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Peça esteve em cartaz no 11º Palco Giratório Sesc POA (Crédito da foto: Elisa Mendes)

Texto: Mariana Pires

Em Porto Alegre, não tem mangue. Nem caranguejos. Nesta cidade, o caranguejo é considerado, por lei, um animal silvestre e não pode ser utilizado em expressões artísticas, como peças de teatro. Com esta explicação, iniciou a apresentação de Caranguejo Overdrive, no 11º Festival Palco Giratório SESC. O espetáculo, vencedor do Prêmio Cesgranrio pela direção de Marco André Nunes e dramaturgia de Pedro Kosovski e vencedor do Prêmio Shell de melhor autor, melhor diretor e melhor atriz (Carolina Virguez), fez duas apresentações na capital gaúcha e terminou sob fortes aplausos da plateia e gritos de “Fora Temer”.

Vindos do Rio de Janeiro, onde tem mangue e muito caranguejo, Aquela Cia. de Teatro teve que improvisar e utilizar pedras no lugar dos animais para apresentar seu Caranguejo Overdrive. Os caranguejos de pedra ficaram expostos em uma gaiola, ao lado esquerdo do palco, e em nenhum momento prejudicaram a compreensão do espetáculo. Pelo contrário, deu até para imaginar as semelhanças entre pedras e caranguejos, já que se falaria naquela noite sobre resistência.

O mangue ou manguezal é uma região úmida de clima tropical associado às margens das baías, onde tem encontro de rio com mar. Vive no mangue da cidade do Rio de Janeiro de 1848, Cosme (Matheus Macena), catador de caranguejos. Para narrar sua história, Aquela Cia utiliza música, corpo e texto inspirado no romance Homens e Caranguejos (1967), do geógrafo recifense Josué de Castro, e no movimento mangue beat, iconizado pelo músico pernambucano Chico Science na década de 90.

A direção musical de Felipe Storino é executada por um trio de guitarra, baixo e bateria, dando o ritmo pesado e lamacento da história de Cosme, que se confunde um pouco com a do Brasil. Da lama ao caos, Cosme é convocado para servir ao Exército Militar na Guerra do Paraguai, no ano de 1864. Com peso nas guitarras e corpos entrando em colapso, o diretor remonta um acampamento militar, onde homens brasileiros e argentinos vivem sob pressão e tortura. Uma voz feminina nos diz que a guerra é branca, a guerra é binária, a guerra higieniza; na guerra, não há espaço para dúvidas. Ou você age ou você morre.

Depois de seis anos servindo à Pátria, Cosme é devolvido ao Rio de Janeiro. Do caos à lama, ele retorna ao mangue sem casa, sem parentes, sem amigos, com sinais de loucura e com tics nervosos como medalhas do Exército. Quando aterrissa, depara-se com a construção do Canal do Mangue, obra fruto de uma concessão pública concedida ao Barão Visconde de Mauá pelo governo, que aterraria o mangue, construindo um canal até a Praça 11. Obra essa que levou anos para ser construída, servindo para encher os bolsos do Barão com dinheiro público.

Pelo Canal do Mangue, estavam outros paridos pela pátria, resistindo ao processo de remoção e higienização. A prostituta paraguaia é a primeira a contar para Cosme das obras e do que aconteceu enquanto ele esteve fora. É nesta hora que a atriz Carolina Virguez reconta em alguns minutos e em espanhol, a história do Brasil desde o movimento das “Diretas Já!” até hoje, passando pelos governos Fernando Collor de Mello, o movimento Caras Pintadas, o Impeachment, a eleição de Itamar Franco, o governo de Fernando Henrique Cardoso, o dólar a 1 real, a vitória de Luis Inácio Lula da Silva, o Fome Zero, o mensalão, a presidente Dilma Rousseff, as pedalas, novo impeachment e então a posse de Michel Temer. É o momento de humor do espetáculo, que faz a plateia se sentir patética por fazer parte de uma história de escândalos midiáticos e trapaças políticas.

A paraguaia também lembra a extinção do Ministério da Cultura pelo governo Temer, ironizando a falta de dinheiro para fazer o cenário e os figurinos da peça. O palco é composto apenas de uma instalação com uma caixa de areia – simbolizando o mangue -, alguns bancos, uma gaiola, um flipart e poucas luzes. O figurino é feito de calças a camisas pretas de malha e corpo nu. É este corpo nu que entra em cena, em meio à narrativa da paraguaia, para se cobrir de lama dentro da caixa de areia. Ao término da história revisitada do País, temos um homem cheio de lama representando um caranguejo no meio do palco.

Após se ver de volta ao mangue, mas sem poder caçar caranguejos, Cosme se torna um indigente. Ele sente fome. Os outros sentem muito. E assim, ele pede um emprego na obra do Canal do Mangue para arrumar o que comer. Já sem forças físicas e mentais, Cosme resiste, tal qual o caranguejo humano imóvel no palco. Ele resiste à institucionalização compulsória do Exército, ele resiste à violência da guerra, ele resiste à gentrificação, ele resiste a políticas de higienização, ele resiste à exploração do trabalho.

Ao citar o manifesto “Caranguejos com cérebro”, lançado em 1992 pelo movimento mangue beat de Pernambuco, o espetáculo termina com uma súbita transformação de Cosme em caranguejo. O que era antes alimento agora é presa. E até que ponto Cosme não foi sempre um alimento para a sociedade?

Caranguejo Overdrive é um espetáculo que marca os dez anos de Aquela Cia de Teatro e merece ser visto, revisto e debatido. Compõe o elenco Alex Nader, Eduardo Speroni e Fellipe Marques.

 

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