Paulo segura a Canon com determinação. A câmera fotográfica é um dos equipamentos que ele e mais cinco mbyá-guarani aprenderam a manejar. Com meses de prática, ele já tem um talento notável. Do outro lado da câmera, crianças brincam em um riacho, enquanto os pais observam. Eles vivem às margens da BR-116 em Guaíba/RS, onde não há lugar para plantar, e os carros e caminhões que passam a mais de 110 km por hora são um perigo para as crianças. Mas hoje é dia de Onhepyru. É dia de recomeço. É nesta data que, finalmente, várias famílias vão se mudar para uma área maior e propícia para uma aldeia, onde podem cultivar hortaliças e construir uma casa de reza.

Paulo Paredes (karaí Mirim) tem 20 anos, é mbyá-guarani e cinegrafista. Morador da Tekoá (aldeia) Porã, em Barra do Ribeiro, ele é um dos integrantes do Comunicação Kuery (“coletivo”, em guarani), grupo que registra a vida e o cotidiano das aldeias mbyá-guarani próximas a Porto Alegre. O trabalho dá origem a documentários como o próprio Onhepyru, disponível na página do grupo. Com a câmera na mão, os Kuery – como os participantes do coletivo gostam de se identificar – transformam “eles” em “nós”. O olhar dos Kuery, refletido nas lentes, é próximo e acolhedor. É um olhar diferente dos velhos documentários antropológicos que trazem aquele estranhamento comum ao choque cultural.

Conversei com os documentaristas em uma tarde de abril. Naquele dia, o grupo iria se encontrar para trabalhar no último documentário lançado – Jeguatá Tenonde Reko (Caminho do Fortalecimento), mas as chuvas prejudicaram o transporte. Mesmo assim, parte do grupo concordou em conversar comigo na Aldeia Mirim, que estava silenciosa, a não ser por alguns jovens ouvindo rock ou sertanejo na ilhazinha do pequeno lago da aldeia. Fui acompanhada por Eduardo Ortiz (Werá), que mora na própria aldeia, Gérson Gomes (karaí Jekupé) e Tiago Rodrigues, o único juruá – palavra guarani que se refere aos não-indígenas. O coletivo é formado ainda por Marciana Leopoldino (kerexu), Márcio Cabral (kuaray) e Ernesto de Souza (karaí Mirim). “Tenho muita vontade de mostrar o que acontece na nossa vida”, conta Eduardo, em meio às pinturas dos alunos na escola da aldeia. Eduardo é o mediador ou entrevistador do grupo. É ele quem conversa com as fontes, faz as pessoas se sentirem à vontade para dar seu depoimento.

A comunicação Kuery faz parte de um conjunto de medidas de compensação dos impactos das obras da BR-116, que está sendo duplicada. Além das novas terras, como foi retratado em Onhepyru, foram lançados oito subprogramas em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). O juruá Tiago, integrante do Coletivo Catarse, foi contratado para participar das produções e dar apoio técnico às atividades.  

Saiba mais sobre o Programa de Apoio às Comunidades Mbyá-Guarani na reportagem feita pelos Kuery

Foram as próprias lideranças das oito aldeias impactadas pelas obras que pediram a criação de um projeto que proporcionasse autonomia aos guaranis na comunicação. Para Renata Tupinambá, jornalista indígena especialista em etnomídia, “a comunicação indígena também é um direito, embora no Brasil ainda não seja algo tão discutido. Falta o reconhecimento da comunicação como um direito dos povos originários”.

Renata também é coordenadora da Rádio Yandê, webrádio produzida e protagonizada por povos indígenas. Com abragência nacional, a rádio – reconhecida como Ponto de Mídia Livre pelo Ministério da Cultura – tem correspondentes em alguns estados do país, trazendo notícias e programação cultural. “A grande mídia serve a interesses dos grupos empresariais e políticos que a mantém, o que impossibilita certas pautas importantes dentro da questão indígena. Infelizmente a falta de informação sobre os povos faz reproduzir muitos estereótipos, imagens associadas a conflitos apenas, exploração do exótico, equívocos sobre as culturas e realidade indígena contemporânea”, diz.

Gravação de documentário em aldeias guaranis de São Paulo (Foto: divulgação)
Gravação de documentário em aldeias guaranis de São Paulo (Foto: divulgação)

É a partir desta necessidade que iniciativas como a rádio Yandê e a Comunicação Kuery surgem, guiadas também pelo pioneirismo do ambientalista e escritor indígena Ailton Krenak. “Eu acho que o guarani é que tem que falar do guarani. Já li livros sobre os guarani escritos por juruás, e tinha muita coisa errada. Tem muitas visões no olhar do juruá, muita gente que fala mal, eu acho que é por isso que a gente tá aí, quer mostrar nossa realidade”, Gérson me responde quando pergunto sobre autores brancos que escrevem sobre os indígenas. Além de operar a câmera e ajudar na edição, ele é o tradutor do coletivo, responsável por produzir as legendas em português.

Todos os vídeos são filmados na língua guarani, uma consequência direta da importância do idioma para a cultura dos povos indígenas, repassada de geração para geração. Ao nosso redor, duas meninas riem e falam com os Kuery no próprio idioma durante a entrevista. “O idioma é a primeira coisa que a gente não pode perder. É por isso que a gente faz a comunicação Kuery, para que nossos filhos vejam no futuro a nossa cultura preservada”, projeta Gérson.

Ainda não há um mapeamento de pontos de comunicação indígenas no Brasil, mas já é notável o crescimento dessas iniciativas no meio online, como o site colaborativo Índios Online, que aceita textos de opinião de todos os povos indígenas do país. O Ministério da Cultura, por meio do programa Cultura Viva, registra 30 iniciativas premiadas com editais de incentivo. No ano passado, o MinC lançou um edital específico para Pontos de Cultura Indígena. O programa selecionou 70 iniciativas em 20 estados brasileiros, que deverão receber prêmios no valor de R$ 40 mil. Com a crise política e econômica, porém, não se sabe se a verba foi ou sequer será distribuída.

Kuerys trabalhando na edição (Foto: divulgação)
Kuerys trabalhando na edição (Foto: divulgação)

A maior inspiração dos Kuery vem do Vídeo nas Aldeias, projeto do indigenista Vincent Carelli criado em 1986. “O Vídeo nas Aldeias foi distribuindo equipamentos de exibição e câmeras de vídeo para estas comunidades, e foi criando uma rede de distribuição dos vídeos que iam produzindo. Foi se desenvolvendo e gerando novas experiências, como promover o encontro na vida real dos povos que tinham se conhecido através do vídeo, “ficcionar” seus mitos, etc.”, como descreve o próprio site do projeto. Os integrantes da Comunicação Kuery retratam temas próprios da cultura mbyá-guarani, como a importância da terra e a relação com a água, além de encontros e conferências. O apuro estético também é uma preocupação dos Kuery, que a cada novo vídeo demonstram ainda mais seu talento, já presente na própria forma com que eles enxergam o mundo.

É com esse olhar que os Kuery começam também a alçar novos voos, divulgando a cultura mbyá-guarani – desta vez, sem intermediários brancos. Eles já foram a Brasília, contratados para gravar a I Conferência Nacional de Política Indigenista, e também fizeram um intercâmbio com aldeias guaranis em São Paulo. A próxima etapa é difundir os documentários em festivais e mostras urbanas. Além disso, o coletivo pretende fazer da produção audiovisual uma fonte de renda. O grupo recentemente foi contratado para filmar um documentário vencedor do edital municipal de Porto Alegre Fumproarte e está aberto para novos trabalhos na cobertura de eventos, produção de reportagens e documentários. Para entrar em contato: https://comunicacaokuery.wordpress.com/diwar-benn/contato/

Entrevista: Renata Tupinambá, coordenadora da Rádio Yandê 

A jornalista renata Tupinambá é especialista em etnomídia (Foto: divulgação)
A jornalista Renata Tupinambá é especialista em etnomídia (Foto: divulgação)

Nonada – A rádio Yandê tem sede no Rio de Janeiro, mas se propõe a ser uma rádio nacional, com alcance a diferentes povos indígenas?

Renata – A Rádio Yandê foi idealizada por três comunicadores indígenas no Rio, o Denílson Baniwa, Anápuaká Muniz Tupinambá e eu, por isso acabou sendo o estado sede, mas ser online possibilita ela ser acessada ou transmitida de qualquer lugar, na aldeia ou cidade. É uma rádio móvel que funciona da onde é acessada sem fronteiras territoriais. A internet possibilita junto das tecnologias comunicacionais essa comunicação nacional. Por celular, e-mail, redes sociais, recebemos conteúdos de áudio, vídeo e textos.

A Yandê já é escutada em mais de 60 países por isso tivemos que colocar uma parte no site com conteúdos em inglês e espanhol. Alguns traduzidos por colaboradores como o Jefferson Costa. Ampliamos programação liberando programas de rádios indígenas de países como o Peru. O que era para ser nacional atingiu um público muito maior. Temos até um colaborador mexicano de origem zapoteca e jornalista. Hoje buscamos colaboradores indígenas de outros países também.

Nonada – Como funciona o trabalho de correspondência de outros estados? Há alguém do Rio Grande do Sul?

Renata – Temos contatos da etnia Kaingang e outras na região mas ainda não temos correspondentes. Os dois correspondentes oficias da Yandê são a Daiara Tukano em Brasília e Valdevino Terena em Mato Grosso do Sul. Já colaboradores temos em quase todos os estados do Brasil o que permite informação e noticias de todo território brasileiro.

Nonada – Que temas são mais falados na rádio? Que pautas a grande mídia (e também a mídia alternativa dos brancos) não aborda, mas são importantes?

Renata – Os temas mais importantes são os relacionados aos direitos indígenas, demarcação de terras, saúde e educação. A grande mídia serve a interesses dos grupos empresariais e políticos que a mantém, o que impossibilita certas pautas importantes dentro da questão indígena. Existem casos de violência contra comunidades e violação de direitos indígenas em todo o país mas não vemos nada disso. Infelizmente, a falta de informação sobre os povos faz reproduzir muitos estereótipos, imagens associadas a conflitos apenas, exploração do exótico, equívocos sobre as culturas e realidade indígena contemporânea. A Yandê é um Ponto de Mídia Livre e busca educar além de informar.

Nonada – Tenho notado que nos últimos anos os indígenas têm cada vez mais representatividade na arte e no jornalismo. O que possibilitou esse avanço?

Renata –  As organizações indígenas permitiram muitas conquistas e o apoio também do terceiro setor fomentando projetos comunicacionais nas comunidades.

Nonada – O que ainda falta para o maior reconhecimento dos povos indígenas na área do jornalismo?

Renata – A comunicação também é um dos direitos indígenas embora no Brasil ainda não seja algo tão discutido. Falta o reconhecimento da comunicação como um direito dos povos originários. Em países da América Latina, existem encontros de comunicadores e fortalecimento deste direito. O ano de 2012 foi considerado como o ano Internacional da Comunicação Indígena e, em 2010, a Declaração da Cumbre Continental de Comunicação Indígena de Abya Yala organizada pela CAOI na Colômbia, foi muito importante. Etnomídia é resultado da convergência de mídia e apropriação de diferentes grupos étnicos de tais mídias. Possibilita pensar e realizar a comunicação de diferentes formas saindo do formato jornalístico tradicional. O etnojornalismo traz para os conteúdos produzidos visões de mundo dos comunicadores, suas etnias e culturas, contribuindo para a descolonização dos meios de comunicação.

Nonada – Você conhece outros grupos de comunicação protagonizados por indígenas?

Renata –  A  Ascuri Brasil por exemplo, Rede Índios Online, Servindi, blogs individuais de indígenas, organizações e comunidades. Grupos audiovisuais vem crescendo trazendo muitos comunicadores novos e formando. No Brasil um dos principais inspiradores foi Ailton Krenak na década de 80 com o Programa de índio, que pode ser considerado o primeiro a protagonizar uma comunicação indígena brasileira. Existem coletivos e projetos de diferentes etnias em todo o mundo. Rádios comunitárias são muitas. A grande maioria de projetos brasileiros são realizados junto com não indígenas, mas cada vez mais indígenas buscam autonomia e real protagonismo em suas iniciativas.

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