no fim do ano passado. Quando eu desci do palco, uma pessoa do SESC me perguntou se eu tinha algum material. Eu disse que não tinha e ela pediu que eu mandasse para ela quando tivesse, para eles poderem me chamar para cantar por lá. Sem esse material eu não consigo, sabe, e nem as pessoas escutam a minha música. Em qualquer circuito que eu vá fazer, eu preciso disso.

Nonada – Sim! E como surgiu esse EP? Com relação ao processo criativo, são canções compostas para esse fim específico ou tu escolheu entre músicas que já tinha?

Raquel – São músicas que eu já tinha. Uma mais antigas, outras mais novas, mas são canções escolhidas de todo meu repertório que dialogam de alguma maneira. Também escrevi um projeto para o Rumos do Itaú, para gravar um CD. Mas agora de momento eu preciso gravar esse EP, até para a música ganhar um corpo, ali produzida, com arranjo, até para quando chegar no CD, a gente poder ver, olha, ela tá assim, ela pode mudar? A gente faz algum arranjo diferente nela? Sabe essa coisa do gravar. Por mais que tu vá mudar, tu precisa de algo concreto, para mudar em cima do que já existe.

Nonada – Queria que tu falasse sobre o título do EP, Nega, e da importância, ressaltada por ti, de ser uma mulher, negra, compositora.

RaquelNega tem algumas coisas da minha história. Eu fui criada como uma criança branca, não como uma criança negra. Eu tenho uma família misturada assim. Mas a vida das pessoas negras no mundo, não só o Brasil, é muito difícil. Eu fui criada na religião católica, eu fui criada com muito preconceito racial. Dentro da minha família ninguém se admitia negro – nem minha mãe, nem meu pai  -, ser negro era ser tudo de pior. Eu fui criada desse jeito, ainda que em algum momento, mais velha, eu fosse tomando consciência e mesmo ficando de cara com as coisas que eu escutava, eu não tinha outra referência. Inclusive às vezes eu sinto ciúmes, eu vejo umas pessoas que tiveram uma vivência da cultura negra na família, e isso é um orgulho, tem uma religião africana, tem ancestrais que ensinaram as coisas do seu povo – eu não tive isso.

Apresentação de Raquel no Comitê Latino-americano (Foto: Erick Peres/Nonada)
Apresentação de Raquel no Comitê Latino-americano (Foto: Erick Peres/Nonada)

Nonada – Então o reconhecimento dessa identidade é algo mais recente para ti.

Raquel – Sim. Está sendo uma construção, uma descoberta.

Nonada – Que vem junto com a música?

Raquel – Que vem junto com a música. A música sempre foi isso para mim. É muito engraçado. Porque na música isso sempre esteve ali, mas eu só fui me dando conta com o tempo. Eu tenho uma música que se chama “Neguinha”, em que, a princípio, o refrão dizia “Morena”, porque eu sonhei com ela. Eu sonhei com uma amiga minha cantando ela para mim, aí ela cantava “ô, ô, ô, Morena, la rá rá, Morena”, daí quando eu acordei, gravei e deixei lá. Uma hora dessas eu pensei “ah, vou pegar aquela música de novo, vou recuperar aquele pedaço e vou terminar de compor”. Mas acontece que aqui no sul, “morena” é uma mulher branca de cabelo escuro; lá em Belém, não, é a cor da pele. Então, tá, eu precisava fazer de um jeito que as pessoas entendessem que eu estou falando de uma mulher negra. Aí eu troquei “morena” por “neguinha”. Então o “Nega” faz referência a isso, mas faz referência também a tudo que eu construo hoje dentro da minha identidade como uma mulher e como uma mulher negra, que é algo que eu não tinha antes.

Uma criança que negra que é criada como uma criança branca, ela fica num limbo, entende? Ela não é uma criança branca. Ela olha e sabe disso, mas ela também não é uma criança negra enquanto não se reconhece assim, porque dentro da casa dela ela não pode ser uma criança negra. Então, a sensação de não-pertencimento é infinita. E isso é uma coisa que eu busco até agora. Mas isso também tem outro lado. Eu não posso de uma hora para a outra virar militante negra, defender a causa negra se isso não tá dentro de mim, não basta que eu seja negra de pele, seria fake, não convence.

E isso é algo que eu tenho trabalhado, algo que eu fiquei guardando e sentindo em silêncio, porque por muito tempo eu não conseguia nem admitir que tivesse sofrido racismo. Porque por muito tempo eu nem me reconhecia. E então isso nem chegava a me indignar, entendeu? Eu não tinha esse contato emocional. Porque é óbvio que eu sofri um monte de racismo quando era criança, mas para a criança isso é muito doloroso então ela prefere fazer de conta que aquilo não existiu ou que não tinha relação com a cor da pele. E aí tu vai levando isso para tua vida adulta. Mas hoje eu tenho essa sensação, cada vez mais essa sensação de pertencimento.

Vou te dar um exemplo, uma coisa muito besta, mas que mostra isso. Semana passada eu fui no show do Liniker. Eu já conhecia o trabalho dele, fiquei encantada com a personalidade dele, com a audácia dele, saca? E lá tinha muitas pessoas de todos os jeitos, né, homens, mulheres, héteros, gays, negros, brancos, mas quando eu encontrava com uma pessoa negra era como se a gente já se conhecesse. Tanto o jeito como eles me olhavam “ba, meu parceiro” – a gente nunca se viu, mas tem  dentro da comunidade negra essa coisa da parceria. E hoje isso me faz muito bem, porque hoje eu começo a me sentir parte de um povo. Ao mesmo tempo, hoje eu fico brava com um monte de coisa, hoje várias coisas me causam muita dor, inclusive lembranças de infância, coisas que eu vivi e as coisas que eu vejo acontecendo. Talvez eu tenha passado tanto tempo sem entrar em contato com isso porque não é fácil mesmo, dói.

Nonada –  Além dessa questão do pertencimento à cultura negra, como tu sente teu pertencimento ao mundo da música em geral? Porque uma coisa que temos conversado no Nonada é o quanto o o cenário musical, especialmente o instrumental e o de composição, é ainda muito masculino.

Raquel – É o espaço para a mulher não é fácil. Há muito pouco tempo eu fui me dar conta disso: de que tem uma importância mesmo, que eu tenho uma responsabilidade enquanto artista, enquanto mulher compositora negra, de ser uma identificação para um monte de mulher negra que compõe, que canta, e que talvez não tenha tido muito espaço, ou talvez não tenha tido a oportunidade que eu tive e que está lutando por aí.

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